Como as acusações contra a Igreja e o Cristianismo geralmente são comuns e frequentes, pareceu-me útil publicar uma resposta a uma carta que recebi. Peço perdão pela extensão da resposta, que apenas tenta expor cada erro histórico para prestar um testemunho à verdade. E me esforçarei por fazê-lo. Ademais, para que a resposta fosse racionalmente ordenada, agrupei os conceitos expostos que parecem não estar muito claros para o autor da acusação.

A mensagem original que recebi foi escrita em resposta ao meu artigo “Para trazer beleza ao mundo” e é fielmente reproduzida nas notas de rodapé[1]. Na minha opinião, a resposta do sr. G. B. parece ter sido copiada quase que inteiramente de um conhecido Site secularista. Em todo caso, respondi a ela.

O que é a Igreja?

Vamos refletir um pouco sobre a natureza, origem, missão e história da Igreja Católica. A maioria dos grupos eclesiais cristãos traçam suas origens a algum fundador como Lutero, Calvino, Zwinglio ou Henrique VIII da Inglaterra. A premissa geral que se alega ao fundar estes – agora numerosos – grupos eclesiais é a suposta falha ou corrupção da Igreja Católica original. Ao contemplar o que se conhece da História dos últimos 40 séculos, qualquer um pode observar uma linha clara que se inicia com Abraão (no final da Idade do Ferro), passa por Jesus Cristo de Nazaré (que chega cerca de 20 séculos mais tarde), e, após isto, a Igreja fundada sobre os Doze Apóstolos originais chega até nossos dias, na Igreja Católica.

Desde os primórdios, a Igreja é composta por toda sorte de pessoas. Jesus predisse que santos, tolos, pecadores, ovelhas e lobos iriam encontrar-se nela. Uma análise simples da doutrina cristã revela que Cristo ensinou os seus discípulos a lutar e derrotar as más tendências da natureza humana. O maior combate que liberta o Cristianismo não ocorre nos campos de batalha deste mundo, mas no interior da alma humana. Cristo nunca nos disse que uma pessoa se converteria em santa aos olhos do mundo pelo simples fato de ingressar na Igreja.

Os modernos detratores da Igreja Católica exigem dos cristãos de hoje algo que nem sequer Deus exige: uma santidade imediata e sem faltas. Requisito bastante difícil para qualquer um que esteja sob este lado do céu; na minha opinião, [uma exigência] bastante injusta.

Nesta carta, que começaremos agora a apreciar, podemos detectar esse característica sem um maior esforço. O autor tenta ligar o Cristianismo às atrocidades da Segunda Guerra Mundial. Ele tenta, especificamente, culpar a Igreja Católica por toda espécie de calamidade. Já ouvimos este argumento antes: “Hitler era católico e o Papa não fez nada para detê-lo. Portanto, ambos estavam de acordo entre si e queriam exterminar os judeus, bem como promover todo um programa de iniquidades indescritíveis”.

Pois bem: o autor é uma pessoa nascida e batizada na fé católica, exatamente como seriam Hitler e seus sequazes. Então, se ele, amanhã, cometesse um crime abominável, seria a Igreja Católica responsável por esse crime? Ademais, deveria a Igreja suportar as faltas de todos os que, sendo católicos batizados, falharam em viver segundo as altas normas morais e regras éticas da Igreja?

Deixo ao leitor a tarefa de oferecer uma resposta sincera a estas duas perguntas simples…

Não importa como julguemos a Igreja nestes assuntos; há um tema em particular que vale a pena considerar: sua permanência na História por 20 séculos (40, se contarmos o tempo que levou para que suas raízes hebraicas se desenvolvessem, raízes de onde provêm a Igreja).

Temos aqui uma instituição sem igual, mais antiga que qualquer ordem política vigente neste mundo. Esta instituição, a Igreja, não apenas é antiga quanto também se declara transcender aos limites deste mundo e fazer parte de algo que está acima deste mundo, oferecendo como prova o ter sobrevivido aos ataques e perseguições mais brutais dos últimos 20 séculos.

Eu diria que essa sobrevivência, por si mesma, provê uma boa razão para olhar para longe e atentar para o resto das suas pretenções, especialmente quando sabemos que a Igreja não é composta pelos seres humanos mais puros, mais talentosos ou mais fortes que existem neste mundo. Este ponto de vista em particular coloca de cabeça para baixo as acusações dos críticos que exigem uma pureza total. Não seria nada surpreendente que um grupo de homens decentes, talentosos e fortes sobrevivesse contra o céu e a terra por 20 séculos. O espantoso é que, quando olhamos para a Igreja, a vemos sobreviver sim, porém os puros, os talentosos e os fortes obviamente estão minoritariamente presentes.

