Já se disse quem é o cidadão que pode fazer aborto, sem entrar em conflito com a razão de existência do seu ofício: o carrasco. É ele quem executa a ordem de matar, com local e horário marcados, emanada do Estado. Onde exista o dispositivo jurídico da pena de morte, tem de existir, como decorrência lógica, o ofício de carrasco, independentemente de qual seja o critério definidor de quem o será a cada execução. Quando alguém é mandado para o paredón, quem lhe dá o tiro mortal é o carrasco; quem, por “ordem judicial”, executa o aborto, é o carrasco. Ao carrasco suspende-se punição pelo homicídio que pratica, não porque o ato não seja homicida, mas em virtude da conveniência do ato ao Estado, sendo isto precisamente o que ocorre no caso do aborto quando permitido pelo Estado. O Estado, por definição dotado de meios coercitivos, autoriza a morte de quem queira, porque tem poder material – armas ou outros diversos meios de causar dano a quem se lhe opõe – para fazê-lo, e por isto tem poder – e o usa – para suspender a punição pertinente ao ato.

O imperativo “não matarás” é, por natureza, a afirmação de algo assim como uma “negatividade positiva”, já que a conduta positiva que enuncia expressa-se pela forma verbal imperativo-negativa. Ele não é enunciado moral, é expressão, no domínio da linguagem, de uma condição que, desobedecida por qualquer ser dotado de vida – a qual se manifesta sempre pela continuidade das espécies e sua subordinação a um gênero – impossibilita sua existência. É, numa palavra, manifestação da Verdade que, por definição, “está fora do tempo”, porque vale sempre e eternamente. É, portanto, Lei, no sentido ontológico do termo. Negá-la (retirar-lhe a negação, transformando-a em “matarás”, justamente o que o Estado ordena) não é questão de cometer ato imoral ou amoral, é atentar contra a possibilidade de manifestação da vida, é insurgir-se contra a natureza, é negar o Autor das Leis, ou seja, é negar Deus. Para dirimir qualquer dúvida a respeito da concretude disto, basta aplicar, imaginativamente, a forma imperativa afirmativa, “matarás!”, à comunidade das formigas, das minhocas, dos cães, gatos…aos seres vivos de qualquer espécie. O resultado seria a extinção da(s) espécie(s). Do que se percebe que nem seres “irracionais” podem desobedecer à Lei. Caso o façam, não poderão mais fazê-lo porque deixarão de existir. Só o homem, dotado de livre arbítrio, o faz – coisa esta que o abortista postula que deva ser feito.

Sofisticamente, seria possível objetar que não há espécie animal capaz de existir senão às expensas de outra (ou outras, animais ou vegetais). Mas este dado – por sinal, verdadeiro – não contradita a obediência ao mandamento “não matarás”, pois este só elimina a espécie caso a espécie mate-se a si mesma (ou seja, realize a forma imperativa afirmativa contra si mesma). O fato de o gato comer rato (quantos consiga fazê-lo) não extingue nem a espécie gato nem a espécie rato; mas se o gato comer gato e o rato comer rato, extinguem-se ambas as espécies, pois há, em cada ser vivo, dispositivos naturais que fazem com que a amplitude de suas necessidades não conflite nem supere com aquilo que o meio deve e pode fornecer. Só o homem que age contrariamente a isto, justamente por ser livre, por possuir um intelecto autônomo, o qual não funciona direito por obra e graça do puro automatismo, mas como conseqüência de renúncias e da coragem, ambas baseadas na pura e simples honestidade de consciência.

