34º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(CRISTO REI DO UNIVERSO)
ANO B
Cor: Branco

“Venha a nós o teu Reino” (Mateus 6,10)

1ª LEITURA: DANIEL 7,13-14

13. “Continuei insistindo na visão noturna e eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho do homem, aproximando-se do ancião de muitos dias e foi conduzido à sua presença.
14. Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam: seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não dissolverá”.
– Palavra do Senhor.

O significado profundo deste fragmento surge quando o consideramos no contexto do capítulo 7 de Daniel.Ao Profeta é revelado o mistério da História: enxerga a sucessão de diferentes reinos, representados simbolicamente por quatro espantosas feras, mas sua prepotência está destinada a desaparecer. Enquanto os acontecimentos se sucedem no tempo, na dimensão copresente ao mesmo, na eternidade, a História é julgada por Deus com base nas ações dos homens (versículos 9 e seguintes).

Os poderes deste mundo foram condenados e alguns já sofrem a pena (versículo 11); outros, ao contrário, o vêem diferido “somente por um determinado momento” (versículo 12). E eis que surge na transcedência divina (“entre as nuvens”) “um como filho do homem”, a quem Deus concede um poder eterno e um reino invencível que abraçará todos os povos. Isto significa que a sua pessoa e senhorio são celestiais e terrestres, divinos e humanos ao mesmo tempo. Contra o seu reino, que coincide com o Reino dos santos do Altíssimo (versículos 17 e 32), se insurgirá a violência dos poderosos deste mundo e até parecerá vitoriosa (versículos 24 e seguintes).

Pois bem. Quando o juízo de Deus se tornar definitivo, o Reino do Filho do homem, ou melhor, dos santos do Altíssimo, triunfará para sempre (versículo 26). Para expressar de maneira eficaz esta realidade, São Paulo adotará a imagem do Corpo Místico, cuja cabeça é Cristo e os fiéis seus membros.

Consequentemente, o Reino de Cristo também é nosso. Nós também fomos chamados a participar da sua realeza vencendo o pecado que nos assedia. Submersos como estamos na História, nos é pedido que julguemos os acontecimentos com o sentimento da fé e que vivamos em conformidade com a lei fundamental do amor, para que todo homem possa ingressar, finalmente, no Reino de Deus.

* * *

SALMO RESPONSORIAL 92 (93)

R.: Deus é rei e se vestiu de majestade,
glória ao Senhor!

1. Deus é rei e se vestiu de majestade,
revestiu-se de poder e de esplendor!
Vós firmastes o universo inabalável, +
vós firmastes vosso trono desde a origem,
desde sempre, ó Senhor, vós existis! – R.

2. Verdadeiros são os vossos testemunhos, +
refulge a santidade em vossa casa
pelos séculos dos séculos, Senhor! – R.

* * *

2ª LEITURA: APOCALIPSE 1,5-8

5. Jesus Cristo é a testemunha fiel, o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, o soberano dos reis da terra. A Jesus, que nos ama, que por seu sangue nos libertou dos nossos pecados
6. e que fez de nós um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai, a Ele a glória e o poder, em eternidade. Amém.
7. Olhai! Ele vem com as nuvens, e todos os olhos o verão, também aqueles que o transpassaram. Todas as tribos da terra baterão no peito por causa dele. Sim. Amém!
8. “Eu sou o alfa e o ômega” – diz o Senhor Deus – “aquele que é, que era e que vem, o todo-poderoso”.
– Palavra do Senhor.

Nestes versículos, extraídos do Prólogo do Apocalipse, se apresenta essencialmente a realeza de Jesus Cristo como a realeza do Filho do homem (“vem com as nuvens”, cf. versículo 7). Aludindo à profecia de Daniel, o vidente pode afirmar, portanto, que Jesus é o revelador do Pai digno de fé (“testemunha fiel”), visto que procede do próprio Pai. Tendo ressuscitado, é o arquétipo de uma nova estirpe destinada à vida eterna. Por fim, é “soberano dos reis da terra”, pois veio trazer à terra o Reino de Deus a que todos serão submetidos no final.

O Filho do homem, Jesus, é o crucificado, “transpassado” pela incredulidade e pela violência de muitos. E precisamente assim manifestou o seu amor por nós e nos libertou dos pecados (versículo 5), dando-nos a possibilidade de cumprir a antiga promessa: “Se realmente ouvirdes minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim a porção escolhida entre todos os povos. Na realidade é minha toda a terra, mas vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Êxodo 19,5-6).

