Espaço do Leitor Respostas a Leitores (por Carlos Martins Nabeto)

Católico manifesta dúvidas diante de imagens, procissões, Purgatório e São Jorge

Tenho dúvida sobre procissão, ajoelhar em frente às imagens de santos e purgatório. E São Jorge? É santo de macumba mesmo?? Segundo os protestantes, não existe purgatório pois o ladrão na cruz não foi para lá. Me ajude, por favor! Eu sei que existe! Por que as procissões? Por que são jorge é venerado na macumba? Por que nos ajoelhamos diante de imagens? (Willian)

Prezado Willian,

Pax Domini!

Obrigado pela confiança depositada em nosso Apostolado.

Você diz, em sua mensagem, que alguns protestantes citam Lucas 23,43 para afirmar que o Purgatório não existe. Leiamos a passagem inteira, em seu contexto:

“33. Chegados que foram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram, como também os ladrões, um à direita e outro à esquerda. (…)
39. Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!
40. Mas o outro o repreendeu: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício?
41. Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum.
42. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!
43. Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.”

Diante destes versículos, percebemos nitidamente que Jesus não estava aqui negando a existência do Purgatório, mas apenas afirmando ao “Bom Ladrão” que, diante de sua sincera confissão de fé e arrependimento de última hora, a sua salvação estava garantida. Ora, segundo o ensinamento bimilenar da Igreja Católica, TODA alma do Purgatório tem também sua salvação garantida, porque morreu na amizade de Deus; assim, o Purgatório tão somente prepara a alma, purificando-a dos eventuais pecados não expiados na terra, para que possa contemplar Deus face a face (cf. Mateus 5,8). Desta forma, tendo ou não passado pelo Purgatório, a citação de Lucas 23,33.39-43 não implica – de maneira nenhuma! – na negação ou inexistência do Purgatório; ao contrário, este estado é naturalmente depreendido de passagens como Mateus 5,25-26; 12,32; Lucas 12,48; 1Coríntios 3,13-15; 2Coríntios 5,10 etc.

Com efeito, o grande problema dos protestantes que negam o Purgatório é querer “classificá-lo” como uma “3ª opção independente”, ao lado do Céu (Salvação) e do Inferno (condenação), sendo que, na verdade, o Purgatório é um estado válido para algumas almas, que já se encontram, porém, salvas; leia, aliás, este outro artigo que publicamos no Veritatis Splendor: https://www.veritatis.com.br/article/5039/ .

Você também nos questiona acerca de alguns atos externos que os católicos costumam a dedicar às imagens dos santos, que talvez pudessem significar idolatria, como dizem muitos protestantes fundamentalistas…

Quanto ao ajoelhar-se diante de imagens, trata-se de mero ato de veneração, respeito, humildade, homenagem, honra àquelas pessoas que representam… Não se trata, portanto, de ato de adoração, que é devida tão somente a Deus. Na Bíblia, encontramos muitíssimas passagens de pessoas, inclusive pertencentes ao Povo Eleito, ajoelhando-se e prostrando-se (que é um ato ainda mais sério e solene) diante de anjos (Gênese 19,1; Números 22,31; 1Crônicas 21,16; Tobias 12,15-16 etc.), diante de outras pessoas (Gênese 33,6-7; 37,7.9-10; 41,43-44; 42,6; 43,26; 44,14; 47,31; 49,8; Êxodo 18,7; Rute 2,10; 1Samuel 20,41; 24,9; 25,23.41; 2Samuel 1,2; 9,6.8; 14,4.22.33;18,21.28; 24,20; 1Reis 1,16.23.31.53; 18,7; 2Reis 2,15; 4,37; 2Crônicas 24,17; Ester 8,3; Daniel 2,46; Mateus 18,26; etc.) e diante de coisas (Josué 7,6; Esdras 10,1; Judite 4,9; Salmo 137,2; 2Macabeus 3,15; 10,26; Isaías 36,7; etc.). Em nenhum momento estas atitudes são condenadas ou retratadas como “idólatras” pelas Sagradas Escrituras.

Note, por outro lado, a atitude dos soldados romanos que se ajoelham diante de Jesus, a quem, com toda crueldade, torturavam (v. Mateus 27,29); tal atitude não era nem de idolatria, nem de adoração e, muito menos, de veneração – mas sim de puro escárnio. Com efeito, a intenção que provém da consciência e do coração do ser humano é que determinam a “profundidade” e significância dos atos de ajoelhar-se e prostrar-se. Daí a importância de se manter o coração puro, cf. Salmo 16,3: “Podeis sondar meu coração, visitá-lo à noite, prová-lo pelo fogo, não encontrareis iniqüidade em mim” (v. tb. Gênese 20,6; Jó 33,3; Salmos 7,11; etc.), desde que não renda à criatura a adoração que é devida somente ao Criador. Como, em suma, diziam os cristãos primitivos: “Adoramos apenas a Deus e veneramos as coisas santas” (cf. Martírio de Policarpo, séc. II).

