Pede-se muito, hoje em dia. Como crianças pequenas, que não conseguem comer sozinhas e dependem dos pais para que o “aviãozinho” de papinha lhes chegue à boca, as pessoas têm, na prática, abdicado do exercício da cidadania em prol dos políticos.

Pede-se tudo a eles: a educação que os próprios pais deveriam dar aos filhos, as árvores que o próprio morador deveria plantar diante da casa, a segurança que só pode ser feita de modo eficaz por quem está no local; tudo é demandado, e nada é feito por quem tem condições efetivas de fazê-lo.

Ora, a sociedade – felizmente! – não é algo construído pelo Estado. Quando ele tenta, o que sai é algo como a Coreia do Norte. A ele compete fazer o que no momento não pode ser feito por quem está mais próximo do problema, como os pais que dão papinha na boca até que a criança seja capaz de comer sozinha. Ela vai se lambuzar bastante de feijão no começo, mas é uma passagem necessária (que, aliás, rende boas fotos!).

O que vem de cima é ineficiente. Sempre. Uma organização centralizada sempre vai tentar vestir a todos com o mesmo tamanho de roupa, alimentar com garfadas do mesmo tamanho, resolver questões diferentes do mesmo modo.

Exercer ativamente a cidadania não significa pedir. Significa, sim, comportar-se como adulto, e fazer o que nos é possível. Organizar-se para construir em mutirão um sistema de esgoto numa favela, em vez de demandá-lo e assim se tornar dependente de um político. Plantar árvores, em vez de implorar por elas. Ministrar aulas de reforço, em vez de só reclamar porque os pobres professores mal pagos da rede pública nada conseguem ensinar a dezenas de crianças trancadas numa sala mal equipada. Montar uma agenda de vigilância do bairro, para que os próprios moradores possam perceber crimes em andamento e chamar a polícia, em vez de demandar que o efetivo da PM se multiplique ao ponto de se ter um guarda em cada esquina. Um guarda, aliás, que, ao contrário dos moradores, não tem como saber o que é normal e o que é suspeito, e – por ser impossível sua missão – pode acabar cometendo injustiças.

Só quem vive o problema e está perto dele pode propor soluções eficazes. Só quem conhece pessoalmente uma realidade pode transformá-la. Os políticos usam os problemas da população como moeda de troca: instalam esgoto em troca de votos. É um escambo que se pode fazer se não há outro jeito, mas não é nem desejável nem normal que seja assim.

Cidadania real é participação real, não só digitação de números a cada dois anos.

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