A ACUSAÇÃO COMUM:

“A adoção e uso do Lecionário pela Igreja é totalmente inútil e descabida, além de ‘engessante’! Basta-lhe a leitura corrida, de improviso ou aleatória de passagens bíblicas!”

A VERDADE, CÁ:

“A liturgia da palavra é parte integrante das celebrações sacramentais. Para alimentar a fé dos fiéis, os sinais da Palavra de Deus precisam ser valorizados: o livro da palavra (lecionário ou evangeliário), sua veneração (procissão, incenso, luz), o lugar de onde é anunciado (ambão), sua leitura audível e inteligível, a homilia do ministro que prolonga sua proclamação, as respostas da assembléia (aclamações, salmos de meditação, ladainhas, profissão de fé…)” (Catecismo da Igreja Católica, §1154).

“Uma pessoa não deveria se aproximar da mesa do Pão do Senhor sem antes ter estado na mesa de Sua Palavra. A Sagrada Escritura, é portanto da maior importância na celebração da Missa. Consequentemente não pode ser ignorado o que a Igreja estabeleceu de modo a assegurar que ‘nas sagradas celebrações haja uma mais ampla, variada e adequada leitura das Sagradas Escrituras’. As normas estabelecidas no Lecionário no que diz respeito ao número de leituras e as diretivas dadas para ocasiões especiais devem ser observadas. Seria um sério abuso trocar a Palavra de Deus pela palavra do homem, não importando que autor possa ser” (Instrução “Inaestimabile Donum”, nº 1).

AS SEMENTES DA VERDADE, LÁ:

I. “Um lecionário é um livro de leituras bíblicas dos ofícios divinos da Igreja envolvendo um ciclo anual. (…) O lecionário nos conduz ao ritmo das estações e expectativas não deste mundo.
É o tempo dos céus que nos chama a atenção lembrando os santos e as estações.
As escrituras são determinadas para os domingos e dias festivos; para cada dia da quaresma e para as semanas santas elevando o povo para os vários ofícios da Igreja como para a benção dos óleos e outros sacramentos como, por exemplo, batismos e funerais. (…)
A mais primitiva prova do uso do sistema lecionário podem ser os próprios Evangelhos. M.D.Goulder sugeriu que a construção de São Mateus, apóstolo e evangelista segue o ciclo judaico das leituras do Tora. (…) Enquanto alguns debatem esta tese, poucos duvidam que os primeiros cristãos usassem um ciclo lecionário para um ou três anos, mas a necessidade de incluir as histórias do Evangelho de Jesus na vida e na consciência da comunidade judaico-cristã foi uma força determinante que pode ter culminado com a criação de uma harmonia evangélica. Conhecido no mundo ocidental como DIATESSERON [de Taciano da Síria] pode ter sido esta a tentativa de resolver a crise lecionária e enquadrou a vida de Jesus numa narrativa contínua dividida em 55 capítulos. Isto coincide com o número de semanas do ano mais algumas para o Natal e a Páscoa.
O problema desta tese é o desentendimento sobre a data do DIATESSERON. (…) As leituras do lecionário não são só para bispos, padres e diáconos, mas para todos os membros da Igreja. Cada fiel cristão deve ler as suas leituras diárias.
Que melhor preparo pode existir para a Divina Liturgia do que a prática das leituras antes de assistir qualquer ofício de adoração?” (JOHNSON,Dale A. [Sírio-Ortodoxo]. “O que é um Lecionário”. Site da Igreja Siríaca Ortodoxa Santa Maria [acessado em 09.01.2009).

