Certa vez, quando andava de madrugada por uma avenida vazia, eu olhei para uma árvore, saindo ao longe daquele quadradinho sem cimento onde a prefeitura permite que haja alguma vegetação. Tive então uma daquelas pequenas confusões mentais que acabam revelando coisas que deveriam ser óbvias: a árvore me pareceu a mão de um afogado. Como uma mão que sai da água, com o resto do corpo oculto, a árvore saía daquele chão coberto de asfalto, coberto de cimento, sobre os quais circulam, velozes, carros com pneus de borracha e pessoas bem calçadas.

Ao invés de seus galhos se misturarem aos de outras árvores como mãos de apaixonados, ao invés de seu tronco estar rodeado de arbustos floridos, a árvore estava ali, sozinha, na horrível solidão que deve ser a de um afogado.

Alguns metros adiante, outra árvore, e outra, e outra, em fila indiana, organizadas como decoração natural de um mundo artificial. Elas me lembraram as miniaturas de árvores plantadas em bandejas, os bonsais.

Mas somos nós que nos esquecemos do mundo que nos rodeia, e criamos para nós mesmos um mundo à parte. Mesmo nele nos isolamos ao máximo, condicionando o ar, tratando a água, levando embora o esgoto que, ao invés de nutrir as plantas, fazemos com que de algum modo desapareça.

Aquela árvore, planejada e isolada, cercada de cimento e asfalto, ainda tem, no entanto, suas raízes descendo pelo chão e suas ramas acolhendo a água da chuva. Já a nossa sociedade nos priva da visão das estrelas e nos faz ignorar a fase da Lua, apagadas pelas lâmpadas da cidade. A água da torneira é diferente da água da garrafa, por sua vez diferente da água da chuva, que parece servir só para engarrafar o trânsito.

Nascemos num hospital, e morremos em outro; vivemos entre quatro paredes, comendo coisas que vêm em caixinhas, coisas que dificilmente associaríamos à terra de que saíram. Negamos a natureza humana, seus gostos, amores e prazeres, seu masculino e seu feminino, suas conexões naturais com todo o universo criado, preferindo o triste recolhimento e a artificialidade completa dos ambientes que construímos, onde entram apenas homens e ratos, baratas e samambaias. O mundo está lá fora, e nós o negamos, presos em nossas caixinhas.

É triste, mas naquele dia percebi: os bonsais somos nós.

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