Espaço do Leitor

Catolicismo e subdesenvolvimento

Prezados senhores:

Parabanizo-os pelo excelente apostolado.

Muitos formadores de opinião ao compararem os países protestantes com os países católicos concluem que aqueles são mais desenvolvidos do que estes porque a mentalidade protestante pregaria o enriquecimento nesta vida como sendo uma prova de benção de Deus, enquanto que a mentalidade católica pregaria uma vida presente resignada com a probreza, alienada das preocupações deste mundo e portanto de índole subdesenvolvimentista baseada na recompensa de uma vida feliz após a morte. Isto é, o desejo de felicidade após a morte seria a causa principal de o católico ser de mentalidade subdesenvolvimentista.

Considero esta interpretação preconceituosa e simplista. O que vocês têm a dizer a respeito?

Aguardo a sua resposta assim que possível. Muito grato pela atenção.
Renato Rosman

Caro Renato:

Meus caros amigos do Veritatis Splendor pediram-me que respondesse a sua mensagem, e o faço.

Não se trata exatamente de “o desejo de felicidade após a morte [ser] a causa principal de o católico ser de mentalidade subdesenvolvimentista”, mas antes o contrário. Explico: o protestantismo, na forma de base calvinista que, iniciando seus estragos na Suíça, prosseguiu e formou a mentalidade americana, é certamente um dos fatores principais do desenvolvimento do capitalismo e, por conseguinte, do desenvolvimento econômico. É a substituição da busca de desenvolvimento pessoal pelo acúmulo pessoal de riquezas que proporciona o desenvolvimento econômico, em detrimento da ordem social e familiar.

Enquanto a tradição cristã sempre ensinou serem as riquezas coisa muito perigosa (“é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no Reino dos Céus”…), o protestantismo calvinista reverteu este ensino divino com a criação da doutrina da dupla predestinação. Para um calvinista, as pessoas já nascem predestinadas ao Céu ou ao Inferno, sendo seu comportamento e sua, digamos, “sorte” sinais inequívocos de seu destino final. Para os adeptos desta doutrina, quem tenha o Céu como destino será recognoscível por ser uma pessoa sem frivolidades, que trabalha duro e acumula dinheiro, enquanto quem tenha o Inferno como destino nunca conseguirá viver da maneira “virtuosa” dos predestinados ao Céu.

Assim, note bem, a “virtude” passa a ser definida como uma estranha combinação de ausência de frivolidades (consoante com a austeridade da decoração das casas de oração calvinistas, por exemplo) e acúmulo de bens materiais. Esta noção “virtude”, que prescinde de quaisquer componentes sobrenaturais, é o que abriu as portas para o surgimento do capitalismo.

Para a mentalidade cristã tradicional, o trabalho é o cumprimento de uma maldição divina (“ganharás teu pão com o suor de teu rosto”… vale notar que a própria palavra “trabalho” vem do latim “tripalium”, um instrumento de tortura), e a acumulação de bens materiais é algo a evitar. Ao contrário, é ao “pobre em espírito”, ou seja, a quem não dá valor aos bens materiais, que é prometido o Reino dos Céus. Dentro desta mesma visão, a Igreja sempre condenou a usura (cobrança de juros sobre dinheiro emprestado), o lucro (obtenção de dinheiro apenas pela intermediação em vendas), etc. A virtude buscada na sociedade cristã tradicional é a virtude de ser uma boa pessoa, honesta, confiável, que procura dar de si o melhor e agir da melhor maneira possível dentro de sua situação social. Assim, um pai de família deve ser um bom pai de família, e deve dar à família sua prioridade. Um monge, por outro lado, deve ser um bom monge e dar à oração a prioridade. Um rei deve ser bom rei, um pedreiro um bom pedreiro, e um estudioso um bom estudioso.

Já na mentalidade calvinista, cada um deve procurar ascender socialmente, pois esta ascensão seria um sinal de predestinação ao Céu. Deste modo, um pai de família deve buscar antes de mais nada tornar-se um homem rico, enquanto vive de maneira austera; se isto significa negligenciar sua presença em casa para tocar os negócios, que seja assim. Um pedreiro não deve, na mentalidade calvinista, buscar ser um bom pedreiro, sim economizar dinheiro para transformar-se em um homem rico, que jamais deixará de buscar mais riquezas (por exemplo, passando de pedreiro a mestre de obras, de mestre de obras a engenheiro, de engenheiro a dono de empreiteira…).

