Padre Ivan Chudzik, IBP[1]

 

Caros fiéis, na sua primeira epístola o Apóstolo São Pedro nos dirige uma exortação da máxima importância para os nossos tempos.

 

Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito” (1 Pe 3,15).

 

Essa exortação significa então para nós duas coisas. A primeira delas é que a defesa da fé católica é mais positiva do que negativa. Ou seja, nós defendemos muito mais a nossa santa religião quando nós damos as razões, os motivos da nossa fé do que quando atacamos os erros opostos. É verdade que nós não podemos negligenciar o combate contra os erros, porque a Igreja sempre condenou os erros contrários à fé. Por outro lado, o que nos define católicos não é a oposição aos erros, e sim a adesão à verdade. São os protestantes que se definem por uma oposição. Ou seja, os protestantes são aqueles que protestam. A razão de ser do protestantismo é uma rebelião contra a Igreja Católica, contra a Hierarquia Católica, contra a Doutrina e a Moral e os Sacramentos da Igreja Católica. E apesar disso, muitos católicos caem numa psicologia, isto é, mentalidade protestante quando atribuem um peso excessivo ao ataque aos inimigos da fé quando empregam boa parte da sua vida católica ao combate aos erros, como se a fé católica fosse partido intelectual, sendo que a virtude da fé sem a caridade não é meritória, ou seja, não é agradável a Deus. Em outras palavras, caros fiéis, aquele católico que pretende defender a fé sem vive-la intensamente, não a defende muito bem. Porque quem está convencido das verdades que pretende defender, deve ser o primeiro a praticá-las. Então antes de dar as razões da nossa esperança aos incrédulos, como diz São Pedro, nós devemos nos dar a nós mesmos essas razões. Ou seja, nós devemos estar convencidos das verdades de fé, a ponto de vive-las intensamente. Porque assim daremos aos incrédulos não apenas as razões da nossa fé, mas também as razões da nossa vida, de uma vida de fé.

 

Em segundo lugar, devemos tirar da exortação de São Pedro a seguinte conclusão: assim como a fé deve estar unida à caridade em nossa vida pessoal, porque a fé sem a caridade não é meritória. Enfim, assim como a fé deve estar unida à caridade em nossa vida pessoal, ela deve estar unida à caridade em ao nosso apostolado. Ou seja, em todas as nossas palavras e ações em defesa da nossa santa religião. É por isso que São Pedro determina explicitamente em sua epístola as qualidades desta defesa, ou seja, ela deve ser com “modestia et timore”, isto é, com suavidade e com respeito. A consequência então dessa conclusão não pode ser outra: prestam um desserviço à fé católica todos aqueles que em sua pretensa defesa da nossa santa religião, caem no escárnio, na zombaria, na ironia imoderada contra as autoridades eclesiásticas porque pretendem defender a fé separando-a da caridade. O que vai contra a exortação de São Pedro. Na verdade, mesmo quando uma autoridade eclesiástica qualquer cai num erro qualquer contra a fé, ou comete um abuso de autoridade, isso quer dizer que o católico deve ser opor mais ao erro do que à pessoa que erra. Deve expor mais a nocividade do erro do que manifestar a malícia daquele que erra, ou o engano daquele que erra.

 

Do contrário, quanto mais o combate se concentra na pessoa, mas isso suscita as paixões e mais isso fere o orgulho o que aumenta os obstáculos para o reconhecimento da culpa e a conversão daquele que erra. Afinal caros fiéis, nós seremos verdadeiramente católicos quando o nosso combate pela fé for também um ato, uma obra de caridade dirigida àquele cujos erros nós nos propomos responder. Portanto, a defesa da nossa santa religião, não nos dá direito a ferir despudoramente a reputação alheia, sobretudo, a das autoridades eclesiásticas. Por outro lado, se um certo modo de defender a fé, nos causa mais a indignação do que a compaixão, se um certo modo de defender a fé, nos move mais a ira do que a caridade, mais ao desejo de vingança do que o de intercessão pelos inimigos da Igreja, então essa defesa está viciada em sua raiz, porque ela procede não da caridade, mas do amor-próprio indignado, do amor-próprio ferido. A ira e a indignação desordenadas, assim como o desejo desordenado de vingança são os sinais mais claros de que certas iniciativas não corroboram para o bem da Igreja. Pois como diz São Paulo, a Caridade é paciente, a Caridade é bondosa, não busca seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor, tudo desculpa, tudo suporta.

 

É por isso que o nosso máximo exemplo de defesa da fé está em Nosso Senhor Jesus Cristo que no episódio da expulsão dos vendilhões do Templo agiu de modo a move aqueles comerciantes ao temor de Deus. E que no Seu combate contra a doutrina dos fariseus reduziu a seita farisaica ao mais completo silêncio. Uma vez que o povo estava tomado de admiração sabedoria e pela santidade de Suas palavras e de Suas obras. Então mesmo quando Nosso Senhor usou de palavras severas contra os seus inimigos, Suas palavras estavam sempre unidas à mais perfeita caridade, à mais perfeita paciência, à mais perfeita mansidão, à mais perfeita doçura. Porque em Nosso Senhor todas as virtudes se encontram em seu máximo grau e na sua máxima união com a caridade. Portanto, Ele é o nosso modelo. Ele é o modelo do verdadeiro apostolado católico e de toda defesa da fé católica. É Nele que nós encontramos o mais santo, o mais puro, o mais ardente zelo pela casa de Deus. É nele que nós aprendemos que a indignação deve ser um transbordar da caridade e não do orgulho ferido. É nele que nós aprendemos a desaprovar certas iniciativas que são muito mais uma provocação infantil dos inimigos da Igreja do que uma defesa contundente da Tradição.

 

NOTAS

 

[1] O presente texto foi retirado do Sermão do V Domingo depois da Epifania (dia 06/02 segundo o calendário litúrgico tradicional), proferido pelo Pe. Ivan Chudzik na Capela Nossa Senhora das Dores em Brasília/DF. O sermão completo está disponível no endereço https://www.youtube.com/watch?v=70up3x7gd9w.

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