Conversando com um ateu, ele me disse que a Bíblia estava se contradizendo. Teria ele razão? Então me deu alguns exemplos:

  • 1Samuel 15,29: “Ademais, Aquele que é a glória de Israel não mentirá, nem se arrependerá, porque não é homem para se arrepender”.
  • Gênesis 6,7: “E disse o Senhor: ‘Apagarei da face da terra os homens que criei, desde o homem até o animal; até mesmo os répteis e os pássaros do céu; Eu me arrependo de tê-los feito”.
[Deu ainda outros] exemplos semelhantes, que não cito aqui para não aborrecer o leitor.

Na verdade, para respondermos a esse ateu, teríamos que começar ensinando o que é a Bíblia, o que é encontrado nela e como é interpretada.

Mas antes de entrarmos nesse tópico, parece-me melhor iniciarmos esclarecendo o significado da discussão.

A discussão sobre ser crente ou ateu não se baseia na Bíblia.

O problema da existência de Deus encontra-se em outro lugar: eu não acredito em Deus porque a Bíblia diz que devo acreditar, mas porque a razão mostra que não há outra explicação do mundo mais razoável que Deus.

Afinal, para explicarmos a razão da existência do universo, existem apenas duas opções:

  1. O Logos, isto é, a Razão Criadora; e
  2. A irracionalidade (o acaso).

Não há outra alternativa. Tentar explicar a existência de um mundo matematicamente ordenado (e é por isso que as ciências podem existir: porque o mundo possui uma forma razoável) através da irracionalidade é coisa bastante irracional. Afirmar que o razoável procede da irracionalidade exige muita fé na inexistência de Deus (esta é a verdade!).

A primeira opção é muito mais razoável do que a segunda. A partir daqui, podemos começar a raciocinar como é esse Ser Criador. E posteriormente descobriremos, com imensa alegria, que Ele não nos deixou sós, mas Se revelou para nós.

Ninguém começa a crer porque é convencido numa discussão sobre citações bíblicas. O fato de reconhecermos a existência de Deus – podemos dizer – é anterior: não vem da Bíblia, mas da razão; é uma questão racional.

Por outro lado, ninguém abandona a fé e vira ateu por aparentes contradições na Bíblia.

Sim, é frequente encontrarmos ateus procurando – e quem procura, acha – contradições na Bíblia. Seria aliás interessante conhecer o motivo do interesse dessa pessoa na Bíblia: se é sincero ou apenas quer levantar objeções sem muita seriedade.

Como percebemos, este tema fornece vários temas!

Quanto ao problema da coerência interna da Bíblia, apontamos aqui apenas alguns pontos:

1) Não somos fundamentalistas (pelo menos nós, católicos; mas existem protestantes fundamentalistas), isto é, seguidores de um Livro (na verdade, os cristãos são seguidores de Jesus Cristo [uma pessoa]). Ao longo da história, Deus Se revelou com atos e palavras, mas acima de tudo, ao Se tornar homem. A Revelação é a pessoa de Jesus Cristo; somos seguidores de Deus feito homem.

A Bíblia foi composta por vários autores ao longo de dezesseis séculos. Aí nos é transmitida a Revelação (cuja plenitude, repito, é a pessoa de Jesus Cristo, não um Livro).

Não pensamos que Deus tenha ditado palavra por palavra da Bíblia (como imagina um fundamentalista), mas que Deus inspirou os autores. Através deles, Ele fala conosco. Então temos que ver o que o autor pretendia escrever e o que Deus nos diz através dele. Isto requer estudo (e por algum motivo, a Bíblia é o livro mais estudado da História!), para sabermos como interpretá-la. É muito superficial discutir a Bíblia com base em [meras] citações de versículos: não é assim que se faz Teologia; primeiramente seria necessário mostrar que a passagem diz aquilo o que nosso amigo afirma que ela diz…

2) Se estamos interessados nos critérios de interpretação (afirmo que a Exegese Bíblica é um ramo bastante amplo da Teologia), podemos ver o básico na primeira parte da Exortação Apostólica “Verbum Domini” (do Papa Bento XVI, publicada em 2010). No nosso caso, estamos interessados ​​nisto: a consideração da Bíblia inteira; não podemos interpretar um versículo isolado do resto. A Escritura Sagrada é um Livro, composto por muitos livros; o critério básico para a interpretação é a coerência interna. Em outras palavras: para entendermos um texto, precisamos dos demais. Dessa forma, muitas das coisas que o nosso amigo apresenta como contradição [simplesmente] desaparecem.

3) Há passagens na Bíblia que falam sobre ações violentas ou pecados. Elas não são um problema, pois os homens cometem pecados e más ações. Sim, existem certos fatos que requerem mais estudo (e afirmo que tudo superestudado), mas não creio que um ateu tenha o conhecimento [necessários] das Escrituras – teológico, histórico e literário – para resolvê-los.

4) As Escrituras Sagradas às vezes falam de Deus de uma maneira antropomórfica, isto é, se refere a Deus como se Ele fosse um homem. É linguagem figurada. Assim como diz que Ele formou o homem com o barro da terra, embora todos saibamos que Deus não possui mãos – Ele é puro Espírito puro -, de modo que ninguém jamais pensou em interpretar isso literalmente, o mesmo ocorre em muitas outras passagens.

Enfim, acho que o que ofereço aqui é apenas uma introdução ao tópico: cada ponto permitiria explicando muitas outras coisas.

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