• Autor: Anônimo
  • Fonte: A Catholic Response Inc. (http://users.binary.net/polycarp)
  • Tradução: Carlos Martins Nabeto

– “Como alguém confortado pela mãe, assim Eu (=Deus) te confortarei; serás consolado em Jerusalém” (Isaías 66,13).

* * *

A expressão “Deus Mãe” vem se tornando popular, mesmo entre cristãos. Esta linguagem possui diversas origens. Nos últimos anos, o Paganismo e o Gnosticismo, com suas divindades masculinas e femininas, tornaram-se mais populares. Também feministas, perturbadas por um Deus que é Pai, tentaram criar um deus à sua própria imagem. Embora alguns possam enfatizar excessivamente as imagens maternas de Deus encontradas na Bíblia, por outro lado, “Deus Mãe” pode ser confundido com o título de Maria “Mãe de Deus”, que é uma outra questão [totalmente] diferente.

Um exemplo que promove [a expressão] “Deus Mãe” é o livro intitulado “Heart Talks to Mother God” [=”O Coração fala a Deus Mãe”]. Este livro afirma ser baseado nas imagens maternas de Deus na Bíblia. Foi escrito para crianças, para que elas pudessem experimentar uma outra metáfora de Deus: “Deus Mãe, que as ama incondicionalmente”. Infelizmente, isso parece implicar que os pais, incluindo Deus Pai, não podem amar incondicionalmente. O livro reduz a Criação ao “nascimento”, onde Deus não cria mais a partir do nada, mas tem um útero. Também Jesus parece ter tido duas mães: Maria e Mãe Deus! Este título para Deus tem muitas implicações estranhas. Assim, uma pergunta importante a ser feita é: temos licença para alterar os títulos revelados de Deus, de acordo com as nossas opiniões e sentimentos?

Pois bem: temos de perceber que Deus não está na nossa imagem, mas nós somos feitos à imagem de Deus. Podemos rejeitar a Deus, mas não podemos mudar ou redefinir Deus. Deuses criados por nós são meros ídolos (cf. CIC 2779). O Catecismo da Igreja Católica (CIC) declara:

  • “Deus não é de modo algum à imagem do homem. Não é nem homem nem mulher. Deus é puro espírito, não havendo Nele lugar para a diferença dos sexos. Mas as ‘perfeições’ do homem e da mulher refletem algo da infinita perfeição de Deus: as de uma mãe (cf. Isaías 49,14-15; 66,13; Salmo 131,2-3) e as de um pai (cf. Jó 31,18; Jeremias 3,4-20) e esposo (cf. Jeremias 3,6-19)” (CIC 370).

Em outras partes do Catecismo, lemos:

  • “Ao designar a Deus com o nome de ‘Pai’, a linguagem da fé indica principalmente dois aspectos: que Deus é origem primeira de toda autoridade transcendente, e que ao mesmo tempo é bondade e solicitude de amor para todos os seus filhos. Esta ternura paterna de Deus pode também ser expressa pela imagem da maternidade (cf. Isaías 66,13; Salmo 131,2), que indica mais a imanência de Deus, a intimidade entre Deus e sua criatura. A linguagem da fé inspira-se, assim, na experiência humana dos pais” (CIC 239).

O Catecismo continua nos lembrando que Deus transcende ambos os sexos, paternidade e até criação. A linguagem da fé enraizada na experiência humana nunca pode expressar completamente a Deus (cf. CIC 40).

Na Bíblia, o título de “Mãe” nunca é aplicado para Deus. No Antigo Testamento (AT), Deus emprega para Si mesmo o título de “Pai”, ainda que raramente:

Os títulos do AT para Deus são principalmente políticos (Senhor, Rei, Mestre) ou militares (Fortaleza, Pedra, Escudo). Foi Cristo quem primeiramente desenvolveu por completo o título “Abba” para o Deus de Israel. “Abba” é o [vocábulo] aramaico para “pai” e não para “mãe ou pai” (cf. Marcos 14,36). Jesus no Evangelho se refere ao Deus de Israel como “meu Pai” (Lucas 2,49) e “Pai Nosso”, como consta na oração do Senhor (cf. Mateus 6,9; 23,9). Nas Epístolas do Novo Testamento (NT), os títulos de “Deus Pai” (cf. Gálatas 1,1; Efésios 5,20) e “Deus nosso Pai” (cf. Romanos 1,7; 1Coríntios 1,3) são frequentemente empregados. Às vezes, Deus pode descrever as Suas ações em termos maternos, assim como Moisés e São Paulo também se autocomparam às mães (cf. Números 11,12; Gálatas 4,19).

A Natureza Divina é Espírito puro (cf. João 4,24), mas a 2ª Pessoa da Trindade (cf. Mateus 28,19) também tomou sobre Si uma natureza humana. Esta doutrina é chamada de “Encarnação”. Deus Filho, veio em carne como Jesus Cristo. Como está escrito no Evangelho:

  • “O Verbo era Deus (…) E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1,1.14).[1]

Jesus Cristo, o Verbo Encarnado, nasceu de Maria como Filho de Deus:

  • “Mas quando chegou a hora, Deus enviou o Seu Filho, nascido de mulher” (Gálatas 4,4).

