José Miguel Arráiz

Conversando com meus amigos evangélicos sobre a oração pelos falecidos

Prosseguindo a série de conversações entre amigos sobre temas de Apologética, compartilho com vocês um diálogo fictício sobre a necessidade de se orar pelo descanso eterno dos falecidos, prática esta relacionada com o Purgatório. Como de costume, os argumentos que apresento aqui foram extraídos de algumas conversas que tive com amigos evangélicos. Os nomes dos participantes não são reais.

Miguel – Em nossa conversa anterior você falou do Purgatório e pude entender, com base nos textos bíblicos citados, o porquê de vocês crerem [na sua existência]. Todavia, ainda não entendo o porquê de vocês terem que orar pelos falecidos, pois se estes foram condenados bem sabemos que não há nada mais o que possamos fazer, pois a situação deles é irrevogável; porém, se foram salvos, o que lhes resta é essa purificação [no Purgatório], logo também não há necessidade [de orarmos por eles].

José – Certo, mas como eu também te dizia anteriormente, aqueles que morreram na graça de Deus, porém se acham imperfeitamente puros, sofrem durante a purificação. Lembra que eles também fazem parte da Igreja, que “é o Corpo de Cristo” (Romanos 12,5; 1Coríntios 12,27; Efésios 4,12) e “se um membro sofre, todos os demais sofrem com ele” (1Coríntios 12,26). Portanto, é uma obra de caridade orar por eles, para que esse sofrimento passe logo e possam gozar mais prontamente da visão e presença de Deus.

Miguel – Mas como você sabe que orar por eles pode trazer-lhes benefício ou reduzir-lhes o sofrimento?

José – Existe nas Bíblias católicas um texto que o afirma e que não consta nas Bíblias protestantes – depois poderemos tratar melhor dessa questão – onde verificamos que orar pelos falecidos é algo bom e agradável a Deus.

Miguel – Qual texto?

José – Está no livro dos Macabeus e narra o seguinte acontecimento: “Judas, após reorganizar o exército, dirigiu-se até a cidade de Odolam. Ao chegar o sétimo dia, se purificaram conforme o costume e ali celebraram o sábado. No dia seguinte, quando já se fazia necessário, saíram a procura de Judas, para recolherem os cadáveres dos que haviam tombado e depositá-los com seus parentes, nos túmulos dos seus pais. Então encontraram sob as túnicas de cada um dos mortos objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, que a Lei proíbe aos judeus. Ficou então evidente para todos qual foi o motivo pelo qual aqueles homens haviam sucumbido. Bendisseram, assim, todas as obras do Senhor, justo Juiz, que manifesta as coisas ocultas; e passaram a suplicar-Lhe, pedindo para que fosse apagado o pecado cometido. O valoroso Judas recomendou à multidão que se mantivessem livres do pecado, à vista do que ocorrera, em razão do pecado daqueles que sucumbiram. Após ter reunido entre seus homens cerca de 2.000 dracmas, remeteu [tal valor] a Jerusalém para que fosse oferecido um sacrifício pelo pecado, agindo de maneira muito bela e nobre, pensando na ressurreição; pois se não esperasse que os soldados que tombaram ressuscitariam, teria sido vão e néscio rogar pelos mortos; mas como considerava que uma magnífica recompensa está reservada aos que dormem piedosamente, tinha então um pensamento santo e piedoso: por isso mandou realizar esse sacrifício expiatório em favor dos mortos, para que fossem libertados do pecado” (2Macabeus 12,38). Observa como Judas percebe que alguns compatriotas morreram, encontra ídolos entre os seus pertences e atribui a isto a causa de terem perecido em batalha. Nesse período [histórico] já havia sido [explicitamente] revelado que os mortos ressuscitariam, razão pela qual o líder macabeu ordenou que sacrifícios fossem oferecidos pelo perdão dos pecados [desses soldados falecidos]. E o texto descreve isso como “um pensamento santo e piedoso”.

Miguel – Espera um minuto! Mas se eles morreram por ter cometido pecado de idolatria, isso não é o que vocês chamam de pecado mortal? Você não disse que quem morre em pecado mortal é condenado? Que sentido haveria em orar por alguém que foi condenado [ao Inferno]?

José – O que ocorre é que Judas não tinha como saber ao certo se eles morreram mesmo em pecado mortal. Não sabemos se antes de morrer algum deles ou até mesmo todos eles, se arrependeram de coração e, ao fazerem um ato de contrição perfeita, Deus os perdoou. Daí Judas preferir piedosamente realizar um ato de caridade: ordenar sacrifícios pelo perdão dos pecados [desses soldados falecidos]. Na verdade, até mesmo nos casos em que tudo parece apontar que alguém morreu em pecado grave, não temos como saber isso com certeza absoluta, porque a última palavra sempre cabe a Deus. Apenas Ele conhece a intenção e as circunstâncias de cada um; somente Ele sabe o que ocorreu nos últimos segundos da vida de uma pessoa. Até mesmo no caso dos suicidas, em que nos parece não ter havido tempo suficiente para o arrependimento, não temos como estar seguros da sua condenação [pessoal]. Por outro lado, não devemos esquecer que Deus é onisciente e sabe tudo, inclusive antes [que um dado fato] ocorra. É bem possível que Ele, vendo as orações dos seus filhos [mortalmente feridos em batalha] a partir da eternidade, tenha – em virtude dessas orações – derramado as Suas graças, para que se convertessem antes de morrer.

Miguel – Mas você nunca poderá saber se alguém já saiu do Purgatório, de modo que poderá ter chegado o momento em que essas orações serão inúteis.

José – Mesmo que não o saibamos, continuam sendo obra de caridade e ato piedoso orar por eles, porque é melhor orar por alguém que não o necessite do que deixar de orar por alguém que [provavelmente] o necessite. É claro que no texto de 2Macabeus não encontramos um fundamento explícito para a doutrina do Purgatório, mas ele nos revela que as orações pelo eterno descanso dos falecidos não apenas são agradáveis a Deus como também podem ajudá-los. No entanto, é bem como você mesmo havia dito: se já estão no Céu, não precisam de ajuda; se foram condenados [ao Inferno], não há mais como ajudá-los. Portanto, você tem aí [em 2Macabeus 12,38], um outro texto bíblico que aponta de maneira implícita para a doutrina do Purgatório.

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