Revivendo os eventos de 1988

A agitação nos corredores do Vaticano começou em julho de 1987, ao começarem a chegar notícias das palavras claras do Arcebispo Marcel Lefebvre em seu sermão na Missa de ordenação de sacerdotes celebrada em Ecône em 29 de junho de 1987. A primeira referência foi com relação ao encontro de Assis, de líderes religiosos, acontecido poucos meses antes – um evento que até os dias de hoje causa espanto aos chamados católicos tradicionais. Lefebvre declarou:

“Que eu me lembre, nunca a história viu o Papa tornar-se uma espécie de guardião do panteão de todas as religiões, fazendo-se o Pontífice do liberalismo.

Digam-me quando jamais houve tal situação na Igreja? O que devemos fazer face a tal realidade? Chorar, sem dúvida. Oh, lamentamos e nosso coração está partido e dolorido. Daríamos nossa vida, nosso sangue, para que a situação mudasse. Mas a situação é tal, o trabalho que o Bom Senhor colocou em nossas mãos é tal, que em face da escuridão de Roma, dessa insistência das autoridades romanas no erro, dessa recusa em retornar à Verdade e à Tradição, parece-me que o Bom Deus pede que a Igreja continue. É por isto que parece que devo, antes de prestar contas de minha vida ao Bom Deus, realizar consagrações episcopais.”

Seguiram-se negociações secretas. A edição de 18 de outubro de 1987 do New York Times veiculou a grande notícia advinda do Vaticano no dia anterior:

“O Vaticano anunciou hoje que planeja restaurar a condição legal ao rebelde Arcebispo francês e seus irregulares padres, em um movimento de reconciliação com um de seus mais barulhentos críticos. O Arcebispo francês Marcel Lefebvre, que rejeita as mudanças do Concílio Vaticano Segundo e que acusou o Papa João Paulo II de “blasfêmia”, passou uma hora desta manhã com o expoente primeiro da ortodoxia do Papa, Joseph Cardeal Ratzinger. Posteriormente o Vaticano lançou um comunicado dizendo que João Paulo apontaria um representante pessoal para investigar a fraternidade sacerdotal do Arcebispo, e estabelecer novas regras para ela.

Uma importante figura eclesiástica do Vaticano disse: “Não acho que alguém pedirá que o Arcebispo assine um pedaço de papel dizendo que aceita todos os documentos do Vaticano II, mas se as coisas tiverem prosseguimento, terá sido porque ele não terá saído aí fora dizendo o que vem dizendo até agora.” Antes da plena aceitação, e antes que um novo status legal possa ser dado aos padres do Arcebispo, o Vaticano deve verificar se eles compreendem integralmente e aceitam os ensinamentos como emanam de Roma, disse o oficial. Isto, por sua vez, dependerá da boa vontade do Arcebispo em ordenar aos seus comandados que obedeçam o Vaticano, uma instituição que ele descreveu como “dominada por uma máfia maçônica-liberal”.

O representante papal escolhido pelo Papa João Paulo II foi o Cardeal Edouard Gagnon. Esta Visita Apostólica às casas da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) teve início em 11 de novembro de 1987, e durou todo um mês. A FSSPX noticiou na época:

“A visita começou em 11 de novembro, em Ecône, e durou um mês inteiro. Então Mons. Perl foi para nossa escola em Eguelshardt, nosso priorado em Saarbrucken, o Carmelo em Quiévrain. No sábado, 21 de novembro, ele veio para S. Nicholas du Chardonnet de Paris, e o Cardeal chegou no dia seguinte, embora intencionalmente após a Missa; então juntos visitaram o Grupo Jovem Francês, nossa Universidade (Institute Universitaire Saint Pie X), e encontrou-se com um grande número de sacerdotes tradicionais da região de Paris. Em 24 de novembro, ele chegou em nossa escola em S. Michel de Niherne,  então Casa Mãe de nossas Irmãs em S. Michel em Brenne, e o Carmelo próximo de Ruffec, a Fraternidade da Transfiguração de Pe. Lecareux. Em Poitiers, ele tomou parte em um encontro com muitos padres tradicionais da área, incluindo Pe. Reynaud (o primeiro capelão do Grupo Jovem Francês), Pe. André (da Associação Noël Pinot), Pe. Coache, da fundação Dominicana de Avrillé, a fundação beneditina de irmãs em Lê Rafflay, as Pequenas Irmãs de São Francisco etc. Depois disso, eles visitaram nossa casa de retiros em Le Pointet, nosso priorado e escola em Unieux, o Monastério Beneditino de Lê Barroux, a escola Dominicana em S. Pré (Brignoles), e outro noviciado Dominicano e escola em Fanjeaux, nossa escola em S. Joseph dês Carmes, nossa igreja em Marseilles, nosso priorado em Lyons, e nossa principal casa de publicações na Europa (Fideliter). Antão outro encontro de sacerdotes em Dijon, a escola Dominicana em Pouilly, o seminário do Santo Cura d’Ars, e retornou a Ecône para a Festa da Imaculada Conceição.”

Na Festa da Imaculada Conceição, em 1987, chegando o final da visita, o Cardeal Gagnon pôde relatar suas impressões positivas para o então Superior-Geral, Pe. Schmidberger:

“Quero dizer que fiquei comovido em todos os lugares que passei, e adquiri uma grande admiração pela piedade das pessoas, pela relevância e importância dos trabalhos, especialmente no que concerne à catequese, à educação, e à administração dos sacramentos. Nós certamente temos em mãos tudo que é necessário para fazer uma relatório bastante positivo.

