– Não basta imitar o que os outros fazem. Devemos ser realistas e criativos. Onde há proselitismo: apologética; onde há diálogo: ecumenismo.

SITUAÇÕES DIFERENTES

Nem todos os que não compartilham da nossa Fé têm a mesma atitude diante de nós. Alguns estão abertos ao diálogo e à compreensão; outros não. Entre estes últimos, não faltam aqueles que possuem uma atitude abertamente agressiva e proselitista.

Pois bem: como devemos reagir diante de situações tão diferentes? Basta a receita do diálogo, da tolerância e da boa fé? Isto não seria pecar por ingenuidade, preguiça mental e falta de responsabilidade para com os “fracos na fé”, que facilmente se deixam levar por “lobos vorazes”?

ECUMENISMO

Já desde o final do século XIX, a experiência missionária na África e na Ásia colocou em relevo os efeitos negativos do “escândalo da divisão”: todos falando do mesmo Deus e usando a mesma Bíblia, mas dividos entre si, numa atitude de franca oposição: um grupo contra outro.

Por isso, muitos [nativos] ficavam céticos em relação à bondade e a eficácia da nova crença. Pensavam: “Cheguem primeiro a um acordo entre vocês mesmos e só depois venham nos ensinar o ‘seu Evangelho’, o qual, pelo visto, não representa nenhuma boa notícia para nós, já que traz consigo os gérmens da divisão entre as famílias e toda a sociedade”.

Para superar esta situção escandalosa e apresentar uma frente comum diante do mundo não-cristão, no início do século XX se começou a falar de “Ecumenismo”, até se constituir, em 1948, o Conselho Ecumênico das Igrejas. Muito bem: com o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), a Igreja Católica ingressou nessa nova ordem de ideias, tornando-se pouco a pouco porta-bandeira deste grande ideal de Cristo: “Que todos sejam um” (João 17,21).

DIÁLOGO INTERRELIGIOSO

Logo o diálogo com os “irmãos separados” ultrapassou as fronteiras do mundo cristão para alcançar os judeus, “nossos irmãos mais velhos”, e a todos os homens de boa vontade, pertencentes às mais variadas expressões religiosas: Islamismo, Budismo, Hinduísmo, Taoísmo, Confucionismo etc.

Como fundamento, a unidade do gênero humano e do plano de salvação, que abrange todos os homens (cf. 1Timóteo 2,3). Com efeito, em todos os homens e em todas as culturas já se encontra presente a ação salvífica de Deus, de modo que se deve saber descobrí-la, apreciá-la e respeitá-la.

CONTRAMISSÃO ORIENTAL E MUÇULMANA

Enquanto a Europa, exausta pelos prejuízos da 2ª Guerra Mundial, causada pelo fanatismo das ideologias, se voltava para os ideais da compreensão e unidade, o mundo oriental e o mundo muçulmano, pisando agora terras europeias por ocasião da mesma guerra, passaram a vislumbrar a possibilidade de uma “conquista” ideológico-religiosa do mundo ocidental. Surgiram assim a contramissão oriental e os diversos fundamentalismos islâmicos, orientados para a afirmação da própria identidade cultural, numa atitude de rejeição para com tudo o que seja ocidental, e de conquista em relação ao mundo cristão.

EXPLOSÃO DAS SEITAS

No âmbito do Cristianismo, já há muito existiam grupos separados, profundamente proselitistas: batistas, mórmons, testemunhas de Jeová, adventistas do 7º dia, além da linha evangélica-pentecostal, subdividida em um sem-fim de grupos.

Pois bem: após o Concílio Vaticano II e o surgimento da Teologia da Libertação, esses grupos passaram a receber um forte apoio da parte dos governos dos Estados Unidos e dos demais países da América Latina, como meio de frear a ação da Igreja comprometida com as causas populares e levar para o plano espiritual a insatisfação das massas, causada pela marginalização social, política e econômica.

Uma das causas do avanço destes grupos nos países de maioria católica foi a de querer aplicar a eles a “receita ecumênica”. Como resultado, ao invés de abrandarem ante a atitude conciliadora da Igreja, tomaram ainda mais coragem, obtendo induvidoso sucesso proselitista. O que aconteceu [na verdade] foi que se impôs a visão europeia do problema da divisão, o que impediu que as igrejas locais percebessem com clareza o real problema e buscassem os meios apropriados para enfrentá-lo.

APOLOGÉTICA E ECUMENISMO: DUAS FACES DA MESMA MOEDA

No fundo, trata-se do problema da unidade: uma unidade que deve ser preservada (apologética) e uma unidade que deve ser restabelecida (ecumenismo).

