Dando continuidade à série de conversações entre amigos sobre temas de Apologética, compartilho um novo diálogo fictício que parte da conversa anterior – acerca da Tradição – e daí se aprofunda no conceito de “desenvolvimento da doutrina cristã”. Como de costume, eu extraí os argumentos de conversações que tive sobre este assunto ao longo dos anos. Os nomes dos participantes não são reais.

Miguel – Sabe, José, já se passou algum tempo desde a nossa última conversa e juntamente com a minha amiga Marlene tivemos a oportunidade de apreciar alguns dos pontos que praticamos. Inclusive, pedimos a opinião dos nossos pastores e eles fizeram algumas observações bastante lúcidas a respeito.

José – Isso me parece ótimo.

Miguel – Se não me falha a memória, você disse que a Tradição é importante porque a Bíblia manda preservá-la.

José – Efetivamente, São Paulo, que mandava que ninguém se deixasse escravizar por tradições humanas segundo o mundo (cf. Colossenses 2,8), também escreveu: “Eu vos louvo porque em todas as coisas vos lembrais de mim e conservais as tradições tal como eu as transmiti” (1Coríntios 11,2); “Irmãos: vos ordenamos em nome do Senhor Jesus Cristo que vos afasteis de todo irmão que vive desordenadamente e não conforme a tradição que de nós recebestes” (2Tessalonicenses 3,6); “Assim pois, irmãos, mantei-vos firmes e conservai as tradições que aprendestes de nós de viva voz ou por carta” (2Tessalonicenses 2,15)”.

Marlene – Veja só o que me disse o meu pastor: se for assim, observa que Paulo mandou conservar as tradições tal como ele as transmitiu (cf. 1Coríntios 11,2). Então, de onde a Igreja Católica tira a ideia de que a Tradição que ela mantém é a mesmíssima Tradição que recebeu dos Apóstolos?

Miguel – Sim, pois começamos a ler algumas obras cristãs mais antigas, daqueles que vocês chamam de “Padres Apostólicos”, e você não tem como negar que existe uma enorme diferença entre o que eles criam e o que creem os católicos de hoje[1].

Marlene – Onde você encontra ali, por exemplo, a Missa, o Papa, um confessionário onde as pessoas podiam confessar os seus pecados a um homem, os dogmas relativos à Virgem Maria e tantas outras doutrinas católicas que encontramos nos catecismos, encíclicas, bulas etc.?

José – Podemos muito bem tratar cada um desses assuntos separadamente, mas antes preciso explicar para vocês o que entendemos por “crescimento” ou “desenvolvimento” da doutrina cristã.

Miguel – Prossiga!

José – Toda a extensão da doutrina cristã e católica pode ser distribuída em 4 graus, a saber: 1º) Dado Revelado; 2º) Dogmas; 3º) Verdades Infalíveis; 4º) Conclusões Teológicas.
O 1º Grau abrange todas as verdades ou proposições expressamente reveladas ou inspiradas por Deus aos Apóstolos e entregues por eles à Igreja, antes que a Igreja ou a razão humana exercesse sobre elas algum esforço ou especulação. Abrange, portanto, dois gêneros de proposições: A) Todas as proposições da Sagrada Escritura; e B) Todas as proposições da Tradição divina, tal como foram pronunciadas pela boca de Jesus, dos Apóstolos ou dos Escritores Sagrados. Este 1º Grau é o ponto de partida dos outros três graus.
O 2º Grau, chamado “Dogmas da Fé”, compreende as proposições definidas pela Igreja como reveladas ou de Fé divina.
O 3º Grau inclui todas as proposições definidas pela Igreja de maneira infalível, embora não sejam definidas como reveladas.
Ao 4º Grau pertencem todas as proposições que necessariamente são conexas com qualquer um dos três graus anteriores, que é o que normalmente se entende sob o nome de “Conclusões Teológicas” e são deduzidas das anteriores. A maior parte da doutrina que a Igreja ensina ao povo cristão pertence a este grau, e podem passar para o 3º ou para o 2º grau se forem fruto de uma declaração infalível ou de uma definição dogmática[2].

