A questão aqui é a doutrina protestante. Alguns protestantes afirmam que os católicos deturpam a doutrina protestante. Minha pergunta para eles é: como vou saber o que significa cada doutrina, se diferentes protestantes me dão diferentes definições acerca delas? Qual é exatamente a doutrina protestante oficial? Quem decidiu isso? Há um catecismo protestante ao qual possamos recorrer para conhecermos a crença protestante “oficial”? Há um Concílio Protestante ao qual possamos recorrer para conhecermos a crença protestante “oficial”? Não apenas para os 5 dogmas protestantes (os 5 “solas”), mas para qualquer ensinamento protestante?

A única resposta para essas perguntas é fazendo referência ao que poderíamos chamar de pseudo-concílios protestantes. Eles apontam as Confissões (Declarações de Fé) de várias denominações protestantes: os 39 Artigos (Igreja Anglicana, 1563); Belga (Igreja Cristã Reformada, 1561), Confissão de Augsburgo (Igreja Luterana, 1530), Batista (Igreja Batista, 1689), Westminster (Igreja Metodista, 1646) etc., mas, ao fazerem isso, os protestantes simplesmente se complicam mais em tentarem dar a conhecer a doutrina protestante oficial.

Um protestante declara que podemos encontrar a “doutrina protestante histórica” ​​nessas diversas confissões de fé dessas diferentes denominações protestantes iniciais. No entanto, a “doutrina protestante histórica” ​​nessas várias confissões de fé nem sempre concorda entre si. Por exemplo, as três confissões de fé do século XVI mencionadas por um protestante concordam que o Batismo é um sacramento e que através do Batismo uma pessoa é regenerada; em outras palavras: ela nasce de novo através do Batismo. Mas nem todos os protestantes creem nisso. E por que não? Esta é a doutrina protestante histórica.

Aparentemente, os protestantes concordam apenas com certas “doutrinas protestantes históricas”, mas não com outras. Isto mostra que se os protestantes não estão de acordo com o que é ou o que não é a correta doutrina protestante, a quem poderão recorrer para tomar uma decisão autorizada sobre a questão? Aparentemente, a resposta é: todo protestante, em essência, individualmente, se autoproclama Papa do protestantismo; ele pode afirmar, com autoridade, que as igrejas luteranas, anglicanas e cristãs reformadas estavam erradas sobre a doutrina do Batismo infantil.

Aparentemente, é aceitável que um protestante creia em certas “doutrinas protestantes históricas” e rejeite outras; no entanto, Deus não quer que outros protestantes o façam: se você [for protestante e] não concordar com este protestante, [para ele] é você quem está em erro!

Ou o protestante é o Papa protestante e suas decisões sobre fé e moral vinculam a todos, ou ele é um exemplo de primeira grandeza da pizzaria protestante: ele pode escolher, com base em seus próprios caprichos, quais “doutrinas protestantes históricas” ele aceitará e quais rejeitará.

E observe-se que duas confissões de fé do século XVII (Westminster e Batista) discordam das três confissões de fé do século XVI (Augsburgo, Belga e os 39 Artigos) quando se trata do Batismo. Hmmmmm… Parece que a “doutrina protestante histórica” ​​mudou em menos de 100 anos, ou não?

Observe-se mais uma coisa: atualmente, muitos protestantes não creem no Batismo infantil. Entretanto, todas as confissões de fé protestantes, exceto a Confissão Batista de 1689, afirmam que o Batismo infantil é coisa boa. Então por que alguns protestantes não aceitam a “doutrina protestante histórica” ​​do Batismo infantil? E com que autoridade os batistas mudaram essa “doutrina protestante histórica” ​​em 1689?