Tão apenas o assombroso fato da sua sobrevivência contra qualquer espectativa já nos deveria prevenir para considerarmos logo qualquer uma das afirmações que a Igreja faz.

A Resposta

Primeiramente, a carta que recebi afirma ser uma resposta para o meu artigo “Para trazer beleza ao mundo”. Se me recordo bem, ali não se fazia menção à Alemanha nazista e eu só me referi à Igreja de uma maneira secundária. Por que se responde ao meu artigo trazendo à baila as supostas faltas da Igreja durante a Segunda Guerra Mundial? Será que não há coisa melhor para se fazer do que trazer à luz esse velho argumento do anticatolicismo bolchevique?

A Alemanha de Hitler: uma nação majoritariamente cristã?

Nosso crítico tenta desde logo ligar ao Cristianismo o êxito do movimento nazista, dizendo que a Alemanha, no tempo do governo de Hitler, era uma nação majoritariamente cristã.

Já ouvi muitíssimas vezes que a Alemanha era o país com o maior índice de analfabetismo do mundo no tempo da chegada de Hitler ao poder. Seguindo essa linha de raciocínio, qualquer um poderia culpar a educação escolar pelo advento do bárbaro regime nazista. De fato, qualquer um pode lançar a culpa a qualquer coisa que a Alemanha fosse nesse momento: o consumo de cerveja, aos pantalões tiroleses ou às boinas bávaras. Neste caso, o detrator faz uma vaga acusação à uma “maioria cristã da população”. Pois bem: esta ligação é justificável? De toda forma, Hitler não foi eleito diretamente pelo povo alemão. É sabido que foi eleito chanceler através de um acordo parlamentar costurado no Reichstag entre fantoches. Não houve eleições livres, tendo Hitler por candidato de um dos partidos. Hitler, no momento da sua ascenção ao poder, foi meramente o homem do momento em meio a uma profunda crise política e econômica.

Sabemos hoje o que é o Fascismo e podemos condenar o que Hitler eventualmente chegou a ser. O povo da Alemanha não teve, naquele momento, o benefício de saber as coisas que lemos hoje nas crônicas da época. Ademais, sabemos que, no início, o regime de Hitler produziu alguns bons resultados, amplificados em parte pelo fim catastrófico da República de Weimar. O governo de Hitler tinha ao menos uma faceta de legalidade e não é surpreendente que a Igreja alemã tenha lhe dado algum apoio, assim como também fez o povo alemão. No princípio, não era possível vislumbrar o que se passaria vários anos depois, em 1939.

Com efeito, podemos dizer que o Nazismo encontrou um terreno fértil na Alemanha, não porque os alemães, em sua maioria, professassem o Cristianismo (sendo a minoria católica), mas porque o regime anterior tinha falhado terrivelmente, pois tanto o povo quanto os políticos temiam a irrupção do Comunismo e Hitler “chegou a tempo” como restaurador da ordem social e econômica. Como se costumava a dizer nesses dias para justificar a sua permanência no poder: “Fez com que os trens cumprissem o horário”.

O Cristianismo teve bem pouco a ver com a ascensão de Hitler ao poder. A verdade é que ninguém gosta de caos e todos nós preferimos a prosperidade e não a miséria e insegurança. Na primeira parte do seu governo, Hitler – assim como Mussolini na Itália – foi capaz de restaurar a ordem pública. Qualquer um de nós, tendo vivido naquele tempo, teria aprovado o seu trabalho diante do desgoverno que o precedeu. Obviamente, se o povo alemão previsse numa bola de cristal os resultados futuros da loucura de Hitler, o teria rejeitado! Os primeiros dias do regime foram majoritariamente positivos; a tirania veio depois.

