D. Estêvão Tavares Bettencourt, osb (+2008)

Como entender a geração do Filho, se as Pessoas da Santíssima Trindade são incriadas?

– “Como entender a geração do Filho enquanto Deus? As Pessoas da Santíssima Trindade não são incriadas?” (Maria Cláudia – Rio de Janeiro-RJ).

A Sagrada Escritura, ao falar de Deus, aplica-Lhe os conceitos de “paternidade”, “filiação”, “geração”. Estas noções, porém, não convém ao Altíssimo do mesmo modo que a nós homens.

Em Deus todos os atributos se acham na escala do infinito (o que quer dizer propriamente: acima de qualquer escala), ao passo que em nós tudo é finito. Em termos técnicos: há analogia e não univocidade entre Deus e nós.

Feita esta observação, dir-se-á:

1) Em Deus há “geração”, isto é, comunicação da natureza divina (como entre os homens, por geração, há comunicação da natureza humana), e comunicação tal que dela resulta uma Pessoa em tudo igual à Pessoa que comunica. Note-se que “geração” não é o mesmo que “criação”; esta significa “origem a partir do nada”, e por conseguinte, diversidade de natureza entre o Criador e a criatura. O pai, porém, não tira do nada, mas produz da sua natureza.

Logo depois de afirmar isto, é-nos necessário negar em Deus algumas notas que caracterizam o processo generativo entre os homens.

2) A comunicação da natureza em Deus não implica temporalidade, começo, progresso, fim; é ato único, sempre presente e perfeito, ato inseparável do ser ou da vida de Deus; desde que Deus é Deus, ou seja, sem começo e sem fim, o Pai gera o Filho, ou a essência divina se comunica do Pai ao Filho.

3) Tal comunicação não acarreta imperfeição na Pessoa gerada, nem subordinação perante o Pai (era com referência à sua Santíssima humanidade que Jesus dizia em João 14,28: “O Pai é maior do que eu”).

4) Também não significa divisão da substância divina. Esta é espiritual; por isto não tem partes, é indivisível. Pela geração, a mesma natureza divina, com sua infinita perfeição, subsiste no Filho como ela subsiste infinita no Pai. Entre Pai e Filho há a distinção proveniente apenas do que se chama “oposição relativa”: o Pai é a natureza divina enquanto gera, o Filho é a natureza divina enquanto gerada.

A geração do Filho é tão alheia ao plano da corporeidade que se pode comparar ao nosso ato de conceber uma ideia ou uma palavra mental. Com efeito, o Filho na Sagrada Escritura também é chamado “Logos” (em grego, “Palavra mental” ou “vocal”, não propriamente “Verbo”) e “Imagem” (expressão) do Pai (cf. João 1,1-3; Colossenses 1,15). Entende-se bem a sinonímia: no plano do espírito, a função de conceber uma ideia corresponde à de conceber e gerar um filho no plano da corporeidade; tanto o filho como a ideia são manifestações, imagens, da natureza de quem concebe. Não é em vão que repetindo o mesmo vocábulo, falamos de “conceber uma idéia” e “conceber um filho”; estas funções, que em nós são distintas por constarmos de espírito e matéria, em Deus, Puro Espírito, constituem uma só, a saber: o ato em que a primeira Pessoa divina conhece total e perfeitamente a sua infinita perfeição e profere este seu conhecimento numa Palavra ou Imagem que subsiste como Pessoa igual à Pessoa que proferiu, ou como um Filho perante seu Pai.

A título de complemento, diremos que o ato de contemplar o Filho não pode deixar de suscitar no Pai o Deleite, o Amor; Amor que é recíproco do Filho ao Pai. Este Amor constitui outra manifestação perfeita da vida de Deus; não é senão a natureza divina mesma que se afirma como Amor subsistente, pessoal. À terceira Pessoa, a Sagrada Escritura dá o nome de “Espírito Santo”, que é o ósculo sagrado a unir o Pai e o Filho numa felicidade sem princípio e sem fim.

Jamais se poderia conceber a vida divina sem estas duas afirmações características do ser espiritual: a do “conhecimento”, de onde procede a Palavra mental ou o Filho do Pai Eterno; e a do “Amor”, de onde procede o Espírito Santo, a Complacência, o Deleite, do Pai no Filho e do Filho no Pai.

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 7:1957 – nov/1957
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