Liturgia

Comentários às leituras da solenidade de todos os santos – ano b

TODOS OS SANTOS
01.11.2009: ANO B
Cor: Branca

“Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mateus 5,48)


1ª LEITURA: APOCALIPSE 7,2-4.9-14

Eu, João,
2. vi um outro anjo, que subia do lado onde nasce o sol. Ele trazia a marca do Deus vivo e gritava, em alta voz, aos quatro anjos que tinham recebido o poder de danificar a terra e o mar, dizendo-lhes:
3. “Não façais mal à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus”.
4. Ouvi então o número dos que tinham sido marcados: eram cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel.
9. Depois disso, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão.
10. Todos proclamavam com voz forte: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro”.
11. Todos os anjos estavam de pé, em volta do trono e dos anciãos e dos quatro seres vivos, e prostravam-se, com o rosto por terra, diante do trono. E adoravam a Deus, dizendo:
12. “Amém. O louvor, a glória, o poder e a força pertencem ao nosso Deus para sempre. Amém”.
13. E um dos anjos falou comigo e perguntou: “Quem são esses vestidos com roupas brancas? De onde vieram?”
14. Eu respondi: “Tu é que sabes, meu senhor”. E então ele me disse: “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro”.
– Palavra do Senhor.

A História vai se desenvolvendo pouco a pouco e está chegando ao seu término. A abertura dos “sete selos” – tal como descrito no Livro do Apocalipse – impõe um rítmo a esta duração e vai mostrando os seus elementos à medida que são revelados (capítulo 6 e seguintes). O fragmento de hoje insere-se entre o sexto e o sétimo selos – ou seja, o último – como uma grande liturgia que, ao mesmo tempo, cria expectativas e promessas para o futuro.

Esta liturgia celebra, com efeito, a salvação já presente. Essa salvação é destinada a uma “multidão imensa” (versículo 9), a todos os “que vieram da grande tribulação”; os que “lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro” (versículo 14). Trata-se, consequentemente, de uma salvação universal, aberta a todos, em particular a todos os que se submetem de alguma maneira à perseguição (“thlipsis”, “tribulação”, converte-se no sinal de toda perseguição) e saem dela purificados.

Como premonição e sinal desta salvação, surge um grupo eleito assinalado com “a marca do Deus vivo”. Não está claro o significado desta marca/selo: tratar-se-ia de uma citação de Ezequiel 9,4? Da unção batismal? Da cruz? Provavelmente resta mais fácil identificar os “cento e quarenta e quatro mil” (versículo 4) que se encontram marcados com ele: são a plenitude do novo Povo de Deus, o Israel renovado em todos os seus componentes e colocado na História como sinal de que o poder de Deus se revelou nos seus “servos” (versículo 3).

* * *

SALMO RESPONSORIAL 23 (24)

R.: É assim a geração dos que procuram o Senhor!

1. Ao Senhor pertence a terra e o que ela encerra,
o mundo inteiro com os seres que o povoam;
porque Ele a tornou firme sobre os mares
e, sobre as águas, a mantém inabalável. – R.

2. “Quem subirá até o monte do Senhor,
quem ficará em sua santa habitação?”
“Quem tem mãos puras e inocente coração,
quem não dirige sua mente para o crime. – R.

3. Sobre este desce a bênção do Senhor
e a recompensa de seu Deus e salvador.
É assim a geração dos que O procuram
e do Deus de Israel buscam a face”. – R.

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2ª LEITURA: 1JOÃO 3,1-3

Caríssimos,
1. vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai.
2. Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é.
3. Todo o que espera nele purifica-se a si mesmo, como também Ele é puro.
– Palavra do Senhor.

Este fragmento faz parte da seção da Primeira Carta de João que põe em foco a justiça de Deus (2,29-4,6). A marca que permite reconhecer aquele que “nasceu de Deus” é a capacidade de operar a justiça e de não cometer pecado (2,29; 3,9).

A adequação da vida à justiça de Deus poderia parecer uma tarefa desmensurada, mas esta Carta nos ajuda a compreender que isso não é simples fruto da ascese ou de lutas gloriosas: o filho do Justo tem a capacidade de operar a justiça não por simples mérito seu, mas a recebe Daquele que lhe gera a vida (2,29), da mesma forma que quem recebe a luz é iluminado interiormente por ela e pode ver, inclusive, como Deus é, apoiando Seu olhar (3,2 e seguintes).

A experiência da filiação divina, a experiência de dever ao Pai a própria vida de fé e amor nos céus (cf. 5,1-4) repete-se diversas vezes ao longo da Carta (“tekna”, “teknia”: 2,1.12.28; 3,1.2.7.10.18; 4,4; 5,2; sendo que o termo “hyios” assume agora uma conotação técnica destinada a expressar a pessoa do Filho de Deus, cf. 1,3.7; 2,22-23; 3,8.23; 4,9.10.14-15), revelando-se, portanto, como experiência originária dos cristãos.

