Documentos da Igreja

Decreto – unitatis redintegratio

Decreto
UNITATIS REDINTEGRATIO
do Concílio Ecumênico do Vaticano II
sobre o Ecumenismo

INTRODUÇÃO

Promover a restauração da unidade entre todos os cristãos é um dos fins principais que se fez propor ao Sacrossanto Concílio Vaticano II, visto que apenas uma é a Igreja fundada por Cristo Senhor, ainda mesmo que muitas são as comunhões cristãs que se apresentam aos homens como herança de Jesus Cristo: os discípulos do Senhor, como se o próprio Cristo estivesse dividido. Divisão que abertamente repugna a vontade de Cristo e é pedra de escândalo para o mundo e obstáculo para a causa da difusão do Evangelho por todo o mundo.

Contudo, o Senhor dos tempos, que sábia e pacientemente prossegue sua vontade de graça para conosco, os pecadores, em nossos dias tem se empenhado a infudir com maior abundância nos cristãos separados entre si a compulsão de espírito e o desejo de união. Esta graça tem alcançado a muitas almas dispersas pelo mundo todo e, inclusive entre os nossos irmãos separados, tem surgido, pelo impulso do Espírito Santo, um movimento dirigido a restaurar a unidade de todos os cristãos. Neste movimento de unidade, chamado ecumênico, participam os que invocam ao Deus Trino e confessam Jesus Cristo como Senhor e Salvador; isto fazem não apenas separados, mas também reunidos em assembléias nas quais conheceram o Evangelho e às quais cada grupo chama de sua Igreja e de Deus. Quase todos, entretanto, ainda que de maneira diversa, suspiram por uma Igreja de Deus única e visível, que seja verdadeiramente universal e enviada a todo o mundo, para que o mundo se converta ao Evangelho e se salve para a glória de Deus. Considerando, pois, este Sacrossanto Concílio, com grato ânimo, todos estes problemas, uma vez exposta a doutrina sobre a Igreja, impulsionado pelo desejo de restabelecer a unidade entre todos os discípulos de Cristo, quer propor a todos os católicos os meios, os caminhos e as formas pelos quais poderão responder a esta divina vocação e graça.

I. PRINCÍPIOS CATÓLICOS SOBRE O ECUMENISMO

Unidade e unicidade da Igreja

2. A caridade de Deus para conosco se manifestou no fato de que o Filho Unigênito de Deus foi enviado ao mundo pelo Pai, para que, feito homem, regenerasse todo o gênero humano com a redenção e o reduzisse à unidade. Cristo, antes de oferecer-se a si mesmo no alto da cruz, como vítima imaculada, orou ao Pai pelos crentes, dizendo: "Que todos sejam um, como Tu, Pai, estás em mim e eu em ti; para que também eles sejam conosco e o mundo creia que Tu me enviaste" e instituiu em sua Igreja o admirável sacramento da Eucaristia, por meio do qual se demonstra e se realiza a unidade da Igreja. Impôs a seus discípulos o mandamento novo do amor mútuo e lhes prometeu o Espírito Paráclito, que permaneceria eternamente com eles como Senhor e vivificador.

Uma vez que o Senhor Jesus foi exaltado na cruz e glorificado, derramou o Espírito que havia prometido, pelo qual chamou e congregou, em unidade de fé, esperança e caridade, o povo do Novo Testamento, que é a Igreja, como ensina o Apóstolo: "Um só corpo e um só Espírito, como haveis sido chamados em uma esperança, a de vossa vocação. Um só Senhor, uma só fé, um só batismo"; visto que "todos os que haveis sido batizados em Cristo os haveis revestido de Cristo… porque todos vós sois um em Cristo Jesus". O Espírito Santo que habita nos crentes, que satisfaz e governa toda a Igreja, efetua essa admirável união dos fiéis e os congrega, todos, tão intimamente em Cristo, que Ele mesmo é o princípio da unidade da Igreja. Ele realiza a distribuição das graças e dos ministérios, enriquecendo a Igreja de Jesus Cristo com a variedade de dons "para a perfeição consumada dos santos, segundo a obra do ministério, e para a edificação do Corpo de Cristo".

Para o estabelecimento desta sua santa Igreja em todas as partes e até o fim dos tempos, confiou Jesus Cristo ao Calégio dos Doze o múnus de ensinar, governar e santificar. Dentre eles, destacou a Pedro, sobre o qual determinou edificar a sua Igreja, depois de exigir-lhe a profissão da fé; a ele prometeu as chaves do reino dos céus e, antecipando a manifestação de seu amor, lhe confiou todas as ovelhas, para que as confirmasse na fé e as apascentasse na perfeita unidade, reservando-se Jesus Cristo a ser Ele mesmo, para sempre, a pedra fundamental e o pastor de nossas almas.

Jesus Cristo quer que seu povo se desenvolva por meio da fiel pregação do Evangelho, pela administração dos sacramentos e pelo governo no amor, efetuado tudo isto pelos Apóstolos e seus sucessores, isto é, pelos bispos e sua cabeça, o sucessor de Pedro, com a ação do Espírito Santo; assim se realiza sua comunhão na unidade, na profissão de uma só fé, na comum celebração do culto divino e na concórdia fraterna da família de Deus.

