Liturgia

Comentários às leituras do 29º domingo do tempo comum – ano b

29º DOMINGO DO TEMPO COMUM
18.10.2009: ANO B
Cor: Verde

“Vos dei exemplo para que façais o que fiz convosco” (João 13,15)

1ª LEITURA: ISAÍAS 53,10-11

10. O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos. Oferecendo sua vida em expiação, ele terá descendência duradoura e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor.

11. Por esta vida de sofrimento, alcançará luz e uma ciência perfeita. Meu servo, o justo, fará justos inúmeros homens, carregando sobre si suas culpas.

– Palavra do Senhor.

Esta perícope apresenta em síntese a mensagem teológica e espiritual do “4º Canto do Servo de YHWH”.

Este título possui um sentido honorífico na Bíblia: refere-se a um homem eleito previamente pelo Senhor para ser instrumento da sua obra de salvação. Porém, a ação do misterioso personagem, que dá nome aos quatro cantos do Deutero-Isaías, parece destinada, desde o princípio, não apenas ao fracasso, mas também à incompreensão e ignomínia (v. versículos 2a e 3a). Considera-se que foi castigado por Deus muito embora cumpra a missão que lhe foi confiada (v. versículo 1): uma missão que consiste em carregar “sobre si” as consequências do pecado de todos (cf. versículo 11b), isto é, “o castigo que nos procura a salvação” (versículo 5).

Os versículos 10 e seguintes, em particular, revelam que tudo o que se obtém mediante o sofrimento aceito com docialidade pelo Servo inocente (v. versículos 8a e 9a) é da vontade de Deus, seu amoroso projeto: deste modo, o Senhor realiza a salvação. Não se trata tanto de ficar livre dos inimigos ou de outras dificuldades como a “expiação dos pecados”. Com efeito, o Senhor tira o homem da condição mortal causada pelo pecado e o introduz novamente na Sua comunhão.

A oferta da vida do Servo de YHWH converte-se em expiação; no entanto, Aquele que é Amor não deixará sem recompensa o sacrifício Daquele que amou até assumir “o pecado de muitos” (um semitismo para indicar “todos”): por seu sofrimento lhe é prometida uma grande fecundidade (=”terá descendência”) e – de uma forma que o Profeta ainda não é capaz de precisar – sua morte se transformará em vida, sua “noite” em luz, sua extrema solidão em conhecimento de amor, ou seja, em bem-aventurada “comunhão com Deus” (versículos 10b e 11b).

* * *

SALMO RESPONSORIAL 32 (33)

R.: Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça,
pois, em vós, nós esperamos!

1. Pois reta é a palavra do Senhor
e tudo o que ele faz merece fé.
Deus ama o direito e a justiça,
transborda em toda a terra a sua graça. – R.

2. Mas o Senhor pousa o olhar sobre os que o temem
e que confiam, esperando em seu amor,
para da morte libertar as suas vidas
e alimentá-los quando é tempo de penúria – R.

3. No Senhor nós esperamos confiantes,
porque ele é nosso auxílio e proteção!
Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça,
da mesma forma que em vós nós esperamos! – R.

* * *

2ª LEITURA: HEBREUS 4,14-16

14. Temos um sumo sacerdote eminente, que entrou no céu, Jesus, o Filho de Deus. Por isso, permaneçamos firmes na fé que professamos.

15.  Com efeito, temos um sumo sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado.

16. Aproximemo-nos então, com toda a confiança, do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento oportuno.

– Palavra do Senhor.

O tema do sacerdócio de Cristo possui uma importância central na Carta aos Hebreus; nesta passagem, põe-se de manifesto o aspecto da compaixão, introduzido anteriormente (2,17ss) e desenvolvido depois no capítulo 5.