É justamente pela razão acima que a proposição de matar nunca (ou raramente) é assumida pelo agente executor como podendo dar-se contra si mesmo ou contra seu semelhante. Quando há o dispositivo legal de obrigatoriedade de suicídio (morte de si por si mesmo), não é lei que obriga a todos. Em Roma, quando um senhor de terras perdia a fortuna, era obrigado a suicidar, mas só ele era obrigado a fazê-lo, para que o exemplo de seu fracasso não se irradiasse pela comunidade; o harakiri, suicídio japonês regulamentado, só era permitido à casta dos guerreiros, os samurais, sendo tal prática vedada aos demais indivíduos. A regulamentação de quem pode matar-se ou ser morto resulta justamente da impossibilidade de alguma espécie contrariar a Lei (no sentido ontológico) e continuar existindo. Daí porque nenhum proponente da extinção da vida humana (por via do aborto ou de outro tipo qualquer de pena de morte) introduz, em sua proposição, cláusula que torne a lei, uma vez instituída, retroativa ao seu próprio caso: o que propõe aborto o faz porque, aceita a proposta, o eliminado não será ele, mas um outro; o que propõe pena de morte a propõe porque, aceita a proposição, é um outro e não ele que será morto e assim por diante. Mais ainda, aceito que deva alguém ser morto, o proponente da lei não será quem irá cumpri-la, mas um outro. O juiz que diz “pode matar!” não será quem irá matar a vítima, mas um outro. É uma maneira, humana por sinal, de livrar a própria consciência da culpa homicida.

É esta cadeia de raciocínio que dá algum fundamento à conduta de indivíduos que querem morrer mas não suicidam; antes, escorados na idéia de que “tenho meus direitos”, exige que o Estado lhes proporcione alguma morte indolor, de preferência morte noticiada em jornal, TV, executada por algum perito na ciência médica (a modo do carrasco Kherlakian). Ser suicida ou homicida é perspectiva realmente repugnante, negada in limine pela quase totalidade dos indivíduos. Caso isto não fosse verdade, quem queira morrer (ou matar) poderia simplesmente fazê-lo, anonimamente, dado que num mundo como o atual, é possível obter-se instrução a respeito de qualquer domínio do saber humano, o de como morrer o matar não sendo o mais carente de informações. Mas não, é sempre um outro que deve matar ou morrer, nunca o próprio sujeito.

E como fica tudo isso na cabeça e coração da mulher que, voluntária ou involuntariamente, consente com a morte do próprio filho (pois entre o que se diz e o que sente pode haver abismal distância)? Há quem diga que isto não é a questão mais importante porque um filho de um, dois, três, quatro, cinco meses…não existe ainda como filho propriamente dito, pois a “mãe” não o viu nem tem como vê-lo. Não exageremos. É até verdade, em caso de gravidez de horas ou dias – o ser em gestação é pequeno, é “invisível” a olho nu. Mas raciocinar assim é raciocinar como mendaz, hipócrita, falso. Porque o que mais se teme é justamente o que menos se pode ver, ou, em termos psicológicos, o que se imagina tem mais realidade do que o que se vê. Exemplo: a AIDS: por acaso alguém, portador ou não, viu ou vê o vírus? Inclusive, quem disse que ela é provocada por tal ou qual vírus? Só se vê a progressiva deterioração física do doente. Mas mesmo assim, acredita-se que é um vírus, e tal determinado vírus, que a provoca. O mesmo critério é adotado quando a questão é saber se houve ou não vida em Marte: um pequeno indício de alguma gotícula de água numa pedra marciana não tem sido o suficiente para já se dizer que a Terra não é o único lugar onde há ou houve ser vivo no nosso sitema solar e coisas do gênero? Porém, mais certo e real que todas estas coisas (nas quais se crêem sem discussão e em virtude do quê gastam-se inimagináveis fortunas), é o fato de que trata-se de um ser humano o que a mulher tem na barriga. E é somente uma – esta – “hipótese” – para terceiros, naturalmente – de ser humano que a mulher consente que se mate? Não, o que ela consente que se mate é seu filho, é o “bebê que tem na barriga”. Pois a boca da mulher pode pronunciar que palavra for – mas ela sabe o que é o que lhe está na barriga, ela sabe que escolheu voluntariamente a possibilidade de ter o que tem na barriga. O que lá está é seu filho, tão verdadeiro quanto ela mesma, e sem a hipocrisia dos que crêem em vida em Marte por indícios frágeis de água numa pedra e que, não obstante, negam a certeza de que o que vai no ventre da mulher é uma criança, é um ser humano.

