32º DOMINGO DO TEMPO COMUM
08.11.2009: ANO B
Cor: Verde
“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mateus 5,3)

1ª LEITURA: 1REIS 17,10-16

Naqueles dias,
10. Elias pôs-se a caminho e foi para Sarepta. Ao chegar à porta da cidade, viu uma viúva apanhando lenha. Ele chamou-a e disse: “Por favor, traze-me um pouco de água numa vasilha para eu beber”.
11. Quando ela ia buscar água, Elias gritou-lhe: “Por favor, traze-me também um pedaço de pão em tua mão”.
12. Ela respondeu: “Pela vida do Senhor, teu Deus, não tenho pão. Só tenho um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra. Eu estava apanhando dois pedaços de lenha, a fim de preparar esse resto para mim e meu filho, para comermos e depois esperar a morte”.
13. Elias replicou-lhe: “Não te preocupes! Vai e faze como disseste. Mas, primeiro, prepara-me com isso um pãozinho e traze-o. Depois farás o mesmo para ti e teu filho,
14. porque assim fala o Senhor Deus de Israel: ‘A vasilha de farinha não acabará e a jarra de azeite não diminuirá, até o dia em que o Senhor enviar a chuva sobre a face da terra'”.
15. A mulher foi e fez como Elias lhe tinha dito. E comeram, ele e ela e sua casa, durante muito tempo.
16. A farinha da vasilha não acabou nem diminuiu o óleo da jarra, conforme o que o Senhor tinha dito por intermédio de Elias.
– Palavra do Senhor.

Este episódio manifesta a eficácia da fé na Palavra de Deus. É a Palavra que faz o profeta Elias, perseguido pela rainha Jezabel, buscar refúgio na terra de origem da sua inimiga: o Senhor predispõe, com efeito, que outra mulher fenícia, viúva e muito pobre, seja instrumento de salvação para Elias em tempo de carestia (versículos 8 e seguintes).

Ao pedido de alimento feito pelo Profeta, a mulher lhe responde declarando seu próprio estado de indigência: resta apenas, para ela e seu filho, o necessário para um só dia. No entanto, confiando em Elias, que lhe prediz uma intervenção prodigiosa do Senhor, é capaz de renunciar ao que lhe asseguraria a sobrevivência para esse dia. A fé da viúva torna-se generosa caridade e retorna para ela a verdadeira riqueza: na experiência diária do milagre pode constatar que verdadeiramente “o Senhor protege (…) o órfão e a viúva” (Salmo 146,9) e que quem confia Nele não fica decepcionado (1Reis 17,15 e seguintes).

Precisamente enquanto os israelitas se deixam desviar pelos cultos pagãos introduzidos por Jezabel e já não escutam a Palavra de YHWH, a fé autêntica triunfa na humilde caridade de uma estrangeira que não vacila em privar-se do necessário para obedecer à Palavra que Elias lhe comunica. Oferece assim o alimento de um dia ao homem de Deus e recebe da mão do Senhor o alimento para a vida do corpo e do espírito.

* * *

SALMO RESPONSORIAL 145 (146)

R.: Bendize, minha alma, bendize ao Senhor!

1. O Senhor é fiel para sempre,
faz justiça aos que são oprimidos;
Ele dá alimento aos famintos,
é o Senhor quem liberta os cativos. – R.

2. O Senhor abre os olhos aos cegos, +
o Senhor faz erguer-se o caído,
o Senhor ama aquele que é justo;
é o Senhor quem protege o estrangeiro, +
quem ampara a viúva e o órfão,
mas confunde os caminhos dos maus. – R.

3. O Senhor reinará para sempre! +
Ó Sião, o teu Deus reinará
para sempre e por todos os séculos! – R.

* * *

2ª LEITURA: HEBREUS 9,24-28

Caríssimos,
24. Cristo não entrou num santuário feito por mão humana, imagem do verdadeiro, mas no próprio céu, a fim de comparecer, agora, na presença de Deus, em nosso favor.
25. E não foi para se oferecer a si muitas vezes, como o sumo sacerdote que, a cada ano, entra no santuário com sangue alheio,
26. porque, se assim fosse, deveria ter sofrido muitas vezes, desde a fundação do mundo. Mas foi agora, na plenitude dos tempos, que, uma vez por todas, Ele se manifestou para destruir o pecado pelo sacrifício de Si mesmo.
27. O destino de todo homem é morrer uma só vez, e depois vem o julgamento.
28. Do mesmo modo, também Cristo, oferecido uma vez por todas, para tirar os pecados da multidão, aparecerá uma segunda vez, fora do pecado, para salvar aqueles que o esperam.
– Palavra do Senhor.