O autor sagrado nos exorta a manter uma fé firme e perseverante, e um confiança total na misericórdia divina, que vai além das nossas “fraquezas”, vai além das feridas causadas pelo pecado. Com efeito, Cristo realiza aquilo que durante séculos permaneceu como um rito simbólico: o sumo sacerdote atravessava, no “grande dia da expiação”, o grosso véu que delimitava o santo dos santos no Templo, para comparecer perante a presença de Deus e oferecer-lhe o sacrifício expiatório pelos pecados do povo. Agora, Cristo “entrou” não em uma tenda, mas “no céu”, isto é, ingressou na transcedência de Deus com a oferta do seu próprio sangue como sacrifício perfeito (v. 9,11-14) e se sentou em seu “trono” (versículo 16; cfr. 10,12 e Apocalipse 3,21).

Estas afirmações atestam a divindade de Cristo e, todavia, não o afastam de nós, não o tornam inacessível, incapaz de compreender os sofrimentos e as tribulações dos homens. O versículo 15 nos revela sua plena humanidade, visto que ele “provou” todas as nossas fraquezas, embora não tivesse pecado. Precisamente por isso, Cristo pode nos resgatar do pecado e não se envergonha de nos chamar de irmãos (v. 2,11), podendo nos dar a alegria de nos aproximar do trono de Deus com a certeza de que o seu senhorio é onipotência de amor, graça inesgotável para socorrer todos aqueles que recorrem a ele no momento da provação (versículo 16).

* * *

EVANGELHO: MARCOS 10,35-45

Naquele tempo,

35. Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram: “Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir”.

36. Ele perguntou: “O que quereis que eu vos faça?”

37. Eles responderam: “Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória!”

38. Jesus então lhes disse: “Vós não sabeis o que pedis. Por acaso podeis beber o calice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?”

39. Eles responderam: “Podemos”. E ele lhes disse: “Vós bebereis o cálice que eu devo beber e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado.

40. Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado”.

41. Quando os outros dez discípulos ouviram isso, indignaram-se com Tiago e João.

42. Jesus os chamou e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam.

43. Mas entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande seja vosso servo;

44. e quem quiser ser o primeiro seja o escravo de todos.

45. Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”.

– Palavra da Salvação

Jesus caminha decididamente em direção a Jerusalém (v. 10,32), para a Paixão, e não dá margem a incertezas ou combinações: revela mais uma vez aos seus, que deixaram tudo para seguí-lo (v. 10,28), o final daquele caminho (versículos 33 e seguintes).

No entanto, nem mesmo os discípulos mais íntimos compreendem: não são capazes de se despojarem das expectativas e ambições de glória exclusivamente humanas. Estes crêem que o seu Mestre é o Messias esperado como triunfador e, atestando essa confiança, lhe pedem para ter uma parte digna no Reino que será estabelecido (versículo 37). Jesus indaga estes aspirantes a “primeiros-ministros”, retifica suas perspectivas e lhes indica mais claramente que a sua glória passa antes de mais nada por um caminho de sofrimento (este é o sentido das imagens bíblicas do “cálice” e do “batismo”, a saber: mergulhar nas águas compreendidas como ondas da morte).

Tiago e João declaram sua disponibilidade, com um ingênuo atrevimento; mas não se lhes pode oferecer a promessa de um lugar de honra porque a participação na glória de Cristo é um dom que somente Deus pode outorgar gratuitamente (versículo 40).

Mas, afinal, quem se torna digno de receber [esse lugar de honra]? Jesus explica aos Doze, a quem o desejo de estar entre os primeiros os coloca em conflito – e também a nós, que aspiramos sempre um pouco ao êxito e ao poder: “Entre vós, não deve ser assim”. Nos ensina que a realização que desejamos não deve ter como modelo o comportamento dos “grandes” deste mundo, mas o de Cristo, servo humilde glorificado pelo Pai, que é, ao mesmo tempo, o Filho do homem aguardado para findar a História e inaugurar o Reino celeste.

