Continuando com a série de conversações entre amigos sobre temas de Apologética, compartilho um novo diálogo fictício onde refletimos sobre a autoridade da Bíblia e a sua relação com a Tradição e o Magistério da Igreja. Como de costume, os argumentos foram extraídos de conversações que tive sobre este tema ao longo dos anos. Os nomes dos participantes não são reais.

Miguel – Tudo o que conversamos tem sido bastante interessante. Porém, até agora tratamos todos os temas com a Bíblia na mão; não entendo por que os católicos dão tanta importância à Tradição. Por acaso a Bíblia não é a Palavra de Deus, a única e verdadeira norma de Fé?

Marlene – Sim, eu também não entendo por que dão tanta importância [à Tradição]; com todo respeito, acho que é um dos motivos pelos quais [os católicos] se tem afastado da verdade.

José – Você poderia me explicar melhor?

Marlene – A própria Bíblia atesta o risco de as tradições tomarem mais importância que a Palavra de Deus, a ponto de substituí-la. Jesus já advertira a classe sacerdotal da época e os fariseus de como isso estava acontecendo: “Bem profetizou Isaías sobre vós, hipócritas, segundo está escrito: ‘Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. Em vão me rendem culto, já que ensinam doutrinas que são preceitos de homens’. Abandonando o preceito de Deus, vos aferrais à tradição dos homens” (Marcos 7,6-8). O Apóstolo Paulo também nos previne disso: “Olhai para que ninguém vos escravize mediante a vã falácia de uma filosofia fundada em tradições humanas, segundo os elementos do mundo e não segundo Cristo” (Colossenses 2,8). Se isso ocorria na classe sacerdotal daquela época, você não acredita que possa ocorrer hoje na Igreja Católica?

José – Se você ler com cuidado esses textos, verá que faziam referência às tradições de origem humana, que contradiziam a Palavra de Deus; mas quando nós falamos da Tradição, estamos nos referindo àquela que provém de Cristo e dos Apóstolos[1], sobre as quais a Bíblia também fala e ordena que sejam mantidas: “Eu vos louvo porque em todas as coisas vos lembrais de mim e conservais as tradições tal como eu as transmiti” (1Coríntios 11,2); “Irmãos: vos ordenamos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que vos afasteis de todo irmão que vive desordenadamente e não conforme a tradição que de nós recebestes” (2Tessalonicenses); ou: “Assim pois, irmão, mantei-vos firmes e conservai as tradições que aprendestes de nós de viva voz ou por carta” (2Tessalonicenses 2,15). Vocês se lembram desses textos?

Miguel – Na verdade, eu não me lembro de tê-los lido na minha Bíblia[2]; mas eles não se referem precisamente aos ensinamentos contidos nela? Até porque o ensino recebido dos Apóstolos restou escrito na Bíblia. São Paulo, por exemplo, atesta ter-lhes escrito sempre as mesmas coisas: “Ademais, meus irmãos, alegrai-vos no Senhor (…) Voltar a escrever as mesmas coisas para vós não me molesta, e a vós vos dá segurança” (Filipenses 3,1).

José – Observa que o último texto que mencionei deixa claro que não se refere somente ao que [Paulo] lhes deixou por escrito, porque fala de manter “as tradições que aprendestes de nós de viva voz ou por carta” (2Tessalonicenses 2,15). Se São Paulo tivesse querido dar a entender que somente deviam manter as tradições que estavam escritas na Bíblia, não teria pedido para que mantivessem também aquelas que foram transmitidas de forma oral, isto é, “de viva voz”. O texto que você cita pode ser usado para provar que São Paulo era insistente com as igrejas, sobre alguns pontos que escrevia, mas não que as suas cartas forneciam uma completa explicação de todas as verdades reveladas[3]. Na verdade, ele supõe que muitas coisas os cristãos já sabiam e, por isso, não lhes deixa por escrito uma explicação detalhada.

Marlene – Mas uma mensagem que passa de boca em boca é vulnerável e tende a ser deformada, pois cada pessoa pode acrescentar ou retirar algo, como observamos na vida cotidiana. Ao contrário, o que resta por escrito não pode ser alterado por ninguém e permanece intacto. As tradições podem ser tergiversadas e ir mudando ao longo da História; isso não ocorre com a Bíblia, que é a Palavra de Deus; lembre-se destas palavras de Jesus: “O céu e a terra passarão mas as Minhas palavras não passarão” (Mateus 24,35; Marcos 13,31; Lucas 21,33).

