4º DOMINGO DO ADVENTO
ANO C
Cor: Roxa

“Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (Lucas 1,45)

1ª LEITURA: MIQUEIAS 5,1-4

Assim diz o Senhor:
1. “Tu, Belém de Éfrata, pequenina entre os mil povoados de Judá, de ti há de sair Aquele que dominará em Israel; sua origem vem de tempos remotos, desde os dias da eternidade.
2. Deus deixará seu povo ao abandono, até o tempo em que uma mãe der à luz; e o resto de seus irmãos se voltará para os filhos de Israel.
3. Ele não recuará, apascentará com a força do Senhor e com a majestade do nome do Senhor seu Deus; os homens viverão em paz, pois Ele agora estenderá o poder até os confins da Terra,
4. e Ele mesmo será a paz”
– Palavra do Senhor.

Miqueias, contemporâneo de Isaías, vive em uma época dramática para o reino de Judá, ameaçado pelo poder assírio e governado pelos descendentes de Davi, dedicados mais aos seus próprios interesses do que aos seus súditos. Neste contexto, surge este óraculo de renascimento. Para o Profeta, deve-se começar tudo novamente desde o princípio: Deus fará renascer o seu povo através de um rei justo, que provirá não de Jerusalém, mas da pequena Belém, terra de infância de Davi (versículo 1). É necessário recuperar a humildade das origens, dos “tempos remotos”, quando Davi foi eleito por último, após ultrapassar seus sete irmãos que, aos olhos dos homens, pareciam mais preparados do que ele; não haverá novo nascimento se não se começar a partir de baixo, a partir dos últimos.

Desde logo é necessário um tempo de purificação (versículo 2), um tempo em que Israel será submetida a outras potências e findará com o nascimento de um novo rei. O Profeta não fornece o nome mas enumera suas características fundamentais (versículo 3): governará com firmeza e também com o carinho que um pastor segue o seu rebanho; sobretudo, agirá em nome do “Senhor seu Deus”. O “nome” (YHWH) nos lembra o relato da revelação a Moisés no Monte Sinai; assim, portanto, o rei agirá com o espírito da aliança de Deus com o seu povo; deste maneira, o povo recobrará a paz (versículo 4).

Esta profecia foi conservada em Israel, mas nunca se cumpriu em nenhum dos reis que se sucederam no trono de Jerusalém. No Novo Testamento, Mateus a vê realizada em Jesus, nascido em Belém (cf. Mateus 2,6), verdadeiro pastor que se preocupa com o seu rebanho disperso e esgotado.

* * *

SALMO RESPONSORIAL 79 (80)

R.: Iluminai a vossa face sobre nós,
convertei-nos para que sejamos salvos!

1. Ó pastor de Israel, prestai ouvidos. +
Vós que sobre os querubins vos assentais,
aparecei cheio de glória e esplendor!
Despertai vosso poder, ó nosso Deus,
e vinde logo nos trazer a salvação! – R.

2. Voltai-vos para nós, Deus do Universo! +
Olhai dos altos céus e observai.
Visitai a vossa vinha e protegei-a!
Foi a vossa mão direita que a plantou;
protegei-a, e ao rebanho que firmastes! – R.

3. Pousai a mão por sobre o vosso protegido,
o filho do homem que escolhestes para vós!
E nunca mais vos deixaremos, Senhor Deus!
Dai-nos vida, e louvaremos vosso nome! – R.

* * *

2ª LEITURA: HEBREUS 10,5-10

Irmãos,
5. ao entrar no mundo, Cristo afirma: “Tu não quiseste vítima nem oferenda, mas formaste-me um corpo.
6. Não foram do teu agrado holocaustos nem sacrifícios pelo pecado.
7. Por isso Eu disse: ‘Eis que Eu venho. No livro está escrito a meu respeito: Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade'”.
8. Depois de dizer: “Tu não quiseste nem te agradaram vítimas, oferendas, holocaustos, sacríficios pelo pecado” – coisas oferecidas segundo a lei –
9. Ele acrescenta: “Eu vim para fazer a tua vontade”. Com isso, suprime o primeiro sacrifício para estabelecer o segundo.
10. É graças a essa vontade que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas.
– Palavra do Senhor.

Trata-se de uma das passagens mais densas da Carta aos Hebreus, que apresenta Jesus como Aquele que veio cumprir totalmente a vontade de Deus, como o Rei-Messias que se submete completamente à vontade de Deus.

O autor da Carta nos propõe uma meditação sobre o mistério da Encarnação: Jesus vem, assume o corpo humano, para poder santificar a vida dos homens (“É graças a essa vontade que somos santificados”; cf. versículo 10).