Pe. Schmidberger dirigiu-se a toda a Sociedade com uma carta repleta de esperança, assinada naquele dia:

“De acordo com suas [Cardeal Gagnon] próprias palavras, ele obteve uma excelente impressão dos seminários, escolas, priorados, e comunidades religiosas amigas, bem como dos fiéis que juntam-se a essas casas. Devemos, agora, nas próximas semanas e meses, acompanhar seus esforços com nossas fervorosas orações.”

Roma não respondeu oficialmente por meses. Em Janeiro de 1988, o Papa João Paulo II recebeu o relatório de Gagnon. Bernard Tissier de Mallerais, um dos padres que seria depois consagrado bispo em junho, relembra a rápida sucessão de eventos na sua biografia de Marcel Lefebvre:

“Por volta de 5 de janeiro, o relatório de sua Eminência estava na mesa do Papa, que o leu imediatamente. (…) [Lefebve] já tinha indicado ao Cardeal Gagnon suas três “exigências”: a fim de garantir a independência de bispos diocesanos, a Sociedade deveria ter o Superior Geral como seu Ordinário; deveria haver uma Comissão Romana chefiada por um Cardeal, mas todos os seus membros, incluindo o Arcebispo Secretário Geral, deveriam ser nomeados pelo Superior Geral; finalmente, deveriam haver três bispos, incluindo o próprio Superior Geral.” [Proposta para regularização, anexo a uma carta ao Cardeal Gagnon, datada de 21 de novembro de 1987].

Após um mês de silêncio oficial por parte de Roma, em 2 de fevereiro de 1988, o Arcebispo Marcel Lefebvre levantou novamente o assunto que levou o Vaticano a agir no ano anterior. Em uma entrevista para o jornal francês Le Figaro, (publicada em 4 de fevereiro de 1988), Lefebvre afirmou que, se as coisas continuassem como estavam, ele seria forçado a consagrar Bispos para garantir a sucessão apostólica para a Fraternidade Sacerdotal.

Na entrevista, Lefebve estabeleceu uma data (30 de junho seguinte) e o número de padres que seriam feito Bispos (três).

Pelo final de março de 1988, os rumores acerca de uma possível reconciliação do movimento liderado pelo Arcebispo Marcel Lefebvre e o Papa João Paulo II atingiram níveis altos em Roma e ao redor do mundo.

Em abril, após nove meses de conversações, o Papa encarregou publicamente o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger, para negociar os termos da reconciliação. O New York Times publicou em 9 de abril:

“O Papa João Paulo II hoje interveio pessoalmente na disputa com um de seus mais severos críticos, instando oficiais Vaticanos a curar uma ferida com o ultraconservador Arcebispo Marcel Lefebvre, da França.

Seis meses depois que o Vaticano iniciou as negociações visando a reintegração do rebelde Arcebispo, João Paulo lançou um documento público no qual expressa “meu desejo de que esses esforços continuem”. A declaração aconteceu na forma de uma carta a Joseph Cardeal Ratzinger, que está encarregado das negociações”.

A carta mostrou ao público a vontade do Papa de chegar a um acordo com o Arcebispo Lefebvre:

“A necessidade de distinguir o que autenticamente “edifica” a Igreja daquilo que a destrói torna-se, nesse período [depois do Concílio] uma necessidade particular de nosso serviço em prol da comunidade dos fiéis.

A Congregação para a Doutrina da Fé tem, no campo desse ministério, um papel chave, como o demonstram os documentos em matéria de fé e moral que vosso Dicastério publicou nos últimos anos. Entre os temas com os quais a Congregação para a Doutrina da Fé tem de lidar nos tempos recentes estão incluídos os problemas relacionados à “Fraternidade de São Pio X”, fundada e guiada pelo Arcebispo Marcel Lefebvre

Vossa Eminência está bem a par de quantos esforços a Sé Apostólica tem feito, desde o início da existência da “Fraternidade”, para garantir a união eclesial com relação a suas atividades. O último de tais esforços foi a visita canônica feita pelo Cardeal E. Gagnon. Vós, Senhor Cardeal, tende-vos ocupado com este caso de maneira particular, bem como vosso predecessor de venerável memória, Cardeal F. Seper. Tudo o que a Sé Apostólica, que está em constante contato com os Bispos e Conferências interessadas, objetiva é que também nesse caso as palavras pronunciadas pelo Senhor na oração sacerdotal, pela unidade de todos os Seus discípulos e seguidores, possam se cumprir…

Por tudo isso, quero confirmar a vós, Senhor Cardeal, meu desejo de que tais esforços prossigam: não cessamos de esperar que – sob a proteção da Mãe da Igreja – eles possam trazer frutos para a glória de Deus e para a salvação do homem.

Em fraternal caridade,

Do Vaticano, 8 de abril de 1988, décimo do Pontificado.

IOANNES PAULUS PP. II”

Uma carta do Cardeal Ratzinger ao Arcebispo Lefebvre foi também enviada em 18 de março, solicitando uma reunião de dois especialistas do Arcebispo que pudessem ter um encontro em Roma em abril.

Três dias após a carta papal ter se tornado pública, a comissão informal encontrou-se em Roma: Padres Patrice Laroche e Bernard Tissier de Mallerais, escolhidos por Lefebvre, e Padres Tarcisio Bertone, SDB, e Fernando Ocariz (Opus Dei), escolhidos pelo Cardeal, com o Padre Benoit Duroux, OP, como moderador e sob a presidência do próprio Ratzinger.

