Parece que foi ontem que o nosso amado Bento XVI surpreendeu o mundo. Foi em 11 de fevereiro, na festa de Nossa Senhora de Lourdes. Penso que foi uma data marcada, cheia de significado e, definitivamente, uma data mariana. A notícia me chegou logo pela manhã, hora de Buenos Aires, ao abrir o correio eletrônico. Os títulos “Papa renuncia!” me despertaram antes mesmo que pudesse dar o primeiro sorvo na xícara de café. Rapidamente comecei a fazer cálculos. Ao olhar para o calendário, me pareceu que no dia 13 de março ocorreria algo importante.

O dia 13 de cada mês é o dia de Maria Rosa Mística, Nossa Senhora Rainha dos Sacerdotes. E como o sacerdócio na Igreja está precisando muito de cura nestes dias, pareceu-me natural – ou melhor, sobrenatural – que um novo Papa, um Papa mariano, fosse eleito Vigário de Cristo nesse dia.

Quando o conclave começou, no dia 12 de março, eu pressentia que seria curto, de modo que a fumaça branca já no segundo dia em nada me surpreendeu. Quando fiquei sabendo que se tratava do Cardeal Bergoglio, tampouco me surpreendi. E ainda quando escutei o nome Francisco, disse para mim mesmo: “Óbvio!” Aqui, em Buenos Aires, o conhecemos como o Arcebispo que vai de ônibus para o trabalho, que cozinha suas próprias refeições e fala com todo mundo de maneira dócil e simples.

O Papa Francisco é um Pedro, um pescador de homens para o nosso tempo. Creio que passará mais tempo lançando as redes do que segurando o timão. Sua rede favorita é a oração e a sua barca é conduzida por Maria Stella Maris, a Estrela do Mar.

É mais provável que Francisco prefira beijar as feridas do leproso no caminho para Assis do que deixar que os outros lhe beijem o anel papal. Ascendeu ao trono de Pedro na festa de São José porque ele, assim como este santo, é um homem de poucas palavras, alguém que guia calado e virilmente. Na Igreja, os tíbios e os complacentes sentirão o poder da santidade.

Como muitos argentinos, o Papa Francisco descende de imigrantes piamonteses. Creio que sua forte inclinação mariana façam parte da sua formação familiar. A “Madoninna” fazia parte, então, de todas as famílias italianas e o Papa Francisco nunca deixou de caminhar com ela. Ele consagrou por diversas vezes a Arquidiocese de Buenos Aires ao Imaculado Coração de Maria e, por isso, não surpreende que, no seu breve discurso aos fiéis, na noite da sua eleição, tenha mencionado a intenção de confiar a cidade de Roma e a vida do Papa Emérito Bento ao amoroso cuidado da Virgem.

Nessa tarde histórica, antes da Missa de Ação de Graças pelo novo Papa na paróquia do meu bairro, percebi que todos os sacerdotes estavam presentes. Sei que se formaram no sacerdócio junto com o Cardeal Bergoglio. Era uma tarde fria, apesar de ainda estarmos no verão. Vi um menino mendigando próximo do pórtico principal da paróquia. Tinha cerca de 11 anos de idade e tremia de frio, pois vestia apenas uma camiseta e um shorts. Um dos sacerdotes passou apressado, porém lançou um olhar ao pobre menino enquanto entrava rapidamente no escritório da paróquia. Em um minuto, saiu com uma camiseta de mangas longas e um suéter retirado de uma das caixas de donativos para caridade. Correndo – porque a Missa já ia começar – se assegurou de ver o menino agasalhado com os presentes. Tudo isso levou apenas um minuto e creio que somente eu o presenciei, pois estava parado bem na entrada. Menciono isto porque é um genuíno gesto de carinho, feito por um homem que cresceu como sacerdote à sombra do Cardeal Bergoglio. Este é o espírito desta Arquidiocese. Este é o exemplo que Francisco semeou cuidadosamente nesta enorme cidade do fim do mundo, que não perdoa ninguém.

No dia seguinte, eu estava almoçando com um amigo nas cercanias da igreja, quando ouvi um grupo de vizinhos judeus, numa mesa próxima, falando do novo Papa. Vi que gostavam muito dele e um deles falou sobre os sacerdotes que o Cardeal enviava regularmente aos bairros humildes, para celebrar a Missa e ajudar os pobres no que pudessem. Alguém interrompeu o relato para apontar: “Me pergunto: quantos políticos vão ali oferecer um prato de sopa passadas as eleições?” E eu pensei: “Essa semente caiu em solo fértil”.

Há muito tempo, um outro Francisco ouviu Deus dizer: “Francisco: conserta a minha casa; não percebes que ela está em ruínas?” Esse Francisco costumava caminhar pelos povoados sem dizer uma só palavra, deixando que o seu hábito rústico e as suas sandálias simples falassem por ele. Não era forte, nem rico, nem belo, eloquente ou erudito. Por isso, quando a Casa foi reconstruída, todos souberam que era o poder de Deus que agia por Francisco. Outro Francisco vem hoje até nós. Enfrenta uma colossal tarefa armado apenas com os hábitos simples que alguns na Igreja esqueceram há muito tempo: oração, simplicidade, caridade e uma serena masculinidade. Na minha mente, não há dúvida de que ele saberá pastorear o rebanho nestes tempos turbulentos. Vamos observá-lo para aprender com ele!

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