Se parece obscuro o que falta ainda para a consumação desta filiação, é porque será revelada quando for reconstruída a nossa semelhança com Deus (3,2).

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EVANGELHO: MATEUS 5,1-12

Naquele tempo,
1. vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se,
2. e Jesus começou a ensiná-los:
3. “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus.
4. Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados.
5. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
6. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
7. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
8. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
9. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados ‘filhos de Deus’.
10. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
11. Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós por causa de mim.
12. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”.
– Palavra da Salvação

O Evangelho segundo Mateus pode ser estruturado em torno de cinco grandes discursos que acompanham o decorrer dos capítulos. O primeiro grande discurso, que começa neste fragmento, amplifica e desdobra o anúncio profético originário de Jesus: “Convertei-vos, pois o Reino dos Céus está próximo” (Mateus 4,17; cf. 3,2; 10,7). É como uma grande fixação de temas e palavras, formando assim um quadro global de forte efeito.

Nesse fragmento, pode-se sublinhar, em primeiro lugar, a fórmula das bem-aventuranças: todas encontram-se construídas segundo um modelo semelhante. Parte-se da proclamação da bem-aventurança, que se dirige sempre a categorias “fracas” na História, para anunciar que esta fraqueza está posta nas mãos de Deus (este é o sentido da forma passiva e do tempo futuro dos verbos). Com efeito, em todas elas a promessa contida na segunda parte corresponde à expectativa da primeira. Aos que choram lhes corresponde o consolo de Deus (versículo 4); aos humildes, Deus lhes entregará a terra (versículo 5); aqueles que têm fome e sede dejustiça (ou “de fazer a vontade de Deus”, segundo outras traduções), Deus os saciará (versículo 6); com os que têm um coração misericordioso, Deus se lhes mostrará misericordioso (versículo 7); Ele se mostrará plenamente transparente àqueles que têm coração puro (versículo 8); e tomará como filhos e filhas aqueles que constroem a paz (versículo 9).

Deste esquema geral destacam-se, de certa maneira, a primeira e a oitava bem-aventuranças, que proporcionam uma grande inclusão, visto que ambas prometem “aos pobres em espírito” (versículo 3) e “aos perseguidos pela justiça” (ou “por fazer a vontade de Deus”, conforme outras traduções; versículo 10) o Reino dos Céus. Estas duas bem-aventuranças adquirem assim uma densidade especial, enquanto que a última aplica este anúncio evangélico à situação de perseguição pela qual passa a comunidade cristã (versículos 11 e seguinte). O “Reino dos Céus” converte-se, deste modo, na senha que permite compreender as bem-aventuranças e, além destas, todo o Evangelho (confrontar, a título de exemplo, as parábolas que se encontram em Mateus 13).

Finalmente, podemos sublinhar o fato de que existe uma última expressão ligada ao Reino dos Céus: trata-se da palavra “justiça” (ou “vontade de Deus”, segundo outras traduções; 5,10; cf. 6,33). O seu sentido não corresponde a nenhuma atitude legalista, que inclusive é condenada expressamente em 5,20. “Justiça” ou “vontade de Deus” remetem, aqui e em outras passagens, ao desígnio do Pai sobre a História e à transformação que o próprio Deus provoca na mesma. Assim, a exortação final desta primeira parte do Evangelho, à primeira vista excessiva, é na realidade anúncio da verdade do cristão como filho de Deus: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (versículo 48).

* * *

HOMILIA PATRÍSTICA: “SETE SÃO AS BEM-AVENTURANÇAS QUE APERFEIÇOAM; A OITAVA ESCLARECE E DEMONSTRA O QUE É PERFEITO”

“Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus”: Oito são, portanto, o número total das bem-aventuranças, pois o que vem a seguir é dito para instar os presentes: “Bem-aventurados quando vos injuriarem e perseguirem”. As sentenças anteriores foram enunciadas de uma maneira genérica, pois não disse: “Bem-aventurados os pobres em espírito porque vosso é o reino dos céus”, mas “porque deles é o reino dos céus”. Nem: “Bem-aventurados os mansos, porque vós possuireis a terra”, mas “porque eles possuirão a terra”. E dessa forma seguem as demais sentenças, até a oitava, que diz: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus”. A partir desse instante, [Jesus] já começa a falar instando os presentes; porém, assim como o que disse anteriormente referia-se aos ouvintes imediatos, o que acrescentou a seguir e que dá a impressão de ser dirigido aos que ali estavam presentes, refere-se igualmente aos ausentes e aos que virão posteriormente.

