f) [cont.] E assim como a luz atravessa o vidro sem destruir-lhe ou causar-lhe dano algum; semelhantemente, eis que a “Luz do Mundo” (João 8,12) – Jesus Cristo –, não rompendo a integridade virginal de sua santa mãe, foi dado à luz por ela. Integridade que a mesma preservou por toda vida. Pois Maria acolhe o dom de ser mãe, sem rejeitar a graça de ser virgem… De modo que, tanto na maternidade que adquiriu, como na virgindade que conservou, a Santíssima Virgem, quis ser totalmente de Deus. Tornando-se exemplar modelo para todas as mulheres: para as que trilham o caminho da santificação pela maternidade, como também para as que, na consagração de uma vida celibatária, buscam “serem santas de corpo e de espírito” (1Coríntios 7,34).

Se ser mãe é ser agradável a Deus, ser virgem perpétua também o é. E a Virgem de Nazaré recebeu do Altíssimo, o dom de lhe ser duplamente aprazível: na maternidade, gerando o seu Divino Filho; e na virgindade perene, gerando (na temporalidade) somente a Ele.

g) Vencedor de Adão e Eva, eis que agora, Satanás é vencido em Jesus e Maria (inclusive, em suas corporeidades). Por isso, na ressurreição e ascensão do Virgem e Imaculado Filho do Senhor e na glorificação e assunção da Virgem e Imaculada Mãe do Senhor, desde já vislumbramos a grande vitória do Pai. “Porque ela foi a primeira e mais fervorosa discípula de Cristo” – diz Peter Schineller, no seu livro “Por Que Veneramos Maria” – foi igualmente a primeira a receber essa “abundância de vida para o corpo e para alma”[1]. Além, é claro, de ela ser também imaculada e mãe do divino Redentor.

Eis porque no Céu encontra-se tanto um corpo masculino, como um corpo feminino, vivificados e glorificados: o de Jesus e o de Maria. Até porque, não participou a mulher da condenação e aterramento da humanidade? Sendo assim, era justo, pois, que ela também participasse da elevação e salvação do gênero humano. Como disse Santo Irineu, já no segundo século:

– “Assim como foi por causa de uma virgem desobediente que o homem foi atingido e, depois da queda, ficou sujeita à morte, assim também foi por causa da Virgem que obedeceu a palavra de Deus que o homem regenerado, recebeu a vida, da vida (…) Era conveniente e justo (…) que Eva fosse recapitulada em Maria, a fim de que, tornasse a Virgem advogada de uma outra virgem, ficasse destruída e a abolida a desobediência de outra virgem”[2].

Resumindo: “O nó da desobediência de Eva foi desfeito pela obediência de Maria”[3], pois “se por meio de uma mulher (Eva) a serpente infernal conseguiu fazer penetrar seu veneno mortal na humanidade, também seria por meio de outra mulher (Maria, a nova Eva) que Deus traria o remédio da salvação”[4].

Eva, sendo a incitadora do pecado para aquele que era o cabeça da humanidade (Adão), fez com que este quedasse, e arrastasse consigo a Humanidade ao regime da desgraça – sendo ela, por conseguinte, usada, por Satanás, para ser a portadora da morte. A morte veio do diabo a Adão, por meio de Eva. Esta, portanto, foi instrumento do demônio para perdição do homem. Já Maria, contrariamente, foi instrumento de Deus para a redenção e salvação da humanidade. Maria, por certo, não é a salvação. A salvação é seu filho Jesus. Entretanto, foi por meio dela que o Pai Celestial quis operar, na força do Espírito Santo, a nossa redenção. Haja vista, por ela, o Verbo da Vida ter-se encarnado. De fato, o Todo-Poderoso quis que nossa Redenção se desse pela Encarnação; e quis que esta se consumasse senão por Maria.

É verdade: foi o Filho de Deus quem nos salvou. No entanto, vale à pena precisar essa assertiva: foi o Filho de Deus como Filho de Maria! Pois o Verbo, enquanto somente Filho do Pai, não derramou sangue algum em expiação de nossos pecados; mas o Verbo, igualmente, enquanto Filho da Virgem de Nazaré, isto é, o Logos-Divino-Encarnado, este, sim, remiu-nos. E como é mais do que sabido, o Verbo encarnado não é somente Filho do Pai, o é também Filho de Maria, sua mãe: “Sem efusão de sangue não há remissão” (Hebreus 9,22).

Insofismavelmente, a salvação (que é Jesus Cristo) é-nos chegada por intermédio da Virgem Bendita… E assim como a água chega às nossas casas por meio da tubulação; do mesmo modo, Deus quis que a Água Viva – que realiza nossa redenção – chegasse-nos por esse aqueduto de graças que é Maria Santíssima. Por conseguinte, até o Mediador se fez mediar pela Virgem de Nazaré, a quem ele agraciou com os maiores e perclaros dons.

