Liturgia

Comentários às leituras do domigo da sagrada família – ano c

DOMINGO DA SAGRADA FAMÍLIA
ANO C
Cor: Branca

“Devo ocupar-me das coisas de meu Pai” (Lucas 2,49)

1ª LEITURA: ECLESIÁSTICO 3,3-7.14-17

3. Deus honra o pai nos filhos e confirma, sobre eles, a autoridade da mãe.
4. Quem honra o seu pai alcança o perdão dos pecados; evita cometê-los e será ouvido na oração cotidiana.
5. Quem respeita a sua mãe é como alguém que ajunta tesouros.
6. Quem honra o seu pai terá alegria com seus próprios filhos; e no dia que orar será atendido.
7. Quem respeita o seu pai terá vida longa, e quem obedece ao pai é o consolo da sua mãe.
14. Meu filho, ampara o teu pai na velhice e não lhe causes desgosto enquanto ele vive.
15. Mesmo que ele esteja perdendo a lucidez, procura ser compreensivo para com ele; não o humilhes em nenhum dos dias de sua vida: a caridade feita a teu pai não será esquecida,
16. mas servirá para reparar os teus pecados
17. e, na justiça, será para tua edificação.
– Palavra do Senhor.

Este fragmento do livro do Eclesiástico é de grande sabedoria e apresenta uma cena repleta de fé e de simples humanidade acerca das relações familiares, caminho seguro também para a observância do amor a Deus. A mensagem é um convite aos filhos adultos para que amem de coração os seus pais já idosos mediante um comportamento verdadeiramente filial. Além disso, a passagem comenta o 4º Mandamento (“Honra teu pai e tua mãe, pois assim prolongarás os teus dias sobre a terra que o Senhor, teu Deus, te dará”, cf. Êxodo 20,12), preceito bastante observado pelo judaísmo antigo (cfr. Provérbios 19,26, Rute 1,16-17, Tobias 4,3-4). O texto, portanto, sublinha a estreita relação entre o honrar a Deus e o honrar aos pais: respeitar e cuidar destes é obedecer a Deus; não ter piedade destes e abandoná-los no momento da prova é o mesmo que desprezar o Senhor (versículos 6, 7 e 14).

A honra que o filho deve aos seus pais contém toda uma gama de atitudes e sensibilidades, que se traduz não só em respeito, mas na ajuda concreta, nas mostras de afeição, obediência, estima e atenção, porque tudo isso é fazer a vontade de Deus. No entanto, o texto considera ainda um outro aspecto: a prática desse mandamento é fonte de recompensa e dons extraordinários do Senhor como vida longa (versículo 7), remissão dos pecados (versículos 4 e 16), alegria e satisfação da parte de seus próprios filhos (versículo 6a), atendimento das suas orações (versículo 4b) e, consequentemente, a garantia de acolhida no futuro por parte de Deus.

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SALMO RESPONSORIAL 127 (128)

R.: Felizes os que temem o Senhor
e trilham seus caminhos!

1. Feliz és tu se temes o Senhor
e trilhas seus caminhos!
Do trabalho de tuas mãos hás de viver,
serás feliz, tudo irá bem! – R.

2. A tua esposa é uma videira bem fecunda
no coração da tua casa;
os teus filhos são rebentos de oliveira
ao redor de tua mesa. – R.

3. Será assim abençoado todo homem
que teme o Senhor.
O Senhor te abençoe de Sião
cada dia de tua vida. – R.

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2ª LEITURA: COLOSSENSES 3,12-21

Irmãos,
12. vós sois amados por Deus, sois os seus santos eleitos. Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência,
13. suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente se um tiver queixa contra o outro. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai vós também.
14. Mas, sobretudo, amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição.
15. Que a paz de Cristo reine em vossos corações, à qual fostes chamados como membros de um só corpo. E sede agradecidos.
16. Que a palavra de Cristo, com toda a sua riqueza, habite em vós. Ensinai e admoestai-vos uns aos outros com toda a sabedoria. Do fundo dos vossos corações, cantai a Deus salmos, hinos e cânticos espirituais, em ação de graças.
17. Tudo o que fizerdes, em palavras ou obras, seja feito em nome do Senhor Jesus Cristo. Por meio dele, dai graças a Deus, o Pai.
18. Esposas, sede solícitas para com vossos maridos, como convém, no Senhor.
19. Maridos, amai vossas esposas e não sejais grosseiros com elas.
20. Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais, pois isso é bom e correto no Senhor.
21. Pais, não intimideis os vossos filhos, para que eles não desanimem.
– Palavra do Senhor.

Estamos diante de um Código Familiar que São Paulo apresenta à comunidade cristã de Colossos visando responder aos problemas concretos da vida cotidiana (cfr. Efésios 5,22-6,9; Tito 2,1-10; 1Pedro 3,1-7).

