O semanário litúrgico-catequético “O Domingo”, da Editora Paulus, é dos mais lidos e divulgados em paróquias de todo o Brasil. Sempre, ao final dos textos litúrgicos, há pequenos artigos dispostos em colunas. Neles, os temas variam ao longo do ano. Atualmente, uma série de artigos denominada “Documento de Aparecida” vem sendo publicada, transmitindo uma visão particular do documento do CELAM.

Apresento abaixo a coluna do último dia 22 de junho de 2008 (12° Domingo do Tempo Comum), assinada por Cecília Domezi, adicionando grifos meus ao texto original, e os devidos comentários na cor azul.

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Uma Igreja para o mundo que queremos

Entramos numa mudança de época, com impressionante progresso científico e tecnológico, mas também com o agravamento das velhas injustiças sociais e o surgimento de novas injustiças. No entanto, outro mundo é possível!

A expressão “outro mundo possível” é bastante conhecida nos meios esquerdistas. É o slogan do Fórum Social Mundial, um evento ligado a organizações e entidades socialistas, de esquerda, cuja primeira edição aconteceu em Porto Alegre, em 2001. De acordo com sua própria Carta de Princípios:

 “o Fórum Social Mundial é um espaço plural e diversificado, não confessional, não governamental e não partidário, que articula de forma descentralizada, em rede, entidades e movimentos engajados em ações concretas, do nível local ao internacional, pela construção de um outro mundo.”

A autora utiliza-se, portanto, do slogan de um movimento “não confessional”, aplicando-o à Igreja Católica. Note-se que o título, logo de início, dá a entender que a Igreja, na visão da autora, deve estar subordinada ao “mundo que queremos”. Deve estar voltada para ele e ser instrumento para sua construção. Ora, sabe-se que por trás do discurso em prol do “outro mundo” e da crítica radical ao neoliberalismo e ao capitalismo há na verdade o desejo da implantação da sociedade socialista. “Outro mundo” não passa de uma maneira disfarçada de chamar o socialismo/comunismo. E não se pode ser católico e socialista ao mesmo tempo (1). Não tem cabimento sugerir que a Igreja Católica está ou deveria estar voltada para a construção de um “mundo” já condenado como errôneo por ela mesma. No contexto de uma série de artigos, fica a idéia de que o Documento de Aparecida recomenda esse absurdo.

Um mundo onde ninguém fique excluído, mas os bens sejam partilhados; onde a vida de todas as pessoas e grupos seja dignamente promovida, desde o pão de cada dia até a dimensão transcendente; onde se cultive respeitosamente a vida do ser vivo que é a terra, com toda a sua biodiversidade.

Aqui há uma primeira menção à questão ecológica, a nova “mania” dos movimentos ligados ao socialismo. A Campanha da Fraternidade desse ano de 2008 teve como tema a defesa da vida, sendo muito importante a luta contra o aborto. Sabe-se que alguns setores da Teologia da Libertação (que está intimamente ligada aos movimentos e partidos socialistas) defendem a descriminalização do aborto. O que se viu, então, foi uma tentativa mais ou menos explícita de “desviar” o assunto do aborto para a ecologia. Da vida humana para a vida vegetal e animal.

O Documento de Aparecida afirma que a Igreja deste continente quer lançar-se com novo ardor e sem medo, em seu estado de permanente missão (DA 551). Para isso, ela acata “o que o Espírito diz às Igrejas” (Ap 3).

Essa é a única parte do artigo em que a autora cita de fato o Documento de Aparecida. Note-se também que o pequeno trecho citado não tem conexão nenhuma com o resto do artigo, que foi tirado das idéias da própria autora. Não deveria haver mais citações, já que a finalidade da série de artigos é apresentar e comentar o referido Documento? A autora, entretanto, não parece muito preocupada em citá-lo, prefere escrever livremente. A impressão é que o Documento contém as idéias da autora. Obviamente, isso é inverídico. Mas creio que esse foi o efeito deliberadamente almejado.

Nossa missão, como Igreja, é defender e promover a vida numa atitude humanista orientada para a justiça e a igualdade, por meio de ações concretas e solidárias e de intercâmbios e parcerias com outras Igrejas, outras religiões e outras formas de humanismo.

 

O que quer dizer exatamente “atitude humanista” e “outras formas de humanismo”? Qual a real concepção da autora sobre o Ecumenismo? Será que essa concepção encontra-se em consonância com o que é proposto pela Igreja Católica?

Seguimos o Concílio Vaticano II, que se deslocou do dogmatismo para uma atitude pastoral, no diálogo e na permanente abertura aos “sinais dos tempos”.