O protestante tenta amenizar essas diferenças afirmando que “os protestantes não concordam em tudo… mas é gloriosamente verdade que Deus nos concedeu um acordo perfeito sobre as doutrinas primárias”. Mas espere um momento! O protestante aponta 5 confissões históricas protestantes de fé: essas confissões nos indicam as crenças básicas dessas denominações; não as partes secundárias das suas crenças, mas os conceitos básicos, os fundamentos, as coisas realmente importantes! E basicamente afirma que todo mundo estava errado em algumas áreas, mas bem sabemos que obtiveram autorização a partir do “Sola Scriptura”, porque nisso todos eles concordam. Então, com base no raciocínio dele, se eu perguntar a um grupo de alunos de 4 anos quanto resulta 5 + 5, e todos responderem 6, então eu poderia estar certo de que responderam corretamente, inclusive se discordassem de várias outras perguntas que foram feitas? Que espécie de loucura é essa?

Temos aqui um exemplo perfeito do dogma falido da “Sola Scriptura”. Cada uma dessas 5 denominações protestantes históricas, descrevendo os princípios básicos da sua fé, todos governados tão somente pelas Escrituras, propõe algo diferente entre si; cada uma vem com uma interpretação diferente das Escrituras. E vemos um exemplo perfeito de como as denominações protestantes posteriores começaram a mudar as crenças das denominações protestantes anteriores: bem, se os batistas puderam alterar a “doutrina protestante histórica” ​​no século XVII, por que ninguém mais poderia alterá-la no século XVIII? E então eles o fizeram. Mas por que alguém não poderia alterar isso depois, no século XIX? E então eles o fizeram. E por que ninguém mais poderia alterar isso no século XX? E então eles o fizeram. E é por isso que se chegou [hoje] em dezenas de milhares de denominações protestantes; e é por isso também que o protestante que apela para “doutrina protestante histórica” ​​não está dizendo nada [para nós, católicos]. O protestante aceita apenas aquelas “doutrinas protestantes históricas” que concordam com ele mesmo; mas por que ninguém mais pode rejeitar as “doutrinas protestantes históricas” que não concordam com o que ele acredita? E isso nos leva de volta à minha pergunta inicial: a quem, como católico, devo recorrer para obter uma decisão autorizada sobre a doutrina protestante, já que os protestantes discordam entre si?

Eis a resposta: não há uma fonte autorizada no protestantismo a que possamos recorrer. Cada protestante, como. indivíduo, é essencialmente seu próprio Papa, seu próprio Pastor, seu próprio Teólogo, como facilmente podemos enxergar no caso do protestante comum.

(Publicação adaptada dos textos do apologista católico John Martignoni em seu debate com Joe Mizzi)

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CREDOS E CONFISSÕES DA IGREJA PROTESTANTE

  • Símbolos da Igreja Primitiva/Credos Universais:
    – Credo Apostólico (séc. II)
    – Credo Nicenoconstantinopolitano (325/381)
    – Credo de Calcedônia (361)
    – Credo Atanasiano (séc. V)
  • Confissões da Igreja Protestante:
    – Augsburgo (1530)
    – Helvética I (1536)
    – Genebra (1536)
    – La Rochelle (1559)
    – Escocesa (1560)
    – Belga (1561)
    – Helvética II (1562)
    Os 39 Artigos (1571)
    – Westminster (1646)
  • Símbolos de Unidade dos Países Baixos:
    – Confissão Belga (1561)
    – Catecismo de Heidelberg (1562)
    – Os Cânons de Dort (1619)
  • Catecismos da Igreja Protestante:
    – Catecismo Maior de Martinho Lutero (1528)
    – Catecismo Menor de Martinho Lutero (1529)
    – Genebra (1537/1545)
    – Heidelberg (1562)
    – Maior de Westminster (1647)
    – Menor de Westminster (1647)
  • Textos Confessionais da Igreja Protestante:
    – Os Cânons de Dort (1619)
    – As Teses de Barmen (1934)
    – Concórdia de Leuenberg (1973)
    – Declaração de Chicago sobre a Inerrância da Bíblia (1978)

Fonte: Doctrina Reformada/Facebook: Felipe González, Marcela Mansilla, Juan Sanabria.

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