Portanto, a Igreja, único rebanho de Deus, como um estandarte içado perante todos os povos, comunicando o Evangelho da paz a todo o gênero humano, peregrina cheia de esperança até a pátria celestial.

Este é o sagrado mistério da unidade da Igreja de Cristo e, por meio de Cristo, comunicando o Espírito Santo a variedade de seus dons, Ele, modelo supremo e princípio deste mistério, é a unidade de um só Deus na Trindade de pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.

Relação dos irmãos separados com a Igreja católica

3. Nesta una e única Igreja de Deus, já desde os primeiros tempos, ocorreram algumas cisões que o Apóstolo condena com severidade; porém, com o passar dos tempos, surgiram discrepâncias maiores, separando-se da plena comunhão da Igreja não poucas comunidade, às vezes não sem responsabilidade de ambas as partes. Porém, os que agora nascem e se nutrem da fé em Jesus Cristo nessas comunidades não podem ser tidos como responsáveis do pecado da separação e a Igreja católica os abraça com fraterno respeito e amor, visto que aqueles que crêem em Cristo e receberam o batismo validamente, estão constituídos de alguma comunhão, ainda que não perfeita, com a Igreja católica.

Efetivamente, em razão das várias discrepâncias existentes entre eles e a Igreja católica, seja quanto à doutrina e às vezes também quanto à disciplina, seja também em relação à estrutura da Igreja, se interpõem à plena comunhão eclesiástica não poucos obstáculos, às vezes muito graves, que o movimento ecumênico tenta superar. Entretanto, justificados pela fé no batismo, acabam incorporados a Cristo de forma que recebem o nome de cristãos com todo o direito e são justamente reconhecidos como irmãos no Senhor pelos filhos da Igreja católica.

E mais: dentre o conjunto de elementos ou bens com que a Igreja se edifica e vive, alguns, ou melhor, muitíssimos e importantíssimo podem se encontrar fora do recinto visível da Igreja católica:a Palavra de Deus escrita, a vida de graça, a fé, a esperança e a caridade, e alguns dons interiores do Espírito Santo e elementos visíveis; tudo isto, que provém de Cristo e a Ele conduz, pertence, por direito, à única Igreja de Cristo.

Os irmãos separados praticam não poucos atos de culto da religião cristã, os quais, de várias formas, segundo a diversa condição de cada Igreja ou comunidade, podem, sem dúvida alguma, produzir a vida de graça e deve-se confessar que são aptos para deixar aberto o acesso à conhunhão da salvação.

Conseqüentemente, ainda que creamos que as Igrejas e comunidades separadas têm seus defeitos, não estão desprovidas de sentido e de valor no mistério da salvação porque o Espírito de Cristo não se recusou a servir-se delas como meios de salvação, cuja virtude deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que se confiou à Igreja.

Os irmão separados, contudo, seja particularmente, sejam suas comunidades e suas igrejas, não gozam daquela unidade que Cristo quis dar aos que regenerou e vivificou em um corpo e em uma vida nova, que se manifestam na Sagrada Escritura e na venerável Tradição da Igreja. Somente por meio da Igreja católica de Cristo, que é auxílio geral da salvação, pode-se conseguir a plenitude total dos meios salvíficos. Cremos que o Senhor entregou todos os bens da Nova Aliança a um só colégio apostólico, a saber, o que é presidido por Pedro, para constituir um só Corpo de Cristo na terra, ao qual tem que se incorporar completamente todos os que de alguma maneira pertencem ao Povo de Deus. Povo que durante sua peregrinação pela terra, ainda permaneça sujeito ao pecado, cresce em Cristo e é conduzido suavemente por Deus, segundo seus inescrutáveis desígnios, até chegar feliz à total plenitude da glória eterna na Jerusalém celestial.

Ecumenismo

4. Hoje, em muitas partes do mundo, por inspiração do Espírito Santo, se fazem muitos experimentos com a oração, a palavra e a ação para se chegar àquela plenitude de unidade desejada por Jesus Cristo. Este Sacrossanto Concílio exorta a todos os fiéis católica a que, reconhecendo os sinais dos tempos, cooperem diligentemente na empreitada ecumênica.

Por "movimento ecumênico" se entende o conjunto de atividade e de empreendimentos que, conforme às distintas necessidades da Igreja e das circunstâncias dos tempos, se suscitam e visem favorecer a unidade dos cristãos.

Tais são, em primeiro lugar, todas as tentativas de se eliminar palavras, juízos e atos que não sejam conformes segundo a justiça e a verdade à condição dos irmãos separados e que, portanto, podem tornar mais difíceis as mútuas relações com eles; em segundo lugar, "o diálogo" estabelecido entre peritos e técnicos em reuniões de cristãos de diversas Igrejas ou comunidades, celebradas em espírito religioso. Neste diálogo, expões cada um, por sua vez, com toda a profundidade, a doutrina de sua comunhão, apresentando claramente as características da mesma. Por meio deste diálogo, todos adquirem um conhecimento mais autêntico e uma apreciação mais justa da doutrina e da vida de cada comunhão; em terceiro lugar, as diversas comunhões conseguem uma mais ampla colaboração em todas as obrigações exigidas por toda consciência cristã segundo o bem comum e, enquanto possível, participam na oração conjunta. Todos, finalmente, examinam sua fidelidade à vontade de Cristo com relação à Igreja e, como é devido, empreendem com ânimo a obra de renovação e reforma.