Quando chegar a hora sempre iminente da sua vinda gloriosa, até os que o têm rejeitado deverão reconhecê-Lo e compreender o mal que cometeram. Pois bem. Os que desde agora acolhem o senhorio de Cristo em sua vida participam da sua função real e sacerdotal. Deste modo, entram em comunhão com Deus, princípio e fim de todas as coisas que existem, origem eterna do tempo que, no entanto, vem à História para assumir o cansaço de todas as criaturas e levá-las com o poder do amor à liberdade e à salvação (versículo 8).

* * *

EVANGELHO: JOÃO 18,33-37

Naquele tempo,
33. Pilatos chamou Jesus e perguntou-lhe: “Tu és o rei dos judeus?”
34. Jesus respondeu: “Estás dizendo isso por ti mesmo ou outros disseram isso de mim?”
35. Pilatos falou: “Por acaso sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?”
36. Jesus respondeu: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”.
37. Pilatos disse a Jesus: “Então tu és rei?” Jesus respondeu: “Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.
– Palavra da Salvação

O relato do processo de Jesus perante Pilatos possui um grande relevo no Evangelho de João. A reflexão sobre o tema da realeza encontra-se presente em todo o episódio, inclusive na declaração de Pilatos: “Eis o vosso rei!” (19,14). Pois bem. a “pretensão” de ser Filho de Deus (19,7) é muitíssimo elevada para os judeus; eles preferem que este Messias seja crucificado e, agindo assim, renegam a História de Israel e as suas próprias expectativas: “Não temos outro rei senão César” (19,15).

Esta perícope representa o centro teológico do relato joaneu. Confrontam-se aqui conceitos bastante diversos de realeza: Pilatos possuía o conceito político-militar dos romanos (versículo 37), mas aparece também os conceitos teocrático e político dos judeus (versículos 33 e seguintes). No entanto, a realeza de Jesus pertence a outra esfera: “não é deste mundo”; mais ainda: pode deixar-se esmagar por este mundo e, mesmo assim, resultar sempre vencedora (versículo 36). Jesus é rei verdadeiramente, mas não “daqui”. Veio a este mundo para trazer o seu Reino sobrenatural sem impor sua absoluta superioridade, assumindo a nossa condição (“Eu nasci e vim ao mundo para isto”) para iluminá-la com a luz da verdade e tornar o homem capaz de escolher o Reino de Deus.

Consequentemente, a vinda de Cristo opera uma discriminação entre os que acolhem o seu testemunho e os que o rejeitam. É um verdadeiro testemunho sobre Deus – cujo rosto revela Jesus em Si mesmo – e, ao mesmo tempo, sobre o homem, tal como Ele é, segundo o desígnio do Pai (“Ecce homo!”. cf. 19,5): acolhê-lo significa ingressar desde já no seu Reino. Ao contrário, quem o rejeita se submete ao príncipe deste mundo (12,31): não é possível manter-se em um cetiscismo neutro, como tenta Pilatos (18,38). Quem reconhece Jesus como rei não se preocupa em triunfar neste mundo; faz melhor, ouvindo a voz do seu Senhor e lhe seguindo (versículo 37b), para expandir aqui embaixo o Seu Reino de verdade e amor.

* * *

HOMILIA PATRÍSTICA: “O REINO DE CRISTO ATÉ O FIM DO MUNDO”

“Meu reino não é deste mundo”: o Seu reino finca raízes aqui, mas apenas até o fim do mundo. Com efeito, a ceifa é o fim do mundo, quando virão os ceifadores, isto é, os anjos, e arrancarão do Seu reino todos os corruptos e ímpios, o que não seria possível se o Seu reino não estivesse aqui. E, ainda assim, [o Seu reino] não é daqui, pois encontra-se no mundo como peregrino. Por isso, diz em seu reino: “Não sois do mundo, pois Eu vos escolhi retirando-vos do mundo”.

Assim, eram do mundo enquanto não eram do Seu reino; logo, pertenciam ao príncipe do mundo. Portanto, é do mundo tudo o que no homem foi criado, sim, pelo Deus verdadeiro, mas que foi gerado da estirpe viciada e condenada de Adão; e já foi convertido no reino, não mais deste mundo, tudo o que a partir de então foi regenerado em Cristo. Desta forma, Deus nos tirou do domínio das trevas e nos trasladou ao reino do Seu Filho amado. Deste reino diz: “Meu reino não é deste mundo”; ou: “Meu reino não é daqui”.