“Lecionário é uma coletânea de leituras bíblicas, criteriosamente escolhidas para as diferentes ocasiões em que a comunidade cristã se coloca sob a palavra de Deus. Ao trabalharmos o tema do lecionário, integramo-nos num movimento milenar na igreja cristã.
A prática da liturgia da palavra é atestada pelos textos apostólicos (como At 2.42s.) e pós-apostólicos (como Didaqué, Apologia Primeira de Justino, Tradição Apostólica de Hipólito, entre outros). A liturgia da palavra é herança judaica; já no judaísmo antigo há textos fixos e previstos para os sábados e as suas festas.
É do tempo de Ambrósio, de Milão, o mais antigo lecionário de que se tem notícia (entre os anos 337-377), seguido do lecionário romano (366-604), armênio (417) e de Jerusalém (417-439).
O valor de um lecionário é indiscutível! Ele protege a comunidade e os pregadores da escolha de textos bíblicos por predileção; exige preparo homilético e litúrgico; possibilita que músicos, regentes, artistas plásticos e pregadores preparem, com antecedência, hinos, cânticos, estandartes, indumentárias, paramentos e sermões; propõe a leitura da Bíblia em doses viáveis e expõe a comunidade a uma considerável quantidade e variedade de textos bíblicos” (IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA DO BRASIL. “Lecionário Comum Revisado da IECLB”. São Leopoldo:Oikos, 1ª ed., 2007, p.5).

“O lecionário é comum às igrejas católicas e às igrejas do protestantismo tradicional do nosso mundo lusófono, embora se notem por vezes pequenas diferenças. Embora separados pelas suas organizações e pela sua teologia, o estudo bíblico dominical e as pregações representam um importante elo de ligação entre grande parte dos cristãos” (Site “Estudos Bíblicos Sem Fronteiras Teológicas” [Protestante/Interdenominacional], acessado em 09.01.2009).

“À falta de melhor designação, tem-se chamado ‘Igrejas históricas’ às Igrejas que têm as suas raízes na Reforma ou muito para além do século XVI: Igreja Ortodoxa, Igreja Católico-Romana, Igreja Luterana, Igreja Presbiteriana ou Reformada, Igreja Anglicana, Igreja Congregacional e, por manter muito da herança anglicana, a Igreja Metodista. Nestas Igrejas é publicada periodicamente uma lista de textos bíblicos que proporciona as leituras que são feitas em cada Domingo. A tal lista chama-se leccionário, palavra que vem do latim ‘lectio’, ‘lectionis’, e refere-se às lições para a Igreja. Diz-se ‘leccionário litúrgico’ porque as leituras indicadas são para uso no culto público cristão. O leccionário indica para cada semana uma passagem do Antigo Testamento; outra de uma Epístola, livro de Actos ou Apocalipse e uma do Evangelho. É indicado também um Salmo, ou uma porção dele. Nos primeiros séculos do Cristianismo, lia-se o Livro de Actos entre a Páscoa e o Pentecostes, usando-se os textos para pregação. A partir do século VI começaram a ser publicados os leccionários.
Por muitos séculos, o leccionário tinha textos apenas para um ano; depois alargou-se para três anos, chamados Ano A, Ano B e Ano C. Desde há alguns anos vem-se discutindo (e julgo que trabalhando) para que o leccionário abranja cinco anos. Entre outras famílias de Igrejas (baptistas, irmãos, pentecostais, etc.) só alguns pregadores farão a título pessoal uso do leccionário (…)
Alguns argumentam que não há sinais no Novo Testamento de que a Igreja Primitiva usasse algum tipo de leccionário. Não é um argumento muito forte, porque se nos limitarmos a fazer apenas o que se provar ter sido feito pelos primeiros cristãos temos de desistir de ter templos ou santuários ou casas de oração – e muitas Igrejas evangélicas vivem preocupadas com construir grandes templos. Também não podemos imaginar os primeiros cristãos a gastarem dinheiro com aparelhagem sonora, bandas de música, órgãos, pianos. E seria inconcebível que um pregador subisse ao púlpito de casaco (terno, paletó) e gravata! A Igreja cristã é uma realidade histórica e vai adquirindo, muito correctamente, mudanças ao longo dos séculos – desde que tais mudanças não se oponham à mensagem cristã. (…)
Passo a enumerar os benefícios que encontro no uso do Leccionário:
1º – As várias congregações lêem no mesmo Domingo as mesmas lições da Escritura. É um pequeno sinal da proclamação bíblica de que fomos chamados a ser um só povo, seguindo um só Senhor. O uso do Leccionário é um esforço para a unidade da Igreja.
2º – Ainda que cada pregador faça mensagens diferentes com os mesmos textos bíblicos, é impossível que no conjunto não soa um pensamento comum, denominador comum, que é um testemunho forte do discipulado cristão.
3º – O Leccionário combate o individualismo do pregador e da congregação. O pregador tem a oportunidade de evadir-se do egocentrismo que o leva a escolher um texto que julga compreender muito bem. O professor Paolo Ricca, no seu livro ‘Pregar Hoje o Evangelho’, lembrava que o uso do Leccionário ‘oferece a vantagem de eliminar o arbítrio e o subjectivismo do pregador na escolha do texto’ (p.41). Quanto à congregação, sabendo-se sob uma lição comum a outras, liberta-se da visão de ‘gheto’.
4º – Os pregadores têm a oportunidade de estudar em conjunto os textos de cada Domingo, encontrando materiais auxiliares que os ajudam a aprofundar o que estudam. Quando o hebraico e o grego do Seminário já se reduziram a vagos conhecimentos, os pregadores têm a oportunidade de ler estudos de especialistas sobre os textos marcados no Leccionário. Numa região, os pastores e outros pregadores de denominações que seguem o leccionário, podem reunir-se e fazer juntos a exegese dos textos, com proveito para todos. Obviamente, depois cada um fará o seu próprio sermão, mas com um fundamento mais sólido.
5º – As Igrejas que publicam leccionários publicam também, semanalmente, mensalmente ou em volume para o ano inteiro, estudos que auxiliam os pregadores – e essa é outra das vantagens do leccionário, proporcionar aos especialistas a reflexão continuada dos textos bíblicos. Os jornais, revistas, livros que são publicados ficam acessíveis não apenas a quem tem a missão de pregar mas também a qualquer irmão ou irmã que tenha suficiente curiosidade para estudar os textos de cada Domingo. E isso concorre para uma maior edificação do povo de Deus” (CARDOSO, Manuel Pedro. “Leccionário Litúrgico”. Site “Estudos Bíblicos Sem Fronteiras Teológicas” [Protestante/Interdenominacional], acessado em 09.01.2009).