O Deus de Israel é o Pai de Jesus (cf. Mateus 11,27), enquanto que Maria tornou-se a mãe humana de Jesus (cf. Lucas 1,43).[2] Jesus não tinha vergonha de chamar o Deus de Israel como Seu Pai. Ele foi acusado de blasfêmia e acabou morrendo por essa alegação (cf. João 5,18; 19,7-8).

Algumas feministas afirmam que a Bíblia é tendenciosa já que foi copiada ao longo dos séculos por escribas do sexo masculino. Mas essa afirmação não explica os versículos que apresentaam Deus em termos maternos (p.ex. Isaías 42,14; 49,14-15; 66,13). Certamente os escribas “fixados no patriarcal” teriam se escandalizado por essas passagens e eventualmente as teriam excluído. E essas metáforas, ainda que raras, poderiam ter sido facilmente removidas da Bíblia. No AT, o título “Pai” é raramente usado para Deus; então aqui, mais uma vez, deveríamos esperar que os “escribas patriarcais” empregassem esse título com mais frequência no AT.

Pois bem: se Jesus realmente não chamou o Deus de Israel de Seu Pai, os escribas posteriores teriam que falsificar muitas das palavras de Jesus nos Evangelhos. Como os Evangelhos chegaram até nós através de várias tradições de manuscritos, juntamente com alguns manuscritos primitivos que sobreviveram, tal revisão radical deveria ter sido feita muito no início, ainda no século I, quando os cristãos que pessoalmente ouviram Jesus ainda estavam vivos. E os Apóstolos também teriam que mentir e depois serem martirizados por essa mentira! Mas na verdade, esses escribas estavam realmente mais motivados a preservar a Palavra de Deus do que a promover o “chauvinismo machista”. De fato, esses escribas eram bem cuidadosos ao transcrever precisamente a Palavra de Deus.

Os promotores políticos de “Deus Mãe” compreendem o poder da linguagem. As palavras que usamos em nosso discurso influenciam o modo como pensamos e agimos. Por exemplo, se eu uso uma linguagem impura, estarei mais propenso a cometer pecados de impureza. Da mesma forma, se usarmos uma linguagem que se oponha aos ensinamentos da Igreja e da Bíblia, é mais provável que rejeitemos estas autoridades. Um bom livro para se ler sobre o poder, a autoridade e a política da linguagem é “The Church and the Culture War” [=”A Igreja e a Guerra Cultural”], de Joyce A. Little (Ignatius Press, San Francisco, 1995).

Na página 148 do seu livro, Joyce Little discute Deus como Pai. Pois bem: o Deus de Israel é Santo (cf. Salmo 99). A palavra “Santo” está enraizada na palavra “Separado” (cf. 1Crônicas 23,13). Deus, sendo puro Espírito, possui uma certa “separação” ou alteridade de Sua criação material. Essa alteridade de Deus é revelada ainda mais quando Ele enviou o Seu Filho únicao ao mundo ao invés de Si mesmo. Embora sejamos criados à Sua imagem, Deus Pai mantém uma certa distância da matéria. Por esse motivo, o título “Mãe” não é apropriado para Deus, pois as palavras: “Mãe” e “Matéria” são etimologicamente relacionadas (cf. raiz latina: mater-). Deus não é a mãe-natureza nem a mãe-terra. As mães, durante a gravidez, também se unem biologicamente com o filho, mas os pais estão fisicamente separados. Embora os pais amem os seus filhos, ainda assim há um certo grau de distância em relação às mães. Mais uma vez, essa “separação” de pai e filho encontra-se relacionada à “separação” (santidade) entre Deus e a Criação. O Deus de Israel é chamado “Pai” não porque é homem, mas porque é Santo!

Nossa palavras humanas nunca poderão expressar adequadamente a Deus, que é Santo (cf. Salmo 99,9) e Amor (cf. 1João 4,16). Diferentemente das palavras humanas, Jesus Cristo é o Verbo Encarnado, que pode expressar completamente a Deus (cf. CIC 102; Hebreus 1,1-3; Mateus 11,27). Os cristãos podem chamar Deus de “Pai” porque Jesus nos deu tal permissão (cf. Gálatas 4,6; CIC 2780), caso contrário estaríamos cometendo um sacrilégio ou até mesmo idolatria.

[Em suma:] Na Bíblia, Deus é descrito por muitas metáforas, inclusive a da maternidade (cf. Deuteronômio 32,18; Mateus 23,37), mas nunca é chamado de “Mãe” especificamente. Ao descrevermos Deus, devemos reconhecer os problemas da nossa linguagem. Embora a nossa linguagem seja inadequada para descrever a Deus, ela influencia o nosso comportamento e o modo como pensamos Dele; portanto, deve ser a mais correta e precisa possível. Podemos jamais encontrar as palavras exatas, mas devemos evitar o uso das palavras erradas. Como cristãos, não temos o direito de alterar pessoalmente o título de Deus para adequá-Lo aos nossos caprichos.

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Notas:
[1] Algumas referências à divindade de Cristo são: João 5,18; 10,30; 20,28-29; Atos 20,28; Colossenses 2,9; Tito 2,13 etc.
[2] É por isso que a Igreja Católica chama Maria de “Mãe de Deus” (cf. CIC 495), pois ela é a mãe da 2ª Pessoa divina, Deus Filho. Maria não é uma “deusa mãe”, pois é apenas humana, uma criatura de Deus. Ela também não é o lado feminino de Deus, nem a mãe das demais pessoas divinas: Deus Pai e o Espírito Santo.

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