• Autor: Anônimo
  • Fonte: A Catholic Response Inc. (http://users.binary.net/polycarp)
  • Tradução: Carlos Martins Nabeto

“Se alguém tirar as palavras do livro desta profecia, Deus tirará a parte dessa pessoa na árvore da vida e na cidade santa descritas neste livro” (Apocalipse 22,19).

* * *

Todos os cristãos – católicos, ortodoxos e protestantes – concordam que os livros da Bíblia são a Palavra inspirada e escrita de Deus, mas discordam sobre quais livros pertencem à Bíblia.

Mais especificamente, não concordam entre si quanto ao cânon do Antigo Testamento (AT): a lista de Livros inspirados por Deus no AT. O cânon católico do AT inclui Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (Sirácida), Baruc, 1 e 2Macabeus, além de algumas seções de Ester e Daniel que estão ausentes no AT protestante. Os cristãos protestantes não aceitam esses escritos como inspirados por Deus e se referem a eles como “Apócrifos”.

Às vezes esta questão é usada para difamar a Igreja Católica. Por exemplo: John Ankerberg e John Weldon, em seu livro “Os Fatos sobre o Catolicismo Romano”, escrevem:

  • “O Catolicismo ensina que as Escrituras abrangem mais do que o cânon aceito pelos judeus, por Jesus e pela Igreja dos primeiros quatro séculos, ou seja, os 39 livros do Antigo Testamento protestante” (obra citada, p.33).

Acusam assim que a Igreja Católica fez acréscimos ao AT que Jesus usou.

Pois bem: pode ser verdade que os protestantes partilham do mesmo cânon do AT que os judeus de hoje; no entanto, a situação era um pouco diferente no tempo de Jesus. Parece que os judeus, antes do século II d.C., não tinham um cânon do AT rigidamente definido. Nas palavras de James King West, um protestante estudioso da Bíblia:

  • “As Escrituras do Judaísmo não eram, portanto, um corpo de literatura precisamente definido, absolutamente separado de toda a outra literatura, mas sim um corpo central de material: a Torá (isto é: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), que desde a época de Esdras permaneceram fixos como (…) as Escrituras por excelência, cercadas por outro material interpretativo, de vários graus de importância e autoridade” (obra citada – AT, p. 432).

No tempo de Cristo, todos os judeus aceitavam os cinco livros de Moisés (a Torá) como Escritura; no entanto, livros como Ester e Eclesiastes eram debatidos. Conforme os Manuscritos do Mar Morto, os judeus de Qumran aparentemente liam e copiavam Tobias, a Carta de Jeremias (Baruc 6) e REclesiástico como Escrituras, enquanto Ester encontra-se ausente nesses manuscritos (cf. JBC, pp. 522 e 565). Infelizmente, podemos somente especular sobre o que Jesus pensava sobre esse assunto. Em nenhum lugar do Novo Testamento (NT) Jesus ou seus Apóstolos apresentam uma lista completa dos Livros do AT ou sequer discutem sobre este assunto.

Antes do século II d.C., a maioria dos judeus palestinenses preferiam um cânon vagamente próximo ao AT protestante; no entanto, os judeus de língua grega preferiam o cânon amplo encontrado na Bíblia da Septuaginta grega (uma tradução grega da Escritura Hebraica, do século II a.C.); era a “Bíblia” para os judeus de língua grega. Quando os Apóstolos começaram a evangelizar os judeus e os gentios de língua grega, eles usaram como “sua Bíblia” a Septuaginta já estabelecida. Usar as Escrituras Hebraicas teria sido tão eficaz quanto usar uma Bíblia Russa para evangelizar os norte-americanos. A Septuaginta serviu para preencher a lacuna cultural e rapidamente os conversos de língua grega superaram os cristãos hebreus. Os estudiosos também reconhecem que os escritores do NT citaram extensivamente a Septuaginta; por exemplo: Mateus 1,23. A Septuaginta tornou-se assim o AT da Igreja primitiva (cf. S&W – AT, p. 433).

Só depois da destruição do Templo e de [muitos] debates com os cristãos, os fariseus finalmente delimitaram o cânon hebraico, em Jâmnia, no século II d.C. (um século depois da ressurreição de Cristo!). Eles restringiram o cânon hebraico aos livros escritos em hebraico antes do ano 400 a.C. Eles também rejeitaram a Septuaginta, alegando que ela teria sido corrompida pelos cristãos (cf. S&W – AT, p. 433).

Em meados do século II d.C., São Justino Mártir, em seu “Diálogo com Trifão”, comentou a diferença entre o AT cristão e o cânon hebraico. Tertuliano durante esse período também comentou essa diferença (cf. JBC, p. 523). Esses comentários e preocupações seriam inapropriados se os primeiros cristãos e os judeus compartilhassem do mesmo cânon do AT.