Tendo consentido que um certo filho fosse morto, ela posteriormente poderá ter um batalhão de outros filhos, cada um deles afigurando-se, no seu coração (ou seja, isto sendo-lhe portanto mais real e constante do que são reais os filhos que vê com os olhos “que a terra há de comer”), que precisamente este poderia ter sido aquele que foi morto. A realidade e constância deste dado ocorre porque acordada, dormindo, viajando ou ficando, o dado está presente, na consciência, inconsciência ou subconsciência – pois o que se eliminou não foi uma “hipótese”, como o é na linguagem dúplice do abortista, mas, sim, seu filho, seu bebê. Não há correspondência disto no homem ( gênero masculino), razão pela qual acredito que a idéia de matar o próprio filho deve ter tido nascimento numa mente masculina, as mulheres adotando-a em resultado da sua maior complexidade de natureza e, em conseqüência, de sua maior capacidade de incorporar a si idéias e sentimentos que conflitam entre si. Mesmo que se considere que, para o homem, a posse e capacidade funcional de seus órgãos sexuais sejam de máxima importância, nem de longe sua extirpação (voluntária ou não) corresponderia ao aborto na mulher – pois a extirpação de qualquer parte do corpo do homem não implica nem tem o caráter de “eliminação de uma vida”, exceto em sentido figurado. Mesmo porque a extirpação da genitália masculina ou a incapacidade de usá-la como compete ao homem fazê-lo não o impede ter vida sexual (coisa esta confirmada pela opção homossexual de muitos homens, quer mantenham ou extirpem a genitália, quer sejam ou não funcionais enquanto homem, quer o façam por simples capricho). Ora, um pouquinho de vida é vida, e mesmo o homem sexualmente impotente está vivo – possibilidade esta que o aborto simplesmente elimina. A eliminação de uma vida não admite solução alternativa e o aborto só pode ser praticado na mulher, coisa esta sem similar no gênero masculino.

A eliminação, voluntária ou não, dos órgãos sexuais, no homem, é possibilidade rejeitada in limine pelos homens em sua maioria. Quanto não se ouve de travestis, ainda que mais atraentes que muitas mulheres, que de maneira alguma se emasculariam, não obstante arrolarem razões até de natureza sócio-econômica para não fazê-lo (“o cliente gosta, dependo dele no meu métier…”)?. É rejeitada inclusive porque é melhor ter e não usar do que extirpar, arrepender-se e não poder voltar atrás. Mas isto é o homem (o macho)! Para si, vale o que lhe é ontologicamente constitutivo. Uma vez que a mulher é, para si, um “outro”, não há problema que ela extinga, sem possibilidade de desfazer o que fez, o que não é parte de seu corpo, embora nele esteja – a criança. Para o homem, a esterilidade opcional (vasectomia) não é definitiva – milhões de dólares foram e são investidos para assegurar ao homem meios de permanecer estéril algum tempo e, depois, conforme se canse dessa condição, poder retomar seu “poder de fogo”, sem as inconveniências de alterações bioquímicas e conseqüentes incômodos tais como necessariamente ocorre com as mulheres que adotam algum anticoncepcional físico ou químico.