É por causa de textos como esse que há tantos mal-entendidos sobre o Concílio Vaticano II (CVII). De fato, falou-se muito em pastoral no Concílio. Mas, do jeito que a autora escreve, não parece que os Padres conciliares falaram algo do tipo: “Vamos deixar esses dogmas ultrapassados de lado, que eles só atrapalham o diálogo ecumênico…”??? O Magistério da Igreja Católica não pode aceitar que seus  ensinamentos dogmáticos sejam considerados um “dogmatismo” isto é, “uma chave decifradora válida para um determinado tempo e circunstância, mas não para todos os tempos e de forma exclusiva” (2), pelo simples fato de que os dogmas são essenciais para a expressão de nossa religião católica, para o seu correto entendimento e para a sua vivência livre de erro. Além do mais, não há contradição entre os dogmas e a atitude pastoral.

No CVII há documentos dogmáticos, tais como Lumen Gentium e Dei Verbum. A interpretação autêntica dos ensinamentos do CVII é feita pelo Magistério da Igreja Católica. Interpretações subjetivas são inaceitáveis. Infelizmente, as virtudes da obediência, da humildade e da fidelidade não são valorizadas por muitos sacerdotes, religiosos e religiosas, teólogos, e cristãos leigos. A falta das citadas virtudes é uma das causas das interpretações aberrantes do CVII. Sua interpretação equivocada leva a um relativismo religioso e a um cristianismo dessacralizado, secularizado, laicizado, esvaziado de sua unicidade, que se torna apenas um humanitarismo dialogante com todas as culturas e crenças com o objetivo de implantar aqui o “Reino de Deus”. Jesus está apenas no pobre oprimido e explorado. Dentro dessa mentalidade, a evangelização não é pregar Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, mas a fraternidade universal na qual todas as religiões, crenças, filosofias de vida têm o mesmo valor, são reveladas igualmente por Deus. Lembre-se que o Fórum Social Mundial é “não-confessional”… Nessa visão, os dogmas de fé ensinados pelo Magistério da Igreja Católica seriam uma arrogância, uma atitude de opressão, de dominação sobre as outras culturas.

Por fim, a autora fala em “sinais dos tempos”. O que quer dizer com isso?

Esses sinais estão hoje nas pequenas organizações solidárias que unem e articulam tantos anônimos recicladores de materiais descartados; nos movimentos que lutam em defesa de nossos biomas; nas múltiplas ações solidárias que educam, reivindicam, propõem e criam condições para o mundo que sonhamos. São sinais do reino de Deus.

Aqui está implícita a idéia de que o “Reino de Deus” é, simplesmente, o “mundo que sonhamos”. Deve-se alertar sempre para o fato de que a expressão “mundo que sonhamos” é muitas vezes utilizada como eufemismo para o socialismo/comunismo. “Pra bom entendedor meia palavra basta”. Note-se que a autora nunca é explícita, portanto não se pode acusá-la diretamente de heterodoxia. Afinal, quem não concordaria que devemos ajudar os pobres e preservar o planeta? Não há dúvida que a autora propõe algo louvável. Todos devemos ser solidários para com o próximo, em especial para com os mais pobres, e devemos respeitar a natureza e as outras culturas. Tudo isso é muito bom. Mas ficar só nisso é muito pouco. O cristianismo é muito mais do que isso.

Uma Igreja a serviço da vida, num mundo de justiça e fraternidade, tem de ser uma Igreja sacramento do reino: povo de Deus que caminha, testemunha do Cristo ressuscitado, aberta à constante renovação no dinamismo do Espírito, inserida entre os pobres que lutam, profética e portadora de esperança. Uma Igreja de comunidades vivas, em relações igualitárias e verdadeiramente fraternas. Uma Igreja como Maria, que canta o Magnificat de coração aberto à Palavra, que diz SIM ao projeto de Deus e NÃO aos projetos dos dominadores.

 Cecília Domezi

 

“Dominadores” é um jargão marxista bastante utilizado atualmente. A autora poderia ter usado “burguesia”, que teria o mesmo efeito. Ao terminar a leitura do artigo, tem-se a impressão de que é uma necessidade de fé alistar-se ao Movimento dos Sem-Terra (MST), por exemplo, que é uma das organizações participantes do Fórum Social Mundial, e que, portanto, “cria condições para um outro mundo possível”.

Esse artigo de Cecília Domezi é típico da Teologia da Libertação de índole marxista. Sua mensagem é positiva, mas não tem nada a ver com a essência do cristianismo. Expressões como “conversão pessoal”, “pecado” e “graça santificante” nunca são usadas, pois são consideradas fruto de um “dogmatismo” que deve ser eliminado. O cristianismo passa a ser apenas um humanitarismo laico imerso na fraternidade universal das ONGs e dos partidos políticos. Tudo é um ativismo, um fazer, um realizar, um libertar. O principal é a ação. Para a Teologia da Libertação, é a ação que realmente liberta e salva, não Jesus.

NOTA

(1) “Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista.”  (Papa Pio XI, Encíclica Quadragesimo Anno)

(2) cf. Capítulo X: “Eclesiologia Limitante de Leonardo Boff”, descrito nas páginas 301-304 do livro de Frei Boaventura Kloppenburg, “Libertação Cristã – Seletos Ensaios Teológicos”, EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999.

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