Tudo isto, realizado prudente e pacientemente pelos fiéis da Igreja católica, sob a vigilância dos pastores, conduz ao bem da equidade e da verdade, da concórdia e da colaboração, do amor fraterno e da união; para que pouco a pouco, por esta via, superados todos os obstáculos que impedem a perfeita comunhão eclesiástica, todos os cristãos se congreguem em uma única celebração da Eucaristias, segundo a unidade da una e única Igreja, a unidade que Cristo deu à sua Igreja desde o princípio, e que cremos subsistir indefectível na Igreja católica dos séculos.

É manifesto, porém, que a obra de preparação e reconciliação individuais dos que desejam a plena comunhão católica se diferencia, por sua natureza, da empreitada ecumênica, porém não encerra oposição alguma, já que ambas procedem do admirável desígnio de Deus.

Os fiéis católicos hão de de ser, sem dúvida, solícitos aos irmãos separados, na ação ecumênica, orando por eles, falando-lhes das coisas da Igreja, dando os primeiros passos até eles.Porém devem considerar também, por sua vez, com ânimo sincero e diligente, o que deve ser renovado e corrigido na mesma família católica, para que sua vida dê o mais fiel e claro testemunho da doutrina e das normas dadas por Cristo através dos Apóstolos.

Pois, ainda que a Igreja católica possua toda a verdade revelada por Deus e todos os meios da graça, contudo, seus membros não a vivem conseqüentemente com todo o fervor, a ponto da face da Igreja resplandecer menos perante os olhos de nossos irmãos separados e de todo o mundo, retardando-se com ele o crescimento do reino de Deus.

Portanto, todos os católicos devem buscar a perfeição cristã e esforçar-se cada um segundo a sua condição, para que a Igreja, portadora da humildade e da paixão de Jesus em seu corpo, se purifique e se renove dia após dia, até que se apresente gloriosa a Cristo, sem mancha nem ruga.

Guardando a unidade no necessário, todos na Igreja, cada um segundo o encargo que lhe tenha sido dado, observem a devida liberdade, tanto nas diversas formas de vida espiritual e de disciplina, como na diversidade de ritos litúrgicos, inclusive na elaboração teológica da verdade revelada; porém, em tudo pratiquem a caridade pois, com este proceder, manifestarão, cada dia mais plenamente, a autêntica catolicidade e apostolicidade da Igreja.

Por outro lado, é necessário que os católicos, com alegria, reconheçam e apreciem em seu valor os tesouros verdadeiramente cristãos que, procedentes do patrimônio comum, se encontram em nossos irmãos separados. É justo e saudável reconhecer as riquezas de Cristo e as virtudes na vida daqueles que dão testemunho de Cristo e, às vezes, alcancem o derramamento de seu sangue, porque Deus é sempre admirável e digno de admiração em suas obras.

Não há que se esquecer, tampouco, que em tudo que é trabalhado pelo Espírito Santo nos corações dos irmãos separados pode conduzir também à nossa edificação. O que de verdade for cristão não pode se opor, de forma alguma, aos autênticos bens da fé, mas, pelo contrário, sempre pode fazer que se alcance mais perfeitamente o próprio mistério de Cristo e da Igreja.

Contudo, as divisões dos cristãos impedem que a Igreja leve a efeito a sua própria plenitude de catolicidade naqueles filhos que, estando verdadeiramente incorporados a ela pelo batismo, estão, porém, separados de sua plena comunhão. Mais ainda, à mesma Igreja resulta muito difícil expressar, sob todos os aspectos, na realidade mesma da vida, a plenitude da catolicidade.

Este Sacrossanto Concílio adverte, com alegria, que a participação dos fiéis católicos na ação ecumênica cresce a cada dia e a recomenda aos bispos de todo o mundo, para que a promovam com diligência e a dirijam prudentemente.

II. A PRÁTICA DO ECUMENISMO

A união afeta a todos

5. O empenho pelo restabelecimeno da união corresponde à Igreja inteira, afetando tanto os fiéis como os pastores, a cada um segundo seu próprio valor, seja na vida cristã diária, seja nas investigações teológicas e históricas. Este interesse manifesta a união fraterna existente já de alguma maneira entre todos os cristãos e conduz à plena e perfeita unidade, segundo a benevolência de Deus.

A reforma da Igreja

6. Posto que toda a renovação da Igreja consiste essencialmente no aumento da fidelidade à sua vocação, por isso, sem dúvida, há um movimento que tende buscar a unidade. Cristo chama a Igreja peregrina à uma perene reforma, da própria Igreja, pois enquanto instituição humana e terrena, tem sempre tal necessidade, a ponto de que se algumas coisas foram menos cuidadosamente observadas – em razão de circunstâncias especiais, costumes ou disciplina eclesiástica – ou as formas de exposição da doutrina – que deve ser cuidadosamente distingüida do mesmo depósito da fé – sejam restauradas, retas e devidamente, no tempo oportuno.

