Universitários são bagunceiros desde que existe a universidade. Até hoje músicos eruditos tocam, para deleite de seriíssimas plateias, músicas que nasceram como hinos de estudantes bêbados no Medievo.

Nos nossos tempos de decadência, no entanto, não é a beleza que surge da bebedeira estudantil. Na USP de São Carlos (SP), ocorreu um bizarro conflito na semana passada. O Centro Acadêmico organiza um “concurso de beleza” semipornográfico chamado “Miss Bixete”, em que calouras são incentivadas a tirar a roupa para deleite de uma plateia de marmanjos bêbados. A campeã ganha entrada grátis em todas as festas organizadas pelo grupo.

Um grupo de feministas resolveu protestar diante do local onde ocorria o evento. Desta vez eram as feministas as comportadas: vestidas de maneira decente, batucavam em latas enquanto uma delas cantarolava em um microfone versões de funk carioca (“eu quero é ser feliz, andar tranquilamente com a roupa que escolhi”, por exemplo).

Deixando de lado a incoerência do canto – afinal, as “bixetes” escolheram participar do tal concurso; ninguém ali estava sendo obrigada a se expor –, atribuível mais ao hábito que à ocasião, era em grande medida uma manifestação digna e adequada contra um evento degradante.

O feitiço, contudo, virou contra as pobres feiticeiras. Alguns boçais, irritados com a cantoria das feministas, usaram contra elas as técnicas de autodegradação agressiva que o Femen e a Marcha das Vadias popularizaram. Uns simularam sexo com uma boneca inflável, outros tiraram a roupa e saíram balançando umas pelanquinhas penduradas que normalmente a roupa de baixo ocultaria.

O que nenhum dos lados do confronto parece perceber, contudo, é que a dignidade humana pertence a todos nós. A autodegradação dos rapazes que tiram a roupa para protestar contra as feministas que batem tambor para protestar contra as moças que tiram a roupa (ufa!) é ofensiva. Não, contudo, porque “o pênis é opressor”, como dizem as feministas, mas porque o corpo humano merece mais respeito. O masculino ou o feminino.

Tanto o concurso de calouras seminuas quanto o protesto seminu – seja ele dos machistas ou das feministas, dá na mesma – é ofensivo por não respeitar a dignidade do corpo humano, por fazer do corpo um objeto. Objeto de consumo ou objeto de agressão, objeto de desejo ou objeto de horror, tanto faz. Um corpo é uma pessoa, e fazer de pessoas objetos é degradá-las. E degradar um só ser humano é degradar toda a humanidade.

Será que em São Carlos há quem perceba isso?

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