Como biógrafo de Lefebvre e membro da comissão, o futuro Bispo Tissier de Mallerais, registra:

“O encontro ocorrido em 12 e 13 de abril, próximo ao Santo Ofício, levou a uma declaração de cinco pontos. Após adicionar algumas correções em 4 de maio, o Arcebispo Lefebvre decidiu que poderia assiná-lo, desde que o permitisse falar sobre ‘certos pontos do Concílio e da reforma da liturgia e do Código Canônico que pareciam a ele difíceis de conciliar com a Tradição'”

Esse texto foi o famoso Protocolo de 5 de Maio de 1988 (texto completo), do qual dois pontos eram particularmente importantes:

Primeiro, a “Comissão Romana”:

“Uma comissão para coordenar as relações com os diferentes Dicastérios e bispos diocesanos, bem como para resolver eventuais problemas e disputas, será constituído aos cuidados da Santa Sé, e será empossado com as faculdades necessárias para lidar com as questões indicadas acima (por exemplo, a implantação de um local de culto, à pedido dos fiéis, onde não haja casa da Sociedade, ad mentem can. 683, par. 2)”

Em segundo, o assunto bastante importante da consagração de um bispo, escolhido pelo Papa dentre os membros da sociedade apresentados pelo Arcebispo Lefebvre:

“Porem, por razões práticas e psicológicas, parece oportuna a consagração de um membro da Sociedade como bispo. Isto porque, no contexto da solução doutrinal e canônica da reconciliação, sugerimos ao Santo Padre que nomeie um bispo escolhido entre os membros da Sociedade, apresentado pelo Arcebispo Lefebvre”.

A “grave questão do Arcebispo Lefebvre” parecia estar se aproximando de uma nova fase, no entardecer em Roma naquele 5 de maio de 1988.

O Arcebispo Marcel Lefebvre, fundador da FSSPX, recebeu na Casa da Fraternidade em Albano Laziale (perto de Castel Gandolfo) o texto final do Protocolo a ele enviado pelo Cardeal Ratzinger. Eram 4:30 da tarde quando o velho bispo assinou o texto. Seu maior biógrafo, Bispo Tissier de Mallerais (um dos negociadoes principais naquela tarde e que seria sagrado em 30 de junho), descreveu a cena:

“Sua face expressava perfeitamente os sentimentos confusos que o dominavam: “verdadeira satisfação”, como escreveria para Ratzinger, e a desconfiança silenciosa da qual falou às irmãs no convento do Cenacolo [do Discepole del Cenacolo, em Velletri, perto de Albano] às 3 da tarde: “Se Don Putti [Pe. Francesco-Maria Putti, um padre Romano Tradicional e filho espiritual de Padre Pio, que guiou e formou as irmãs até sua morte em 1984] estivesse aqui, o que diria? Vossa Eminência, para onde está indo? O que está fazendo?”

O Arcebispo não dormiu durante aquela que deve ter sentido como a noite mais longa de sua vida. Na manhã seguinte, depois da Missa e de Prima, ele enviou uma carta ao Cardeal com um ultimato próprio: a data limite de 30 de junho de 1988, mencionada nas caratas anteriores trocadas nas negociações ainda estava valendo. O texto da carta foi:

“Ontem, foi com real satisfação que coloquei minha assinatura no Protocolo delineado durante os dias precedentes. Entretanto, você mesmo testemunhou meu profundo desapontamento ante a leitura da carta, que me dera, trazendo a resposta do Santo Padre a respeito das consagrações episcopais.

Na prática, adiar as consagrações episcopais para uma data posterior não determinada representaria o quarto adiamento. A data de 30 de junho foi claramente indicada em minhas cartas anteriores como a última possível.

Já encaminhei a V. Em. Um arquivo com informações sobre os candidatos. Restam ainda dois meses para se realizar o mandato [papal para as consagrações episcopais].

Dadas as condições particulares dessa proposta, o Santo Padre poderá muito bem encurtar o procedimento, de modo que o mandato seja comunicado a nós por volta da metade do mês de junho.

Caso a resposta seja negativa, encontrarei-me obrigado de consciência a proceder com as consagrações, apoiando-me no acordo dado pela Santa Sé no Protocolo para a consagração de um bispo, membro da Sociedade.

A relutância na matéria da consagração episcopal de um membro da Sociedade, seja por escrito ou pela palavra, dá-me razões para temer adiamentos. Tudo está já preparado para a cerimônia de 30 de junho: reservas de hotel, transportes, aluguel de uma grande tenda para abrigar a cerimônia.

O desapontamento de nossos padres e fiéis seria extremo. Todos eles esperam que esta consagração seja realizada com a concordância da Santa Sé; porém, estando já desapontados por causa de adiamentos anteriores, não compreenderão como pude aceitar um novo adiamento. Eles estão conscientes e desejosos, acima de tudo, de ter verdadeiros bispos católicos para transmitir a eles a Fé, e comunicar-lhes de modo que sejam certas as graças da salvação a que aspiram para si e para seus filhos.

Na esperança de que este requerimento não seja obstáculo intransponível para a reconciliação em progresso, por favor, Eminência, aceite meus sentimentos respeitosos e fraternais em Cristo e Maria.”

+ Marcel Lefebvre

Ao receber essa carta, o Cardeal Ratzinger imediatamente cancelou a publicação de um comunicado que tinha preparado – o que explica a escassa cobertura da mídia secular acerca do que estava se passando. Ratzinger primeiramente escreveu uma nota a Lefebvre, solicitando que “reconsiderasse seu posicionamento”.