A extirpação dos órgãos sexuais masculinos ou a perda de sua funcionalidade resolve-se com terapias, uma vez que, por definição, tais problemas inserem-se no domínio da psicologia e, esta, versa sobre o que o homem imagina e não necessariamente sobre o que é constitutivo do homem considerado em sua realidade ontológica (1). Não que restitua ao homem os órgãos que perdeu, mas o recompõe enquanto ser capaz de deleitar-se pelo sexo, o qual é o deleite do tato; e esta condição basta para que ele se conforme, sem arrependimento (ou eternas lamentações) a uma outra realidade sexual, possível de ser vivida com ou sem genitália masculina, uma vez que o sexo lhe seja questão suficientemente imperativa a ponto de não querer abrir-lhe mão. Escapa, porém, ao plano da psicologia o “objeto” sobre o qual o aborto incide: a eliminação de uma vida não tem como ser compensada com a gestação de outra, com a adaptação psicológica a certos “valores” ou com o consolo de dizer que “a lei o permitiu”. É como o “batom na cueca”: ainda que tenha sido só o sujeito, casado, quem o notou e sua mulher não, ele sabe que a marca dos lábios está lá – ele e Deus o sabem. O que permite concluir que todo e qualquer elemento (interocorrência) que envolva uma vida, traumático ou não, vai tendo importância psicológica esvaziada quanto mais a vida vai assumindo expressão concreta, sob a forma de choro do recém-nascido. O que não é puro arrazoado teórico: será que todas as pessoas, vivas e sãs, equilibradas, foram intensamente desejadas? Por certo, não a maioria. Basta conversar com mães para perceber que, não obstante ame seu(s) filho(s), eles necessariamente não foram desejados nem concebidos numa atmosfera hollywoodiana. Simplesmente os tiveram, como é natural que as mulheres os tenham e, assistidas pelo marido, família ou quem mais fosse, não foram induzidas (pelas circunstâncias ou malícia de alguns) a adjetivar a criança “não esperada” com a locução “ser inconveniente”; nem foram levadas, pelo desamor dos que as cercam, a concluir que “melhor seria não tê-la”. E a mais elementar experiência demonstra (sem precisar ser psicólogo para percebê-lo) que o império momentâneo de algum forte transtorno psicológico imerge o sujeito numa irrealidade tal que a única coisa que ele deseja é sair dela o mais rápido possível e por quaisquer meios. Há, aí, um “travamento” do sentido de realidade em virtude do medo do desamor e da solidão, que se manifesta como a imagem mesma da perda da única coisa que interessa: o amor daqueles aos quais ama e de quem precisa. E só essa condição, momentânea e desesperadora, confere razão psicológica a uma mulher para concordar com a morte de seu filho – opção que não existe para o homem, pois a mesma criança não é filho(a) da mulher e do homem no mesmo sentido. Ela é filha da mulher num sentido orgânico e filha do homem num outro sentido – o pai, de fato, é ser incerto.

Quando a mulher (principalmente adolescente) descobre-se grávida e nota que os que estão à sua volta lhe dizem “aborte! senão não gostaremos mais de você”, ela entra em desespero, claro, pois ninguém é de ferro e ela muito menos. Num momento destes, é preciso ser cínico num elevado grau para considerar que o que a mulher diz nessas horas é a expressão de suas mais profundas e sinceras convicções. Considerar as coisas assim é vê-las desde a ótica masculina, que pode ser ilustrada pelo exemplo (real) do sujeito que foi acompanhar sua mulher em seu trabalho de parto. Entrou com ela na sala de parto e quanto mais via, mais aterrorizado ficava; nunca vira ninguém em tamanho grau de impotência, dependente completamente da piedade alheia. Bom homem que era (e é), decidiu nunca mais “pôr sua mulher em tal situação novamente”. Fez vasectomia e, por azar seu, algo de errado aconteceu: costuma inflamar. Sua mulher, consultada (por mim) a respeito de se queria “ficar num único filho”, disse que não, que gostaria de ter pelo menos um outro filho ou filha. Para ela, o sofrimento do parto não deixou de ser sofrimento, apenas durou o tempo que durou e, passado ele, o amor e interesse pelo filho ali vivo, com saúde, precisando dela, apagou a lembrança do sofrimento que foi tê-lo.