José – Tanto a Tradição quanto a Escritura são formas de transmissão de uma mesma mensagem que se origina em uma mesma fonte: a Revelação divina. Não cremos que a Tradição tenha sobrevivido somente de forma oral; ela foi transmitida dessa forma em um primeiro momento[4], mas logo restou atestada nos escritos dos primeiros cristãos, e nos Padres da Igreja e nas decisões dos Concílios.

Miguel – Sim, José, mas os Padres da Igreja nem sempre concordavam entre si e também se contradiziam mutuamente. Como encontrar a verdade entre tantas opiniões discordantes?

José – Para encontrar a interpretação correta da Revelação a Igreja não se socorre deles de maneira individual, mas apela para o que chamamos “consenso unânime dos Padres”[5]. Os Concílios, por exemplo, são um exemplo perfeito para compreender como os primeiros cristãos chegavam a este consenso e é precisamente uma das formas como a Igreja Cristã resolve suas diferenças em algum problema doutrinário importante[6].

Miguel – Sim, mas hoje não temos os Apóstolos vivos. Então, não é mais sensato ficarmos simplesmente com o que a Bíblia ensina? Até porque o Apóstolo Paulo foi muito claro em nos advertir que “ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente daquele que vos anunciamos, seja anátema!” (Gálatas 1,8).

José – A autoridade conferida por Jesus aos seus Apóstolos não morreu com eles; mas sobre isso podemos falar depois. Quanto ao texto que você menciona, é precisamente para não se afastar do Evangelho que originalmente foi anunciado que a Igreja se serve da Tradição; para compreender a sua importância, devemos conhecer a forma como a Igreja, desde o início, formulou a doutrina cristã. Para isso, se fundamentou sobre três pilares que não podem ser separados entre si: Escritura – Tradição – Magistério. A Escritura e a Tradição são meios de transmissão da Revelação, que fungem como “princípio material de Teologia”; já o Magistério é a autoridade instituída por Jesus Cristo para interpretar autenticamente o que foi transmitido e é para nós “princípio formal de Teologia”. Se apenas tivéssemos um texto escrito, este poderia ser interpretado de muitas maneiras[7]. Não é a mesma coisa ter estado ali, com os Apóstolos por perto para explicar tudo, e ler um texto séculos depois e colocar-se a interpretá-lo. Assim, a Tradição não apenas tem permitido a transmissão do texto bíblico[8] como também tem salvaguardada sua correta interpretação. A intenção de que isso se desse assim resta clara nos textos paulinos: “E o que ouviste de mim na presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis que, por sua vez, sejam capazes de instruir a outros” (2Timóteo 2,2). Com efeito, se alguém, mesmo dentro da Igreja, se afastava de alguma doutrina importante para a Fé, graças à Tradição era possível verificar que esse não era o sentido original da mensagem. Por outro lado, é antibíblico o modelo onde o fiel define, por si próprio, cada doutrina com base na sua interpretação subjetiva da Bíblia. Lembre-se que São Pedro nos adverte: “Mas, antes de tudo, tende presente que nenhuma profecia da Escritura pode ser interpretada por conta própria, pois nenhuma profecia surgiu por vontade humana, mas por homens movidos pelo Espírito Santo que falaram da parte de Deus” (2Pedro 1,21).

Miguel – Mas, José, a Bíblia também não fala de nenhum “Magistério”.

José – Quando falamos de “Magistério” estamos falando do ofício que foi atribuído aos Apóstolos e aos seus sucessores – os Bispos – de ensinar de maneira autorizada. O termo “Magistério” procede do latim “Magisterium” e designa a qualidade do “Magister”, “aquele que ensina”, “o mestre”. Sabemos que ensinar foi um dos ofícios instituídos por Jesus Cristo na Igreja: “Ele mesmo concedeu que alguns fossem Apóstolos; outros, Profetas; outros, Evangelizadores; outros, Pastores e Mestres, para o reto ordenamento dos santos, em ordem às funções do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo” (Efésios 4,11-12). Este ofício foi desempenhado pelos Apóstolos e, depois, pelos seus sucessores[9]; e estes sabiam muito bem que tinham a autoridade de Cristo para exercê-lo, “para que os homens nos tenham por servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus” (1Coríntios 4,1); “E ainda que possamos impor a nossa autoridade, por sermos Apóstolos de Cristo, nos mostramos amáveis convosco, assim como uma mãe cuida com carinho dos seus filhos” (1Tessalonicenses 2,7).