Este é o modelo de grandeza que Jesus propõe aos seus [discípulos]: o humilde serviço mútuo, a entrega incondicional de si mesmo para o bem dos irmãos (versículos 42 a 44).

* * *

HOMILIA PATRÍSTICA: “NÃO É TEMPO DE COROAS E PRÊMIOS, MAS DE LUTAS”

Enquanto Jesus ia subindo para Jerusalém, aproximou-se dele a mãe dos Zebedeus com seus filhos, Tiago e João, e lhe disse: “Manda que estes meus dois filhos se sentem um à tua direita e o outro à tua esquerda”. Ao contrário, o outro evangelista coloca este pedido na boca dos filhos. Contudo, não há divergência alguma, nem temos razão para nos deter em tais detalhes. A verdade é que, tendo enviado na frente a mãe para preparar o terreno, após ela ter falado, foram eles quem apresentaram o pedido, sem saber, no entanto, o que pediam, mas lhe pedindo isso efetivamente. Pois mesmo sendo Apóstolos, eram, todavia, bastante imperfeitos, como filhotes de passarinho que se movem no ninho porque não se lhes cresceu ainda as asas.

É bastante útil que saibais que, antes da Paixão, os Apóstolos andavam como que mergulhados em um mar de ignorância, a ponto de [Jesus] lhes repreender: “A esta altura, tampouco vós sois capazes de entender? Não sois capazes de entender que não tratava de pães ao vos dizer: ‘Muito cuidado com o fermento dos fariseus’?”; e novamente: “Muitas coisas me restam a vos dizer, mas não podeis suportá-las agora”. Percebeis como não tinham uma idéia clara sobre a ressurreição? O evangelista sublinha, dizendo: “Pois até então não tinham entendido que Ele haveria de ressuscitar de entre os mortos”. E se desconheciam isto, com maior razão ignoravam outras coisas, como por exemplo, o que se referia ao reino dos céus, às nossas primícias e à ascensão aos céus. Movendo-se sobre a terra, eram porém incapazes de levantar voo às alturas.

Imbuídos, pois, como estavam desta opinião, e esperando como esperavam que de um momento para outro ia Jesus instaurar o reino em Jerusalém, eram incapazes de assimilar outra coisa. Convencimento este que o outro evangelista sublinha dizendo que os Apóstolos acreditavam já próxima a vinda do seu reino, ao que imaginavam igual a tantos outros reinos da terra. Pensavam que [Jesus] se dirigia a Jerusalém para inaugurar o seu reino, e não a cruz e a morte, pois mesmo quando o tinham ouvido falar mil vezes, seu entendimento estava bloqueado para a compreensão destas realidades.

Não tendo, pois, alcançado um conhecimento exato e evidente dos dogmas, mas acreditando dirigir-se a um reino terrestre e que Jesus iria reinar em Jerusalém, o tomaram a parte no caminho, estimando que era esse o momento oportuno, e lhe formularam este pedido. Pois tendo se separado do grupo dos discípulos – e como se tudo dependesse do arbítrio [de Jesus] – lhe pedem um lugar de privilégio, assegurando-lhes os cargos mais importantes, como se pensassem que as coisas já estivessem alcançando o seu fim e que o assunto estava próximo de se encerrar; teria, assim, chegado o tempo das coroas e dos prêmios. Isto era o cúmulo do absurdo!

Pois bem. Feito este pedido, escutai o que lhes responde Jesus: “Vós não sabeis o que pedis”. Não é tempo de coroas e de prêmios, mas de combates, lutas, suores, provas e brigas. Isto é o que significa a frase: “Vós não sabeis o que pedis”. Todavia, não experimentastes os cárceres, ainda não saistes a campo para combater.

“Por acaso podeis beber o calice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?”: Nesta passagem [Jesus] chama “cálice” e “batismo” à sua cruz e à sua morte; cálice, pela avidez com que o acomete; batismo, porque através da sua morte purificaria o orbe terrestre. E não redimiria [o orbe terrestre] apenas deste modo, mas ainda pela ressurreição, muito embora esta não lhe resultasse penosa.