Não está “previsto” na natureza masculina que o homem necessariamente verá o próprio sangue, que terá sua figura brutalmente alterada, que em algum momento de sua vida adulta estará total e completamente dependente de algum outro, tal como a mulher (de nosso mundo civilizado) no momento do parto. Tudo isso pode acontecer, porém acidentalmente; no caso da mulher, não, necessariamente isto acontecerá, só acidentalmente que não. Daí ser possível concluir que a rejeição do filho a nascer, pela mulher, precisa de um “pano de fundo” específico: o sentimento de que seu filho significará o desamor dos que lhe estão à volta. O caso daquelas “mais racionais” que, em nome de uma “carreira futura” rejeitam sua criança, é simples: é como o caso do sujeito que abandona mulher, filhos, fidelidades, em favor de uma “carreira futura”, antes preferindo agradar ao chefe do que, como homem, cuidar de sua família. A tipo assim, sua mulher não o trata bem (quando também não o trai) e seus filhos, tão logo possam, saem de casa, pela porta da frente, do fundo, pela janela ou pelo esgoto (esta última alternativa vem se tornando a mais comum, para alegria dos industriais da droga).

Em vista de reflexões como as acima, perguntei-me sempre: quia bono? A quem interessa isso? A quem interessa a criação de um problema não apenas psicológico, mas de dimensão ontológica – o qual é algo semelhante, no plano do corpo, a câncer maligno, que sempre começa pequenininho mas que cresce e se espalha pelo corpo e o destrói, fazendo-o mudar de gênero, de homem a cadáver. A resposta parece ser a seguinte: tanto a estrutura quanto a figura do corpo da mulher é conveniente à conservação (naturalmente que, quanto à inteligência, homem e mulher são o mesmo, diferindo apenas, por parte da mulher, o fato de ela prestar mais atenção ao próprio corpo, o homem só o fazendo em caso de doença). O ato sexual mesmo o demonstra: o corpo da mulher é recipiente do que procede do corpo do homem (coisa esta relativamente alterada com o advento da “camisinha” (2)).

O “conservantismo” biológico próprio do organismo feminino prossegue nos planos acima, psicológicos, ontológicos. A criança depende tanto das características físicas do corpo feminino como também das resultantes psicológicas em que implicam psicologicamente. Se, em condições normais, a criança é alimentada pelo que provém do corpo da mulher, caso isto não se dê, tais condições têm de ser imitadas artificialmente. O que a Nestlé há muito descobriu, daí ter convencido gerações inteiras de que o leite materno não é tão necessário assim; que os produtos que oferece não apenas o substitui mas também o ultrapassa em qualidade nutritiva. (Felizmente interrompeu-se tal tipo de discurso). Do mesmo modo que o alimento da criança procede (em condições normais, volto a dizer) do corpo da mãe, procede também da mãe a educação da criança. É isto: a educação da criança é função da mãe em primeiro lugar, só em seguida o pai entrando na história e, a seguir, as “tias” e “tios” que nem gostam tanto assim de crianças. Ora, caso se consiga corromper o primeiro e necessário fator de humanização do ser humano, chega-se facilmente ao controle, domínio e desumanização do ser humano. Que meio mais eficaz de se chegar a este resultado que o de criar uma culpa irremissa na mulher, de quem a humanidade depende, não por convenção de qualquer espécie, mas por natureza? A dependência da humanidade da mulher é algo análogo à “cláusula pétrea” no Direito – não tem como ser modificada. Claro, alguém pode dizer que a “cláusula pétrea”, no Direito, pode ser modificada, bastando para isto alterar a Constituição. Exato. É o mesmo raciocínio: modifique-se psicologicamente a mulher, fazendo-a consentir conscientemente com o ato que, em si mesmo, é a negação da humanidade do homem, qual seja, a morte do próprio filho (cuja dor, irremissa (3), acaba tendo desenlace análogo ao da Sofia, do filme “A Escolha de Sofia”: se a Sofia acabou suicidando (ih! contei o fim do filme!), a mulher que consente com o aborto, “suicida”, faz morrer algo em si mesma, para sempre). Ora, isto que “morre para sempre” na mulher é justamente aquilo que confere à mulher “moral” para reclamar e sobrepujar o erro, mas não um errinho besta, mas o erro entendido em sua acepção forte, de falsificação (ou negação) do real – ficando impedida de dar conteúdo existencial ao ícone da mulher com o pé sobre a cobra. A mulher se torna culpada, pessoalmente, de uma culpa ontológica (se assim posso me expressar), a qual funciona, nas gerações seguintes, como a “marca do pecado original”, o pecado que só pode ser resgatado pela morte infame do “mais inocente dos inocentes”, o que acaba por lançar a imensa massa de seres humanos no mundo das superstições, levando-os a aguardar um redentor que não virá, que os livre do mal que sabem ser mal mas ao qual não conseguem contrapor-se, porque a culpa que sentem é forte mas não atinam qual seja uma de suas principais causas modernas.