 “Li atentamente a carta, que acabou de me endereçar, na qual relata suas intenções acerca da consagração Episcopal de um membro da Sociedade no próximo 30 de junho.

Estando estas intenções em contradição com o que foi aceito durante nosso diálogo em 4 de maio, e que foi assinado no Protocolo ontem, gostaria de informá-lo que a publicação do comunicado de imprensa teve que ser adiado.
Desejo gravemente que reconsidere sua posição em conformidade com os resultados do diálogo, para que o comunicado seja divulgado.

Nesta esperança, por favor, Excelência,

Joseph Cardeal Ratzinger”

Na tarde de 6 de maio, ele levou a carta de Lefebvre ao Papa João Paulo II no Palácio Apostólico.

O Arcebispo retornou prontamente a Ecône e, em 10 de maio, reuniu a maioria de seus padres na Europa em Saint-Nicholas du Chardonnet (Paris), e explicou a situação a eles:

“Pe. [Emmanuel] du Chalard trouxe a carta [do Cardeal Ratzinger] para mim em Ecône na manhã de domingo. Eu disse a ele: ‘Diga ao Secretário do Cardeal que para mim a coisa toda está terminada. Não vou mudar a data de 30 de junho. É o prazo final. Sinto minhas forças diminuírem. Tenho até dificuldade de viajar de carro. Penso que colocarei em perigo a continuidade da Sociedade e dos seminários se não proceder a essas consagrações”.

Tissier de Mallerais descreve os frenéticos eventos do final de maio de 1988:

Em 17 de maio Ratzinger escreve a Lefebvre: seria bem-vinda uma carta ao Santo Padre “solicitando humildemente” a reconciliação e o perdão: a requisição de um bispo da Fraternidade poderia ser atendida “sem fixar nenhuma data”… Lefebvre não apenas ressaltou que 30 de junho era, para ele, a data limite para garantir “sua sucessão”; ele também considerava necessário ter vários bispos. Em 23 de maio ele viaja a Roma.

A 24 de maio, em Roma, o Arcebispo deu ao Cardeal sua última requisição: “Antes de 1º de junho, gostaria de saber as intenções da Santa Sé com relação à consagração de três bispos, planejada para 30 de junho. Como escrevi para o Papa, um bispo só não seria suficiente para o apostolado”. João Paulo II respondeu através do Cardeal em 30 de maio: … quanto aos bispos, “O Santo Padre está pronto a apontar um bispo da Fraternidade… de modo que a consagração possa acontecer antes de 15 de agosto”.

Contatado, o Superior Geral da Fraternidade, Pe. Franz Schmidberger, que estava nos Estados Unidos, veio a Roma. No mesmo dia, 30 de maio, no priorado da Fraternidade em Notre Dame du Pointet (em Broût-Vernet), perto de Vichy), Lefebvre reuniu representantes da Fraternidade e de todas as comunidades amigas que seriam afetadas por sua decisão, incluindo Dom Gerard Calvet de Lê Barroux e muitas irmãs. Muitos dos presentes eram favoráveis ao acordo, mas parecia haver uma maioria contra ele. Na Festa de Corpus Christi, 2 de junho, Lefebvre escreveu sua carta final ao Papa:

“2 de junho de 1988

Santo Padre,

Os diálogos e encontros com o Cardeal Ratzinger e seus colaboradores, embora realizados em uma atmosfera de cortesia e caridade, persuadiram-nos de que o momento para uma colaboração franca e eficaz entre nós não chegou ainda.

De fato, se cristãos comuns estão autorizados a pedir às autoridades competentes da Igreja que preservem para eles a Fé do seu Batismo, quanto mais isso é verdade para padres, religiosos e freiras?

É para manter a Fé de nosso Batismo intacta que tivemos de resistir ao espírito do Vaticano II e às reformas inspiradas por ele.

O falso ecumenismo, que está na origem de todas as inovações conciliares na liturgia, na nova relação entre a Igreja e o mundo, na própria concepção da Igreja, está levando a Igreja à sua ruína e os católicos à apostasia.

Sendo radicalmente contra essa destruição de nossa Fé, e determinados a permanecer dentro da doutrina e disciplina tradicional da Igreja, especialmente no que diz respeito à formação dos padres e da vida religiosa, achamo-nos em absoluta necessidade de ter autoridades eclesiais que abracem nossas preocupações e que nos protejam contra o espírito do Vaticano II e o espírito de Assis.

É por isso que solicitamos vários bispos escolhidos da Tradição Católica, e por uma maioria dos membros na projetada Comissão Romana para a Tradição, a fim de nos proteger de concessões prejudiciais.

Dada a recusa aos nossos pedidos, e estando evidente que o propósito dessa reconciliação aos olhos da Santa Sé não é o mesmo que a nossos olhos, acreditamos ser preferível esperar por tempos mais propícios para o retorno de Roma à Tradição. É por isso que devemos nos conceder os meios de continuar o trabalho que a Providência nos confiou, tendo-nos sido assegurado pela carta de sua Eminência Cardeal Ratzinger, de 30 de maio, que a consagração episcopal não é contrária à vontade da Santa Sé, já que esta foi prometida para 15 de agosto.

Devemos continuar a rezar pela Roma moderna, infestada de Modernismo, para que se torne uma vez mais a Roma Católica e para que redescubra sua tradição bi-milenar. Então o problema de nossa reconciliação não terá mais razão de existir e a Igreja experimentará uma primavera.

Dignai-Vos, Santíssimo Padre, a aceitar a expressão de meus sentimentos mais respeitosos e filialmente devotados, em Jesus e Maria.”