O Apóstolo, após ter enumerado os vícios do velho homem, apresenta as virtudes que devem adornar a vida dos fiéis “amados por Deus e seus santos eleitos” (versículo 12), como a misericórdia, a bondade, a humildade, a mansidão, a paciência, a compreensão e o perdão (versículos 12 e 13); entretanto, entre estas, o principal meio de união é a caridade que “é o vínculo da perfeição” (versículo 14), isto é, o amor que a comunidade nutre a Deus e aos irmãos (cfr. Mateus 18,21-35; Romanos 12; Efésios 5,19-33). Para viver este projeto evangélico é necessário, no entanto, construir a comunidade cristã em torno da Eucaristia e da Palavra de Deus. A seguir, Paulo recomenda às esposas que respeitem os seus maridos “como convém, no Senhor” (versículo 18); aos maridos, amar suas mulheres e não intimidar seus filhos; aos filhos, obedecer aos pais porque “isso é bom e correto no Senhor” (versículo 20). Por estas exortações, pode-se constatar que o Apóstolo permanece ligado às leis de seu tempo mas, por outro lado, as supera aperfeiçoando-as através de um critério evangélico novo: fazei tudo “no Senhor” (versículos 18 a 20).

Assim, portanto, os valores familiares fundamentais, como a obediência, o respeito, o amor no núcleo familiar e a educação dos filhos são salvaguardados, mas são relidos à luz de um ponto de referência constante: o modo de vida do Senhor, livre e obediente ao Pai. Jesus é o verdadeiro laço de união de toda família cristã!

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EVANGELHO: LUCAS 2,41-52

41. Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa.
42. Quando Ele completou doze anos, subiram para a festa, como de costume.
43. Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem de volta, mas o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem.
44. Pensando que ele estivesse na caravana, caminharam um dia inteiro. Depois começaram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos.
45. Não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura.
46. Três dias depois, o encontraram no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas.
47. Todos os que ouviam o menino estavam maravilhados com sua inteligência e suas respostas.
48. Ao vê-lo, seus pais ficaram muito admirados e sua mãe lhe disse: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura”.
49. Jesus respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”
50. Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera.
51. Jesus desceu então com seus pais para Nazaré e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas essas coisas.
52. E Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e diante dos homens.
– Palavra da Salvação

O relato da perda e do encontro de Jesus no Templo é uma cena da vida familiar. O contexto encontra-se representado por duas breves descrições da vida da Família de Nazaré: a viagem anual da família de Jesus a Jerusalém para a Páscoa (cf. Deuteronômio 16,16) e o seu retorno ao lar, onde Jesus permanece submisso aos seus pais como qualquer filho.

O significado teológico do episódio, no entanto, é messiânio e o gesto de Jesus é profético. Jesus afirma conhecer bem a sua missão e anuncia o futuro distanciamento. Quando a mãe o encontra no Templo, interpela-o: “Teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura” (versículo 48); e Jesus responde, com convicção: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” (versículo 49). Ao dizer “teu pai”, Maria referia-se a José; mas quando Jesus diz “meu Pai”, refere-se a Deus. Há um contraste claro e significativo nisto, pois Jesus transcende aos seus pais: Jesus reinvindica o primado da pertença ao Senhor e a prioridade da própria vocação. Mesmo assim, imediatamente depois, Jesus retorna a Nazaré e permanece obediente e submisso aos seus pais.

A obediência dos filhos aos pais é um dever e floresce onde existe um clima de crescimento e maturidade da pessoa, onde se reconhece o primado de Deus e da própria vocação. Os filhos, portanto, não pertencem aos pais, mas a Deus e ao seu projeto vocacional, valores mais importantes que a própria família. Por isso, Jesus deixará posteriormente o seu lar para cumprir a vontade do Pai, isto é, para ocupar-se das coisas de Deus.

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HOMILIA PATRÍSTICA: “ANGUSTIADOS, PROCURAMOS JESUS”

Quando Jesus completou doze anos, ficou em Jerusalém. Seus pais, que não sabem disto, o procuram solicitamente e não o encontram; o procuram entre parentes, o procuram na caravana, o procuram entre os conhecidos… e não o encontram entre eles. Jesus é, portanto, procurado por seus pais, pelo pai que o havia alimentado e acompanhado, descendo ao Egito. E, no entanto, não o encontram com a rapidez com que o procuram. Jesus não se encontra entre os parentes e consaguíneos; não se encontra entre os que lhe são corporalmente unidos. O meu Jesus não pode ser encontrado em uma caravana; aprende tu, então, onde aqueles que o procuravam o encontram, para que, procurando também tu, possas encontrá-lo como José e Maria: ao sair à sua procura – isto é dito [na Escritura] – o encontraram no Templo! Em nenhum outro lugar, mas no Templo! E não simplesmente no Templo, mas em meio aos mestres, ouvindo-os e fazendo-lhes perguntas. Assim, procura também tu Jesus no Templo; busca-o na Igreja; busca-o junto aos mestres que se encontram no Templo e dele não saem. Se desta forma o procuras, o encontrarás! Por outro lado, se alguém acha que é mestre e não possui a Jesus, esta pessoa é mestre apenas de nome e, consequentemente, não se poderá encontrar Jesus na sua companhia.