Uma pessoa movida a culpa não tem como educar bem quem quer que seja. Imagine-se milhares de indivíduos, de todas classes e níveis, educadas por quem tem culpa só eliminável pelo próprio Criador… esses indivíduos, todos, terão uma deficiência cognitiva (4), que aumenta com o tempo, para o julgamento da verdade/mentira no sentido filosófico e religioso do termo. Pois não é sem razão que os fundadores de civilização (Moisés, São Paulo, Maomé), os quais desempenharam papéis de legisladores, eram pessoas com experiência direta com a morte, seja por suas próprias mãos, seja por sua ordem. Viram a morte de frente, a praticaram ou a mandaram praticar e então disseram: “Não matarás!”. Não agiram como Caim, o qual pretendeu esconder seu crime do próprio Deus, por esta e outras razões tornando-se o “pai espiritual” dos que andam nas sombras, dos que se especializam em esconder as provas dos crimes que praticam, dos que têm na opção pela violência maquinal a razão dos próprios esforços. Não se diz que de Caim descendem os forjadores de armas, aqueles cuja vida é cercada dos “clamores do sangue derramado sobre a terra”? É uma humanidade de cainitas que se vai criando, na manha, nas sombras, nos interstícios da lei. Os que o fazem, quando perguntados a respeito, respondem com a insolência de Caim: “que tenho eu com meu irmão? por acaso sou seu guarda-costas? foi opção livre da mulher, a qual é dona do seu corpo…”

É forçoso concluir que a razão (ou motivação psicológica) do surgimento e difusão da idéia de aborto é esta: a desmoralização da mulher e o conseqüente enfraquecimento da aptidão da humanidade para o conhecimento da verdade (que exige de quem a deseja disposição tão radical quanto a que existe nos extremos vida/morte, para o quê o exemplo daqueles legisladores deve bastar para esclarecer). Deste modo, a humanidade, desmoralizada, perde a força interior para ver o mal, reconhecê-lo e virar-lhe as costas e, sendo-lhe possível, combatê-lo – dando-lhe seu nome verdadeiro.

Como é possível que algo assim “dê certo”, ou seja, que chegue ao ponto de ter tamanha aceitação? Creio que porque a ênfase, quando o assunto é aborto, não é no que é o aborto, mas, sim, nas razões “humanitárias” de fazê-lo. Quando se convence alguém de que é melhor matar a criança do que deixá-la nascer “num mundo violento, sem que a mãe tenha recursos para cuidá-la”, este que convence está usurpando o papel de profeta, como na imagem do cão que se deita no trono do rei. Fala com voz de profeta, como se a natureza e os homens tivessem de obedecê-lo, como acontece com os verdadeiros profetas. Mas sua voz expressa apenas desejo, desejo de matar, e não ciência do que realmente é. E também aí se joga com um sofisma: o que não se vê, não existe, não é vivo, não é nada e não é causa de nada. Ora, um ser humano, em seus primeiros meses de vida intrauterina, é “invisível”; ainda que a mulher sinta-lhe a presença, não pode vê-lo. Ele é pequeno demais e não tem a figura do ser humano adulto; ele é apenas uma “célula” ou um “ovo”, ou tudo, menos um ser humano, menos uma pessoa (exceto para a mãe, que diz “meu bebê”). E como quem “tira o bebê” não é a própria mãe, mas um outro, este que o faz diz que não entra em considerações religiosas ou morais, pois isto não é prerrogativa do seu ofício; os letrados evitam termos como “bebê”, “indivíduo”, “ser humano” e todo e qualquer outro que retrate o de que se trata, achando que alterando o nome, altera-se o fato.