Lhes diz: “Vós bebereis o cálice que eu devo beber e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado”, referindo-se assim à morte. Tiago, com efeito, foi decapitado e João foi condenado à morte diversas vezes.

“Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado”: [isto é,] vós certamente morrereis, vos matarão, conseguireis a coroa do martírio; porém, quanto a serdes os primeiros, não cabe a mim concedê-lo: receberão isso aqueles que lutam, com base no seu maior esforço, em atenção à sua maior prontidão de ânimo.

(São João Crisóstomo; Homilia 7,4-5, contra os Anomeus [PG 48, 773-775]).
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MEDITAÇÃO

A Palavra nos sai ao encontro para “nos converter”, ou seja, segundo a etimologia grega, para “nos fazer mudar de mentalidade”. E hoje, em particular, nos oferece uma nova orientação à nossa instintiva sede de grandeza, ao nosso desejo mais ou menos consciente de sermos importantes. Também nós, como todo mundo, nos sentimos atraídos por um prestígio vigoroso, por uma autoridade dotada de uma amplo raio de influência; mas Jesus nos adverte: “Mas entre vós, não deve ser assim”; e nos ensina a aspirar uma espécie de grandeza pouco desejada: a do amor incondicional que presta humilde serviço ao próximo, até entregar a própria vida.

É uma total inversão dos valores que estamos acostumados a preferir, porém, nos proporciona a chave para compreender a missão de Cristo entre nós e nos coloca diante de uma escolha ineludível: Ele é o modelo cuja imagem e semelhança devemos reproduzir em nós.

Devemos? Por acaso isso não é impossível? Como um eco, nos responde o Evangelho do domingo passado: “Para os homens é impossível, mas para Deus não”. É o pecado, com efeito, que nos separa de Deus e desfigura em nós os traços do Seu rosto; entretanto, o próprio Senhor socorre as nossas fraquezas e expia todo o pecado humano, pedindo a seu Filho inocente que carregue sobre si as consequências. Se a revelação da infinita misericórdia divina nos faz guardar silêncio, a contemplação de Jesus, assumindo as nossas iniquidades para nos abrir o caminho para a comunhão com Deus nos ajuda a sair dos nossos esquemas e a buscar a verdadeira grandeza.

O Deus três vezes Santo nos perdoa pelo Sangue do seu Filho: vinde e adoremos! O Senhor se fez servo: vinde e caminhemos pelo seu caminho!

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ORAÇÃO

Senhor Jesus: como Tiago e João, também nós frequentemente “queremos que nos concedas o que pedimos”. Não somos, com efeito, melhores que os teus discípulos. No entanto, assim como eles, temos escutado o teu ensinamento e gostaríamos de receber de ti a força para cumpri-lo, essa força que levou posteriormente os filhos de Zebedeu a dar testemunho de ti com a vida…

Jesus: ajuda-nos a compreender o amor que te impulsionou a beber o cálice do sofrimento por nós, a mergulhar-te nas ondas da dor e da morte para nos arrancar da morte eterna dos pecadores. Ajuda-nos a contemplar em tua extrema humilhação a humildade de Deus. Liberta-nos da terrível presunção de querer dominar os demais e infunde no nosso coração a verdadeira caridade, que nos fará sentir alegres por servir todos os irmãos com o dom da nossa vida.

Doce Servo de YHWH, que com o teu sacrifício expiatório te converteste no verdadeiro Sumo Sacerdote misericordioso, conheces bem as fraquezas do nosso espírito e as pesadas cadeias dos nossos pecados; tu, que por nós derramaste o teu Sangue, purifica-nos de toda culpa. Tu, que agora estás sentado à direita do Pai, faz-nos servos humildes de todos.


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Veritatis Splendor