Lendo recentemente o Manifesto Comunista [1] a frase final de Hengels no prefácio à edição alemã de 1890 me chamou à atenção. Rejubilando-se com as condições propícias para a Revolução apenas tinha um lamento. Dizia ele “pena que Marx não esteja mais ao meu lado para ver isso com seus próprios olhos!”

A menção da ausência do famoso pensador da causa revolucionária por causa de sua morte me levou ao breve raciocínio que desejo compartilhar. Todos sabemos que Marx, Hengels e tantos outros defensores do materialismo ateu são, como próprio nome já define, contrários à idéia de Deus, de um após, de uma transcendência. Para eles a morte sela o contexto da vida e expulsa o protagonista do círculo da existência para o nada.

Sendo assim, em vista do lamento de Hengels, pergunto: de que valeu a Marx tanto esforço?

Olhemos exclusivamente pela ótica materialista. Imaginemos uma dada pessoa, sua trajetória desde o nascimento até a morte e as obras que realizou neste lapso. Com o advento de sua morte que serventia lhe tem esta ou aquela circunstância social, uma vez que já não participa mais da realidade? Que lhe importa se o mundo pende mais para o capitalismo ou para o comunismo? Nada do que ocorre ou ocorrerá pode alcançar-lhe porque já não existe. O resumo de todos os seus esforços e realizações reduz-se invariavelmente a uma palavra: nada.

Alguém dirá, mas seu pensamento será útil às gerações futuras. Contudo o mesmo raciocínio vai abranger cada ser humano do futuro com a mesma questão embutida. Que importa se a vida da sociedade foi influenciada ou não pelo pensamento daquele homem se o resultado final é sempre o mesmo, nada. De que servem os valores mais elevados da civilização, frutos do pensamento humano? De que servem a ética e a moral, por exemplo? Já Dostoiévski dizia pela boca de Ivan e Dimitri Karamasov: “se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido” [2].  Ou ainda podemos recorrer a São Paulo: “Se foi por intenção humana que combati com as feras em Éfeso, que me aproveita isso? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, porque amanhã morreremos” (I Coríntios 15,32). Para que respeitamos, com que fim obedecemos? Qual argumento justificará a justiça? Para o indivíduo, e por conseqüência para toda a sociedade, não há virtualmente sentido nenhum no que aspire ou realize, pois como recompensa encontrará somente o vazio da inexistência. Seu quinhão será o nada.

Curioso que pela ótica da fé se uma pessoa por seus atos conscientes durante a vida venha a conquistar para si como destino os infernos ainda assim constituirá ela algum sentido, por mais horrendo que seja. Há pessoas que empenham a existência neste propósito, e isto faz delas mais objetivas, malgrado o vil objetivo, que os materialistas.

Enquanto que para os que buscam a perdição aquela inscrição às portas do Inferno que tanto abalou Dante “DEIXAI TODA A ESPERANÇA, Ó VOS QUE ENTRAIS” [3] é recepção após a morte, para os pessimistas do materialismo ateu já pode servir de lema aos seus filhos recém-nascidos que adentram a vida.

A grande conclusão que se pode tirar criticamente da contemplação do nada é que sem uma projeção na eternidade a vida humana não faz sentido algum. Se não há Deus nem a possibilidade de eternizarmos todos os feitos de nossa vida junto a Ele não há razão nenhuma na existência. Ao contrário, a perspectiva de que tudo o que fazemos pode ser útil para as próximas gerações e de que nós poderemos constatar isto depois da morte por estarmos vivos, ainda que de forma diferente, já coloca no horizonte um objetivo válido para esta vida. Poderemos então verificar que nosso investimento na fé nos tornou colaboradores de Deus e que os frutos do bem que fizemos repercutem na eternidade.

A própria conclusão de Dostoiévski de que sem Deus tudo é permitido já nos acena para o fato de que valores como ética e moral emanam, antes do que meramente de nossa natureza e cultura humanas, de nossa semelhança com Deus, e em última análise, do próprio Deus.

Nenhum valor inerente ao ser humano pode ser desassociado da pessoa do Deus Criador, pois todos eles se originam n’Ele e projetam-se em nós. Por isto toda disposição de espírito contrária a Deus é anti-natural e tende a causar dor e sofrimento. Não é estranho diante disto verificar que os maiores genocídios da história foram cometidos por regimes materialistas como o nazismo e o comunismo soviético.

A contemplação do nada leva-me a delinear o ser humano como uma figura amargurada e pessimista. Um Arthur Schopenhauer, ziguezagueando sem destino pela vida. Um ser tristonho que não consegue explicar-se de onde e para que veio. Prisioneiro de uma inexorável contagem regressiva para a morte, momento em que só vislumbra de positivo o fim do sofrimento.

A contemplação do nada tomou-me apenas um instante. Insignificante foi tal como a duração da vida material do homem comparada à idade do universo. Este momento fugaz foi o suficiente para que o nada me convencesse de que não vale a pena ser contemplado, menos ainda ser vivido como perspectiva. Caso perseverasse nele, nem estas linhas compensaria escrever. Então voltei meu olhar para o lado oposto, de onde provém a Luz que clareia meus dias e meu pensamento e aquece meu futuro à medida em que caminho para Ela. O nada, portanto, só faz sentido em nossa vida quando nos serve de breve meditação, necessária à condição do livre arbítrio, para logo ser substituído pelo Tudo.

Jorge Deichmann Miguel


NOTAS

[1] Marx & Engels – Manifesto do Partido Comunista (1848) – Prefácio à edição Alemã de 1890 por Friedrich Engels.

[2] Os Irmãos Karamázovi – Fiódor M. Dostoiévski

[3] Dante Alighieri – A Divina Comédia – Inferno – Canto III

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