Há, no Direito, termos que qualificam o homicídio de maneira muito clara: infanticídio (criança), fratricídio (irmão), matricídio (mãe), parricídio (pai), uroxídio (esposa), homicídio (terceiro qualquer), genocídio (mesmo povo) e assim por diante. Aborto o termo qualificativo da morte do indivíduo cuja existência é intrauterina. A partir de uma simples mudança terminológica e da provocação do giro de atenção da mulher, convence-a a consentir com a morte de seu bebê, e que o está fazendo motivada por amor, pela intenção de “dar um mundo melhor” à outra criança que no futuro terá e, esta sim, poderá criar. “Tu és deusa, pois a espécie depende de ti e, então, dela sois dona e podes decidir quem vive e quem morre.” A mulher crê nisto porque seu desespero é máximo; sua impressionabilidade nestas horas é máxima; porque não julga que seja possível haver, no ser humano, tanta maldade.

Mas já foi dito que tempo haveria quando “os vivos invejariam os mortos”.


NOTAS:

  • Psicoterapia não é o mesmo que Psicologia, assim como Psicologia Clínica não é Psicologia Geral. Psicoterapia (ou “terapia”) diz-se da aplicação de princípios próprios de determinada Psicologia; a Psicologia Clínica guarda estreitas relações com a Medicina, enquanto que a Psicologia Geral com a Filosofia (ou com algum de seus instrumentos, como a dialética).
  • Um amigo, médico pediatra, disse-me o seguinte: as mulheres, de uns tempos prá cá, passaram a ter alguns problemas uterinos que resultam do fato de não terem, como outrora, “banho seminal” das paredes internas do útero, em virtude do uso da “camisinha” pelo homem. Como conseqüência, elas precisam ingerir certos medicamentos à base de hormônios que compense este fato. Com certeza, quem necessariamente “ganha” com este fato são os fabricantes de medicamentos. Quanto à “camisinha”, ela enriquece seus fabricantes.
  • É o mesmo que pôr um ovo numa colher, dá-la a alguém, obrigando-o a tudo fazer sem deixar de tê-la na mão. Não é possível distrair da colher com o ovo nem é possível fazer as demais coisas realmente direito. A atenção não consegue desviar-se do ovo e viverá para não deixá-lo cair.
  • A instrução, a educação do indivíduo, para dar certo, requer liberdade interior, honestidade de consciência; requer que sua atenção consiga envolvê-lo completamente com o objeto ao qual se dirige sua inteligência. Quando por algum motivo surge uma “ilha” na sua memória, a qual não pode ser “visitada”, ele acaba desenvolvendo (por pura questão de autodefesa orgânica) meios de “contorná-la”, impedindo-se, conseqüentemente, de completar silogismos (de chegar a juízos categóricos, de valor ou de realidade). À medida que o tempo vai passando, a idéia de verdade o irá incomodando cada vez mais, até chegar a um ponto em que ele se tornará hábil na arte de negá-la. É aí então que ele se torna presa fácil para todo tipo de embusteiro que aparecerão e lhe oferecerão (com êxito) drogas, bioquímicas, pseudo-religiosas e pseudo-filosóficas. Ele literalmente consentirá com o “estupro” de que se tornará vítima contumaz.
  • Publicado originalmente no site Agnus Dei.
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