Mais adiante, na carta, o autor se aprofunda no suposto apoio dos cristãos ao regime nazista. Na minha opinião, percebe-se claramente que Hitler e os seus partidários não eram amigos do Cristianismo. Hitler deixou registrado o seu baixo conceito pelo Cristianismo em diversas ocasiões; um que me chamou a atenção foi este:

– “O Islamismo seria muito mais compatível conosco que o Cristianismo. Por que tivemos que escolher o Cristianismo com sua bela mansidão?”[2]

É certo que o Vaticano jamais excomungou Hitler apesar do seu comportamento público. Assim como Hitler não se interessava em receber a comunhão, sua excomunhão teria sido mais um gesto inútil. Por outro lado, há um aspecto do agir da Igreja que o autor da carta desconhece: o princípio da resposta proporcional. Falaremos disso em específico um pouco mais abaixo; por ora, basta dizer que uma medida espetacular como a excomunhão de Hitler ou o repúdio dos tratados diplomáticos anteriores não traria benefício algum. Pelo contrário, teria provocado uma reação violenta por parte dos nazistas. O Papa não é uma pessoa teórica, que irresponsavelmente fulmina com anátemas a partir da sua torre de marfim. Ele é o Pastor de centenas de milhões de almas e é seu dever protegê-las. Tivesse sido tolo a ponto de entrar em duelo com um regime bárbaro, em uma disputa inútil, [sua atitude] apenas poderia resultar em morte e sofrimento para o seu rebanho. É fácil perceber o porquê de Pio XII evitar essa postura e ter se concentrado em salvar tantos judeus e dissidentes quanto fosse possível. Sua política resultou na salvação de mais de 800.000 judeus, que escaparam da morte certa nos campos de extermínio nazistas.

A Resposta Proporcional

Durante os tempos do holocausto, Pio XII teve que lidar com um crescimento repentino do mal no mundo. Ao ingressar neste conflito, teve que tomar decisões críticas. Teve que determinar se uma boa ação (p.ex.: começar a promover discursos contra as atrocidades) eliminaria a maldade ou traria problemas ainda piores.

A historiadora católica Margherita Marchione[3] relata que durante uma audiência particular com o cardeal Paolo Dezza, em dezembro de 1942, Pio XII mencionou sua frustração com alguns que o pressionavam a falar das atrocidades nazistas. Aquelas pessoas não entendiam que os nazistas estavam esperando ouvir a mínima reação do Vaticano para golpear ainda de uma maneira mais pesada. A forma de agir da Santa Sé sempre se caracterizou pela prudência, por exemplo, durante a Revolução Bolchevique na Rússia. Os nazistas eram um novo inimigo com táticas semelhantes às dos bolcheviques. Obviamente, o Papa não podia nem sequer mencionar o esforço secreto que estava fazendo para tirar o máximo de judeus dos territórios ocupados pelos nazistas. Teve que manter o silêncio para evitar que ocorresse algo pior. Esta decisão não foi totalmente do Papa. Os bispos da Polônia e da Alemanha pediam a ele que não mencionasse publicamente estes problemas para não provocar uma medida retaliatória da parte dos nazistas. Lembravam-se da sangrenta represália de Hitler como resultado de uma carta dos bispos da Holanda. Hitler nunca respondeu a essa carta com palavras; o que fez foi deflagrar uma brutal campanha de deportação na Holanda em que milhares de católicos e judeus morreram, inclusive a freira Edith Stein e Anne Frank. A Igreja da Europa “entendeu a mensagem” de Hitler.

Enquanto isso, dentro de Roma e por toda a Europa, os conventos e mosteiros abriam as suas portas para ocultar milhares de judeus. Em Roma, centenas de judeus eram alimentados diariamente pelo Vaticano durante a ocupação alemã da Itália. O Vaticano libertou muitos deles pagando resgates em ouro. Como testemunho desses atos bem documentados da generosa caridade, temos o exemplo do Grão-Rabino de Roma, Eugênio Zolli (antes, Israel Zoller).

Em 5 de julho de 1944, o rabino Zoller foi recebido por Pio XII. Notas tomadas pelo Secretário de Estado do Vaticano, Giovanni Battista Montini (que posteriormente chegaria ao papado sob o nome de Paulo VI), demonstram que o rabino agradeceu ao Santo Padre por tudo o que fez para salvar a comunidade judaica de Roma. Seu agradecimento foi transmitido pelo rádio. Em 13 de fevereiro de 1945, o rabino Zolli foi batizado pelo bispo auxiliar de Roma, monsenhor Luigi Traglia, na Igreja de Santa Maria degli Angeli. Em agradecimento a Pio XII, Zolli tomou o nome de Eugênio (o nome de batismo do Papa era Eugenio Pacelli). Um ano depois, a esposa de Zolli e sua filha foram também batizadas.