+ Marcel Lefebvre

Em 9 de junho, João Paulo escreveu a ele e chamou seu plano de “ato cismático”. O secretário do Cardeal encontrou-se com o Arcebispo em Ecône no dia seguinte: o longo encontro foi infrutífero. A 13 de junho, Lefebvre definiu os nomes dos quatro padres que iria consagrar em 30 de junho: Bernard Fellay (tesoureiro geral da Fraternidade); Alfonso de Galarreta (Superior do Distrito da América do Sul); Bernard Tissier de Mallerais (Secretário Geral da Fraternidade e que tinha facilitado o acordo no encontro de Notre-Dame du Pointet); e Richard Williamson (Reitor do Seminário Norte-americano).
Em 15 de junho, o Arcebispo deu uma entrevista coletiva em Ecône anunciando as consagrações de 30 de junho – e as notícias, escondidas do público desde maio, espalharam-se rápido. Todos os grandes jornais estamparam o anúncio surpreendente em 16 de junho, incluindo o Washington Post:

“Lefebvre prestes a consagrar Bispos ilegitimamente

O Arcebispo Marcel Lefebvre anunciou ontem que irá consagrar quatro de seus seguidores como bispos em 30 de junho, sem autorização papal, ameaçando o que será a primeira divisão na Igreja Católica Romana em 118 anos. O Arcebispo tradicionalista de 81 anos disse que “não pode mais confiar em Roma”.

O Bispo Henry Schwery, presidente da Conferência dos Bispos da Suíça, disse que tal violação disciplinar caracterizaria um cisma.

No dia seguinte, o Cardeal Bernard Gantin, Prefeito da Congregação para os Bispos, emitiu uma moção canônica (tradução francesa):

“Tendo declarado em 15 de junho de 1988 vossa intenção de ordenar quatro padres ao episcopado sem obter o mandato do Supremo Pontífice, como requerido pelo cânon 1013 do Código de Direito Canônico, eu mesmo torno-vos conhecido este aviso canônico, confirmando que se cumprirdes sua intenção como mencionado acima, vós e os bispos ordenados incorrerão ipso facto em excomunhão latae sententiae, reservada à Sé Apostólica, de acordo com o cânon 1382.”

Em 25 de junho Lefebvre recebeu o Bispo Emérito de Campos, Brasil, Antônio de Castro Mayer, que havia sido convidado por ele para ser co-celebrante. Na Festa dos Santos Pedro e Paulo, 29 de junho de 1988, Lefebvre celebrou as costumeiras ordenações sacerdotais; na tarde anterior, em Roma, durante o consistório secreto para criação de Cardeais, Papa João Paulo II declarou em seu discurso:

“Estamos extremamente aflitos pela notícia, já bem conhecida de todos vós, que um de nossos irmãos no episcopado, depois de vários anos em que negou obediência à Santa Sé e estando afetado pela pena de suspensão, parecia estar próximo a um acordo, irá logo proceder à ordenação de Bispos sem o devido Mandato Apostólico, e portanto constituirá uma quebra na unidade da Igreja, levando não poucos de seus seguidores a uma perigosa situação de cisma. Parecendo-nos que nem a vontade nem os objetivos de nossos irmão podem ser mais modificados, nada mais nos resta a não ser invocar a bondade de nosso Salvador, para que possa iluminar aqueles que, enquanto afirmam ter que defender a doutrina da fé contra suas deformações,  abandonam a comunhão com o sucessor de Pedro e estão prestes a separar-se da unidade do rebanho de Cristo, confiada ao Apóstolo Pedro. Pedimos-lhe e exortamos-lhe com todo nosso coração a que permaneça na casa do Pai, e que compreenda que toda verdade de fé e todo reto modo de viver encontra seu lugar na Igreja, e que nela não permanece nada que seja contrário à fé.

Enquanto isso, em Ecône, tudo já estava preparado para o evento que teve lugar na quinta-feira, 30 de junho de 1988.

(Traduzido do blog Rorate Caeli, a partir da parte 1, parte 2 e parte 3 de artigos especiais sobre os acontecimentos de 1988)

NOTA: O relato feito pelo blog Rorate Caeli cessa aqui, deixando de incluir os fatos posteriores a 30 de junho de 1988. Porém temos mais algumas considerações, que ora apresentamos, de maneira simplificada:

D. Marcel Lefebvre efetivamente realiza as sagrações episcopais prometidas, no dia 30 de junho. Dois dias depois, a 2 de julho de 1988, o Papa João Paulo II lança o Motu Proprio Ecclesia Dei, no qual confirma a excomunhão de Lefebvre e dos bispos por ele sagrados:

“Em si mesmo, tal ato foi uma desobediência ao Romano Pontífice em matéria gravíssima e de importância capital para a unidade da Igreja, como é a ordenação dos bispos, mediante a qual é mantida sacramentalmente a sucessão apostólica. Por isso, tal desobediência – que traz consigo uma rejeição prática do Primado romano – constitui um ato cismático . Ao realizar tal ato, não obstante a advertência formal que Ihes foi enviada pelo Prefeito da Congregação para os Bispos no passado dia 17 de Junho, Mons. Lefebvre e os sacerdotes Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta, incorreram na grave pena da excomunhão prevista pela disciplina eclesiástica.

Ao mesmo tempo, reconhece que:

“As circunstâncias particulares, tanto objetivas quanto subjetivas, nas quais o ato do Arcebispo Lefebvre, foi realizado, oferecem a todos a ocasião para uma profunda reflexão e para um renovado empenho de fidelidade a Cristo e à Sua Igreja”.

