A notícia do sepulcro vazio e a calúnia de que os discípulos tinham roubado o corpo de Jesus (Mt 28,13), circulavam por Jerusalém. Temerosos os apóstolos se ocultavam atrás de portas fechadas.

Com seu corpo já glorioso, portanto, sem precisar de abrir as portas Jesus se apresentou, de repente, no meio deles. Disse-lhes: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). A identidade do Mestre eram as chagas das mãos e do seu lado aberto pela lança. Através do gesto simbólico de soprar sobre eles, Jesus antecipou parcialmente o Pentecostes, comunicando-lhes o Espírito Santo.

Em seguida, institui o sacramento da penitência, conferindo aos apóstolos e a seus sucessores o poder de perdoar os pecados. Dava-lhes a autoridade de juizes, exercida sobre as faltas cometidas a serem absolvidas num tribunal.
Como se enganam tantos cristãos que afirmam se confessarem diretamente a Deus, numa total ignorância desta passagem bíblica (Jo 20, 23). Tomé estava ausente, mas estará presente numa outra aparição do Ressuscitado (v 24-29).

São Gregório mostra que o episódio envolvendo este apóstolo tem uma relevância especial. Com efeito, o processo da manifestação da crença deste discípulo na ressurreição de Jesus é para a fé dos pósteros muito maior fortalecimento do que para a dos dez apóstolos que já acreditavam que o Mestre estava vivo. Quem bem percorre o Evangelho logo percebe que o ato de fé feito por Tomé é o mais completo e explícito que todos os outros anteriormente registrados pelos evangelistas. O perfil caracterológico de Tomé era o de um tipo melancólico com uma forte dose de ceticismo e pessimismo. Eis por que certamente foi o mais desalentado de todos diante da paixão e morte do Redentor. Sua ausência na manhã da ressurreição é facilmente explicável, dado que o melancólico é introvertido e fica remoendo a sós seus dissabores.

Adite-se que certamente Tomé tomou uma atitude de teimosia diante das declarações de Maria Madalena sobre o sepulcro vazio e atribuía a sua imaginação febricitante o que estava a divulgar. Alegrou-se, porém, com a notícia dos companheiros: “Vimos o Senhor”, embora fosse logo exigindo provas.

Durante sete dias se obstinou nesta atitude, até que novamente Jesus apareceu aos onze. Oferece a Tomé a prova experimental que queria, mas o adverte: “Não sejas incrédulo, mas fiel”. Isto significa que Tomé não havia perdido a fé, mas estava bem perto de tal desgraça. Diante da evidência, Tomé faz um brilhante ato de fé: “Meu Senhor e meu Deus!” Mais do que a confissão da messianidade e divindade de Cristo, era uma confissão duplicada da divindade do Salvador.

Impressionaram tanto as palavras de Tomé que através dos séculos seriam continuamente proferidas espontaneamente pelos fiéis, na Missa, após a elevação da Hóstia consagrada. Jesus não deixa de chamar a atenção de Tomé: “Por que me viste, acreditaste?” Aquele que acredita, não precisa ver.
Jesus então proclama a última bem-aventurança evangélica: “Bem-aventurados os que não viram e creram!”

A fé é tanto mais excelente quanto mais é luz sobrenatural interior, prescindindo do apoio de argumentos meramente humanos. Dirá a carta aos hebreus: “A fé é uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11,1). Trata-se de uma fidelidade à pessoa de Deus e àquele que foi o Seu enviado ao mundo. A fé não pode ser uma adesão a um formulário abstrato, recitado maquinalmente. Cumpre viver intensamente todos os artigos do Credo, crendo na vida, na felicidade, na bem-aventurança eterna. A fé não é um repouso inerte, mas atitude de permanente atividade, acolhimento de tudo que Deus envia a cada instante, disponibilidade para com os outros, flexibilidade e rigor no que se pensa, se vê a cada hora. A fé se torna então uma esperança enraizada na gratidão.

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