Esta reforma, pois, tem uma extraordinária importância ecumênica. Muitas das formas de vida da Igreja, pelas quais já estão se realizando esta renovação – como o movimento bíblico e litúrgico, a pregação da Palavra de Deus e a catequese, o apostolado dos seculares, as novas formas de vida religiosa, a espiritualidade do matrimônio, a doutrina e a atividade da Igreja no campo social – hão de ser recebidas como presentes e augúrios que felizmente pressagiam os futuros progressos do ecumenismo.

A conversão do coração

7. O verdadeiro ecumenismo não pode dar-se sem a conversão interior. Com efeito, os desejos da unidade surgem e amadurecem da renovação da alma, da abnegação de si mesmo e da efesão generosa da caridade. Por isso, temos que implorar do Espírito Santo a graça da abnegação sincera, da humildade e da mansidão em nossos serviços e da fraterna generosidade da alma para com os demais. "Assim, pois, eu, prisioneiro do Senhor, vos exorto" – diz o Apóstolo dos Gentios – "a andar de uma maneira digna da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade, mansidão e longanimidade, suportando-vos uns aos outros com caridade, solícitos de conservar a unidade do espírito mediante o vínculo da paz" (Ef. 4,1-3). Esta exortação se refere, sobretudo, aos que foram investidos da ordem sagrada, para continuar a missão de Cristo, que "veio não para ser servido, mas para servir" entre nós.

Às faltas contra a unidade podem aplicar-se as palavras de São João: "Se dizemos que não temos pecado, fazemos de Deus mentiroso e sua palavra não está em nós". Humildemente, pois, pedimos perdão a Deus e aos irmãos separados, assim como perdoamos aqueles que nos têm ofendido. Recordem todos os fiéis que tanto melhor promoverão e realizarão a união dos cristãos quanto mais se esforcem em levar uma vida mais pura, segundo o Evangelho, porque, quanto mais se unam em estreita comunhão com o Pai, com o Verbo e com o Espírito, tanto mais íntima e facilmente poderão acrescentar a mútua irmandade.

A oração conjunta

8. Esta conversão do coração e santidade de vida, juntamente com as orações particulares e públicas pela unidade dos cristãos, hão de ser consideradas como a alma de todo o movimento ecumênico, e com razão pode chamar-se ecumenismo espiritual.

É freqüente entre os católicos celebrar a oração pela unidade da Igreja, que o mesmo Salvador dirigiu inflamadamente ao Pai nas vésperas de sua morte: "Que todos sejam um".

Em certas circunstâncias especiais, como ocorre quando se celebram orações "pela unidade" e nas assembléias ecumênicas, é lícito, mais ainda, é de se desejar que os católicos se unam na orações com os irmãos separados. Tais preces comuns são um meio muito eficar para impetrar a graça da unidade e a expressão genuína dos vínculos que unem os católicos com os irmãos separados: "Pois oinde há duas ou três pessoas congregadas em meu nome, ali estou no meio delas".

Porém, não é lícito considerar a comunicação nas funções sagradas como meio que possa usar-se indiscriminadamente para restabelecer a unidade dos cristãos. Esta comunicação depende, sobretudo, de dois princípios: do significado da unidade da Igreja e da participação nos meios da graça.

O significado da unidade proíbe ordinariamente a comunicação. A consecução da graça algumas vezes a recomenda. A autoridade episcopal local deve determinar prudentemente o modo de agir em concreto, atendidas as circunstâncias do tempo, lugar e pessoas, a não ser que a Conferência Episcopal, através de seus próprios estatutos, ou a Santa Sé prevejam de outro modo.

O conhecimento mútuo dos irmãos

9. Convém conhecer a disposição de ânimo dos irmãos separados. Para isso, é necessário que o estudo seja realizado com uma alma benévola guiada pela verdade. É preciso que os católicos, devidamente preparados, adquiram maior conhecimento da doutrina e da história da vida espiritual e cultural, da psicologia religiosa e da cultura peculiares dos irmãos.

Para consegui-lo, ajudam muito, a ambas as partes, as reuniões que objetivam tratar, sobretudo, das questões teológicas, onde cada um possa tratar os demais de igual para igual, de maneira que aqueles que tomam parte, sob a vigilância dos prelados, sejam verdadeiramente peritos. Em tal diálogo pode-se incluir o esclarecimento da verdadeira natureza da Igreja católica. Desta forma, conheceremos melhor o pensamento dos irmãos separados e a nossa fé se apresentará entre eles mais claramente expressada.

A formação ecumênica

10. É necessários que as instituições de sagrada teologia e de outras disciplinas, sobretudo históricas, sejam explicadas também em sentido ecumênico, para que respondam o mais possível à realidade.

É muito conveniente que os que hão de ser pastores e sacerdotes sejam instruídos da teologia elaborada desta forma, com o máximo cuidado e não polemicamente, principalmente no que diz respeito às relações dos irmãos separados para com a Igreja católica, já que da formação dos sacerdotes, sobretudo, depende a necessária instrução e formação espiritual dos fiéis e religiosos.