Por isso, precisamos considerar com todo cuidado a ordem destas bem-aventuranças. A série começa com a humildade: “Bem-aventurados os pobres em espírito”, isto é, os insatisfeitos consigo mesmos: a alma se submete à divina autoridade temendo que, após esta vida, tenha que vir a sofrer o castigo, mesmo quando às vezes tenha se sentido feliz na vida presente. Por este caminho chega ao conhecimento das Sagradas Escrituras, no que há de mostrar-se sofrida na piedade, sem se atrever a vituperar o que, aos não-iniciados, lhes parece absurdo e, pelo caminho dos debates em que reina a teimosia, cair na imansidão. Então a alma começa a descobrir quais são os laços com que o mundo pretende escravizá-la: a sensualidade e o pecado. Assim que, neste terceiro grau, em que se encontra a ciência, se deplora a perda do Sumo Bem ao ter aderido a bens opostos. O quarto grau é difícil: nele a alma se dedica com veemência a se desembaraçar de tudo quanto a escraviza com laços doces, porém mortais. Neste grau, sente-se fome e sede de justiça e é bastante necessária a fortaleza, pois não se abandona sem dor o que se retém com alegria.

Aos que perseveram no quinto grau ainda se lhes é dado um conselho para superar o cansaço, pois a menos que sejam ajudados por alguém mais forte, ninguém é capaz de libertar-se por si mesmo das implicações de tantas infelicidades. Existe um conselho justo: quem quer ser ajudado por alguém mais forte que ele, esteja disposto também a ajudar, na medida das suas possibilidades, aquele que é mais fraco. Por isso, disse o Senhor: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”.

Em sexto lugar vem a pureza de coração, que brota da boa consciência na boa obra e que abre o caminho para a contemplação do Sumo Bem: apenas uma mente pura e serena é capaz de ver a Deus.

A sétima bem-aventurança é a própria sabedoria, isto é, a contemplação da verdade, que pacifica o homem em sua plenitude, acentuando a sua semelhança com Deus e que é concluída assim: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados ‘filhos de Deus'”.

A oitava bem-aventurança retorna ao tema inicial, pois demonstra e prova que o conduziu ao cumprimento perfeito. Com efeito, na primeira e na oitava [bem-aventurança] faz-se menção ao reino dos céus: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus”; e: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus”. Consequentemente, foi dito: “Quem poderá nos afastar da caridade de Cristo? A aflição? A angústia? A fome? A nudez? O perigo? A espada?”

Portanto, sete são as bem-aventuranças que aperfeiçoam, enquanto que a oitava esclarece e demonstra o que já é perfeito, de modo que, através destes dois graus, como se começasse sempre novamente, se aperfeiçoam os demais [graus].

(Santo Agostinho de Hipona; Do Sermão do Senhor na Montanha 1,3,10 [CCL 35,7-9]).

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MEDITAÇÃO

A Santidade pertence apenas a Deus e ninguém pode jamais reclamá-la para si. A distância entre o nosso caráter de criaturas e o Criador, a separação entre os nossos desejos e as nossas realizações, a necessidade de prestar contas aos nossos compromissos e dores na História nos impedem crer que a nossa filiação divina nos é algo devido. A partir deste ponto de vista, o balanço da História é ainda mais ruinoso: não somos santos.

Contudo, podemos construir a santidade em parte, harmonizando nossa própria vida com o desígnio da justiça que Deus planejou para o mundo. Assim o fazem “os pobres em espírito”, que não conseguem encontrar neles mesmos razões para seguir adiante e se confiam ao grão de mostarda do Reino de Deus. Assim o fazem os “servos” do Senhor, que tentam imitar a obra misericordiosa de Deus na História para converterem-se em um possível sinal de salvação, em um pouco do fermento do Reino de Deus.

Tratam-se de tarefas desmensuradas, que ninguém consegue chegar a termo por si mesmo. Apenas se nos confiamos àquela parte todavia não revelada de nós mesmos, à semelhança que nos torna filhos e filhas de Deus e amados por Ele; apenas se cremos e nos confiamos com fé e amor à promessa do nosso batismo, chegaremos a compreender como a salvação já faz parte da nossa vida e que é próprio da Santidade de Deus sustentar a nossa santidade.

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ORAÇÃO

Pai Santo: tu nos tens chamado de filhos teus. Nós te damos graças por tua Santidade, que conduz a História. Embora não compreendamos perfeitamente o que significa sentir-nos amados pela tua Santidade, mantens viva em nós a imagem que projetaste para cada um.

Filho Justo do Pai: tu nos abriste uma passagem na História, onde conseguimos enxergar como age o Pai na História e como o Filho opera nela. Ajuda-nos a imitar a tua Filiação única; faz-nos capazes de nos confiarmos ao Pai.

Espírito de Justiça e Santidade: se tu não purificares os nossos corações, nunca seremos capazes de abrir os nossos olhos ao olhar de Deus; nunca seremos capazes de cantar os louvores de Deus na liturgia; jamais conseguiremos chamar-nos “filhos”. Infunde em nosso coração a capacidade de ouvir a voz do Pai que nos chama seus “filhos amados”.


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