Este Jesus que é a Palavra e a Sabedoria de Deus é encontrado sentado em meio aos mestres; e não apenas sentado, mas ainda formulando-lhes perguntas e escutando-os. Também hoje Jesus está presente, nos interroga e nos escuta quando falamos. Diz-se que todos ficavam maravilhados. Mas do que se maravilhavam? Não das seus perguntas, ainda que admiráveis, mas das suas respostas. Fazia perguntas aos mestres e, como às vezes eram incapazes de respondê-las, Ele mesmo respondia às questões que formulava. E para que a resposta não seja um simples expediente para se manter uma conversa, mas que esteja repleta de doutrina escriturística, deixa-te ensinar pela lei divina. Moisés falava e Deus respondia-lhe do trono. Aquela resposta versava sobre os assuntos que Moisés ignorava e acerca dos quais o Senhor lhe instruía. Às vezes é Jesus que pergunta; outras vezes é Ele que responde. E, como dissemos mais acima, ainda que as suas perguntas fossem admiráveis, muito mais admiráveis eram, no entanto, as suas respostas.

Portanto, para que também nós possamos escutá-Lo e possa Ele formular-nos questões, roguemos-Lhe e busquemos-O em meio às fadigas e dores; então poderemos encontrar quem procuramos. Não em vão está escrito: “Teu pai e eu te procurávamos angustiados”. Convém que quem procura a Jesus não O procure negligente, dissoluta ou eventualmente, como fazem muitos que, por isso, não conseguem encontrá-Lo. Digamos, pelo contrário: “Angustiados, te procuramos!” e, tendo dito isso, Ele mesmo responderá à nossa alma que O procura sedentemente e em meio à angústia, dizendo: “Não sabíeis que Eu deveria estar na Casa do meu Pai?”.

(Orígenes de Alexandria; Homilia 18,2-5, sobre o Evangelho de São Lucas [GCS 9,112-113]).
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MEDITAÇÃO

Jesus, ainda que nascido em uma família humana, a transcende, porque provém ao mesmo tempo das profundezas do mistério de Deus. Ele, crescendo obediente aos seus pais, apresenta uma característica peculiar: esconde o mistério da unidade com o seu Pai e coloca em relevo uma mensagem especial que O torna mais simplesmente humano. Maria e José tiveram que intuí-lo e aceitá-lo humildemente em seus corações. Todo cristão é, antes de mais nada, filho de Deus, pertencente à família de Deus. O maior dom de Deus – escreve João – é que sejamos seus filhos: “Olhai que magnífico presente nos deu o Pai: que sejamos chamados ‘filhos de Deus'” (1João 3,1-2).

Não se trata de uma exortação piedosa, nem de deixar boquiaberta a comunidade cristã! Somos verdadeiramente filhos de um Pai que nos ama e, todavia, não compreendemos a fundo a grandeza deste dom. A filiação divina é um gérmen e um dom que no porvir chegará à plenitude da visão do Senhor. É preciso vivê-la, gozá-la cotidianamente na fé e na perseverança amorosa para que possamos caminhar com alegria em direção ao ideal que é uma certeza para o cristão: seremos semelhantes a Deus. A segurança de nossa semelhança com Deus não se apoia sobre a nossa conquista ou sobre os nossos esforços, mas sobre a bondade de um Pai, sobre o dom gratuito que nos concedeu tornando-nos Seus filhos e pedindo-nos que a façamos crescer em nós com a acolhida e o cumprimento da sua Palavra.

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ORAÇÃO

Senhor Jesus: o silêncio de Maria diante de tuas palavras no Templo de Jerusalém quando tinhas doze anos nos ajuda a refletir e a orar olhando para a situação real de tantos pais que têm uma mentalidade possessiva em relação aos seus filhos. Sabemos que até a plena adolescência e primeira juventude os filhos são considerados, ainda que com mentalidades diversas, como pertences da família. E quando estes se apropriam de sua liberdade para fazer escolhas decisivas, profissionais e vocacionais, começam os dramas, as tensões e os fortes conflitos familiares.

Senhor, tu que viveste esta experiência de obediência e autonomia no seio da tua família de Nazaré, ajuda-nos a compreender que a família tem uma função educadora, inclusive no distanciamento responsável e inserção dos filhos em uma sociedade humana mais ampla. Faz-nos compreender, Senhor, que os filhos não são propriedade exclusiva dos pais, mas que são teus filhos e que para cada um existe uma missão específica a desempenhar no mundo, especialmente se for fiel cristão. Torna-nos capazes, ademais, de estabelecer relações novas na família e na comunidade, que encontrem seu modelo em Ti. Porém, se é verdade que os filhos devem se abrir para uma realidade mais ampla que a família, é verdade também que os pais não devem ficar confinados no horizonte criado pelos filhos, já que os filhos não são o Supremo Valor: o Supremo Valor reside apenas em Ti, que sois o autor da vida e o nosso único bem!


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