Sites de tradicionalistas radicais (ou “rad-trads”), grupos que se dizem católicos mas rejeitam o Concílio Vaticano II, vibraram com o anúncio de que o Papa Bento XVI publicaria o motu proprio concedendo permissão universal para o rito tridentino. Eles interpretaram a decisão como um ataque ao Vaticano II, concílio que eles consideram apenas pastoral (embora na história da Igreja tenha havido outros concílios que não definiram dogma nenhum) e falível, quando não herético. Um desses sites rad-trads, bem conhecido entre católicos brasileiros, chegou a falar em “terremoto” que abalaria o Vaticano II. Tudo isso antes da publicação do motu proprio…

… e, no dia 7 de julho, finalmente foi publicado o documento. Seu teor já era conhecido: o indulto universal para o rito tridentino, que entrará em vigor no dia 14 de setembro. Mas vamos à carta que o Papa encaminhou aos bispos, acompanhando o motu proprio:

“Em primeiro lugar, há o temor de que seja aqui afectada a autoridade do Concílio Vaticano II e que uma das suas decisões essenciais – a reforma litúrgica – seja posta em dúvida. Tal receio não tem fundamento. A este respeito, é preciso antes de mais afirmar que o Missal publicado por Paulo VI, e reeditado em duas sucessivas edições por João Paulo II, obviamente é e permanece a Forma normal – a Forma ordinária – da Liturgia Eucarística. A última versão do Missale Romanum, anterior ao Concílio, que foi publicada sob a autoridade do Papa João XXIII em 1962 e utilizada durante o Concílio, poderá, por sua vez, ser usada como Forma extraordinária da Celebração Litúrgica. Não é apropriado falar destas duas versões do Missal Romano como se fossem “dois ritos”. Trata-se, antes, de um duplo uso do único e mesmo Rito.” (grifo nosso)

Em resumo: onde está o terremoto que abalaria o Concílio Vaticano II? Não existiu, para a frustração dos rad-trads, os que se proclamam os verdadeiros “fiéis”…

E mais:

“Todos sabemos que, no movimento guiado pelo Arcebispo Lefebvre, a fidelidade ao Missal antigo apareceu como um sinal distintivo externo; mas as razões da divisão, que então nascia, encontravam-se a maior profundidade. Muitas pessoas, que aceitavam claramente o carácter vinculante do Concílio Vaticano II e que eram fiéis ao Papa e aos Bispos, desejavam contudo reaver também a forma, que lhes era cara, da sagrada Liturgia.”

(Fonte das citações: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/letters/2007/documents/hf_ben-xvi_let_20070707_lettera-vescovi_po.html)

Nesse segundo trecho, alguns aspectos importantes: o problema com os rad-trads, especialmente o grupo de Lefebvre, não é o apego à missa tridentina, e sim razões mais profundas, ligadas à recusa destes rad-trads em reconhecer o Vaticano II. E o Papa reafirma que o Vaticano II tem um “caráter vinculante” – ou seja, não pode ser descartado como “mero concílio pastoral”. Justamente o contrário do que esses grupos fazem. Sobre essa parte, os sites rad-trads silenciam, pois não lhes é conveniente mostrar que o Papa reafirmou a autoridade do Concílio Vaticano II.

Agora, vamos ao documento da Congregação para a Doutrina da Fé, sobre alguns aspectos da doutrina sobre a Igreja. Ele pode ser lido em http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20070629_responsa-quaestiones_po.html

Até agora, os sites rad-trads não deram muita repercussão ao documento, embora, no linguajar rad-trad, ele ensine a “doutrina de sempre” sobre a Igreja (os rad-trads adoram falar em “missa de sempre”, “doutrina de sempre”, porque assim dão a entender que existe uma “missa de agora” e uma “doutrina de agora” que não batem com o que a Igreja sempre ensinou e rezou). Isso poderia deixar muita gente com uma pulga atrás da orelha: por que os rad-trads não estão soltando foguetes com o documento da CDF, como fizeram com o motu proprio?

A resposta está nas notas de rodapé do texto. São todas referências a documentos do Concílio Vaticano II ou pós-Vaticano II! Ou seja, do “concílio pastoral e falível”, na visão torta dos rad-trads! Como é possível que a “doutrina de sempre” seja reafirmada usando textos do Vaticano II ou posteriores? A resposta é simples: porque o Vaticano II nunca ensinou erro nenhum sobre a Igreja. É verdade que teólogos da libertação, como Leonardo Boff, fizeram sua própria interpretação sobre expressões como o “subsistit in” da Lumen Gentium. Segundo Boff, isso significaria que a Igreja de Cristo poderia também estar em outras comunidades cristãs. Mas esse erro nunca foi endossado pela Igreja – pelo contrário, foi condenado logo na década de 80.

A conclusão é simples: o Concílio Vaticano II não ensinou nenhum erro, ao contrário do que proclamam os rad-trads. O recente documento da Congregação para a Doutrina da Fé, ao reafirmar a doutrina perene sobre a Igreja usando como referência os textos conciliares, deixa isso muito claro.

Facebook Comments

Livros recomendados

Jogando Para Ganhar – teoria e prática da guerra políticaTeoria do Protecionismo e da Permuta InternacionalReligião sob suspeita, A