Para nos santificar, Cristo não ofereceu a Deus um sacrifício ritual, mas quis que o seu corpo, sua condição humana, fosse o lugar onde se realizasse plena e cabalmente a vontade de Deus: “Tu não quiseste vítima nem oferenda, mas formaste-me um corpo… Por isso Eu disse: ‘Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade'” (versículos 5 a 7). Este é o sentido profundo da Encarnação: Cristo escolheu para si a condição humana para submetê-la totalmente ao serviço da vontade de Deus. Seu coração sempre esteve inteiramente orientado para Deus; sua vontade, seu corpo, suas ações perfeitamente harmonizadas em cumprir a vontade do Pai.

Com efeito, em sua obediência, o homem também é capaz de obedecer.

* * *

EVANGELHO: LUCAS 1,39-45

39. Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia.
40. Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel.
41. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.
42. Com um grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!
43. Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?
44. Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre.
45. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”.
– Palavra da Salvação

Um dos temas principais da página de Lucas sobre a visitação é a alegria do encontro entre as duas mães e a de João Batista ao ouvir a voz da “Mãe do Senhor” que carrega o Filho em seu seio. Na alegria de João Batista se percebe uma alusão à alegria de Davi dançando pela chegada da Arca da Aliança, sinal da presença de Deus (cf. 2Samuel 6). João Batista alegra-se – inclusive “pula” (versículo 41) – porque Maria, como Arca Sagrada, carrega o Senhor em seu seio.

Em João Batista, que se alegra pela presença de Maria e Jesus, está representado o Antigo Testamento que aguarda e acolhe a manifestação do Novo Testamento. Isabel, por sua vez, é a mulher idosa e estéril que vê as maravilhas de Deus, o qual acolhe os sofrimentos e desejos da humanidade. Nesta cena encontra-se retratada a humanidade inteira que espera Cristo e saúda a sua chegada porque, encontrando-O, compreende que era a Ele que se esperava sem se dar conta. O Filho de Deus que se torna carne é a fonte da alegria porque diz a verdade a que todo ser humano é chamado: ser filho como Ele.

Quanto a Maria, ela recebe a saudação de Isabel que a proclama “bendita” (versículo 42) e a elogia declarando-a “bem-aventurada” (versículo 45) por ter acreditado na promessa de Deus. Enquanto dá o Filho de Deus à humanidade, Maria também nos ensina a responder com fé à oferta divina; fé e humildade: “Olhou para a humildade de sua serva” (versículo 48).

Em Maria se executa o programa de Deus (anunciado por Miqueias), que começa pelos últimos.

* * *

HOMILIA PATRÍSTICA: “EIS QUE VEM O REI!”

Eis que vem o Rei! Saiamos ao encontro de Nosso Senhor! Magnificamente assim se expressa Salomão: “Água fresca em garganta sedenta é a boa nova vinda de terra distante”. E certamente é boa a notícia que nos anuncia a vinda do Salvador, a reconciliação do mundo e os bens do século vindouro. Estas notícias são água fresca e bebida saudável de sabedoria para a alma que tem sede de Deus. E, de fato, quem anuncia à essa alma a vinda e os outros mistérios do Salvador, oferece e brinda com águas o gozo das fontes da salvação, de forma que a quem o anuncia – seja este Isaías ou qualquer outro dos Profetas – parece que inclusive esta alma lhe responde com as palavras de Isabel, já que fica cheio do mesmo Espírito que ela: “Quem sou eu para que me venha visitar o meu Senhor? Quando o teu anúncio chegou aos meus ovidos, o meu espírito pulou de alegria em meu coração, tentando ir ao encontro de Deus, seu Salvador”.

Levantando-se, pois, o nosso espírito com gozosa alegria, e correndo ao encontro do seu Salvador e, já de longe adorando e saudando Aquele que já está a caminho, aclamando-O e dizendo: “Vem, Senhor! Salva-me e serei salvo! Vem! Que brilhe o teu rosto e nos salve! Esperamos em ti; sede nossa salvação no perigo!” Assim foi como os profetas e os justos, muitos séculos antes, correram, com desejo e afeto, ao encontro de Cristo que estava por vir, desejando ver, se possível, com seus próprios olhos o que vislumbravam em espírito.

Esperamos o dia do aniversário de nascimento de Cristo que, mediante Deus, nos prometeu contemplar-nos de perto. E a Escritura parece exigir de nós um gozo tal que o nosso espírito, elevando-se sobre si mesmo, tenta, de certo modo, sair ao encontro de Cristo que se aproxima; projeta-se com o desejo do porvir e, incapaz de moratórias, esforça-se em sair ao seu encontro, assim se referindo não apenas à segunda, mas também à primeira vinda.