É também conveniente que os católicos, empenhados em obras missionárias nas mesmas terras em que há também outros cristãos, conheçam hoje, sobretudo, os probleas e os frutos que surgem do ecumenismo em seu apostolado.

A forma de expressar e de expor a doutrina da fé

11. Em nenhum caso deve ser obstáculo para o diálogo com os irmãos o sistema de exposição da fé católica. É totalmente necessário que se exponha com clareza toda a doutrina. Nada é tão alheio ao ecumenismo como o falso irenismo, que pretende desvirtuar a pureza da doutrina católica e obscurecer seu genuíno e verdadeiro sentido.

A fé católica há de expor-se ao mesmo tempo com mais profundidade e com mais retidão, para que, tanto pela forma como pelas palavras, possa ser cabalmente compreendida também pelos irmãos separados.

Finalmente, no diálogo ecumênico, os teólogos católicos, bem instruídos da doutrina da Igreja, ao tratar com os irmãos separados a investigação dos divinos mistérios, devem proceder com amor à verdade, com caridade e humildade. Ao confrontar as doutrinas, não esqueçam que existe uma ordem ou "hierarquia" das verdades na doutrina católica, por ser diversa sua conexão com o fundamento da fé crista. Desta forma se preparará o caminho por onde todos se estimulam a prosseguir com esta fraterna emulação até um conhecimento mais profundo e uma exposição mais clara das incalculáveis riquezas de Cristo (cf. Ef. 3,8).

A cooperação com os irmãos separados

12. Todos os cristãos devem confessar diante do mundo inteiro sua fé no Deus uno e trino, no Filho de Deus encarnado, Redentor e Senhor nosso, e com empenho comum em seu mútuo apreço, devem dar testemunho de nossa esperança, que não se confunde.

Como nestes tempos se exige uma colaboração amplíssima no campo social, todos os homens são chamados a este empreendimento comum, sobretudo os que crêem em Deus e ainda, mais singularmente, todos os cristãos, por ver-se honrados com o nome de Cristo.

A cooperação de todos os cristãos expressa vivamente a união com a qual já estão vinculados e apresenta com luz mais radiante a imagem de Cristo Servo. Esta cooperação, já estabelecida em não poucas nações, deve ir aperfeiçoando-se mais e mais, sobretudo nas regiões desenvolvidas social e tecnicamente, seja na justa apreciação da dignidade da pessoa humana, seja procurando o bem da paz, seja na aplicação social do Evangelho, seja no progresso das ciências e das artes, com espírito cristão, seja na aplicação de qualquer gênero de remédio contra os infortúnios dos nossos tempos, como são a fome e as calamidades, o analfabetismo e a miséria, a escassez de víveres e a distribuição injusta das riquezas.

Por meio desta cooperação poderão advertir facilmente todos os que crêem em Cristo, como podem conhecer-se melhor uns aos outros, apreciando e organizando melhor o caminho para a unidade dos cristãos.

III. AS IGREJAS E AS COMUNIDADES ECLESIAIS SEPARADAS DA SÉ APOSTÓLICA ROMANA

13. Nossa atenção se fixa nas duas categorias principais de cisões que afetam a túnica inconsútil de Cristo.

As primeiras tiveram lugar no Oriente, resultantes das declarações dogmáticas dos concílios de Éfeso e Calcedônia e, em tempos posteriores, pela ruptura da comunidade eclesiástica entre os patriarcas orientais e a Sé Romana.

Mais de quatro séculos depois, sobrevieram outras na mesma Igreja do Ocidente, como seqüelas dos acontecimentos que ordinariamente se designam com o nome de Reforma. Desde então, muitas comunhões nacionais ou confessionais desagregaram-se da Sé Romana. Entre as que conservam em parte as tradições e as estruturas católicas, ocupa lugar especial a comunhão anglicana.

Há, contudo, diferenças bem notáveis nestes diversos grupos, não apenas em razão de sua origem, lugar e tempo, mas especialmente pela natureza e gravidade dos problemas pertinentes à fé e à estrutura eclesiástica.

Por isso, este Sacrossanto Concílio, valorizando escrupulosamente as diversas condiões de cada um dos grupos cristãos, e levando em conta os vínculos existentes entre eles, apesar de sua divisão, determina propor as seguintes considerações para alcançar uma prudente ação ecumênica.

1. Consideração Particular das Igrejas Orientais

Caráter e história própria dos orientais

14. As Igrejas do Oriente e do Ocidente, durante muitos séculos, seguiram seu próprio caminho unidas na comunhão fraterna da fé e da vida sacramental, sendo a Sé Romana, pelo consentimento comum, árbitra se surgisse entre elas alguma discórdia em termos de fé e disciplina. O Sacrossanto Concílio se compraz em recordar, entre outras coisas importantes, que existem no Oriente muitas Igrejas particulares ou locais, entre as quais ocupam o primeiro lugar as Igrejas patriarcais, de onde não poucas têm origem dos mesmos Apóstolos.

Por este motivo tem prevalecido e prevalece entre os orientais o empenho e o interesse de conservar aquelas relações fraternas no comunhão da fé e da caridade, que devem ser observadas entre Igrejas locais como entre irmãs.