No início da Segunda Guerra Mundial, a primeira encíclica de Pio XII chegou a ser tão antinazista que a Real Força Aérea britânica [RAF] e a Força Aérea francesa lançaram 80.000 cópias da mesma sobre toda a Alemanha[4]. Isto jamais teria ocorrido se o Papa fosse um aliado secreto de Hitler.

A Coalizão “Zentrum” e os Líderes Nazistas

A carta acusatória menciona que o Partido Zentrum e alguns dos seus líderes eram católicos ou, pelo menos, cristãos. É certo que Hitler até falou de uma “Nova Cristandade” e chegou a comparar as suas tropas com os santos cruzados dos tempos antigos… Como? Mentiras e manipulação saindo dos lábios de um político? O que é isto? Estou assombrado! Será que isto não tornaria a ocorrer novamente?[5]

Até encontramos no próprio texto da carta acusatória a seguinte declaração:

– “O Partido Católico Zentrum havia se oposto ao Vaticano durante a década de 1920, ao formar uma coalizão com os secularistas moderados da esquerda social-democrata”.

Para começar, o Zentrum nunca foi um partido católico, nem chegou a usar a palavra “católico” em sua denominação. Segundo: o Zentrum não aguardou o sinal do Vaticano para agir; como o autor da carta corretamente afirma, a atuação política do Zentrum não era do agrado da Santa Sé. Como é possível interpretar isto como: “os católicos” foram de importância “instrumental” para a ascensão de Hitler ao poder??? Está além da minha compreensão!

Recapitulemos brevemente: nesses dias, ninguém suspeitava o que Hitler estava por fazer; considerando o fim da República de Weimar, o nacional-socialismo era a única tábua de salvação que a Alemanha tinha à mão para evitar afundar em um caos ainda pior. Se apegaram fortemente a ele, não porque os católicos “o tornaram aceitável”, mas porque as outras opções eram: o caos da direita e a ditadura comunista da esquerda.

A carta menciona corretamente que as últimas eleições foram em 1934. Após isso, Hitler apenas cederia o poder a Marin Bormann em 1945, poucas horas antes de se suicidar com Eva Braun. Fico animado a dizer que foi o Partido Comunista alemão o responsável “instrumental” indireto a colocar Hitler no poder, visto que os alemães não queriam terminar como a Rússia.

A Concordata de 1933

A concordata entre o governo nacional-socialista e a Igreja Católica deve ser entendida no seu contexto histórico. Em 1933, o Fascismo havia mostrado melhor as suas verdadeiras cores. O Comunismo, no entanto, ameaçava a partir do Leste e a preocupação da Igreja era contê-lo antes que se apropriasse do coração do continente [europeu].

De todos os países da Europa, a Alemanha era o que possuía o partido comunista mais ativo e, possivelmente, o mais numeroso. O homem que negociaria a primeira concordata com o Kaiser foi Eugenio Pacelli, que posteriormente chegou ao papado como Pio XII. A concordata foi assinada com a Bavária em 1925 e foi um esforço da Igreja para garantir a liberdade da profissão da religião católica. Jamais houve uma aceitação ou aprovação ao regime do Kaiser ou do posterior regime de Hitler.

Em ambos os casos, a Igreja somente tentou garantir um nível de liberdade religiosa para os seus fiéis. Após o assassinato do governador Kurt Eisner, em 1919, muitos líderes religiosos e políticos deixaram a Bavária. Não agiu assim o cardeal Pacelli, que sempre foi popular e bastante querido até ser enviado para a Nunciatura de Berlim, em 1925.

No momento da sua partida, as ruas ficaram repletas de simpatizantes que agitavam lenços durante a passagem do novo núncio papal. Todos esperavam que uma concordata fosse logo assinada e que o novo núncio protegesse os direitos dos católicos a educar seus filhos na fé e a praticar em paz a sua religião. Alcançou-se um acordo em 1929, no entanto, os nazistas violaram os seus termos apenas algumas semanas mais tarde. Apesar disso, os nazistas não eram considerados perigosos até esse tempo. O verdadeiro perigo eram os comunistas, que tinham tomado a Rússia, perseguindo e matando cristãos. Os fascistas da Itália e os nazistas da Alemanha eram, então, considerados como uma das melhores opções contra o Comunismo. Recordemos que a Segunda Guerra Mundial não iria começar senão em 1939! Se comparássemos nessa época os nazistas aos seguidores de Mussolini, os fascistas italianos eram certamente os mais virulentamente anticatólicos, ainda que o fosse apenas na retórica e não nos atos concretos.