Note que enquanto na sociedade cristã tradicional a ascensão é feita dentro de cada um, ou seja, cada um procura melhorar **internamente**, tornando-se uma pessoa melhor e mais santa enquanto cumpre de forma melhor seus deveres para com a sociedade, na sociedade de índole calvinista a ascensão deve ocorrer **externamente**, na forma de ascensão social. Isto gerou uma sociedade cujo foco não é mais a ordem, sim a mobilidade social: a sociedade capitalista. A busca de santidade, característica da sociedade cristã tradicional, foi desprovida de todo aspecto sobrenatural e tornou-se uma busca de riquezas, de um tesouro na terra e não mais nos Céus.

Em uma sociedade capitalista, presume-se que todos têm como objetivo “subir na vida”, trabalhando duro e economizando. Presume-se, igualmente, que todos desejam viver de maneira frugal e austera para conquistar riquezas. Quem não o desejar é visto a priori como um réprobo, como alguém que está fora das regras da sociedade e merece sua reprovação. Deste modo, em uma sociedade capitalista há enorme geração de riquezas, levando a um grande desenvolvimento **econômico** da sociedade, somado a uma forte tendência à desestruturação social, causada exatamente pela enorme mobilidade social que a caracteriza.

Em uma sociedade capitalista, a produção de riquezas e sua acumulação é um fim em si, na verdade o único objetivo aceitável socialmente. Todos são vistos como estando transitoriamente na posição social que ocupam, devendo dar o máximo de si para “subir de vida”, para mudar de situação social. Com isso, a sociedade passa a não ter quem transmita valores imutáveis, as instituições sociais passam a estar francamente abertas a ataque, e a transitoriedade passa a ser a regra, não a exceção. Na sociedade americana, a sociedade capitalista por excelência (as sociedades européias, sociais-democratas, são um meio-termo entre uma visão capitalista e uma visão socialista, em que há capitalismo o suficiente para gerar riquezas e socialismo o suficiente para evitar grandes divergências de classe social. Ambas as visões são contrárias à tradição cristã), nada é feito para perdurar: as casas são de madeira macia, as famílias dissolvem-se constantemente ao sabor das fortes migrações internas – espera-se que o jovem saia de sua cidade natal ao entrar para a faculdade, e nunca mais volte… -, a própria religião é substituída por miríades de cultos e seitas diferentes, com credos cambiantes, e festejos comerciais que mudam de geração para geração substituem o calendário dos Santos e dias de festa. Tudo muda, com a exceção da própria mobilidade e desejo de ascensão social. Esta mentalidade leva à geração de imensas riquezas materiais, já que, para quem vê enriquecer como o único propósito da vida, um monte de lama é uma pilha de tijolos esperando o seu trabalho para serem feitos e vendidos. Tudo é explorado ao máximo para gerar mais riqueza, e ao mesmo tudo tudo perde seu sentido social e sua alma.

A própria sociedade torna-se um mero mecanismo para a busca vazia de mais riquezas. As riquezas vêm, mas a sociedade se esvai. É como um exército em que todo soldado se visse como um general em potencial; ao mesmo tempo nenhum soldado é um bom soldado (por não se aplicar às tarefas de soldado, mas a uma busca de promoção), e nenhum general é respeitado (pois deve ser abaixado para exaltar quem almeja seu lugar). O conhecimento dos generais é ignorado, e o trabalho dos soldados é desperdiçado.

Já na sociedade cristã tradicional, o que é fundamental é a ordem social e a busca de crescimento pessoal interno, de santidade. Um bom fabricante de violinos orgulha-se, com razão, de seu trabalho, e não vê vantagem alguma em fabricar mais violinos de menor qualidade, para com isso ganhar mais dinheiro. Um bom pedreiro tem orgulho do que faz, e não vê seu nobre ofício como mero degrau em uma “ascensão” de pedreiro a milionário. Cada um procura dar o melhor de si e preservar as tradições culturais e familiares de seu ofício, de sua região, etc. Os filhos crescem ao lado dos pais e estão ao lado deles na velhice, imersos em uma sociedade em ordem, desempenhando com orgulho e felicidade um papel social cuja importância percebem.