No tocante às procissões, encontram-se também devidamente fundamentadas na Tradição da Igreja e na própria Bíblia (cf. Números 10,33-34; Josué 3,3; 6,4.9.11-14). Interessante observar aqui que a Arca da Aliança carregada em procissão continha sobre ela duas imagens de querubins, esculpidas sob a ordem direita de Deus (cf. Êxodo 25,18-22)…

Por derradeiro, você nos pergunta se São Jorge é “santo de macumba” e se ele é “venerado na macumba”.

Para responder às suas questões devemos ter em mente algumas coisas importantes:

1ª) Antes de mais nada, devemos reconhecer que pouco se sabe a respeito da vida de São Jorge, já que, devido a sua grande popularidade, muitos “fatos lendários” foram acrescidos indevidamente à sua biografia por pessoas, sem dúvida alguma, piedosas, mas que, por outro lado, estavam despreocupadas em manter correspondência com a História. É por essa razão, aliás, que sua festa já não tem o relevo que tinha antigamente (o que, evidentemente, não significa que o título de “santo” lhe foi cassado ou que o santo não tenha existido historicamente, como maliciosamente espalham muitos anticatólicos).

2ª) Algumas informações, entretanto, podem ser tidas como verídicas ou bem prováveis, uma vez que o acompanham desde os tempos mais remotos: de origem oriental (talvez Capadócia), nascido por volta do ano 270, tornou-se soldado romano e, convertido ao Cristianismo, foi martirizado nos tempos de Diocleciano (possivelmente no dia 23 de abril de 303, na Nicomédia, Ásia Menor). A Tradição relata que os restos mortais de São Jorge foram transportados para Lida (Dióspolis); sobre seu túmulo o imperador Constantino mandou erguer uma igreja, o que permitiu que a devoção ao santo se espalhasse rapidamente por todo o Oriente: no século V, em Constantinopla, já havia cinco igrejas a ele dedicadas; muitas outras, porém, surgiram nos países próximos como Egito, Armênia e Grécia. Não há dúvidas, portanto, que São Jorge realmente existiu e sua veneração era extremamente popular desde o século IV, tanto nas igrejas orientais (de língua grega), quanto nas ocidentais (de língua latina). É, aliás, o santo patrono da Inglaterra, Portugal, Catalunha, Lituânia e Geórgia; da cidade de Moscou; e também padroeiro dos escoteiros.

3ª) Qual, então, a ligação de São Jorge com a Umbanda/Candomblé/Macumba? Como vemos, NENHUMA! NENHUMA MESMO! Mas como explicar o fato de se encontrarem imagens de São Jorge em alguns templos e terreiros de umbanda e candomblé? Uma expressão explica tudo: SINCRETISMO RELIGIOSO! Os estudiosos afirmam que uma parte dos negros que vieram como escravos para o Brasil pertencia à cultura “banto”, proveniente de certa área entre Angola e Congo; os bantos conheciam um ser supremo, mas também cultuavam os ancestrais e antepassados, que se tornavam presentes em rituais de possessão; outros grupos africanos cultuavam as forças da natureza, como os orixás e vodus; unidos no Brasil e influenciados pelo espiritismo, deram origem à quimbanda (nome dado aos feiticeiros no banto) e à umbanda (nome dado ao antigo sacerdote do culto banto); e para “acobertar” seu culto politeísta dos senhores e clérigos católicos, associaram elementos católicos às formas africanas, entre elas, o de nomear as suas divindades com o mesmo nome dos santos católicos. Desta forma, atribuíram o nome de “São Jorge” à divindade denominada “Ogum”, pelo fato desta ser “guerreira”, assim como São Jorge teria sido valente soldado. A Igreja Católica, porém, NÃO ACEITA essa associação, já que São Jorge, sendo homem, mera criatura de Deus, JAMAIS poderia ser tida por deus ou receber culto de adoração, como ocorre nesses cultos.

Esperamos ter, assim, respondido às suas dúvidas.

[]s
Que Deus te abençoe!

Facebook Comments

Livros recomendados

A superstição do divórcioO Evangelho de São João – Cadernos de Estudo BíblicoO Homem Eterno

About the author

Católico Porque...

Leave a Comment

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.