Marlene – Mas se for assim, por que Deus nos deu o Espírito Santo? Não foi para podermos interpretar a Bíblia por nós mesmos? O Apóstolo Tiago nos diz que “se falta sabedoria em algum de vós, que seja pedida a Deus, que a concede generosamente a todos e a dará” (Tiago 1,5). E como esse há muitos outros textos: “O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que Eu vos disse” (João 14,26); “A unção que Dele recebestes permanece em vós e não precisareis que ninguém vos ensine. A Sua unção vos ensina sobre tudo e é verdadeira, não mentirosa” (1João 2,27).

José – Eu não estou dizendo que não podemos interpretar a Bíblia por nós mesmos com o auxílio do Espírito Santo; isso, aliás, é bom e saudável. Porém, o que NÃO temos é o direito absoluto ao juízo privado naqueles pontos em que a Igreja, exercendo o seu Magistério, já tomou uma decisão definitiva. Um exemplo desse exercício vemos no Concílio de Jerusalém (cf. Atos 15), onde foi resolvido o primeiro conflito de peso na Igreja Primitiva: de um lado estavam os de tendência judaizante, que criam que os cristãos deviam ser circuncidados (cf. Gênesis 17,9-12); de outro estavam os Apóstolos e presbíteros, que tomaram a decisão, assistidos pelo Espírito Santo, de que tal coisa não era necessária[10]. No tocante a 1João 2,27, se lermos o texto no seu contexto, veremos que o Apóstolo não queria dizer que a Igreja não precisa do mestre – um ofício que, como vimos, foi instituído pela vontade de Deus (cf. Efésios 4,11-12) e sempre esteve presente na Igreja Primitiva, já que os cristãos “acudiam assiduamente ao ensinamento dos Apóstolos, à comunhão, à fração do pão e às orações” (Atos 2,42). O que se diz especificamente aí é que os apóstatas negavam que Jesus era o Messias e que não tinham nada a ensinar aos fieis (cf. 1João 2,18-26).

Miguel – Nossa conversa está muito interessante; talvez logo possamos falar mais sobre essas tradições que provêm da Igreja Primitiva.

José – Isso será ótimo.