O AT dos manuscritos cristãos da Bíblia mais antigos que nos chegaram – Codex Vaticanus (século IV), Codex Sinaiticus (século IV) e Codex Alexandrinus (século V) – são textos da Septuaginta grega. Apesar de lacunas e páginas ausentes, o Codex Vaticanus contém todos os livros do AT católico, exceto 1 e2 Macabeus. O Codex Sinaiticus não possui somente 2Macabeus, mas também inclui 4Macabeus. O Codex Alexandrinus contém todos os livros católicos do AT, além de 3 e 4Macabeus. Esses manuscritos mostram que a Septuaginta, com o seu cânon amplo e mais flexível, era a “Bíblia do AT” da Igreja primitiva.

No século IV, alguns Padres da Igreja, especialmente aqueles que debatiam com os judeus, como São Jerônimo, eram a favor do cânon hebraico, mais curto. Porém, outros Padres da Igreja como Ambrósio e Agostinho, eram a favor do cânon amplo da Septuaginta. Outros ainda, como Gregório de Nazianzo, também excluíam o livro de Ester da Bíblia (cf. JBC, p. 522). Jerônimo, embora favorecesse o cânon mais curto, várias vezes citava em seus escritos os Livros do cânon amplo como Escritura (cf. S&W – AT, p. 434). Os Concílios de Hipona e Cartago, no final do século IV, foram as primeiras tentativas reais da Igreja em acabar com a confusão sobre o cânon do AT. O cânon do AT que eles proclamaram ainda é encontrado nas Bíblias Católicas de hoje.

A controvérsia continuou, mas em 1441, o Concílio de Florença confirmou esse cânon amplo. E em resposta aos protestantes, o Concílio de Trento sustentou definitivamente o cânon amplo do AT (cf. S&W – AT, pp. 434-435; JBC, p. 517).

Pois bem: a Igreja Católica não é a única a aceitar os livros que os protestantes rotulam como “Apócrifos”. As Igrejas ortodoxas copta, grega e russa também reconhecem esses livros como inspirados por Deus. Em 1950, uma edição do AT contendo todos esses livros foi oficialmente aprovada pelo Santo Sínodo da Igreja grega. Também a Igreja ortodoxa russa, em 1956, publicou uma Bíblia russa em Moscou contendo esses livros (cf. JBC, p. 524). Mais detalhes do ponto de vista protestante acadêmico podem ser encontrados em “The New Oxford Annotated Bible” (Oxford, 1977).

Alguns cristãos tentam desacreditar esses livros, apontando para aparentes erros históricos neles contidos (cf. A&W, p. 33). É do conhecimento geral dos estudiosos que Tobias e Judite contêm imprecisões históricas óbvias; no entanto, esses livros são reconhecidos como parábolas didáticas, assim como Jonas. Também é de conhecimento comum entre os estudiosos que Daniel sofre de imprecisões históricas gritantes; por exemplo: Daniel 1,1 (cf. S&W – AT, p. 419). Alguns estudiosos sugeriram que Daniel e Judite podem ser na verdade um “relato histórico disfarçado” sobre Antíoco Epifanes (cf. S&W – AT, p. 462).

Outros cristãos podem apontar para a mentira imoral de Judite, em Judite 9,10-13, na tentativa de desacreditar este Livro (cf. A&W, p. 33). Porém – e infelizmente -, o AT contém outras práticas pouco edificantes, como por exemplo: a mentira de Jacó, em Gênesis 27; o incesto, em Gênesis 19,32; e a desumanidade, no Salmo 137,9. Também em Oseias 1,2, Deus ordena que o profeta Oseias se case com uma mulher que cometeria adultério. Esses eventos do AT simplesmente mostram a necessidade de Jesus Cristo. Por fim, não podemos usar apenas a razão humana para julgar a Palavra de Deus.

Para concluir: a Igreja Católica não contribuiu para o AT. O cânon católico do AT (como também a numeração dos Salmos) veio da antiga Bíblia grega da Septuaginta. Os protestantes, seguindo a tradição dos judeus fariseus, aceitam o cânon hebraico mais curto, embora os judeus também rejeitem os Livros do NT! O principal problema é que a Bíblia não se autodefine. Em nenhum lugar dos Escritos Sagrados os Livros divinamente inspirados são totalmente listados (e o Índice é uma contribuição [não-inspirada] do editor da publicação, assim como as notas de rodapé). A Bíblia precisa de uma autoridade externa visível e guiada pelo Espírito Santo para definir os cânons do AT e do NT. Essa autoridade é o Magistério da Igreja Católica.

Como escreve Santo Agostinho: “Eu não creria no Evangelho se não me tivesse movido a isso a autoridade da Igreja” (“Citações Familiares”, de Bartlett, 15ª ed., 129,8).

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Referências:
– [A&W] John Ankerberg e John Weldon. “The Facts on Roman Catholicism”. Eugene-OR: Harvest House Publishers, 1993.
– [JBC] Autores Vários. “Jerome Bible Commentary”. Englewood Cliffs-NJ: Prentice-Hall, Inc., 1968, vol. II, cap. 67.
– [S&W] Donald J. Selby e James King West, “Introduction to the Bible”. Nova Iorque: The Macmillan Co., 1971.

Leitura Sugerida:
– H.G. Graham, “Where We Got the Bible”. Rockford-IL: TAN, 1977.

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