A apologética se dirige essencialmente para os que estão dentro da Igreja, para que se sintam seguros do que professam e não a abandonem. Já o ecumenismo se dirige essencialmente para os que estão fora, para que ingressem num processo de busca da unidade (cf. João 17,21). No entanto, na prática, muitos enxergaram na apologética uma “guerra santa” e, por isso, a rejeitaram; [ao mesmo tempo, enxergaram] no ecumenismo a única maneira de enfrentar o problema da divisão religiosa. E ao não conseguirem dialogar com os grupos proselitistas, ficaram de braços cruzados, deixando os “fracos na fé” sem nenhuma proteção diante da agressão das seitas, abandonando-os aos “lobos vorazes”.

O que pretendem aqueles que lutam para “reviver a sã apologética” é: sermos mais realistas: enxergar o que o nosso povo precisa; e ajudá-lo, sem prejudicar a causa do ecumenismo, que também tem a sua razão de ser.

Quem dera que todos fossem sinceros e estivessem abertos ao diálogo! Mas essa não é a relidade! O fato é que há planos concretos de “conquista” do mundo católico por parte do “Evangelismo”. E diante do avanço de um exército invasor, não é possível falar apenas de paz, deixando-o avançar à vontade. Primeiramente, deve ser freado [apologética]; só depois será possível “sentar-se à mesa de negociações” [ecumenismo].

PRIORIDADES

É fato que o mundo católico está sendo profundamente perturbado pelo fenômeno sectário. Portanto, se faz urgente uma ação voltada a fortalecer a fé dos seus membros, sublinhando a própria identidade e se fixando nos grandes valores da unidade, verdade e fidelidade – elementos estes que só uma apologética sadia pode oferecer.

Onde for predominante a presença de igrejas separadas, mas ao mesmo tempo abertas ao diálogo, ali será necessário insistir no diálogo ecumênico, como meio para favorecer a compreensão mútua e dar passos concretos no caminho para a plena unidade.

Nos lugares em que prevalece a presença das grandes religiões não-cristãs, como o Judaísmo, o Islamismo, o Budismo, o Taoísmo, o Confucionismo, o Hinduísmo etc., ali será necessário tentar o diálogo interreligioso, na busca dos valores presentes em cada cultura e expressão religiosa, capazes de fermentar a sociedade e encaminhá-la para a realização do Reino.

O que acontece atualmente é que em todas as partes se quer fazer as mesmas coisas, sem considerar que se tratam de realidades diferentes, que merecem uma atenção bastante particular, caso a caso:

  • Onde prevalecem os grupos proselitistas, evidentemente torna-se necessário implementar a apologética;
  • Onde prevalecem as igrejas históricas separadas, se deve impulsionar mais o ecumenismo; e
  • Onde há presença determinante das grandes religiões não-cristãs, se deve enfrentar, com toda seriedade, o problema do diálogo interreligioso.

Muito bem: qual contribuição específica poderia oferecer concretamente a experiência latino-americana ao mundo católico, agredido pela ação das seitas? Um bom manejo dos princípios da sã apologética, realizada sem fanatismos, com a única preocupação de fortalecer a fé dos mais fracos (cf. Ezequiel 34; João 10)!

E é isto o que na prática NÃO se está fazendo, em razão de um ecumenismo mal-compreendido e de um complexo de inferioridade em relação à problemática europeia e ao papel avassalador da Santa Sé, inclinada fundamentalmente para a linha ecumênica e o diálogo interreligioso.

SADIO EQUILÍBRIO

Ao falarmos de “prioridade”, não estamos falando de “exclusividade”. Não é que na América Latina devamos nos preocupar “somente” com a apologética. Precisamos estar preparados para tudo e, quando se oferece a oportunidade, devemos saber dialogar com aqueles que estão abertos ao diálogo.

O que queremos dizer é que em nossos ambientes, tão atacados pelo proselitismo sectário, o que é mais urgente é fundamentar a fé do católico de uma tal maneira que se torne “impermeável” diante desses ataques. É aqui que pretendemos “lançar faíscas” para depois transmitir aos outros a nossa experiência.

Pois bem: querer ficar fechado no diálogo ecumênico, sem sequer tentar buscar outro caminho para enfrentar o problema das seitas, colocando a perder muitas comunidades católicas, é sinal de preguiça mental e irresponsabilidade pastoral. Chegará o dia em que se terá que responder sobre isto diante de Deus e da História.

CONCLUSÃO

Nem sempre o remédio é agradável à vista ou saboroso ao paladar, mas de todo modo é necessário tomá-lo, se pretender ser curado. O mesmo se dá com a apologética: ainda que nem todos gostem, deve-se saber manejá-la se de fato se pretende enfrentar com seriedade o problema das seitas.

Por outro lado, não é sempre melhor estar preparado para defender a própria fé e dialogar com os demais? Ou é preferível negligenciar os católicos, sem que tenham consciência da própria identidade? É como enviar soldados sem armas para uma guerra. É melhor que estejam bem fundamentados na própria fé, para que estejam preparados para dialogar com todos e, caso necessário, estejam capacitados para “dar a razão da própria esperança” (1Pedro 3,15).

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