Liturgia

Alguns comentários sobre a sacramentum caritatis

Gostaria de comentar rapidamente alguns trechos da recente Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, do Santo Padre Bento XVI, relacionadas à Sagrada Liturgia, e que tem gerado algumas controvérsias.

Antes de tudo, é importante observar que o documento não trás nenhuma novidade, e é basicamente repetição e atualização daquilo que é o ensinamento do Sagrado Magistério da Igreja e que está em outros documentos. Sobretudo:

– a afirmação da Presença Real de Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento;

– o caráter sacrifical da Santa Missa (renovação do Sacrifício da cruz);

– a importância da adoração eucarística dentro e fora da Santa Missa.

Falo, agora, dos pontos controversos:

1. Latim

Diz a Exortação: O que acabo de afirmar não deve, porém, ofuscar o valor destas grandes liturgias; penso neste momento, em particular, às celebrações que têm lugar durante encontros internacionais, cada vez mais frequentes hoje, e que devem justamente ser valorizadas. A fim de exprimir melhor a unidade e a universalidade da Igreja, quero recomendar o que foi sugerido pelo Sínodo dos Bispos, em sintonia com as directrizes do Concílio Vaticano II: exceptuando as leituras, a homilia e a oração dos fiéis, é bom que tais celebrações sejam em língua latina; sejam igualmente recitadas em latim as orações mais conhecidas (183) da tradição da Igreja e, eventualmente, entoadas algumas partes em canto gregoriano. A nível geral, peço que os futuros sacerdotes sejam preparados, desde o tempo do seminário, para compreender e celebrar a Santa Missa em latim, bem como para usar textos latinos e entoar o canto gregoriano; nem se transcure a possibilidade de formar os próprios fiéis para saberem, em latim, as orações mais comuns e cantarem, em gregoriano, determinadas partes da liturgia.” (n. 62)

Se disse na imprensa que o Santo Padre determinou que a Santa Missa voltará a ser celebrada exclusivamente em latim. Não é verdade!

Que o latim continue sendo língua oficial da Sagrada Liturgia e mantenha o seu valor ao dar solenidade às celebrações, isso o próprio Concílio Vaticano II afirma. Permitiu-se que se celebre em vernáculo (na língua de cada povo), embora continue sendo o latim a língua oficial, e por isso mesmo é sempre lícito celebrar em latim (como atesta a Instrução Redemptionis Sacramentum).

A verdade é que o Santo Padre deu, agora na Exortação, um passo à mais para que haja entre os fiéis um revalorização do latim, ao:

– Recomendar que se celebre em latim em encontros internacionais;

– Pedir que se estude o latim nos seminários;

– Que os sacerdotes e fiéis sejam formados para poderem participar do rito em latim.

O Cardeal Arinze, prefeito da Congregação dos Ritos e Disciplina dos Sacramentos, sugeriu no ano passado que cada grande paróquia tivesse a Santa Missa celebrada em latim uma vez por semana.


2. Inculturação

“Partindo fundamentalmente de quanto afirmou o Concílio Vaticano II, várias vezes foi sublinhada a importância da participação ativa dos fiéis no sacrifício eucarístico. Para favorecê-la, podem ter lugar algumas adaptações apropriadas aos respectivos contextos e às diversas culturas; o fato de ter havido alguns abusos não turba a clareza deste princípio, que deve ser mantido segundo as necessidades reais da Igreja, a qual vive e celebra o mesmo mistério de Cristo em situações culturais diferentes.” (n. 54)

O Santo Padre aqui incentiva o processo de inculturação na Sagrada Liturgia, embora admita que tenha havido abusos. Vamos a um exemplo concreto:

Na aplicação da Reforma Litúrgica pós-Concílio Vaticano II, em muitos lugares como aqui no Brasil, por exemplo, o latim na prática foi extinto. Isso sem sombra de dúvida foi um abuso, pois ele continua sendo a língua oficial da Sagrada Liturgia e mantêm o seu valor solene.

Porém, isso não significa que o uso do vernáculo (língua de cada povo) seja ruim em si mesmo; ele é lícito e pode ser muito bom, se utilizado por razões justas e com um discernimento adequado. O próprio Santo Padre escreveu no seu livro “O Sal da Terra” que não seria viável hoje que a Sagrada Liturgia fosse celebrada exclusivamente em latim, pois seria um elemento de muita estranheza.


3. Canto gregoriano

O texto da Exortação: “Enfim, embora tendo em conta as distintas orientações e as diferentes e amplamente louváveis tradições, desejo – como foi pedido pelos padres sinodais – que se valorize adequadamente o canto gregoriano, como canto próprio da liturgia romana.” (n. 42)

Aqui o Santo Padre exalta a supremacia do canto gregoriano sobre os demais gêneros de canto litúrgico – embora o canto popular também seja lícito. Aqui vale o mesmo princípio da inculturação: que se utilize as concessões quando houver razões justas e com discernimento.


4. Reforma Litúrgica pós-Concílio Vaticano II

Continua o documento: “De modo particular, os padres sinodais reconheceram e reafirmaram o benéfico influxo que teve, na vida da Igreja, a reforma litúrgica atuada a partir do Concílio Ecumênico Vaticano II.O Sínodo dos Bispos pôde avaliar o acolhimento que a mesma teve depois da assembléia conciliar; inúmeros foram os elogios; como lá se disse, as dificuldades e alguns abusos assinalados não podem ofuscar a excelência e a validade da referida renovação litúrgica, que contém riquezas ainda não plenamente exploradas.” (n. 3)

Aqui se evidencia a posição do Santo Padre sobre a reforma litúrgica que aconteceu depois do Concílio Vaticano II: foi positiva em seu conjunto, embora tenha havido também muitos abusos. Esta é, aliás, a mesma posição do saudoso Papa João Paulo, expressa na Encíclica Ecclesia de Eucharistia.

Alguns se surpreenderam com o Santo Padre ter colocado a reforma litúrgica como positiva em seu conjunto, por saberem da sua posição à que haja uma nova reforma litúrgica (a “reforma da reforma“, unificando os Ritos pós-concílio Vaticano II e de S. Pio V em um rito só, baseado na tradição do rito antigo com a inserção dos elementos que no rito novo “passaram bem na prova” – a terminologia é dele), posição que ele tem desde o tempo em que era Prefeito da Sagrada Congregação para Doutrina da Fé e expressa em vários de seus escritos.

Porém, creio que não há porque se surpreender: o fato do Santo Padre ser favorável à “reforma da reforma” NÃO significa que ele NÃO veja a reforma litúrgica como positiva em seu conjunto; e o fato de ele ver a reforma litúrgica como positiva em seu  conjunto NÃO significa que ele NÃO seja favorável à “reforma da reforma”, visando à correção dos abusos litúrgicos. Temos de distinguir as coisas!

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