“O lecionário consiste em um sistema organizado de leituras bíblicas para o culto, que acompanha o desdobramento do ano litúrgico. (…)
O uso do Lecionário nos Cultos Dominicais:
1) restabelece a centralidade da Palavra de Deus no culto. Um dos meios comprovados para sanar o analfabetismo bíblico de nosso tempo consiste em adotar o uso de um lecionário na igreja.
2) estimula o preparo de sermões expositivos dos textos bíblicos, nutrindo assim o povo com ‘o genuíno leite espiritual’ da Palavra de Deus, para seu crescimento em Cristo.
3) facilita o planejamento do culto com antecedência, contribuindo para sua unidade em torno do tema abordado nas leituras. Assim, os elementos do culto – sermão, hinos, canto-coral e orações – proclamam a uma só voz, a graça e a verdade de Deus.
4) serve como guia para os membros e grupos da igreja, que desejam se preparar de antemão para o culto, lendo e estudando os textos a serem usados. Algumas igrejas locais noticiam as leituras para o domingo seguinte no boletim ou num quadro de avisos, a fim de incentivar os membros a se prepararem para uma participação mais consciente no culto” (Site “Gustavo Pax” [Presbiteriano], acessado em 09.01.2009).

“O uso de um lecionário proporciona consistência nas leituras, garantindo que no decorrer do ano, o testemunho pleno da Bíblia será ouvido no culto.
O Lecionário consiste em um sistema organizado de leituras bíblicas para o culto, que acompanha o desdobramento do ano litúrgico” (Site “Culto Cristão” [Reformado], acessado em 09.01.2009).

II. Sites oferecendo acesso a Lecionários protestantes:

Lecionário Comum Revisado [Luterano] (acessado em 09.01.2009).

Lecionário Litúrgico Presbiteriano [Presbiteriano / Reformado] (acessado em 09.01.2009)

Lecionário Reformado [CMI / CONIC / Igreja Presbiteriana Unida / Igreja Episcopal Anglicana do Brasil] (acessado em 09.01.2009).

PARA SABER MAIS:

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