Doutrina Social

As posses materiais e a vida cristã

 “A Igreja,(…) ensina que apenas o respeito recíproco dos direitos e deveres, e a caridade mútua darão o segredo do justo equilíbrio, do bem estar honesto, da verdadeira paz e prosperidade dos povos.”.

S.S Leão XIII

Nos tempos modernos tem havido a difusão bastante significativa de um certo espírito radicalmente opositor  a toda e qualquer propriedade. A Igreja, através do Santo Magistério, ensina claramente que os bens por si só não são maléficos, ou sinal de perdição. O problema começa quando o homem deforma a relação que tem com suas posses materiais.

A fundamentação a respeito da condenação vexatória a riqueza se sustenta na passagem Bíblica: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que entrar um rico no reino do céu.” (Mateus 19;24), que somada a própria encarnação, um Deus que em Sua plenitude se faz homem, vive e convive com pobres e desgarrados da sociedade, criou nos tempos atuais a conclusão de que a pobreza material é o único meio de salvação, ou como diria o religioso Jon Sobrino na sua herética e condenada obra; “fora dos pobres não há salvação”, numa clara ironia e deboche ao dogma “fora da Igreja não salvação”. No trecho sobredito e nos exemplos de Nosso Senhor compreendemos com muita clareza o repúdio que Ele tinha a opulência como meio de corrpução, impossibilitando a conversão e o desprendimento tão necessários na vivência da fé. Isso é ponto pacífico entre a teologia ortodoxa e heterodoxa, a diferença é que as heresias absolutizam a pobreza espiritual dentro de um estereótipo contextual. Pe. Antonio Vieira, quando comenta a respeito da santidade presente no deserto e nos palácios, esclarece com grande louvor essa problemática: “Deus comumente desposa-se no deserto, porque não acha no deserto as condições do Paço, hoje desposa-se no Paço, porque achou no Paço as condições do deserto (…) Reis que edificam desertos! Se dissera reis que edificam palácios, bem estava; mas reis que edificam desertos! Os desertos edificam-se? Antes desfazendo edifícios é que se fazem desertos. Pois que reis são estes, que trocam os termos à arquitetura? Que reis são estes que edificam desertos? São aqueles reis (diz S. Gregório Papa) em cujos paços reais de tal maneira se contemporiza com a vaidade da Terra, que se trata principalmente da verdade do Céu: e paços onde se serve a Deus como nos ermos, não são paços, mas desertos” (Sermões Vol.VII Sermão de São João Batista).

A riqueza condenada por Cristo é a usurária, aquela que corrompe a percepção humana acerca da caridade cristã. Os homens podem perfeitamente viver a Verdade tendo posses e bens materiais, mas a distinção entre um católico e um materialista é que aquele que é fiel aos ensinamentos de Nosso Senhor e Sua Igreja não faz da perfeição profana o norte fundamental da existência, reconhece o Cristo Reinante. O usurário torna-se cego a mensagem cristã, a matéria é a régua e medida de todo o seu comportamento. O Magistério da Igreja diz que o mundo é constituído de “príncipes e vassalos, patrões e proletários, ricos e pobres, sábios e ignorantes, nobres e plebeus, os quais todos, unidos por um laço comum de amor, se ajudam mutuamente para alcançarem o seu fim último no Céu e o seu bem-estar moral e material na terra.” (Leão XIII, Quod Apostolici Muneris).

A propriedade privada não é condenada pela Igreja, ao contrário, vista como essencial e importante. Santo Tomás afirma que a “propriedade particular (…) é de direito natural para o homem: o exercício deste direito é coisa não só permitida, sobretudo a quem vive em sociedade, mas ainda absolutamente necessária (Santo Tomás, II-II, q.66, ª2). No documento Mater et Magistra ainda se fala que esse direito “vale para todos os tempos.”. A diferença em questão é entre a parcimônia na utilização desses bens e o abuso cometido por alguns homens que usam a propriedade privada como meio de opressão e discriminação aos menos favorecidos, mas Abusus non tollit usum, o abuso não tolhe o uso.

A Ordem Terceira de São Francisco é exemplo máximo da perfeita congruência entre a posse de bens e a vivência da mais pura caridade cristã. Dentro das fileiras dos Irmãos e Irmãs da Penitência se encontravam nomes como; Galileu, Galvani, Volta, São Luís IX da França, Santa Isabel da Hungria, Isabel de Castela, Santa Isabel de Portugal, São Fernando, Bela IV, rei da Hungria, Carlos IV, rei da Boêmia, Dante, Camões, Vasco da Gama, Colombo, Pedro Álvares Cabral, Lope da Veja, Calderón de La Barca e Cervantes. São Luís, rei da França, por exemplo, além de construir numerosos hospitais, ainda lavava os pés dos leprosos, rechaçado por críticas disse: “Um rei deve fazer despesas inauditas, desta ou daquela maneira. Ora, prefiro dar muito em esmolas a ser pródigo nas coisas terrenas e mundanas. Deste modo, os excessos que se cometem para o espiritual desculpam e resgatam os que muitas vezes se é obrigado para fins mundanos.” Já Santa Isabel da Hungria comentou com frei Gerardo: “Ah! Meu pai, o que eu queria era ser tratada em tudo como uma simples leprosa. Queria que se fizesse para mim p que se faz para essa pobre gente, uma pequena choça de palha e de feno, e que se colocasse à porta um pano, a servir de aviso a quem passasse, em uma escudela, para deixaram alguma esmola.”.

A Ordem Terceira estimulou na Europa a caridade em meio aos palácios. Como Pe. Antonio Vieira dissera, estes se transformaram em desertos. A ação dos Irmãos da Penitência foi tão acentuada que mudou o contexto feudal. Seus membros eram proibidos de cobrar e fazer juramentos de vassalagens, o que atingia em cheio a coluna principal do feudalismo. Com o apoio irrestrito dos Papas, os Terceiros cresceram rapidamente, chegando numa época em que metade da Itália fazia parte da Ordem.

A Igreja fornece exemplos diversos sobre homens de bens e posses que vivenciaram uma fidelidade a Cristo de extrema entrega e devoção. A questão é que não se deve analisar a propriedade pela ótica opressora, como a mão forte que diminui o necessitado. Essa concepção, além de surgir de uma filosofia e sociologia condenada pelo Magistério por estimular a luta de classes e ter como pano de fundo o ateísmo, não consegue enxergar a propriedade como totalmente natural a existência, e ainda agraciada por Deus, sendo o motivo do sétimo mandamento; Não furtar, que deságua em toda a defesa do bem material particular.

É necessário repudiar os extremismos em questão; o individualismo liberal, que preconiza uma sociedade sem fundamento moral e ético, com uma falsa liberdade alicerçada na corrupção do que seria a verdadeira necessidade humana de escolha e opção, e o coletivismo, que rejeita toda e qualquer propriedade privada, centralizando na mão do Estado toda a existência social, o que além de condenar a instituição familiar, cai no ateísmo militante e no totalitarismo genocida.


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