“O êxito a que chegou o movimento promovido por Mons. Lefebvre, pode e deve ser motivo, para todos os fiéis católicos, de uma sincera reflexão sobre a própria fidelidade à Tradição da Igreja, autenticamente interpretada pelo Magistério eclesiástico, ordinário o extraordinário, de modo especial nos Concílios Ecumênicos desde o de Nicéia ao Vaticano II. Desta reflexão, todos devem haurir uma renovada e efetiva convicção da necessidade de ainda melhorar e aumentar essa fidelidade, refutando interpretações errôneas e aplicações abusivas, em matéria doutrinal, litúrgica e disciplinar”.

Estabelece, no mesmo documento, a criação da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, que a partir de então fica responsável pela tarefa de:

“(… )colaborar com os Bispos, com os Dicastérios da Cúria Romana e com os ambientes interessados, a fim de facilitar a plena comunhão eclesial dos sacerdotes, dos seminaristas, das comunidades ou de cada religioso ou religiosa até agora ligados de diversos modos à Fraternidade fundada por Mons Lefebvre, que desejem permanecer unidos ao Sucessor de Pedro na Igreja Católica, conservando as suas tradições espirituais e litúrgicas, de acordo com o Protocolo assinado, a 5 de Maio passado pelo Cardeal Ratzinger e por Mons. Lefebvre.”

A Comissão Pontifícia Ecclesia Dei atua até hoje, coordenando as ações e diálogos concernentes às chamadas comunidades “tradicionalistas” na Igreja, bem como administrando, a nível mundial, todas as questões relacionadas à aplicação do Motu Proprio Summorum Pontificum, com o qual Bento XVI toma o “Rito Tridentino” como Forma Extraordinária do Rito Romano, podendo ser celebrado sem a necessidade de autorização dos Bispos.

Ao longo dos anos sucederam-se diversos acontecimentos relacionados, que poderão ser objeto de um outro artigo. Gostaríamos de citar, por ora, que:

a) A FSSPX tem apresentado vários argumentos, ao longo dos anos, para justificar a decisão de D. Lefebvre de ordenar os bispos, bem como para defender que as excomunhões não foram válidas. Alegam, entre outros argumentos, um “estado de necessidade”, sob o qual não podem ser atribuídas penas eclesiásticas.

b) D. Antônio de Castro Mayer, bispo de Campos (Rio de Janeiro, Brasil), que co-consagrou com D. Lefebvre em 30 de junho, incorreu em excomunhão latae sententiae, juntamente com os quatro bispos consagrados e o próprio Lefebvre. Ele havia dirigido a Diocese de Campos até 1981. Seu substituto, Dom Carlos Alberto Navarro, não manteve a mesma postura “tradicionalista” de D. Mayer, de modo que os padres ligados à Tradição reuniram-se em torno do antigo Pastor, e nasceu daí a União Sacerdotal São João Maria Vianney. D. Mayer falece em 25 de abril de 1991. Sua excomunhão somente pode ser revogada caso sejam revogadas também as dos quatro bispos consagrados. Sucede-o na direção da União Sacerdotal D. Licínio Rangel. Em agosto de 2001, D. Licínio, em uma carta, apresenta ao Papa João Paulo II o propósito de atuar em comunhão com Roma. O Papa responde em dezembro do mesmo ano, com a carta “Ecclesiae Unitas“, acolhendo o pedido de D. Licínio e dos Padres de Campos, e dispondo sobre a criação da Administração Apostólica Pessoal S. João Maria Vianney. Pouco tempo depois, em janeiro de 2002, o decreto “Animarum Bonum” cria efetivamente a Administração, com direito de celebrar exclusivamente o Rito Tridentino, e em total comunhão com Roma.

Acontecimentos recentes (2008)

Em 1º de junho de 2008, D. Bernard Fellay, Superior-Geral da Fraternidade Sacerdotal S. Pio X, referiu-se ao Papa, durante uma homilia, com as seguintes palavras:

“E agora, temos uma Papa completamente liberal, meus queridos irmãos. Ele visitou esse país [os Estados Unidos], fundado sobre princípios lacônicos, ou seja, de uma revolução, de uma rebelião contra Deus. E, bem, ele expressou sua admiração, seu fascínio ante esse país que decidiu assegurar a liberdade para todas as religiões. Ele chega ao ponto de condenar o Estado confessional. E ele é chamado de tradicional! E é verdade, é verdade: ele é totalmente liberal, totalmente contraditório. Ele tem alguns lados bons, que louvamos, como por exemplo o que fez pela liturgia tradicional. Que mistério, meus queridos irmãos, que mistério!”

Em 4 de junho (logo depois, portanto), D. Fellay é chamado a Roma, convocado pelo Cardeal Castrillón Hoyos, presidente da Comissão Ecclesia Dei. Foi-lhe entregue, durante a reunião, um memorandum, na forma de um ultimato, e foi solicitada uma resposta até o final do mês de junho.

O memorandum solicitava o cumprimento de cinco pontos por parte de D. Fellay:

Pontifícia Commissão “Ecclesia Dei”

Condições que resultaram do encontro de 4 de junho de 2008, entre o Cardeal Darío Castrillón Hoyos e o Bispo Bernard Fellay.

1. O compromisso de responder na mesma proporção à generosidade do Papa.

2. O compromisso de evitar qualquer intervenção pública que não respeite a pessoa do Santo Padre, e que possa ser negativa à caridade eclesial.

3. O compromisso de evitar a pretensão de um Magistério superior ao do Santo padre, e de não colocar a Fraternidade em contraposição à Igreja.

