Existe muita confusão ao redor da pastoralidade do Vaticano II, a maioria repete sem saber, mas em nada isso diminui o Concílio. A ação pastoral do CVII se fundamenta no fato dele reproduzir a Doutrina de forma diferente, sem fazer com esta perdesse seu alicerce em Cristo, na Tradição e na Sagrada Escritura. Pensar que por ser pastoral, o Concílio passaria longe da infalibilidade, é um tanto obtuso, afinal a pastoralidade não é apenas um modo de vivência e prática da Doutrina, mas uma nova compreensão e exposição da mesma, assim como dos dogmas, entretanto, sem perder nada daquilo que é crido pela Igreja.

A única diferença que se poderia falar é entre um Concílio que canoniza dogmas, e execra os erros a respeito deste, e o outro, que se alicerçando no que a Igreja sempre acreditou, expõe pastoralmente os dogmas e as verdades da Igreja, neste segundo, o Concílio não se reduz às problemáticas internas, mas lança uma luz em todo o mundo. Devemos ter, portanto, assentimento de fé, graças a autoridade suprema da Igreja no que tange os ensinamentos, e obediência religiosa, reflexo da suprema autoridade de governo.

O fato do Concílio não ter lançado mão de pronunciamentos extraordinários, de forma alguma impede que fosse regido pelo Espírito Santo, pensar o contrário seria contrariar o dogma da infalibilidade, onde Pio IX frisa que um católico não pode unicamente seguir o Magistério solene, achando que assim não estaria caindo no erro.O Vaticano II apenas repetiu tudo que era crido pela Igreja, mas agora colocando essas verdades dentro do mundo, mostrado a necessidade de ser católico na modernidade, ou seja, o Concílio comunica a Doutrina de sempre, não se reduzindo a apenas falar sobre catequese, ações católicas, comportamento cristão (o que seria um dos âmbitos da pastoralidade), mas também repetindo de forma mais clara toda a Fé da Igreja, o que Paulo VI chamou de ‘interpretar o pensamento de Jesus Cristo’, e essa faceta conciliar, o coloca de forma plena dentro do Magistério Ordinário, aquele que é infalível não por um ato, como o Extraordinário, mas por uma seqüência de atos, não há uma proposição da doutrina como definitiva, mas um ensino perene que a propõe definitiva. “A infalibilidade [também] exerce-se (…) quando o Papa e os Bispos, no seu Magistério ordinário, concordam ao propor uma doutrina como definitiva.” (Catecismo, mais claro que isso só querer uma carta privada do Santo Padre)

Tudo isso nos lembra uma passagem do livro “A Fé em Crise?” do então Card.Ratzinger; “defender hoje a Tradição verdadeira da Igreja significa defender o Concílio”, “É ao hoje da Igreja que devemos permanecer fiéis, não ao ontem nem ao amanhã”, e ainda afirma que as problemáticas no mundo pós-conciliar “não são atribuíveis ao Concílio ‘verdadeiro’, mas ao desencadear-se, no interior da Igreja, de forças latentes agressivas”, assim como “no exterior, ao impacto de uma revolução cultural”

Outro assunto em que queríamos tocar é a questão do IBP, no site oficial, tanto em português quanto em francês, não se encontra nada sobre uma possível “crítica” ao Vaticano II, a única coisa que podemos dizer concretamente é aquilo que o Instituto expõe: “Bento XVI afirma que ele pretende submeter o Vaticano II a uma releitura para dar dele uma interpretação autentica, ainda por vir. Nessa perspectiva, nós somos convidados a conduzir de maneira construtiva, em nosso modesto nível, um trabalho critico”. Uma coisa é fazer uma reflexão crítica tendo por fim trazer a tona a hermenêutica ortodoxa do Concílio, outra bem diferente é dizer que o IBP tem como fim criticar o Vaticano II, como se esse fosse inválido. A missão do Instituto está em consonância total como os ensinamentos de Bento XVI, ele já havia dito a respeito da “hermenêutica da ruptura”, aquela “que causou confusão”, e tendo como pretensão a defesa da hermenêutica “que gerou e gera frutos”, o que o superior do IBP chamou de “releitura para dar dele uma interpretação autêntica, ainda por vir”, em concordância com a defesa da ortodoxia do Vaticano II, bem diferente de achar que ele foi modernista e deva ser renegado.

A Igreja já começou a colocar os “pingos nos is”, as passagens onde os modernistas mais atacavam, seqüestravam e corrompiam com suas interpretações heréticas, foram confirmadas se pautando na ortodoxia da Doutrina, exemplificando, muitos diziam que o Vaticano II criou a idéia dos “muitos caminhos” da salvação, uma falácia obviamente, o Concílio foi claro em confirmar que a Igreja de Cristo é (subsistit in) a Igreja Católica, e nem poderia dizer o contrário, afinal “Extra Ecclesiam Nulla Salus” é dogma definido em três concílios. Para não ficar dúvidas, e zelar pela ortodoxia do Vaticano II, a Congregação Para a Doutrina da Fé deixou tudo claro no documento Dominus Iesus que o “subsiste” é realmente o “é”, da mesma forma, Roma foi trazendo para perto muitos Bispos que defendiam heterodoxias. O próprio João Paulo II solidificou a necessidade do seguimento do Missal de forma piedosa e pura, entretanto, o que estava ocorrendo, era justamente aquilo que já disse no outro post, alguns Bispos e católicos não mais seguiam os ensinamentos do Sumo Pontífice, estes passavam por um crivo pessoal, e só depois se decidia se seguiam ou não, isso de ambos os lados; modernistas e “tradicionalistas”.

Se houvesse menos “opiniões pessoais” e mais fidelidade ao Romano Pontífice, menos devoção aos Bispos e suas idéias (SSPX, TL; “tradicionalistas” e modernistas), e mais seguimento do Magistério, nada disso estaria ocorrendo, entretanto todos querem que a Igreja defenda as vontades próprias, as teologias particulares, conseqüentemente, modificam ao bel prazer tudo que tiverem de modificar.

Novamente colocamos a passagem do livro do então Card.Ratzinger: “É ao hoje da Igreja que devemos permanecer fiéis, não ao ontem nem ao amanh㔠(o problema é que para os modernistas, o hoje é a defesa da heresia, e para os “tradicionalistas” o hoje é a própria heresia).

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