Cientes estamos de que sem Encarnação, não há Redenção; e sem Maria, não há Encarnação. De modo que, indiscutivelmente, a salvação vem pela Encarnação e a esta por Maria!

h) Como é que aquela que foi esse preciosíssimo instrumento nas mãos de Deus, “a mãe do meu Senhor” (Lucas 1,43), poderia ficar retida nos umbrais da morte?… Ela que é a Arca do Grande Concerto! Pois assim como na Antiga Aliança havia uma arca onde foi posta a Palavra Escrita de Deus (o Decálogo ou Deca-‘Logos’), agora, porém, “na plenitude do tempo”, com uma Nova Aliança, uma outra Arca Santíssima foi eleita para ser depositária da Palavra Viva de Deus (o ‘Logos’ da Vida). Lá era uma Arca inanimada (feita de madeira e ouro); aqui, uma outra, cheia de vida e graça.

Curiosamente, no Apocalipse, o versículo anterior a aquele que descreve a Mãe do Redentor como a Rainha do Universo (adornada com as jóias da criação: sol, lua, estrelas) é justamente um que menciona que “o Templo de Deus que está no céu se abriu, e apareceu a Arca da sua Aliança” (Apocalipse 11,19)… Será que São João está falado, aqui, da Arca de madeira ou da Nova Arca de Deus, Maria Santíssima?… De qualquer modo, se for a arca inanimada, ficará, ainda assim, a nítida impressão que ele quis associar uma à outra, já que, logo a seguir, ele discorre sobre a mãe do Salvador (Apocalipse 12,1).

i) Quão terrível fúria deve causar ao demônio saber que a vontade primordial do Altíssimo – que era vislumbrar o ser humano, criado por Ele, atingir a glorificação eterna sem nunca ter tido qualquer comunhão com o pecado – cumpriu-se na pessoa de Maria (lembremos que Cristo é divino e não criatura; criatura humana que atingiu a glorificação, sem mácula alguma, somente Maria).

De modo que aquela que o Diabo primeiramente fez cair – a mulher – foi justamente aquela a quem – dentre as criaturas humanas – Deus Altíssimo fez ‘primeira’ (em graça, em santidade, em glória). Assim é que o Senhor esmaga, mais ainda, a perfídia da Serpente Maldita.

j) O primeiro Livro divino é a Criação. É preciso saber ler os mistérios nele registrados. Não à toa, meditando a respeito desse escomunal alfarrábio (produzido pela Palavra de Deus), houve quem vislumbrasse no fenômeno da aurora, que precede o nascimento do sol, a preciosa realidade de Maria e seu divino Filho. Eu também me pus a refletir, e a seguir, se me concedem o atrevimento, colocarei algumas de minhas ponderações:

Assim como a aurora precede ao nascimento do sol, semelhantemente a Virgem Maria precedeu ao nascimento do seu Divino Filho. Todavia, assim como o sol é que dá existência a aurora; similarmente, é Jesus (o “sol nascente”, cf. Isaías 60,3) o Criador de Maria. Pois, se sem o sol não há aurora, também sem Jesus não há Maria. Afinal, todo brilho e resplendor da aurora provém do sol, assim como toda graça e favor mariano vem de Deus, o seu Sol espiritual. Em outras palavras: na ordem do nascimento temporal é Maria quem precede o Filho; entretanto, na ordem do nascimento atemporal (ou seja, na ordem da existência), é o Filho quem precede a Mãe…

– “Ó Senhor, que existes antes de tua Mãe, mas que te dignastes a nascer depois dela, para nosso bem e nossa salvação: bendito sejas!”

Mas que significado a mais haverá em a aurora nascer antes do sol (isto é, Maria ter nascido à frente de Cristo)? Pois assim como há luminosidade no mundo, anterior ao nascimento do sol, por causa da manifestação da aurora, semelhantemente já havia imaculabilidade no orbe, antes mesmo de Jesus nascer, devido à presença de Maria… Ave, Aurora de um novo tempo, cujo Filho é o Sol que jamais se põe!

– “Quem é essa que desponta como a aurora, bela como a lua, fulgurante como o Sol” (Cântico 6,10)? À qual “louvam-na rainhas e concubinas” (Cântico 6,9).

Para quem ainda não sabe:

– É “a mãe do meu Senhor” (Lucas 1,43)!

l) Aquela que “as gerações todas chamarão de bem-aventurada” (Lucas 1,48), o discípulo amado descreveu-a como “uma Mulher vestida com o sol” (Apocalipse 12,1). Apontando, desse modo, para a justeza do seu ser santo e imaculado. Sobre o filho de Maria é dito, semelhantemente, que “suas vestes se tornaram alvas como a luz” (Mateus 17,2). Por conseguinte, tanto a mãe, como seu rebento, revestem-se de vestimentas fulgurantes, pois são justos diante do Pai. De fato, está escrito: “Os justos brilharão como o sol no reino do seu Pai” (Mateus 13,43).

m) Com efeito, assim como ninguém, senão sob a ação do Espírito Santo, pode declarar que Jesus é o Senhor (ou seja, Deus), igualmente, ninguém, a não ser como Isabel que “ficou repleta do Espírito Santo” (Lucas 1,41), poderá confessar que Maria é a Mãe do Senhor; isto é, Mãe de Deus… Na boca de Isabel, ‘Senhor’ quer dizer “Deus”, pois assim comprova a Escritura Sagrada:

– “Isso dignou o Senhor, quando dignou retirar de mim o opróbrio perante os homens” (Lucas 1,25);

– “Feliz aquela que creu, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido” (Lucas 1,45).

Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores! Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

PS – Repito: este texto pode parecer muito grande, todavia, comparado ao “Depósito da Fé”, a respeito do qual a Igreja é responsável, ele é pequeníssimo. Genuinamente, a Igreja é a tutora, não simplesmente de uns poucos artigos de fé, mas de um verdadeiro “armazém” ou “silo”.

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OBSERVAÇÕES:

1. Se não me engano, houve traduções funestas da Bíblia que ao inver de trazer escrito “comer do pão ou beber do cálice” (1Coríntios 11,27) trazia “comer do pão e beber do cálice”. E sabe por quê? Porque, conforme o texto original em grego, que traz o vocábulo “ou”, isto indica que quem come ou bebe o cálice é culpado tanto do corpo como do sangue do Senhor. Isto é, basta somente ele, de forma não-digna, comer do pão que é culpado por ambos (pelo corpo e pelo sangue); como também basta beber indignamente, do cálice para ser culpado pelos dois (corpo e sangue). Haja vista, conforme o perene ensino da Igreja de Deus, tanto no que é comido, como no que é bebido, está Cristo por inteiro. Se Cristo está por inteiro sob a espécie do pão; então, quem indignamente come este pão, é culpado da totalidade do corpo e do sangue do Senhor. Também é pela mesma razão que quem comunga somente o pão recebe Jesus por inteiro. É por isso, igualmente, que um católico que, por algum problema, não pode mastigar, ao receber o Senhor, sob o véu do vinho, comunga-o inteiramente… Imagine se existisse a seguinte lei: “Se alguém gritar e bater palmas depois das 22 horas, será multado e preso”: daria a entender que o culpado só receberia a dupla punição (multa e prisão) se fizesse as duas coisas. Entretanto, se fosse dito: “Se alguém bater palmas ou gritar, depois das 22 horas, será multado e preso”, nesse caso subtende-se que basta ele praticar um dos dois delitos para ser duplamente punido.

2. Nossos primordiais irmãos na fé se faziam “batizar em favor dos mortos” (1Coríntios 15,29). E se, hodiernamente, para muitos, é difícil a exata identificação de tal rito; por outro lado, é bastante conhecido – pelo Novo Testamento – que o sacrificar-se (ou sacrifício) é também uma forma de batismo. Haja vista, Jesus mesmo ter dito: “Com o batismo que Eu for batizado, sereis batizado” (Marcos 10,39), referindo-se ao sacrifício da cruz. É preciso lembrar, ainda, que como a água, o sangue sacrificial também, biblicamente, está associado à questão da purificação (e purificação é o que muito anseiam em receber as almas do Purgatório). Ademais, oferecer sacrifício pelos defuntos, esta foi a prática de sempre da Igreja do Altíssimo, como testificam antigos testemunhos. Nas epístolas de São Cipriano (que faleceu no ano 258 d.C.) comumente encontra-se expresso: “Oferecer o sacrifício por alguém ou por ocasião dos funerais de alguém”[5]

3: Eis que a santidade de Maria ultrapassava, em muito, o estado de graça (que é estar sem pecado original e sem pecado mortal), pois a dignidade de Mãe de Deus assim o exigia… Mas como nós não gestamos a Cristo Jesus, nem o amamentamos, nem o educamos etc., o Altíssimo exige de nós “apenas” estarmos em estado de graça. Entrementes, devemos ter sempre a ciência de que “Aquele que se aproxima do altar, com consciência de um pecado mortal, é pior do que um demônio” (São João Crisóstomo)”[6] . Santo Agostinho, mais contundente, diz: “Comungar em pecado é atirar a Hóstia num montouro; é entregar o Cordeiro imaculado nas mãos dos demônios, que o insultam da mais horrenda maneira; é fazer papel pior que Judas”[7]. “Por conseguinte, cada um examine a si mesmo antes de comer desse pão e beber desse cálice” (1Coríntios 11,28).

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NOTAS:

[1] SCHINELLER, Peter. “Por que veneramos Maria”. Aparecida: Santuário, 1995, pp.22-23.
[2] Cf. “Démonstration de la prédiction apostolique” 33:S.Ch. 62,83-86; in: JOÃO PAULO II, “Carta Encíclica Mater Redemptoris”, São Paulo: Paulinas.
[3] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulinas, Loyola, Ave Maria,5ª ed., 1993, p.122, §491.
[4] [AQUINO, Felipe Rinaldo Queiroz de. “A mulher do Apocalipse”. São Paulo: Loyola, 4ª ed., 1997, p.15.
[5] Cf. Revista Pergunte e Responderemos nº 264, 1982, pp.50-51; in: AQUINO, Felipe Rinaldo Queiroz de. “O que são as Indulgências”. Lorena: Cléofas, 1998, p.48.
[6] TREVISAN, Celestino André. “A Eucaristia”. Campinas: Raboni, 1995, p.45.
[7] Idem.

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