D. Estêvão Tavares Bettencourt, osb (+2008)

Como interpretar a passagem em que Jesus diz falar em parábolas para que alguns, ouvindo, não compreendam?

– “Como interpretar a passagem em que Jesus diz falar em parábolas para que alguns, ouvindo, não compreendam?”

O texto a que alude a pergunta, se encontra em Mateus 13,10-15; Marcos 4,10-12; e Lucas 8,9-10 (paralelos).

Segundo São Marcos e São Lucas, Jesus falava em parábolas para obcecar o coração dos ouvintes, ou seja, para que não compreendessem. São Mateus ao contrário, omitindo a conjunção final e substituindo-a por uma causal, refere que Jesus falava em parábolas porque o povo estava mal disposto, nutria preconceitos que o impediriam de compreender outro tipo de catequese.

Na verdade, Marcos e Lucas não dizem outra coisa que Mateus. É o que se percebe, se se leva em conta o idioma em que Jesus pregou; em São Marcos (4,10-12) e São Lucas (8,9-10), o Senhor se serve de um autêntico semitismo; o texto de São Mateus já interpreta esse semitismo, tornando-o acessível à compreensão de leitores não-judeus (conhecem-se outros casos em que o texto de Mateus esclarece as expressões difíceis de Marcos; comparem-se, por exemplo, Marcos 6,5-6 e Mateus 13,58; Marcos 8,12 e Mateus 16,4; Marcos 10,8 e Mateus 19,16-17). De resto, a passagem de Isaías (6,9-10), redigida em estilo estritamente semita e citada por Jesus, terá concorrido para dar à afirmação do Senhor em Mateus e Marcos o seu cunho desconcertante.

Qual será, pois, o sentido do trecho evangélico?

Cristo mesmo declarou que veio procurar e salvar o que perecera (cf. Lucas 19,10). De acordo com este propósito, falava ao povo rude em parábolas, método de ensino simples e vivaz, para lhe chamar a atenção, despertar o seu interesse; acomodava-se assim ao estado de ânimo dos ouvintes; com efeito, os judeus, imbuídos de falsas expectativas, não teriam entendido o plano de Deus se este lhes tivesse sido revelado imediatamente em toda a sua realidade grandiosa e misteriosa o paradoxo da cruz, de um Messias padecente bem alheio às concepções farisaicas que norteavam a maioria dos israelitas. Por conseguinte, as imagens das parábolas ilustravam a doutrina do Salvador de maneira atraente; eram escolhidas para ajudar o entendimento, manifestar a verdade, não para ocultá-la; Jesus não terá procedido diversamente do que Ele ensinava em Mateus 5,15: não veio acender uma lâmpada para colocá-la debaixo do alqueire, mas a fim de que a luz, a verdade, postas em evidência, iluminassem e alegrassem a todos os que quisessem entrar na casa, no círculo dos seus discípulos dóceis.

Note-se a propósito a observação de Marcos 4,33:

– “Mediante muitas parábolas desse gênero Ele lhes anunciava a palavra na medida em que eram capazes de entender”.

Às vezes, a verdade de ordem superior contida nas parábolas era por si evidente, mesmo aos ouvintes mais infensos; tal foi o caso dos fariseus que compreenderam muito bem as imagens dos vinhateiros homicidas, da pedra angular rejeitada pelos construtores, sem que o Senhor tivesse que as elucidar (cf. Marcos 12,12). Em geral, porém, as parábolas apenas esboçavam uma doutrina mais elevada. Este ensinamento inicial devia excitar os ouvintes a pedir ulteriores explicações. Contudo o povo permanecia indiferente; pouco desejoso de conhecer a verdade, não interrogava o Mestre. Ao contrário, os discípulos de Jesus, animados por boa vontade, pediam a interpretação autêntica das parábolas (cf. Mateus 13,36; Marcos 4,10); o Senhor então lhes explicava (Marcos 4,34), pois estavam abertos para receber a doutrina.

Em consequência, para os corações mal dispostos, o remédio (parábolas) se tornava veneno; o Senhor, diante da multidão, geralmente não elucidava todo o sentido das figuras, pois é consoante à sabedoria divina não salvar o homens sem que o queiram e sem que para isto cooperem livremente. Portanto, acidentalmente, quase “contra as intenções do Salvador”, as parábolas permaneciam estéreis, e o ensinamento concebido como meio de salvação se fazia ocasião de ruína.

É neste sentido que se pode dizer (na base do texto de São Marcos e São Lucas) que o Senhor endurecia e obcecava o povo: oferecia-lhe, sim, um remédio, que, não sendo devidamente aceito, redundava em perdição. Esta ruína, porém, se devia ao mau acolhimento dispensado pela criatura, não à ação direta do Criador. Sabemos, aliás, que os judeus não distinguiam explicitamente entre ação direta e ocasional, mera permissão, causalidade indireta de Deus; atribuíam todos os efeitos igualmente à intervenção do Criador. É o que explica as expressões fortes de Isaías 6,9-10, que Jesus cita e que contribuem para dar um caráter aparentemente desapiedado aos textos evangélicos (cf. Estêvão Bettencourt, “Para Entender o Antigo Testamento”, pp.155-156.

Em última análise, porém, não se poderá negar que a pregação em parábolas é um aspecto da misteriosa dispensação da graça divina, a qual quer salvar todos os homens sem violentar a nenhum.

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 3:1957 – jul/1957
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