Não deve-se esquecer tampouco que as Igrejas do Oriente têm, desde o princípio, um tesouro do qual foi tomado pela Igreja do Ocidente muitas coisas na liturgia, na tradição espiritual e no ordenamento jurídico. E é de sumo interesse que os dogmas fundamentais da fé cristã, o da Trindade, o do Filho de Deus feito carne da Virgem Mãe de Deus, foram definidos em concílios ecumênicos celebrados no Oriente. Aquelas Igrejas têm sofrido e sofrem muito pela conservação desta fé.

A herança transmitida pelos Apóstolos foi recebida de diversas formas e maneiras e, conseqüentemente, desde as origens da Igreja, foi explicada diversamente em uma ou outra parte, pela diversidade de características e das condições de vida. Tudo isto, além de causas externas, por falta de compreensão e caridade, motivou as separações.

Por isso, o Sacrossanto Concílio exorta a todos, porém especialmente àqueles que hão de trabalhar para restabelecer a plena comunhão entre as Igrejas orientais e a Igreja Católica, que tenham as devidas considerações à condição especial das Igrejas que nascem e se desenvolvem no Oriente, assim como a índole das relações que existiam entre elas e a Sé Romana antes da separação, formando uma reta opinião de tudo; observar isto cuidadosamente servirá muitíssimo para o pretendido diálogo.

A tradição litúrgica e espiritual dos orientais

15. Todos sabem com quanto amor os cristãos orientais celebram o culto litúrgico, sobretudo a celebração eucarística, fonte de vida da Igreja e presente da glória futura, pela qual os fiéis unidos a seu bispo, acolhidos perante Deus Pai por seu Filho, o Verbo encarnado, morto e glorificado na efusão do Espírito Santo, obtêm a comunhão com a Santíssima Trindade, feitos "partícipes da natureza divina". Conseqüentemente, pela celebração da Eucaristia do Senhor em cada uma destas Igrejas, se edifica e cresce a Igreja de Deus, e pela concelebração se manifesta a comunhão entre elas.

Neste culto litúrgico, os orientais entoam formosos hinos a Maria, sempre Virgem, a quem o Concílio Ecumênico de Éfeso proclamou solenemente Santíssima Mãe de Deus, para que Cristo fosse reconhecido como Filho de Deus e Filho do homem, segundo as Escrituras; e honram também a muitos santos, entre eles os Padres da Igreja universal. Visto que estas Igrejas, embora separadas, possuem verdadeiros sacramentos e, sobretudo, por sua sucessão apostólica, sacerdócio e Eucaristia, se unem a nós com vínculos estreitíssimos, não somente é possível como também se aconselha alguma comunicação com elas nas funções sagradas, em circunstâncias oportunas, quando aprovada pela autoridade eclesiástica.Também se encontram no Oriente as riquezas daquelas tradições espirituais que criou, sobretudo, o monaquismo. Ali, pois, desde os primeiros tempos gloriosos dos santos padres floresceu a espiritualidade monástica, que se estendeu logo aos povos ocidentais. Dela procede, como de sua fonte, a instituição religiosa dos latinos, que ainda depois tomou novo vigor no Oriente. Por isso, se recomenda encarecidamente aos católicos que acudam com maior freqüencia a estas riquezas espirituais dos Padres do Oriente, que levam a todo homem à contemplação do divino.

Tenham todos presente que o conhecer, venerar, conservar e favorecer o riquíssimo patrimônio litúrgico e espiritual dos orientais é de grande importância para conservar fielmente a plenitude da tradição cristã e para conseguir a reconciliação dos cristãos orientais e ocidentais.

Disciplina própria dos orientais

16. As Igrejas do Oriente, além disso, desde os primeiros tempos seguiam disciplinas próprias sancionadas pelos santos Padres e pelos concílios, inclusive ecumênicos. Não se opondo à unidade da Igreja uma certa variedade de ritos e costumes, mas sim acrescentando mais bem sua formosura e contribuindo para o mais exato cumprimento de sua missão, como dissemos antes, o Sacrossanto Concílio, para dissipar todo temor, declara que as Igrejas orientais, conscientes da necessária unidade de toda a Igreja, têm o direito e a obrigação de reger-se segundo suas próprias ordenações, visto que são mais acomodadas à idiosincrasia de seus fiéis e mais adequadas para promover o bem de suas almas. Nem sempre, é verdade, se tem observado bem este princípio tradicional, porém sua observância é uma condição prévia absolutamente necessária para o restabelecimento da união. Caracterítica própria dos orientais na exposição dos mistérios