Espremida entre a parede e a espada, a Igreja preferiu focar-se em expor os erros do Fascismo. Não se podia criar um partido político alternativo para oferecer uma opção católica às forças políticas em jogo na Europa desses tempos. Apenas os Estados Unidos e os Aliados foram capazes de obrigar o continente a esquecer essas falsas opções, mas após uma guerra sangrenta e duas décadas de ocupação. Como se poderia esperar que o Papa pudesse alcançar o mesmo objetivo através da mera condenação a esses regimes ferozes?

Para informar os mal-informados

– Opor-se a todas as instituições humanas por serem “organizações”, sejam estas governamentais ou religiosas, não é algo prudente. Só um povo livre, sábio e moralmente formado pode dar o seu consentimento (e vigilância) tanto no campo político quanto no religioso. A religião precedeu o Estado na formação moral e intelectual das sociedades desde a aurora da História. Sem um limite moral, não há sociedade que possa se manter em ordem, mesmo apelando para o terror e a força extrema.

– Durante o século XX, numerosos sábios deixaram claro que a religião – ou culto – é o que ocupa o centro de cada cultura conhecida pela homem. Sem “religião organizada” que se contraponha ao governo, todos os governos inevitavelmente atribuem a si mesmos as características da religião organizada. Para quem não leu a obra “Leviatã” de Hobbes, pode aprender aí muito sobre este tema.

– A separação entre Igreja e Estado existe, na sua forma mais robusta, nos Estados cristãos, e na sua forma menos robusta sob outras religiões. Uma igreja fraturada pela Reforma Protestante impediu os alemães de falar sob uma só voz. Uma Igreja unida poderia ter oferecido uma oposição mais vigorosa contra Hitler quando este passou a demonstrar suas reais intenções.

– Foi Bismarck quem iniciou o processo de extirpar o Cristianismo da cultura alemã nos anos de 1870. Suas tentativas de eliminar a potência cultural e política da Igreja Católica na Alemanha – a assim chamada “Kulturkmapf” (=luta cultural) – foram parcialmente vitoriosas. Por outro lado, seus esforços contrários aos social-democratas (“sozialistengesetze”) não deram resultado, ainda que tenha sido durante o seu governo que a Alemanha implementou leis sociais consideradas progressistas para a época. A Alemanha chegou a estar quase totalmente secularizada no momento em que Hitler alcançou o poder. O Marxismo tinha chegado a ser como que uma religião para a esquerda, sendo os judeus colocados no rol dos bodes expiatórios.

– Dizer que a Alemanha estava de qualquer forma “sob a forte influência” da Igreja Católica é um argumento que contradiz toda a evidência histórica e o comentário social dos cronistas e testemunhas da época. Se Martin Heidegger estava “sob a influência católica”, eu sou o Papa! No mais, qualquer um pode se autoconsiderar católico. Por acaso não há “católicos” no Congresso (…) que apoiam o aborto? Desde quando a totalidade da Igreja é politicamente responsável por qualquer coisa que qualquer um faça em oposição à doutrina dessa mesma Igreja?

– Já em 1891, Leão XIII, na encíclica “Rerum Novarum”, condenou o Socialismo.

– Tanto Pio XI quanto Pio XII se expressaram claramente e de forma contundente contra o Comunismo e o Socialismo, e ainda contra toda forma de Totalitarismo. O Nazismo é uma forma de Socialismo, como bem expressa o seu nome “Nacional-Socialismo Alemão”. Para maiores precisões, ver a enciclíca “Mit Brennender Sorge” (=”Com ardente ansiedade”), de Pio XI.

– Em 1937, pelas encíclicas “Comunismo Ateu” e “Mit Brenneder Sorge”, Pio XI condenou explicitamente o Socialismo, incluindo o Nacional-Socialismo, ainda que não o apontasse pelo nome. Que Pio XII, posteriormente, tampouco apontasse os nazistas diretamente pelo nome, foi uma sábia decisão. Como disse certa vez Stálin: “Quantas divisões [de exército] tem o Papa?” Pio XII não possuía meio físico algum para proteger seus fieis expostos à represália dos nazistas. Recordava-se muito bem do que havia ocorrido na Holanda quando os bispos holandeses condenaram a invasão nazista. É óbvio que a “Mit Brennender Sorge” apontava para os nazistas: era escrita em alemão e foi especificamente distribuída aos bispos alemães com instruções para ser lida aos fieis de todas as paróquias católicas.