Miguel – Se eu estou te entendendo bem, você está afirmando que grande parte da doutrina católica surgiu de conclusões teológicas, do modo como vocês interpretam a Escritura e a Tradição.

José – Certo, pois não há qualquer conclusão verdadeiramente teológica que não possa ser definida pela Igreja. Lembra que Jesus anunciou aos Apóstolos: “Todavia, Eu ainda tenho muito a vos dizer, mas por ora não suportais. Quando Ele vier – o Espírito da Verdade – vos conduzirá até a verdade plena, pois não falará de Si, mas dirá o que ouviu e vos anunciará o que há de vir” (João 16,12-13): cabe à Igreja, meditando sobre o depósito da Fé, compreender gradualmente todo o teor e ir explicitando a Revelação[3]. É por isso que nós cremos que, mesmo que tenha havido um “desenvolvimento” na doutrina cristã, isto se deu de maneira homogênea e sempre no mesmo sentido (não como uma evolução transformadora, onde o dogma muda de significado[4], como se uma verdade de fé de épocas passadas não fosse mais a de hoje).

Marlene – Entendo o que você está tentando dizer, mas tenho que voltar a dizer o que eu já disse: não foi isso o que Paulo mandou fazer! E repito o texto: “Eu vos louvo porque em todas as coisas vos lembrais de mim e conservais as tradições tal como eu as transmiti” (1Coríntios 11,2). O que você argumenta parece na verdade uma desculpa para justificar a mudança que houve na doutrina católica, afirmando que “cresceu”, sendo que na verdade mudou ao longo da História, à medida que a Igreja Católica foi se paganizando por influência de outras culturas.

José – Vocês, talvez inconscientemente, não rejeitam todo desenvolvimento da doutrina cristã: o Miguel, por exemplo, é um firme defensor da doutrina da Santíssima Trindade, sustentando que é 100% bíblica. No entanto, a palavra “Trindade” não se encontra na Bíblia, nem encontramos nela uma definição tal como aparece no Credo Niceno-Constantinopolitano; apesar disso, [boa parte dos protestantes] não a rejeitam[5].

Miguel – É verdade, mas ainda que a Bíblia não empregue essa palavra, na essência ela diz a mesma coisa: vemos que há um só Deus e que tanto o Pai, quanto o Filho, quanto o Espírito Santo são Deus.

José – Não discuto isso, mas o fato é que você, individualmente, fez a mesma coisa que a Igreja fez ao realizar uma conclusão teológica a partir do dado revelado e aceitando [essa conclusão teológica] como Dogma de Fé. A diferença é que a Igreja, na sua função de administradora dos mistérios de Deus (cf. 1Coríntios 1,4) o definiu para ser crido por todo povo cristão, ao mesmo tempo que a terminologia foi se enriquecendo para expressar melhor o mistério divino.

Marlene – Não creio que o Miguel creia em dogmas, assim como eu também não creio. Apenas reconhecemos uma verdade tal como aparece na Bíblia, que é a Palavra de Deus viva e eficaz (cf. Hebreus 4,12).

José – Um dogma nada mais é que a definição de maneira explícita de uma verdade de Fé. Por exemplo, se você crê e reconhece que Jesus Cristo é Deus, já aí você adere a um dogma, mesmo que você não o chame assim. O que eu quero dizer é que uma verdade não é menos verdade apenas porque não está contida de forma explícita na Revelação Divina. Foi precisamente por isso que dei como exemplo a doutrina da Trindade, porque é uma verdade implícita que tanto vocês [protestantes] como nós [católicos] aceitamos.

Miguel – Ok, José, mas com todo respeito, creio que há uma diferença enorme entre o exemplo da Trindade que você cita, que claramente é encontrada na Bíblia, e o restante das doutrinas católicas, que não aparecem nela em lugar nenhum.

