ARTIGO 3º – SE A DIVINA PROVIDÊNCIA SE ESTENDE AO QUE É CORRUPTÍVEL

Respondo dizendo que:

1. A Providência de Deus, pela qual as coisas são governadas, é semelhante, conforme foi dito no artigo precedente, à providência pela qual o pai de família governa a casa, e o rei a cidade ou o reino, em ambos estes governos partilhando que o bem comum seja mais eminente do que o bem singular, assim como o bem do povo é mais eminente do que o bem da cidade, ou o da família, ou o da pessoa, conforme -se escrito no princípio dos livros de Ética. De onde que qualquer provisor dá mais atenção àquilo que convém à comunidade, se governa sabiamente, do que o que convém a um apenas.

2. Alguns, porém, não percebendo isto, considerando que nas coisas corruptíveis há algumas que poderiam ser melhores se consideradas em si mesmo, e não percebendo a ordem do universo, segundo a qual cada coisa é colocada otimamente em sua ordem, disseram que o corruptível não é governado por Deus, mas somente o que é incorruptível; na pessoa dos quais está dito, no livro de Jó, que Deus “nas nuvens está escondido, e não tem cuidado das nossas coisas, e passeia pelos pólos do Céu” (Jó 22, 14).

Colocaram pois, as coisas corruptíveis existirem e agirem inteiramente sem alguém que as governe, ou serem guiadas por um princípio contrário.

3. A qual opinião o Filósofo, no XII da Metafísica reprova pela semelhança com um exército, no qual encontramos uma dupla ordem, uma pela qual as partes do exército se ordenam entre si, e outra pela qual se ordenam ao bem exterior, isto é, ao bem do comandante. E aquela ordem pela qual as partes do exército se ordenam entre si existe por causa da ordem pela qual todo o exército se ordena ao comandante, de onde que se não houvesse a ordem ao comandante, não haveria ordem das partes do exército entre si. Na medida em que, portanto, encontramos uma multidão ordenada entre si, importa que esta seja ordenada a um princípio exterior.

Ora, as partes do universo, corruptíveis e incorruptíveis, são ordenadas entre si, e não por acidente, mas per se. Vemos, de fato, que dos corpos celestes provém utilidades nos corpos corruptíveis ou sempre ou na maior parte das vezes segundo o mesmo modo, de onde que importa que todos, corruptíveis e incorruptíveis, existam em uma única ordem de providência de um princípio exterior, o qual existe de modo externo ao universo. De onde que o Filósofo conclui ser necessário colocar-se no universo um único dominado, e não diversos.

4. Deve-se saber, todavia, que de dois modos algo pode ser dito objeto de providência. De um modo, por causa de si mesmo, e de outro modo por causa de outros, assim como na casa são provistas por causa de si mesmas aquelas coisas em que essencialmente consiste o bem da casa, isto é, os filhos, as propriedades, e outras tais, todas as demais sendo provistas para a utilidade das anteriores, como os vasos, os animais, e outros tais.

De modo semelhante, no universo são provistos por causa de si mesmo aquelas coisas nas quais consiste essencialmente a perfeição do universo; e estes tem perpetuidade assim como o universo é perpétuo. As que, porém, não são perpétuas, não são provistas senão por causa de outras. E, portanto, as substâncias espirituais e os corpos celestes, que são perpétuos segundo a espécie e segundo o indivíduo, são provistos por causa de si mesmos tanto na espécie como no indivíduo. Mas o que é corruptível não pode ter perpetuidade senão na espécie, de onde que as suas próprias espécies são provistas por causa de si mesmas, mas os seus indivíduos não são provistos senão para a conservação do ser perpétuo da espécie.

E de acordo com isto pode-se salvar a opinião daqueles que dizem que a divina providência não se estende a tais corruptíveis senão na medida em que participam da natureza da espécie. De fato, isto é verdade se for entendido da providência pela qual algumas coisas são provistas por causa de si mesmo.

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