“Como?” – me perguntarás… Assim: da mesma forma como na segunda vinda sairemos ao seu encontro com o movimento e a exultação do corpo, também devemos sair-lhe ao encontro na primeira vinda com o afeto e a exultação do coração.

A verdade é que, neste tempo que intermedeia a primeira e a última vinda do Senhor, esta visita pessoal do Senhor efetua-se com relativa frequência, levando em conta o mérito e o esforço de cada um, tendo a missão de nos conformar com a primeira vinda e nos preparar para a vinda definitiva. Este é, efetivamente, o motivo de sua atual vinda até nós: que não se frustre a sua primeira vinda a nós, nem, na vinda final, venha irado contra nós. Pela sua primeira vinda, cuida de reformar a nossa propensão à soberba, configurando-a segundo o modelo da Sua humildade, da qual em sua primeira vinda nos deu provas incontestáveis; e o faz para depois transformar a nossa humilde condição conforme o modelo da Sua gloriosa condição, que nos mostrará quando novamente voltar.

A nós, ao contrário, irmãos, que não temos o consolo de tão sublime experiência, para que possamos aguardar pacientemente a vinda do Senhor, console-nos a fé certíssima e uma consciência pura, que possam repetir as mesmas palavras e a fidelidade de Paulo: “Sei quem me confiou e estou firmemente persuadido de que possui poder para garantir até o último dia o encargo que me deu, ou seja, até a aparição gloriosa do grande Deus e Salvador nosso, Jesus Cristo, a quem seja dada a glória pelos séculos dos séculos. Amém”.

(Beato Guerrico de Igny; Sermão 2,1-4, do Advento do Senhor [SC 166,104-116]).
* * *

MEDITAÇÃO

A bem-aventurança da fé: o elogio dirigido por Isabel a Maria nos leva a refletir, neste tempo de espera, sobre a nossa fé. A fé de Maria caracteriza-se como uma adesão à promessa de Deus. Maria está totalmente segura de que Deus quer e sabe ser fiel à palavra empenhada. O mistério de Deus se oculta naquele Menino que, como todos os meninos, vai se formando no seio de sua mãe. Maria, crendo, começou a constatar como Deus é fiel em realizar a Sua promessa. Também isto vale para nós: se não cremos, não experimentaremos nunca como o dom de Deus misteriosamente pode ir se formando em nós.

A fé de Maria se manifesta também no fato de ter ido visitar Isabel: uma viagem inspirada pela gravidez de sua prima que precisa de ajuda – como costumamos a dizer normalmente e com razão – mas também uma viagem para ir contemplar o que Deus está fazendo nos outros. Também a nossa fé tem muito o que aprender com esta atitude, já que devemos prestar atenção ao que Deus faz na história dos demais irmãos. Maria e Isabel têm isto em comum, que podemos aproveitar em nossos dias: sabem dialogar sobre o que Deus faz nelas. Nenhuma das duas fala de si, mas da outra, ou do que Deus já fez, culminando no “Magnificat”.

A fé de Maria nos exorta a inserir-nos no clima próprio dos “pobres do Senhor”, isto é, das pessoas humildes e simples que confiam em Deus sabendo reconhecer a Sua obra. Somos convidados a viver em uma atitude geral de disponibilidade ao plano de Deus que nos convida a voltar para as palavras do Salmo 39,8, que o autor da Carta aos Hebreus coloca na boca de Cristo: “Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade” (Hebreus 10,7).

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ORAÇÃO

Saíste ao meu encontro, Senhor Jesus, e me concedeste a graça de conhecer-Te. Guiado pela Igreja e por Maria, tua Mãe, me visitaste e me deste a fé. Obrigado, Senhor!

Concede-me que, como João Batista, possa alegrar-me, porque continuas vindo a mim; porque continua a graça da tua visitação e sem cessar se renova a surpresa do encontro.

Renova em mim o dom do teu Espírito, para que, como Isabel, esteja eu disposto a acolher aquele que fala de Ti e, sobretudo, ser constante em buscar-te onde te deixas encontrar: na Igreja. Visitada por ti, Senhor, também a minha pequena história se converte em uma História onde o Pai continua falando.

Como Maria, que te carregou no seio e te gerou, peço-te que te formes em mim; gerado como filho de Deus à tua imagem, torna-me verdadeiramente e cada vez mais nesse homem novo que Tu és.

“Minha alma glorifica o Senhor”: enquando vou me preparando para celebrar o teu nascimento, concede-me reconhecer-me nas palavras de Maria, para contar o que o Pai continua fazendo hoje com os humildes que O temem!

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