– A prudência exercida por Pio XII permitiu à Igreja colaborar na salvação de 800.000 judeus europeus que seguramente seriam exterminados. Por que, considerando todo o reconhecimento favorável de judeus renomados, a KGB e os progressistas de todo o mundo iniciaram uma campanha de mentiras contra a Igreja e o Papa? Para aqueles interessados em ler mais sobre as origens da lenda do “Papa de Hitler”, existe um artigo escrito por um ex-agente da KGB na Europa Oriental, Ion Mihai Pacepa, intitulado “O Ataque Soviético contra o Vaticano”.

Inexistência de Bases Históricas Honestas

O autor da carta nega-se a mostrar alguma evidência histórica concreta em suporte às suas afirmações, como por exemplo, citações de historiadores de renome e outras fontes respeitáveis. Sua carta copia largamente uma diatribe surgida no site “secularhumanism.org”, a ponto de repetir os erros de ortografia do original. O estilo “copiar-colar” do ensaio é, no entanto, um dos seus maiores defeitos. A desonestidade intelectual aparece de diversas formas, mas esta carta não é desonesta. Não há perigo de confundir o autor com um “acadêmico profissional”, não somente pela conspícua ausência de documentação e contradição frontal com a História conhecida, mas pelo candor com que admite que seu escrito é fruto das suas discordâncias. Ele próprio declara que seus estudos constituem mera opinião, uma diatribe contra aquelas coisas que ele não gosta. Então, que ninguém o incomode recordando-lhe os fatos concretos! Veja-se uma breve e interessante análise gráfica dos fatos na seguinte ilustração:


Alemanha: Ditribuição do voto nacional socialista e da população católica em 1934[6].

De onde vem a raiva do acusador? Talvez porque a Igreja não tenha feito nada por ele ultimamente. Há muitas pessoas, especialmente aquelas de tendência progressista, que gostariam que a Igreja desaparecesse. Não querem saber de uma “religião organizada” que lhes recorde do estilo de vida que escolheram. Desejam possuir um mundo em que não haja pontos de referência moral além da própria opinião. Por que a Igreja os incomoda? É porque a Igreja marcha diariamente em frente às suas casas reclamando para que se comportem de uma maneira cristã? É claro que não!

O que os incomoda é a própria existência da Igreja. Assim como a luz da manhã pode incomodar aquele que sofre a ressaca de uma bebedeira, também a doutrina cristã dói naqueles que ainda possuem um mínimo de consciência.

A Igreja: Sal na Ferida da Consciência Progressista

Desde os tempos da Reforma alemã continua crescendo o número de detratores que desejam difamar a Igreja Católica.

Para começar, chamei a atenção para o fato – irrefutável, na minha opinião – de que a Igreja tem estado ativa por mais tempo que qualquer outra instituição humana, firme como uma rocha. Nunca lhe faltaram inimigos poderosos… nem tempo para enterrá-los. Os Césares de Roma passaram e, com eles, o seu orgulhoso Império; os iluministas se foram e suas filosofias foram majoritariamente substituídas por novas formas de pensar, mais radicais e agressivas; Napoleão já não existe, tampouco Hitler ou Stálin… O vento da História os levou e nunca voltaram. Porém, a Igreja permanece aí com as suas fraquezas humanas, suas falhas, seus grandes triunfos e derrotas, seus santos e pecadores. A permanência da Igreja é um mistério que sublinha uma só coisa: sua transcendência. Floresce no mundo porque não é deste mundo. E se esse outro mundo existe, então esta realidade que agora vivemos, cedo ou tarde nos será revelada, talvez no momento final das nossas vidas ou, para nossa surpresa, no minuto inimaginável em que chegar o final dos tempos.

Nada pode atazanar mais a consciência do materialista ou do hedonista do que essa enorme Montanha que se nega a cair e que não pode ser removida da paisagem. Para eles é essencial eliminar essa vista por algum meio. Não sabem que estão lutando contra si mesmos, contra o ressoar dessa Voz que os chama à paz e à harmonia do lugar. Quando essa Voz não mais for ouvida, a Montanha continuará ali, porém não mais como um sinal de esperança, mas como a medida das profundezas da perdição.