A descrição de alguns detalhes do culto judaico no capítulo 9 coloca a manifesto a superioridade da Nova Aliança, cujo único sacerdote (versículos 11 e seguintes), mediador (versículo 15) e vítima (versículo 28) é Cristo. Nesta perícope destaca-se, em particular, a comparação com o ritual do “Grande Dia da Expiação”: uma vez por ano, com efeito, o sumo sacerdote entrava, sozinho, no Santo dos Santos para expiar os pecados do povo através da aspersão da Arca da Aliança com o sangue de animais sacrificados; no entanto, Cristo, “na plenitude dos tempos” deu cumprimento aos antigos ritos, que eram apenas uma figura do sacrifício perfeito: entrou no verdadeiro santuário, na dimensão transcendentes (“céu”) de Deus, “uma só vez”, oferecendo-se a Si mesmo “para tirar os pecados da multidão”, como o Servo de YWHW profetizado por Isaías (53,12).

O dom de seu amor é tão superabundante que o pecado não apenas resta perdoado como também “destruído” (versículo 26); em razão disso, o homem é novamente criado, fica livre, está salvo.

Esta oferenda sacrificial, no entanto, não nos priva da presença de Cristo: sempre vivo “para interceder” em nosso favor (7,25), Ele se manifestará mais uma vez na História; e já não será para libertar a humanidade do pecado – visto que Seu Sacrifício tem valor perene (versículo 28) – mas para conduzí-la para o seu destino definitivo, a um final que será de salvação e glória (2,10) para quantos O esperem com vigilância perseverante.

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EVANGELHO: MARCOS 12,38-44

Naquele tempo,
38. Jesus dizia, no seu ensinamento a uma grande multidão: “Tomai cuidado com os doutores da lei! Eles gostam de andar com roupas vistosas, de ser cumprimentados nas praças públicas;
39. gostam das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos melhores lugares nos banquetes.
40. Eles devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso eles receberão a pior condenação”.
41. Jesus estava sentado no Templo, diante do cofre das esmolas, e observava como a multidão depositava suas moedas no cofre. Muitos ricos depositavam grandes quantias.
42. Então chegou uma pobre viúva que deu duas pequenas moedas, que não valiam quase nada.
43. Jesus chamou os discípulos e disse: “Em verdade vos digo: esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas.
44. Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver”.
– Palavra da Salvação

Jesus aponta os critérios para distinguir os verdadeiros dos falsos mestres no ensinamento que ministra no Templo. Após longas discussões com os mestres da lei, sacerdotes e chefes do povo (capítulos 11 e 12), censura seus comportamentos movidos pela vanglória (versículos 38 e seguintes), pela avidez inescrupulosa e pela ostentação de uma piedade puramente exterior (versículo 40).

Jesus é capaz de perceber a verdade da pessoa além das aparências, observando cada um em sua vida diária. Por isso, quando encontra um verdadeiro mestre, o coloca como exemplo para os seus discípulos: aqui, trata-se de uma viúva pobre que se aproxima do cofre do tesouro do Templo para deixar uma quantia irrisória (as duas moedinhas da viúva equivaliam à oitava parte do valor da ração distribuída diariamente aos pobres de Roma). No entanto, esta oferenda representa para a viúva “tudo aquilo que possuía para viver” (versículo 44). A humilde mulher, portanto, deixou a sua vida no tesouro do Templo pois encontrou em Deus seu sustento para hoje e para o dia seguinte, para este tempo e para a eternidade.

Esta “verdadeira mestre”, mais rica que os acomodados que deixam muitas moedas como oferta, pode ensinar – sem qualquer presunção – o caminho da fé: um caminho que passa através do abandono confiante nas mãos de Deus.

* * *

HOMILIA PATRÍSTICA: “DAMOS AO SENHOR, QUE RECEBE NA PESSOA DE CADA POBRE”

Disse o Apóstolo: “Tens algo que não recebeste?” Portanto, caríssimos, não sejamos ávaros de nossos bens como se nos pertencessem, mas façamos negócio com eles como se fossem um empréstimo: foi-nos confiada a administração e o uso temporal dos bens comuns, não a posse eterna de uma coisa particular. Se considerais essas coisas na terra como vossas, mas apenas temporalmente, podereis torná-las vossas eternamente no céu. Se lembrais daqueles empregados do Evangelho que receberam alguns talentos do seu Senhor; e do Dono que, ao retornar, deu a cada um a sua recompensa, reconhecereis quanto mais vantajoso é depositar o dinheiro na mesa do Senhor para fazê-lo frutificar, ao invés de conservá-lo intacto por uma fidelidade estéril; compreendereis que o dinheiro zelosamente guardado, sem o menor rendimento para o dono, significa para o empregado negligente uma grande incompetência e resulta em um aumento do seu castigo.