4. O compromisso de mostrar o desejo de agir honestamente em plena caridade eclesial e no respeito para com a autoridade do Vigário de Cristo.

5. O compromisso de respeitar a data – fixada para o final do mês de junho [2008] – para responder positivamente. Esta deve ser uma condição necessária e requerida como preparação imediata de uma adesão para efetivar a plena comunhão.

[Assinado] Darío Card. Castrillón Hoyos

Rome, June 4, 2008

No dia 1º de julho, após muita especulação da mídia sobre a resposta da Fraternidade, a agência de notícias oficial da FSSPX, DICI, publicou o primeiro comunicado oficial da Fraternidade sobre os eventos:

“Sobre o assunto do ultimato do Cardeal Castrillon Hoyos

Em 4 de junho, atendendo a pedido do Cardeal Darío Castrillón Hoyos, presidente da Pontifícia Comissão Eclésia Dei, o Superior Geral da FSSPX, Bispo Bernard Fellay, foi a Roma, com seu 2º assistente geral, Pe. Alain-Marc Nely.

Durante a reunião, um memorandum, na forma de um ultimato, foi dado a ele, e foi solicitada uma resposta até o final do mês de junho. Em 23 de junho, ao contrário do usual, o jornal italiano  Il Giornale revelou a existência desse ultimato e publicou seu conteúdo, no dia seguinte, em sua edição eletrônica. A informação foi transmitida nos dias seguintes por toda a imprensa internacional. Portanto, além da urgência do ultimato, havia uma pressão damídia.

O documento do Cardeal Castrillón Hoyos incluía cinco exigências: além de uma resposta positiva até o final do mês de junho, a FSSPX, na pessoa de seu Superior Geral, deveria comprometer-se a: (1) uma “resposta proporcional à generosidade do Papa”; (2) “evitar qualquer pronunciamento público que não respeite a pessoa do Santo Padre e que seja prejudicial à caridade eclesial; (3) “não alegar possuir um Magistério superior ao do Santo Padre, e não colocar a Fraternidade em oposição à Igreja; (4) “mostrar o desejo de agir honestamente, na completa caridade eclesial e no respeito pela autoridade do Vigário de Cristo”.

Deve-se notar que o caráter bastante genérico, para não dizer vago, das exigências propostas contrasta visivelmente com a urgência do ultimato. Essas condições parecem visar a obtenção de um clima favorável para um ulterior diálogo, mais do que constituir compromissos específicos sobre pontos precisos. A FSSPX deseja que esse diálogo seja situado em nível doutrinal e leve em consideração as questões as quais, se negligenciadas, poderiam trazer o risco de tornar obsoleta uma posição canônica estabelecida às pressas. Considera que o levantamento a priori dos decretos de excomunhão de 1988 poderia favorecer a serenidade de tal diálogo.

A Fraternidade São Pio X não quer exercer um Magistério superior ao do Santo Padre, nem intenciona opor-se à Igreja. Seguindo seu fundador, pretende transmitir aquilo que foi recebido, ou seja, “aquilo que foi sempre crido, em todos os lugares, e por todos”. Faz sua a profissão de fé com a qual o Arcebispo Marcel Lefebvre dirigiu a Paulo VI em 24 de setembro de 1975: “É ao Seu Vigário que Jesus Cristo confia a missão de confirmar seus irmãos na fé e é a ele que Jesus pede que cuide para que todo Bispo guarde o depósito (da fé) fielmente, de acordo com as palavras de São Paulo a Timóteo.

É neste sentido que Mons Fellay respondeu ao ultimato em uma carta ao Papa Bento XVI, na quinta, 26 de junho de 2008. O Cardeal Castrillón Hoyos simplesmente confirmou a recepção dessa resposta no dia seguinte.

Até que se tenham novas informações, não será feito mais nenhum comentário.

Pe. Alain Lorans (porta-voz)”

O conhecido vaticanista Andréa Tornielli, do italiano Il Giornale, afirma em seu blog, em 2 de julho [2008], que o diálogo entre a Santa Sé e a FSSPX continua indo avante:

“Fui informado por fontes seguras que, ao contrário do que foi divulgado em certos artigos, a resposta da Fraternidade [S. Pio X] à carta do Cardeal Castrillón não foi, na verdade, negativa. O Cardeal está satisfeita com ela, respondeu a Fellay, e prontamente encaminhou a carta ao Papa Bento XVI. Depois do prazo do final de junho, os Lefebvristas [sic] pediram tempo, mas – parece – cuidarão de atender aos cinco pontos.”

E assim encontra-se, até o presente momento (4 de julho de 2008), a situação a respeito da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

Sobre o Rito Gregoriano ou Tridentino

Depois do Concílio Vaticano II foi instituída uma comissão especial, que estudou e propôs as mudanças na liturgia. O novo Missal Romano foi promulgado por Paulo VI, e passou a ser o Rito Ordinário da Igreja Católica. Embora recentemente Bento XV tenha reconhecido que o Rito Tridentino, em vigor até então (e desde o Concílio de Trento, há séculos!) nunca foi abrogado, o que se viu foi que em pouco tempo ele não era mais celebrado em parte alguma na Igreja. Somente alguns grupos, como a Fraternidade Sacerdotal S. Pio X, fundada por D. Lefebvre, continuou a celebrar no Rito mais antigo, recusando-se a celebrar com o novo Missal.