17. O que antes temos dito acerca da legítima diversidade, nos é grato repeti-lo também da diversa exposição da doutrina teológica, visto que no Oriente e no Ocidente se tem seguido diversos passos e métodos na investigação da verdade revelada e no reconhecimento e exposição do divino. Não há de surpreender-se, pois, que alguns aspectos do mistério revelado às vezes se hajam entendido melhor e se tenham sido expostos com mais clareza por uns que por outros, de forma que temos de declarar que as diversas fórmulas teológicas, mais que opor-se entre si, se completam e aperfeiçoam umas às outras. Quanto às autênticas tradições teológicas dos orientais, há que se reconhecer que se radicam de um modo manifesto na Sagrada Escritura, se estimulam e se fortalecem com a vida litúrgica, se alimentam da viva tradição apostólica e dos ensinamentos dos Padres orientais e dos autores eclesiásticos que tinham uma reta ordenação da vida; mais ainda, faziam uma contemplação cabal da verdade cristã. Este Sacrossanto Concílio declara que todo este patrimônio espiritual e litúrgico, disciplinar e teológico, em suas diversas tradições, pertence à plena catolicidade e apostolicidade da Igreja, e dá graças a Deus porque muitos orientais, filhos da Igreja católica, que conservam esta herança e ansiam vivê-la em sua plena pureza e integridade, vivem já em comunhão perfeita com os irmãos que praticam a tradição ocidental.

Conclusão

18. Bem considerado tudo o que precede, este Sacrossanto Concílio renova solenemente tudo o que foi declarado pelos sacrossantos concílios anteriores e os Romanos Pontífices, a saber: que para o restabelecimento e manutenção da comunhão e da unidade é preciso "não impor nenhuma outra carga além da necessária" (At. 15,28). Deseja, assim mesmo, veementemente, que de agora por diante se dirijam todos os esforços nos vários institutos e formas de vida da Igreja, sobretudo na oração e no diálogo fraterno acerca da doutrina e das necessidades mais urgentes do cargo pastoral em nossos dias, para que se obtenha paulatinamente a comunhão. De igual maneira, recomenda aos pastores e aos fiéis da Igreja católica, estreita amizade com aqueles que passam a vida no Oriente, distantes da pátria, para incrementar a colaboração fraterna com eles, com espírito de caridade, deixando todo ânimo de controvérsia e emulação. Se chegar-se a pôr toda a alma neste empreendimento, este Sacrossanto Concílio espera que, derrubado todo muro que separa a Igreja ocidental da oriental, se fará uma só morada, cuja pedra angular é Cristo Jesus, que fará das duas uma só coisa.

2. As Igrejas e Comunidades Eclesiais Separadas no Ocidente

Condição própria destas comunidades

19. As Igrejas e comunidades eclesiais que se separaram da Sé Apostólica Romana, em razão daquela gravíssima perturbação que se iniciou no Ocidente já nos finais da Idade Média, bem como em tempos posteriores, estão unidas à Igreja católica por uma afinidade de laços e obrigações peculiares por ter desenvolvido em tempos passados uma vida cristã multisecular em comunhão eclesiástica.

Visto que estas Igrejas e comunidades eclesiais, pela diversidade de sua origem, de sua doutrina e de sua vida espiritual, diferem bastante não apenas de nós, como também entre si, é tarefa muito difícil descrevê-las detalhadamente, coisa que não pretendemos fazer aqui.

Ainda que, todavia, não seja universal o movimento ecumênico e o desejo de harmonia com a Igreja católica, temos, não obstante, a esperança de que este sentimento ecumênico e o mútuo apreço irão impondo-se pouco a pouco a todos.

Há que se reconhecer, certamente, que entre estas Igrejas e comunidades e a Igreja católica existem discrepâncias essenciais não só de índole histórica, sociológica, psicológica e cultural, como, antes de tudo, da interpretação da verdade revelada. Mas para que, apesar destas dificuldades, possa estabelecer-se mais facilmente o diálogo ecumênico, nos seguintes parágrafos trataremos de oferecer alguns pontos que podem e devem ser fundamento e estímulo para este diálogo.

A confissão de Cristo

20. Nossa atenção se dirige, antes de tudo, aos cristãos que reconhecem publicamente a Jesus Cristo como Deus e Senhor, Mediador único entre Deus e o s homens, para a glória do único Deus, Pai e Filho e Espírito Santo. Sabemos que existem graves divergências entre a doutrina destes cristãos e a doutrina da Igreja católica com respeito a Cristo, Verbo de Deus encarnado, da obra de redenção e, por conseqüência, do mistério e ministério da Igreja e da função de Maria na obra da salvação. Nos sentimos felizes, contudo, de ver os irmãos separados ter a Cristo como fonte e centro da comunhão eclesiástica. Movidos pelo desejo da união com Cristo, se sentem impulsionados a buscar mais e mais a unidade e também a dar o testemunho de sua fé diante de todo o mundo.

Estudo da Sagrada Escritura

21. O amor e a veneração e quase culto às Sagradas Escrituras conduzem os nossos irmãos separados ao estudo constante e solícito da Bíblia, pois o Evangelho "é poder de Deus para a saúde de todo aquele que crê, primeiro do judeu, porém também do grego" (Rom. 1,16).

Invocando o Espírito Santo, buscam a Deus nas Escrituras que, de certo modo, lhes fala em Cristo, preanunciado pelos profetas, Verbo de Deus encarnado por nós. Nelas contemplam a vida de Cristo e quanto o divino Mestre ensinou e realizaou para a salvação dos homens, sobretudo os mistérios de sua morte e ressurreição.

Porém, quando os irmãos separados reconhecem a autoridade divina dos sagrados livros, sentem – cada um à sua maneira – diversamente de nós quanto a relação entre as Escrituras e a Igreja, na qual, segundo a fé católoca, o magistério autêntico tem um lugar especial visando a exposição e pregação da palavra de Deus escrita.