Note que não se trata de levar-se uma vida “resignada com a pobreza, alienada das preocupações deste mundo e portanto de índole subdesenvolvimentista baseada na recompensa de uma vida feliz após a morte” na sociedade católica, sim de outra forma, mais ordenada, de ver o mundo. A pobreza é melhor, ou ao menos muito menos perigosa, que a riqueza. Riqueza não só não é sinônimo de felicidade, como é algo objetivamente perigoso: quem é rico facilmente se esquece de tudo o que santo, de tudo o que é bom. A pobreza – note bem, não a miséria – é algo que sempre esteve e sempre estará presente em toda sociedade humana, capitalista ou não. Não se trata, contudo, de algo em relação ao qual se possa falar de “resignar-se”: ela não é uma maldição, sim uma condição humana. Somos sempre pobres, seja em bens materiais, seja em bens espirituais. Raro é, contudo, quem não é pobre em bens espirituais quando é rico em bens materiais: “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha…”

Do mesmo modo, as “preocupações deste mundo” estão presentes em uma sociedade cristã tradicional: é dever dos pais alimentar e educar os filhos, por exemplo, e seria um mau pai quem não trabalhasse para poder alimentá-los. Por outro lado, pior pai ainda seria o que só cuidasse de aumentar sua fortuna, e não estivesse ao lado dos filhos enquanto crescem. A recompensa depois da morte é na verdade continuação do modo de viver na terra: é mais feliz quem vê seu lugar no mundo como um dom de Deus e procura agir de acordo com isto, procurando ser o melhor no que faz e crescendo em sabedoria e experiência com os anos, que quem vê seu lugar no mundo como outro, sempre outro logo além da linha do horizonte, algo ainda a ser alcançado, uma nova posição pela qual ele deve deixar tudo para trás – família, cidade natal, profissão ou ofício -, cuidando apenas de ficar cada vez mais rico.

Concluindo: uma sociedade de base católica tende, sim, a ser materialmente mais pobre que uma sociedade de base protestante-calvinista. Por outro lado, a sociedade rica o é apenas materialmente: nos EUA e na Europa, a vida humana já quase nada vale, com o aborto disseminado ao ponto de tornar-se um hábito, com as famílias dizimadas e estéreis, com o indiferentismo religioso disputando espaço com o surgimento de seitas atomizadas e islamismo radical… Tudo isto é fruto da mesma origem que o crescimento econômico: a noção de que é só a riqueza material que dá sentido à vida, e a busca de prosperidade material em detrimento da ordenação reta da sociedade. Se uma sociedade é orientada para o lucro financeiro, ela será mais rica materialmente e muito mais pobre espiritualmente; se ela é orientada para o crescimento pessoal e espiritual, ela será mais pobre materialmente e muito mais rica espiritualmente.

Note bem que a justa remuneração pelo trabalho executado é um bem (na verdade, reza a tradição que negar a um trabalhador sua justa paga é um dos quatro crimes que bradam aos Céus por vingança!). A ascensão social e o dinheiro não são, tampouco, males em si. O que é mau é tê-los como fim, como objetivo primordial da existência. É quando se os escolhe como objetivo, quando o exterior toma o lugar do interior, que se deixa de ter como objetivo a busca de aprimoramento pessoal (ou santidade) e social. Quando isto é feito em escala societal, temos os tremendos problemas que as sociedades mais ricas atualmente apresentam. Quando a pessoa se define pelo que consome, ela perde de vista o fato de ela ser chamada a ser algo muito maior do que o que é, e muitíssimo maior que o que consome. Quando, porém, ela vai para o lado oposto e se nega a consumir o fruto do trabalho de outrem, ela deixa de agir de forma produtiva na sociedade.  In medio virtute: a virtude está no meio, tendo sempre o Céu por objetivo e a terra como campo de operações, sem jamais perder de vista a um ou ao outro.

Espero ter ajudado.

Seu irmão em Cristo,

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