– Obs.: Para confirmar com clareza a posição de Pio XII durante a Guerra, recomendo ler este artigo (em inglês): “British Historian Defends Pius XII”.

________
NOTAS:

[1] Carta em resposta ao artigo “Para trazer beleza ao mundo”, escrita pelo sr. G. B. Reproduzo a abaixo, em inglês, sem traduzir, para evitar suspeitas e para que se possa facilmente apreciar que os argumentos foram extraídos de um Site secularista de pouca ou nenhuma importância:
– “This note deals solely with Christianity and Nazism. My subsequent notes will take up a single issue. First, Nazism found fertile ground in Germany, an overwhelmingly Christian country. Most Germans at the time of Nazism’s original ideological propagation were Christians, at least on paper. If Germany’s Christians were opposed to Nazism their opposition was insufficient to prevent it’s growth and dominance. And certainly Nazism’s adherents, before and during Hitler’s reign, in civil society as well in the government came from the ranks of Germany’s Christians (whether they were devout or casual). Hitler himself was a Catholic. He never publicly renounced or repudiated his Catholicism. Nor did the Vatican ever excommunicate him for his crimes against humanity. Also Catholic were: Heinrich Himmler, Reinhard Heydrich, Joseph Goebbels and Rudolf Hess, who as commandant at Auschwitz-Birkinau pioneered the use of the Zyklon-B gas. Hermann Goering had mixed Catholic-Protestant parentage, while Rudolf Hess, Martin Bormann, Albert Speer, and Adolf Eichmann had Protestant backgrounds. Despite Catholicism’s minority status (about a third of the population), it was German Catholics and the Roman Catholic Church that put total power in the Nazis’ hands. The Catholic Zentrum party had antagonized the Vatican during the 1920s by forming governing coalitions with the secularized, moderate Left-oriented Social Democrats. This changed in 1928, when the priest Ludwig Kaas became the first cleric to head the party. Kaas and other Catholic politicians participated both actively and passively in destroying democratic rule, and in particular the Zentrum. Next, the Catholic (and stoutly right-wing) chancellor Franz von Papen engineered the key electoral victory that brought Hitler to power: he dissolved the Reichstag in 1932, then formed a Zentrum-Nazi coalition. In 1933 he made Hitler chancellor and stepped down to the vice chancellorship. Without Papen’s aid, Hitler’s aggrandizement would have been much less likely. The Catholic Church in Germany congratulated Hitler when he assumed power (you could look it up). German bishops released a statement that nullified all previous criticism of Nazism by proclaiming the new regime acceptable. They also ordered the laity to be loyal to Hitler’s regime just as they had commanded loyalty to previous regimes. So, Catholics were instrumental in bringing Hitler to power and subsequently served in his cabinet and later throughout the totalitarian state apparatus including the SS of which they comprised 25 percent by the end of WWII. This was a volte face for the Catholic Church and it was a profound realignment as the Catholic vote for the Nazis increased in the last multi-party elections after Hitler assumed control, I believe in 1934. After the Reichstag fire, the Zentrum voted en masse to support the infamous Enabling Act, which would give the Hitler-Papen cabinet executive and legislative authority independent of the German Parliament. It was the Catholic Zentrum’s bloc vote that cemented the two-thirds majority needed to pass the Act. (Most German Catholics, like most German Christians, were dubious of democracy. The fact is: the Christian German electorate democratically voted to empower Hitler dictatorially.) Next came Hitler’s first foreign policy coup: the Concordat of 1933 between Nazi Germany and the Vatican. In courting the Vatican, Hitler emphasized his own Catholicism. At the time the Vatican was comfortable with fascism having negotiated a Concordat with Mussolini in 1929. Kaas, Papen, the future Pope Pius XII and the sitting Pius XI were the principal negotiators of the Concordat. Most German bishops gave their approval to the pact. A few bishops objected. Catholic criticism of the Nazi regime, such as it was, cited its lack of morality, but never its lack of democracy. With the signing of The Concordat in 1933, the Catholic Church supported the new dictatorship with its explicit endorsement of the end of democracy and free speech in Germany. The agreement bound the church’s German bishops to the Third Reich by means of a loyalty oath. In exchange the church received: tax advantages, protection for church privileges and reinstatement of religious instruction and prayer