Adolfo Retté foi anarquista, inimigo entranhado da Igreja, entregue aos prazeres do sexo e da bebida. Certa vez, socialista que era, falou a um auditório de socialistas em Fontainebleau. O tema era o materialismo de Haeckel e Büchner; Deus será “exorcizado” pelas conquistas da ciência e banido do universo. Terminada a palestra, quatro pessoas aproximaram-se do orador e pediram-lhe explicações mais minuciosas: dissesse como foi que o mundo começou, se por ninguém o universo foi criado. A. Retté repugnava falar sobre o que ele ignorava, por conseguinte balbuciou e hesitou. Tal incidente lhe pôs em foco o problema das origens, que a ciência por si só não resolve:

“Estava profundamente perturbado; sentia-me mal; tinha necessidade de refletir a sós com a minha consciência”.

Internou-se na floresta: “Mas já não apreciava o encanto da sombra e do silêncio. O coração pesava-me no peito; tinha vontade de chorar; um remorso estranho e insólito parecia tumultuar dentro de mim” (Du Diable à Dieu, Paris 1907, p. 15).

Retté começou a duvidar do valor da vida. Caiu no desespero, que o levou a tentar o suicídio. Foi buscar uma corda:

“Então senti-me como que partido em dois: a metade do meu ser queria o suicídio imediato. A outra metade resistia e parecia estar pedindo socorro, enquanto em torno de mim eu sentia desencadear-se uma tempestade de blasfêmias e palavrões… Ouvi uma voz celeste, que me gritava: ‘Deus, Deus está aí!’. Fulminado pela graça, caí de joelhos e entre soluços murmurei: ‘Eu te dou graças, ô meu Deus, por te haveres voltado para mim!”‘.

Após três anos de ansiedade, aos quarenta e três anos de idade, Adolfo Retté fez sua Primeira Comunhão e tornou-se católico convicto, dedicado ao serviço dos pobres e ajudando muitos irmãos a se levantar.

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