Pilatos disse-lhe: “Então tu és rei?”; Jesus respondeu-lhe: “Tu o dizes: sou rei”. A seguir, acrescentou: “Para isto nasci e para isto vim ao mundo: para ser testemunha da verdade”. Deduz-se claramente que se refere aqui ao seu nascimento no tempo, quando encarnado veio ao mundo; não [se refere] àquele outro sem princípio no qual era Deus e por meio do qual o Pai criou o mundo. “Para isto” diz ter nascido, ou seja, esta é a razão do seu nascimento; e “para isto” veio ao mundo – nascendo certamente de uma virgem: para ser “testemunha da verdade”. Entretanto, como a fé não está em todos, acrescentou e disse: “Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.

“Escuta a minha voz”, porém com os ouvidos interiores, isto é, “obedece a minha voz”, o que equivale dizer: “Crê em mim”. Sendo, pois, Cristo testemunha da verdade, realmente dá testemunho de Si mesmo. É efetivamente sua esta afirmação: “Eu sou a verdade”; e em outro lugar diz também: “Eu dou testemunho de Mim mesmo”. Ao acrescentar: “Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”, alude à graça com que chama os predestinados.

Pilatos disse-lhe: “E o que é a verdade?” E não esperou para ouvir a resposta; tendo dito isto, saiu outra vez para onde estavam os judeus e disse-lhes: “Não encontro nele culpa alguma”. Suponho que quando Pilatos perguntou: “O que é a verdade?”, lhe veio imediatamente à mente o costume dos judeus de que por ocasião da Páscoa um preso era colocado em liberdade; por isso, não deu tempo para que Jesus lhe respondesse o que é a verdade, para que não perdesse tempo, tendo lembrado do costume que poderia ser um álibi para colocá-Lo em liberdade por ocasião da Páscoa. Não há dúvida de que [Pilatos] desejava isso ardentemente. Porém, não conseguiu afastar o seu pensamento da idéia de que Jesus era o rei dos judeus, como se ali – como também escreveu no título da Cruz – a própria Verdade o tivesse encravado, essa mesma verdade que ele havia perguntado o que era.

(Santo Agostinho de Hipona; Tratado sobre o Evangelho de São João 115,2-5 [CCL 36,644-646]).

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MEDITAÇÃO

A liturgia de hoje nos convida a reavivar em nós o desejo de que Cristo reine verdadeiramente em nossas vidas. Para que isto ocorra, é mister renovar nossa adesão a Ele, que nos amou primeiro e sofreu por nós a grande batalha até deixar-se ferir de morte para destruir o nosso pecado em seu corpo pregado na Cruz. Cristo venceu assim. Seu triunfo é o triunfo do amor sobre o ódio, sobre o mal, sobre a ingratidão. Sua vitória é, aparentemente, uma derrota: a maneira de vencer do amor é, com efeito, deixar-se vencer.

Cristo é um rei crucificado; no entanto, seu poder está precisamente na entrega de Si mesmo até o máximo possível: é um rei coroado de espinhos, pregado na cruz e, como tal, segue para sempre, mesmo agora, na presença do Pai, para onde voltou após a ressurreição. Trata-se de uma realeza difícil de se compreender sob o ponto de vista humano, a não ser que trilhemos o caminho do amor humilde, da vida que se faz serviço e entrega. Se percorrermos esse caminho, o próprio Espírito nos tornará capazes de nos configurarmos como o humilde rei da glória, de quem todo cristão é chamado a ser um discípulo apaixonado.

Isto trará consigo, necessariamente, uma sombra de morte: de morte a todo um mundo de egoísmos, paixões, vãos desejos e arrogâncias indevidas; uma morte que, entretanto, se traduz em liberdade para nós mesmos e em crescimento para os outros, em vida verdadeira e plenitude de alegria. Nosso caminho na História prossegue com os seus cansaços, mas o nosso coração pode saborear antecipadamente a doçura deste Reino de Luz infinita, no qual só se pode ingressar pela porta estreita da cruz.

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ORAÇÃO

Senhor Jesus: Tu te escondeste dos olhos de todos para orar ao Pai em segredo quando a multidão, maravilhada e admirada pelos milagres que realizavas, te procurava para proclamar-te rei. Apenas na hora da Paixão, quando todos te haviam abandonado e ser proclamado rei já não era razão de jactância, tendo porém tornado para ti motivo de condenação, apenas então declaraste o teu senhorio universal. Agindo assim, nos ensinaste com a tua própria morte que reinar é servir amando até a total entrega de nós mesmos. Concede-nos também reconhecer a tua realeza, não de meras palavras, mas deixando crescer e expandir em nós o teu Reino, para que sejamos, na História, irradiação da tua presença de paz e razão de consolo e esperança para todos os nossos irmãos.

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