Em 3 de outubro de 1984, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos lança Carta Circular , ou Indulto, aos Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, chamado “Quattuor Abhinc Annos”. Com este indulto, permitia-se a celebração do Rito Tridentino, desde que com a autorização do bispo do local, e somente para o grupo solicitante (tradução a partir de cópia do “L’Osservatore Romano” de 22 de outubro de 1984):

 “Reverendíssima Excelência:

Há quatro anos, por ordem do Supremo Pontífice João Paulo II, os bispos de toda a Igreja foram convidados a apresentar um relatório:

– acerca da maneira com a qual os padres e os fiéis de suas dioceses receberam o Missal promulgado em 1970 por autoridade do Papa Paulo VI em concordância com as decisões do Concílio Vaticano II;

– acerca das dificuldades existentes na implementação da reforma litúrgica;

– acerca do surgimento de possíveis resistências.

O resultado das consultas foi enviado a todos os Bispo (cf. Notitiae, n. 185, dezembro de 1981). Com base em suas respostas, pareceu-nos que o problema dos padres e dos fiéis mantenedores do chamado rito “Tridentino” estava quase que completamente resolvido.

Porém, já que os mesmos problemas continuam, o Supremo Pontífice, no desejo de atender às reivindicações desses grupos, concede aos bispos diocesanos a possibilidade de uso de um indulto através do qual padres e fiéis, os quais devem estar expressamente indicados em uma carta de solicitação a ser apresentada ao seu próprio bispo, estarão aptos a celebrar a Missa de acordo com o Missal Romano da edição de 1962, porém sob as seguintes condições:

a)Que se torne publicamente claro, sem qualquer possibilidade de dúvida, que tais padres e os respectivos fiéis de modo algum compartilham as posições daqueles que colocam em questão a legitimidade e a exatidão doutrinal do Missal Romano promulgado pelo Papa Paulo VI em 1970.

b) Tais celebrações devem ser feitas somente em benefício dos grupos que a solicitarem; em igrejas e oratórios indicados pelo bispo (nunca, entretanto, em igrejas paroquiais, a não ser que o bispo assim o permita em casos extraordinários); e nos dias e nas condições fixadas pelo bispo, seja habitualmente ou em casos individuais.

c ) Essas celebrações devem ser de acordo com os textos e rito do Missal de 1962, e em latim.

d) Não deve haver intercâmbio de textos e ritos entre os dois Missais.

e) Cada bispo deve informar esta Congregação das concessões feitas por ele, e ao final de um ano da concessão desse indulto, ele deve informar os resultados de sua aplicação.

Esta concessão, indicativa da solicitude habitual do Santo Padre pelos seus filhos, deve ser usado de tal modo que não prejudique a observância fiel da reforma litúrgica na vida das respectivas comunidades eclesiais.

Tenho o prazer de utilizar-me desta ocasião para expressar a Vossa Excelência meus sentimentos de profunda estima.

Seu, devotamente no Senhor,

+Augustin Mayer, Pro-Prefect

+Virgilio Noe, Secretary.

Após as sagrações episcopais de 30 de junho de 1988 feitas por D. Marcel Lefebvre, o Papa João Paulo II lança o Motu Proprio Ecclesia Dei, no qual, ao passo que confirma a excomunhão de D. Lefebvre e dos bispos por ele sagrados, pede um amplo respeito e acesso generoso ao Rito Gregoriano para os que assim o desejem:

(…)além disso, em toda a parte deverá ser respeitado o espírito de todos aqueles que se sentem ligados à tradição litúrgica latina, mediante uma ampla e generosa aplicação das diretrizes, já há tempos emanadas pela Sé Apostólica, para o uso do Missal Romano segundo a edição típica de 1962 [ou seja, a “Quattuor Abhinc Annos”].

Com o Motu Próprio Summorum Pontificum, datado de 7 de julho de 2007, o Papa Bento XVI revogou as disposições da “Quattuor Abhinc Annos” e do Motu Proprio “Ecclesia Dei”, de seu predecessor de venerável memória, João Paulo II. A partir de então, o Rito Tridentino passou a ser a Forma Extraordinária do Rito Romano. Pode ser celebrado sem necessidade de autorização episcopal, aos grupos que assim solicitarem, devendo o pároco ou o bispo atender tais solicitações. Caso tais pedidos não sejam atendidos pelo pároco ou pelo bispo do local, os fiéis que o desejarem podem recorrer à própria Comissão Pontifícia Ecclesia Dei para ter suas solicitações atendidas. O acesso ao Rito Tridentino ou Gregoriano passa a ser um direito dos fiéis, e não mais uma concessão. A restrição é que só pode haver uma Missa na Forma Extraordinária aos Domingos nas paróquias.

Em recente entrevista, o Presidente da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, Darío Cardeal Castrillón Hoyos afirmou que é desejo do Papa que a Forma Extraordinária seja oferecida a todos os fiéis, como um tesouro da liturgia, de maneira que possa estar presente em todas as paróquias.

“DT: Então o Papa gostaria de ver muitas paróquias fornecendo o Rito Gregoriano?

Cardeal Castrillón: Não muitas – todas as paróquias, pois isso é um dom de Deus. Ele oferece essas riquezas e é muito importante para as novas gerações conhecer o passado da Igreja. Esse tipo de liturgia é tão nobre, tão bonito – a mais teológica das formas de expressar nossa fé. A liturgia, a música, a arquitetura, as pinturas, fazem um todo que é um tesouro. O Santo Padre está desejoso de oferecer a todas as pessoas essa possibilidade, não apenas para poucos grupos que pedem, mas para que todos conheçam essa forma de se celebrar a eucaristia na Igreja Católica.”

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