Contudo, as Sagradas Escrituras são, no próprio diálogo, instrumentos preciosos na mão poderosa de Deus para se obter aquela unidade que o Salvador apresenta a todos os homens.

A vida sacramental

22. Pelo sacramento do batismo, devidamente administrado segundo a instituição do Senhor e recebido com a requerida disposição da alma, o homem se incorpora realmente a Cristo crucificado e glorioso, e se regenera para o consórcio da vida divina, segundo as palavras do Apóstolo: "Com Ele fostes sepultados no batismo e Nele, assim mesmo, fostes ressuscitados pela fé no poder de Deus, que O ressuscitou dos mortos" (Col. 2,12; Rom. 6,4).

O batismo, portanto, constitui um poderoso vínculo sacramental de unidade entre todos os que com ele se tem regenerado. Contudo, o batismo, por si mesmo, é tão somente um princípio e um começo, porque todo ele se dirige à consecução da plenitude da vida em Cristo. Assim, pois, o batismo se ordena à profissão íntegra da fé, à plena incorporação, aos meios de salvação determinados por Cristo e, finalmente, à íntegra incorporação na comunhão eucarística.

As comunidades eclesiais separadas, ainda que lhes falte essa unidade plena conosco, que dimana do batismo, e ainda que creamos que, sobretudo pela carência do sacramento da ordem, não tenham conservado a genuína e íntegra substância do mistério eucarístico, entretanto, durante a santa ceia, comemoram a morte e a ressurreição do Senhor, professando que na comunhão de Cristo se representa a vida e esperam a sua vinda gloriosa. Por conseqüência, a doutrina sobre a ceia do Senhor, sobre os demais sacramentos, sobre o culto e os mistérios da Igreja devem ser objeto de diálogo.

A vida com Cristo

23. A vida cristã destes irmãos se nutre da fé e de Cristo, e se fortalece com a graça do batismo e com a Palavra de Deus ouvida. Se manifesta na oração particular, na meditação bíblica, na vida da família cristã, no culto da comunidade congregada para louvar a Deus. Ademais, seu culto muitas vezes apresenta elementos claros da antiga liturgia comum.

A fé pela qual se crê em Cristo, produz frutos de louvor e de ação de graças pelos benefícios recebidos de Deus; una-se a ela também um vivo sentimento de justiça e uma sincera caridade para com o próximo. Esta fé laboriosa tem produzido não poucas instituições para socorrer a miséria espiritual e corporal, para aperfeiçoar a educação da juventude, para suavizar as condições sociais da vida, para estabelecer a paz no mundo.

Porém, se muitos cristãos não entendem sempre o Evangelho em seu aspecto moral, da mesma maneira que os católicos, nem admitem as mesmas soluções para os problemas mais complicados da sociedade moderna, não obstante querem seguir o mesmo que nós, a palavra de Cristo, como fonte de virtude cristã, e obdecer ao preceito do Apóstolo: "Tudo o que fizerdes de palavra ou de obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando graças a Deus Pai por Ele" (Col. 3,17). Daqui pode surgir o diálogo ecumênico sobre a aplicação moral do Evangelho.

CONCLUSÃO

24. Expostas brevemente as condições em que se desenvolve a ação ecumênica e os princípios pelos quais deve se reger, dirigimos confiadamente nossa mira ao futuro. Este Sagrado Concílio exorta aos fiéis a que se abstenham de toda pressa ou zelo imprudente, que possam prejudicar o progresso da unidade. Sua ação ecumênica há de ser plena e sinceramente católica, isto é, fiel à verdade recebida dos Apóstolos e dos Padres, e conforme a fé que sempre foi professada na Igreja católica, tendendo constantemente a chegar à plenitude com que o Senhor deseja que se aperfeiçoe seu Corpo no decorrer dos tempos.

Este Sagrado Concílio deseja ardentemente que os projetos dos fiéis católicos progridam em união com os projetos dos irmãos separados, sem que se ponham obstáculos aos caminhos da Providência e sem prejuízos contra os impulsos que possam vir do Espírito Santo. Além do mais, se declara conhecedor de que este santo propósito de reconciliar todos os cristãos na unidade da única Igreja de Jesus Cristo excede as forças e a capacidade humana. Por isso, põe-se toda a sua esperança na oração de Cristo pela Igreja, no amor do Pai para conosco e na virtude do Espírito Santo. "E a esperança não cairá morta, pois o amor de Deus se derramou em nossos corações pela virtude do Espírito Santo, que nos foi dado" (cf. Rom. 5,5).

Todas e cada uma das coisas contidas neste Decreto foram obtidas com o beneplácito dos Padres do Sacrossanto Concílio. E Nós, em virtude do poder apostólico recebido de Cristo, juntamente com os veneráveis Padres, as aprovamos, decretamos e estabelecemos no Espírito Santo, e mandamos que o que assim foi decidido conciliariamente seja promulgado para a glória de Deus.

– Roma, em São Pedro, 21 de novembro de 1964.

Eu, PAULO, bispo da Igreja Católica

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