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NOTAS:
[1] O Catecismo da Igreja Católica faz distinção entre o que se chama “Tradição Apostólica” e o que são “tradições particulares” surgidas no decorrer do tempo: “A Tradição de que falamos aqui é a que vem dos Apóstolos. Ela transmite o que estes receberam do ensino e do exemplo de Jesus e aprenderam pelo Espírito Santo. De fato, a primeira geração de cristãos não tinha ainda um Novo Testamento escrito, e o próprio Novo Testamento testemunha o processo da Tradição viva. É preciso distinguir, desta Tradição, as ‘tradições’ teológicas, disciplinares, litúrgicas ou devocionais, nascidas no decorrer do tempo nas Igrejas locais. Elas constituem formas particulares, sob as quais a grande Tradição recebe expressões adaptadas aos diversos lugares e às diferentes épocas. É à sua luz que estas podem ser mantidas, modificadas e até abandonadas, sob a direção do Magistério da Igreja” (CIC §83).
[2] A razão pela qual muitos evangélicos e protestantes em geral não se lembram destes textos que mandam manter a Tradição é porque muitas traduções protestantes (como a Reina-Valera em suas diferentes versões) substituem a palavra “?????????” (“paradosis”), que significa literalmente “tradição”, por sinônimos como “instruções”, “doutrinas” etc.; fazem assim justamente naqueles textos que fazem referência às Tradições Apostólicas que devem ser mantidas. Como resultado, os leitores, sempre que encontram a palavra “tradição” em suas Bíblias, apenas a enxergam associadas a tradições humanas. No entanto, nem todas as traduções protestantes possuem o mesmo problema: uma das mais respeitadas pelos evangélicos de fala inglesa, a versão do Rei Tiago [=”King James Version”, abreviadamente KJV], traduz corretamente todas essas passagens.
[3] O fato de São Paulo dizer que escreve sempre as mesmas coisas não significa que escrevia sobre todas as coisas [exaustivamente]. Se fosse assim, encontraríamos repetidas vezes em suas cartas os ensinamentos dos Evangelhos (o Sermão da Montanha, o Pai Nosso etc. etc.), mas não é isso o que ocorre.
[4] O Bispo Santo Ireneu (discípulo de São Policarpo, que por sua vez era discípulo do Apóstolo São João) atestava, no século II, como inclusive em algumas regiões o Evangelho fôra difundido apenas de forma oral: “Então, se se encontra alguma divergência, mesmo que em uma mínima coisa, não seria conveniente voltar os olhos para as Igrejas mais antigas, nas quais os Apóstolos viveram, para buscar nelas a doutrina e resolver a questão, aquilo que é mais claro e seguro? Até porque, se os Apóstolos não nos tivessem deixado os seus escritos, não seria necessário seguir a ordem da Tradição que eles legaram àqueles a quem confiaram as Igrejas? Muitos povos bárbaros dão seu assentimento a esta ordenação e creem em Cristo sem papel nem tinta; em seu coração têm escrita a salvação pelo Espírito Santo, os quais guardam com cuidado a antiga Tradição” (Contra as Heresias 3,4,1-2).
[5] O “consenso unânime dos Padres” (=”unanimis consensum Patrum”) refere-se ao ensinamento unânime dos Padres da Igreja em certas doutrinas como reveladas por Deus e interpretações da Escritura como recebidas pela Igreja universal. Os Padres não são infalíveis individualmente e a discrepância de alguns testemunhos patrísticos não prejudica o testemunho patrístico coletivo. A palavra “unânime” deriva de duas palavras latinas: “unus”, “um” + “animus”, “mente”. “Consenso” em latim significa “consentimento”, “acordo”, “harmonia”, “compartilhar a mesma ideia ou opinião”. Daí os Padres falarem em harmonia, com uma mente geral – não necessariamente cada um deles estando de acordo em cada detalhe, mas estando em consenso e consentimento geral; temos assim o “consenso unânime”. Os ensinamentos dos Padres nos chegam por um autêntico testemunho da Tradição Apostólica, tal como é explicada por Santo Ireneu de Lião, no século II, em sua obra “Contra as Heresias”: “Como dissemos anteriormente, a Igreja recebeu esta pregação e esta Fé, e, estendida por toda a Terra, a guarda com cuidado, como se habitasse em uma única família. Conserva uma mesma Fé, como se tivesse uma só alma e um só coração; e a prega, ensina e transmite com uma mesma voz, como se não tivesse senão uma só boca. Certamente muitas são as línguas, segundo as diversas regiões, mas a força da Tradição é uma e a mesma. As igrejas da Germânia não creem de maneira diversa, nem transmitem doutrina diferente da que é pregada [nas igrejas] da Ibéria ou dos Celtas, ou as do Oriente, como as do Egito ou Líbia, assim como tampouco das igrejas constituídas no centro do mundo (=Roma). Assim como o sol, que é uma criatura de Deus, é um e o mesmo em todo o mundo, assim também a Luz, que é a pregação da verdade, brilha em todas as partes e ilumina todos os seres humanos que querem chegar ao conhecimento da verdade. E nem aquele que se sobressai por sua eloquência entre os chefes da Igreja prega coisas diferentes destas – porque nenhum discípulo está acima de seu mestre – nem o mais débil na Palavra recorta a Tradição: sendo uma e a mesma Fé, nem aquele que pode explicar muito sobre ela a aumenta, nem o que pode [explicar] pouco a diminui” (Contra as Heresias 1,10,2).
[6] Os primeiros cristãos reconheciam a autoridade do Concílio Ecumênico, como atesta Santo Agostinho de Hipona: “Tudo o que observamos por Tradição, ainda que não se encontre por escrito; tudo o que a Igreja observa em todo o orbe, se subentende que o guarda por recomendação ou preceito dos Apóstolos ou dos Concílios plenários, cuja autoridade é indiscutível na Igreja” (Carta 54,1-3, a Jenaro; “Obras Completas de Santo Agostinho”, vol. 8. Madri: Biblioteca de Autores Cristãos, 1986, p.338).
[7] É o que acontece precisamente entre as diversas denominações protestantes, que divergem entre si em inumeráveis doutrinas, pois interpretam a Bíblia de forma diferente.
[8] Não se deve esquecer que inclusive o cânon das Escrituras foi transmitido pela Tradição, já que na Bíblia não existe uma lista de livros canônicos.
[9] A esta sucessão ininterrupta no ministério do apostolado, que passou dos Apóstolos para os Bispos até hoje, denomina-se “sucessão apostólica”.
[10] Não sabemos em detalhes o que foi debatido no Concílio de Jerusalém, mas os judaizantes poderiam ter recorrido à Biblia para alegar que a circuncisão era uma obra da Lei instituída como “pacto perpétuo de geração em geração” (Gênesis 18,12; Levítico 12,3), afirmando ainda que Jesus não veio para mudar nem um til da Lei: “Não penseis que Eu vim para abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar cumprimento. Sim, Eu vos asseguro: o céu e a terra passarão antes que se passe um ‘i’ ou um til da Lei, sem que tudo ocorra” (Mateus 5,17-18). Ainda que argumentos bíblicos pudessem ser empregados em um ou outro sentido, a decisão do Concílio foi reconhecida como autêntica interpretação da Revelação.

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