Lembremos também daquela viúva que, esquecendo-se de si mesma e preocupada apenas com os pobres, pensando unicamente no futuro, deu tudo o que tinha para viver, como atesta o mesmo Juiz. “Os demais” – diz Ele – “deram do que lhes sobrava”; esta, porém, talvez mais pobre que muitos pobres (visto que toda a sua fortuna se reduzia a duas moedas), e mais esplêndida em seu coração que todos os ricos (já que colocava sua esperança apenas nas riquezas da eterna recompensa, ambicionando para si somente os tesouros celestiais), renunciou a todos os bens procedentes da terra e que à terra retornariam. Deixou ali o que possuía, pretendendo assim possuir os bens invisíveis. Deixou o corruptível para adquirir o imortal. Aquela pobrezinha não menosprezou os meios previstos e estabelecidos por Deus com vistas a obter o prêmio futuro; e, em razão disso, o Legislador também não se esqueceu dela, bem como o Juiz do mundo antecipou-lhe sua sentença: elogia no Evangelho aquela que coroará no juízo.

Portanto, negociemos com o Senhor usando os mesmos dons do Senhor; nada possuímos que Dele não tenhamos recebido; sem a Sua vontade, sequer existiríamos. Sobretudo, como poderemos achar que algo é nosso, nós que, em virtude de uma importante e peculiar hipoteca, não nos pertencemos? E não apenas porque fomos criados por Deus, mas ainda por termos sido redimidos por Ele!

Congratulemo-nos por termos sido comprados por um alto preço, pelo preço do Sangue do próprio Senhor, deixando, por isso mesmo, de sermos pessoas vis e venais, já que a liberdade consistente em sermos livres da justiça é mais vil que a própria escravidão. Aquele que é assim livre, é escravo do pecado e prisioneiro da morte. Restituamos, portanto, os dons [do Senhor] ao Senhor! Vamos dar a Ele, que recebe na pessoa de cada pobre! Insisto: vamos dar com alegria, para recebermos Dele a plenitude do gozo, como Ele mesmo disse!

(São Paulino de Nola; Carta 34,2-4 [CSEL 29,305-306]).* * *

MEDITAÇÃO

A Palavra que escutamos nos convida a refletir sobre a fé. Esta consiste, simplesmente, em crer que Deus é Deus e, por isso, confiar Nele, abandonando-nos em Suas mãos, dando-nos a Ele por inteiro sem receios ou preocupações a cada manhã. Esta “oblatividade” é despropositada e insana – ou pelo menos imprudente – para quem afirma que crê, porém “com os pés no chão”, sem desprezar uma dita “prudência humana”. Por outro lado, encontramos exatamente essa fé naqueles que não possuem qualquer segurança para fazer frente ao hoje e ao amanhã.

Estas duas viúvas tão pobres apresentadas na Sagrada Escritura nos ensinam a não termos medo de oferecer a Deus tudo o que possuímos e somos; nos convidam a consagrar-Lhe as nossas vidas. Se fazemos que seja “Seu” aquilo que é nosso, posteriormente será tarefa Dele a preocupação por isso.

A “minha” família, o “meu” trabalho, os “meus” poucos ou muitos recursos de toda espécie podem ser submetidos à lógica da fé e serem entregues e confiados inteiramente ao Senhor. Não se trata de eleger a despreocupação ou negar o sentimento momentâneo; pelo contrário, converte-se no compromisso diário de administrar como nossos – e, consequentemente, com um coração conforme ao nosso – aqueles que eram “nossos” bens: afetos, ocupações, dotes…

A Palavra de Deus hoje é quase um desafio: experimentemos deixar com fé a nossa vida no tesouro da comunhão dos santos dia após dia. O Senhor disporá dela para o bem de cada um dos seus filhos e disporá um benefício maior também para nós. Podemos dar-Lhe, sobretudo, o que temos como “mais nosso”: a pobreza existencial, o pecado. Isto é o que Ele veio buscar na humanidade, para tomar sobre Si e transformar em sacrifício de amor.

Se somos capazes de colocar em Suas mãos também a nossa miséria, sentiremos a alegria de viver Dele, por Ele e Nele.

* * *

ORAÇÃO

Senhor Jesus, que de rico como eras te fizeste pobre para nos enriquecer com a tua pobreza: aumenta a nossa fé! É sempre muito pouco o que temos para te oferecer, mas ajuda-nos a entregar tudo em tuas mãos, sem qualquer vacilação. Tu és o tesouro do Pai e o tesouro da Humanidade! Em ti está depositada a plenitude da divindade! Porém, continuas esperando de nós o óbolo daquilo que somos, inclusive até o nosso próprio pecado! Cremos que podes transformar a nossa miséria em bem-aventurança para muitos, mas precisas nos ensinar a generosidade e o abandono confiante dos pobres em espírito! Queremos aceitar o desafio da tua Palavra e dar-te tudo, até aquilo que precisamos para hoje e para amanhã! Tu és, desde agora, a Vida para nós!

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