in school. Naturally, criticism of the church was forbidden. And there is no record of the Catholic Church ever having attempted to revoke the Concordat and its loyalty clause during Hitler’s regime. I believe the Concordat is the only diplomatic accord negotiated with the Nazis that actually remains in effect. (However, I’m not certain of this fact.) So, with the rise of the German total state, the police state as it were, German Christians mostly joined, supported, collaborated with, or otherwise accommodated Nazism’s tyranny. Ditto for Germany’s Mormons, and Seventh Day Adventists. On the the intellectual level the eminent philosophers Martin Heidegger and Karl Schmitt, both Catholics, were also Nazis and provided additional prestige for Nazism’s ideological and philosophical principles. Scholars believe that as rector of Freiburg University, Heidegger sought to become Nazism’s spiritual and intellectual leader. Maybe so. Anyway, his writings during the period of the Third Reich indicate he believed Nazism would bring about a new world philosophical point-of-view similar to that which the intellectual accomplishments of ancient Greece initiated. Catholicism and Nazism were perfectly consistent with Schmitt’s view that authority, order and the definition of who one’s enemies and friends are in the struggle to control scarce resources is the aim of political and civil life. Well, broqui I’ve already spent more time than I’d planned to allocate (and exceeded my brevity limits) in compiling this brief record of Christianity’s complicity with Nazism. My essay is based on my own casual (not scholarly) examination of the historical records (over a period of decades) of the era. Since I’m not a full-time academic I can’t supply a comprehensive set of footnotes citing chapter and verse of my source materials. (I literally don’t have time to comply with your request to do so.) In the interest of fairness I will admit my biases: I don’t trust government, any government. I don’t trust organized religions, any organized religions. I’m disposed to look for the worst in both institutions. In the case of the Catholic Church and its relationship with Nazism I don’t have to look far or deep as far as I’m concerned. If the facts of its relationship with Nazism (rather than various interpretations of those facts) are otherwise I will stand corrected and appropriately contrite for having defamed and slandered that institution for its role for all these years.”
[2] “Righteous Gentiles: How Pope Pius XII and the Catholic Church Saved Half a Million Jews from the Nazis” (2005), Ed. Spence Publishing. Ronald J. Rychlak, MDLA Professor de Direito e Decano Associado de Assuntos Acadêmicos da Universidade de Mississipi.
[3] “Pope Pius XII: Architect For Peace”, Margherita Marchione. Ed. Gracewing, 2000.
[4] “The Myth of Hitler’s Pope: How Pope Pius XII Rescued Jews from the Nazis”, pelo rabino David G. Dalin, Washington, D.C., Ed. Regnery Publishing Co., 2005.
[5] Ironia. Esta referência é apenas para aqueles que não perceberam.
[6] Figuras A e B. Uma comparação interessante que mostra a distribuição do voto nazista (figura A) e a distribuição da população católica. Fica notório que quanto mais católica é a área da residência, menor é o apoio recebido pelos nazistas. Na figura B, as partes mais escuras representam áreas em que os católicos são maioria: no sul, a Bavária, a região é tradicionalmente católica; o centro da Alemanha é onde normalmente os protestantes são maioria. Observe-se a parte noroeste da Alemanha, Prússia oriental e ocidental. A Prússia é totalmente protestante, exceto o centro, a Ermland. As partes sombreadas são mais católicas e as mais claras são majoritariamente protestantes. Naquela época, como agora, o Cristianismo “nominal” era – e é – mais comum entre os protestantes.
Fig. A – Porcentagem de votos nacional-socialistas, em 31 de julho de 1932. Média nacional: 37,4%
(1) Área mais escura (voto nacional-socialista superior a 50%)
(2) Área com linhas horizontais (voto nacional-socialista entre 40% e 50%)
(3) Área com linhas verticais (voto nacional-socialista entre 37,4% e 40%)
(4) Área pontilhada (voto nacional-socialista entre 35 e 37,5%)
(5) Área branca (voto nacionalsocialista entre 0% e 35%)
Fig. B – Porcentagem de católicos na Alemanha (Censo de 1934)
(1) Área mais escura (população católica de 85% a 100%)
(2) Área com linhas horizontais (população católica de 70% a 85)
(3) Área com linhas verticais (população católica de 50% a 70%)
(4) Área tracejada (população católica de 40% a 50%)
(5) Área pontilhada escura (população católica de 30% a 40%)
(6) Área branca (população católica de 0% a 30%)

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