José – Pode ser que o que esteja bastante claro para vocês não esteja claro para outros. Os testemunhas de Jeová, por exemplo, não creem na Trindade e professam uma visão ariana[6] da pessoa de Jesus Cristo. Os unitaristas, os sabelianistas, os modalistas e um sem número de heresias mais também não creem Nela [dessa exata maneira]. Em nosso caso, ocorre o mesmo e é aí que eu sugiro que tenham a mente aberta para a possibilidade de talvez as demais doutrinas católicas terem também um legítimo desenvolvimento da doutrina cristã. Na Igreja Católica temos um caso notório de conversão a partir do Anglicanimo: John Henry Newman, que posteriormente tornou-se Cardeal; ele pensava da mesma forma que vocês e dedicou cerca de 20 anos, como estudante e professor da Universidade de Oxford, investigando as “mudanças” das doutrinas e práticas cristãs ao longo dos séculos. Durante muitos anos, ele aceitou a noção de que as doutrinas e práticas católicas eram uma corrupção do Cristianismo primitivo; no entanto, acabou por concluir que essas “mudanças” tinham uma explicação satisfatória[8] quando terminou o seu “Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã”[9].

Miguel – Compreendo, José; porém o fato dele ter chegado a essas conclusões não significa que tenha encontrado a verdade. E assim como nós estamos abertos para o fato de você possuir explicação para essas mudanças, sugiro que você também esteja aberto à possibilidade de a Igreja ter simplesmente se corrompido com o passar do tempo, tendo incorporado doutrinas alheias à Palavra de Deus, que finalmente acabaram por substituir [esta Palavra]. E não seria essa a primeira vez que aconteceu, pois você se recorda que o mesmo se deu com a classe sacerdotal da época de Jesus.

José – Você tocou em um assunto bastante interessante, que poderíamos conversar no futuro. A Igreja se corrompeu ou é realmente indefectível como creem os católicos?

Miguel – Será um prazer, José. Esteja pronto!

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NOTAS:

[1] Esta objeção é bastante válida. Tal como explica o Pe. Francisco Marín Sola (op): “Diante da vista de qualquer um que estude sem preconceitos a História da Igreja Católica e a sua doutrina, destaca-se com evidência dois fatos: o primeiro é que a doutrina católica, mesmo em sua parte estritamente dogmática, cresceu ou se desenvolveu, e em grande escala, desde os tempos dos Apóstolos até os nossos dias. Para constatá-lo, não há que senão comparar, sobre qualquer ponto doutrinário, os simples enunciados bíblicos com as complicadas definições dos últimos Concílios Ecumênicos; comparar o Símbolo Apostólico ou primitivo com o denominado Símbolo de Atanásio ou com a Profissão de Fé de Pio IV; comparar qualquer documento dos Papas primitivos com o “Sílabo” de Pio IV ou com a “Encíclica Pascendi” de Pio X; comparar qualquer catequese dos Santos Padres com qualquer dos catecismos de nossos dias. A evidência de tal fato ou crescimento salta aos olhos. O segundo fato patente é que nesse crescimento houve grande intervenção ou influência das diversas filosofias ou civilizações humanas, em especial a filosofia grega na Idade Patrística e a filosofia escolástica nas Idades Média e Moderna. Dessa influência se adverte nos escritos dos Santos Padres, que desenvolveram a doutrina primitiva nas disputas e dissertações conciliares que precederam a definição de cada dogma e até mesmo nas próprias fórmulas dogmáticas, as quais carregam a clara marca das diversas épocas em que foram definidas” (Francisco Marín Sola O.P., “La Evolución Homogénea del Dogma Católico”, Madri: BAC, 1952, p.137).
[2] Ibid., p.136.
[3] Sobre isso, o Catecismo da Igreja Católica ensina: “‘A economia cristã, como aliança nova e definitiva, nunca cessará e já não se deve esperar nenhuma revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo’ (DV 4). No entanto, ainda que a Revelação esteja encerrada, não está totalmente explicitada; corresponderá à Fé Cristã compreender gradualmente o seu conteúdo no transcurso dos séculos” (CIC §66).
[4] A evolução transformadora do dogma foi rejeitada pela Igreja como herética. O Papa Pio X exigiu do clero um juramento antimodernista em que se pedia para declarar: “Rejeito de plano a herética ficção da evolução dos dogmas, segundo a qual estes poderiam passar de um sentido para outro diferente, distinto do que primeiramente foi professado pela Igreja” (Denzinger-Schönmetzer 3541).
[5] O Credo Niceno-Constantinopolitano foi definido nos Concílios Ecumênicos de Niceia (ano 325) e Constantinopla (ano 381), e estabelece a seguinte Profissão de Fé para a Igreja: “Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis. Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado; consubstancial ao Pai; por Ele todas as coisas foram feitas; E por nós e para nossa salvação, desceu dos céus, e se encarnou, pelo Espírito Santo, no seio da virgem Maria, e se fez homem. Também por nós foi crucificado, sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado; Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras; e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai e de novo há de vir em sua glória para julgar os vivos e os mortos; e o seu Reino não terá fim. Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho, é adorado e glorificado; Ele, que falou pelos profetas. Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica. Professo um só Batismo para a remissão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. Amém”
[6] O Arianismo foi uma antiga heresia condenada pelo Concílio de Niceia, originada por Ário, que negava a divindade de Cristo; para ele, Cristo era o primeiro ser criado, não consubstacial com o Pai.
[7] O Sabelianismo aceita que tanto o Pai quanto o Filho e o Espírito Santo são um mesmo Deus, mas rejeita que sejam Pessoas divinas diferentes de uma mesma natureza. Para eles, são diferentes manifestações do mesmo Deus.
[8] O Concílio [Ecumênico] Vaticano II explica assim no tocante ao desenvolvimento da doutrina cristã: “Assim, pois, a pregação apostólica, que está exposta de modo especial nos Livros inspirados, devia ser conservada até o fim dos tempos por uma sucessão contínua. Daí os Apóstolos, comunicando o que eles mesmos receberam, adververtirem os fiéis para que conservem as tradições que aprenderam por palavra ou por escrito, e que continuem combatendo pela fé que lhes foi dada de uma vez para sempre. Pois bem: o que os Apóstolos ensinaram encerra todo o necessário para que o Povo de Deus viva santamente e aumente sua fé; desta maneira, a Igreja, em sua doutrina, em sua vida e em seu culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que crê. Esta Tradição, que deriva dos Apóstolos, progride na Igreja com a assistência do Espírito Santo, visto que vai aumentando a compreensão das coisas e das palavras transmitidas, seja pela contemplação e estudo dos fiéis que as meditam no coração, seja pela percepção íntima que experimentam das coisas espirituais, seja pelo anúncio daqueles que pela sucessão do episcopado receberam o carisma certo da verdade; isto é, a Igreja, no decurso dos séculos, tem constantemente a plenitude da verdade divina, até que nela sejam cumpridas as palavras de Deus. Os ensinamentos dos Santos Padres testemunham a presença viva desta Tradição, cujos tesouros se comunicam à prática e à vida da Igreja fiel e orante. Por esta Tradição a Igreja conhece o cânon íntegro dos Livros Sagrados e a própria Sagrada Escritura vai sendo conhecida nela mais profundamente e se torna incessantemente operativa; e, deste modo, Deus, que falou em outro tempo, fala sem interrupção com a Esposa do Seu amado Filho; e o Espírito Santo, por quem a voz do Evangelho ressoa viva na Igreja, e por ela no mundo, vai induzindo os fiéis na verdade plena, e faz com que a Palavra de Cristo habite abundantemente neles (cf. Colossenses 3,16)” (Constituição Dogmática “Dei Verbum” 8).
[9] A redação de seu “Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã” foi iniciada por Newman quando ainda era anglicano. Em outra de suas mais importantes obras, “Apologia Pro Vita Sua”, o Cardeal explica mais profundamente o seu caminho de conversão.

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