Navegando recentemente pela Internet, encontrei um estudo anônimo que comentava, entre outras coisas, algumas razões pelas quais, por seu conteúdo, os livros deuterocanônicos não poderiam ser tidos por inspirados. Após investigar a fonte do estudo, pude constatar, graças a um bom amigo, que o mesmo se baseava no livro “A Bíblia: como converteu-se em livro”, de Terry Hall, onde existe um apêndice redigido por Roberto Lloyd intitulado “Porque não aceitamos os livros apócrifos”. Depois de ler com atenção ao referido estudo, resolvi fazer alguns comentários acerca dele.

ARGUMENTO 1: OS DEUTEROCANÔNICOS NÃO PODEM SER INSPIRADOS PORQUE NÃO AFIRMAM QUE O SÃO

No estudo, este argumento era apresentado da seguinte maneira:

– “É no interior dos próprios livros que vemos que carecem de uma das principais fontes para se compreender que algo é inspirado por Deus, pois não contém nenhuma destas frases: ‘Assim diz Jeová’, ‘Veio a mim a palavra de Jeová’, ‘Jeová falou a…’; pelo contrário, manifestam sua inspiração humana, tal e qual ocorre em 2Macabeus 15.37-38: ‘E termino aqui a minha narração. Se está bem escrita e ordenada, foi isto o que me propus a fazer. Se está medíocre, desprovida de valor, foi apenas isto o que pude fazer’. Expressa claramente a própria criação, já que não diz nada acerca da inspiração divina”.

E depois continua:

– “Da mesma forma, no Prólogo do livro do Eclesiástico, o neto do escritor fala nestes termos: ‘Aqueles que leem as Escrituras têm o dever não apenas de adquirir, eles próprios, muitos conhecimentos, como também devem ser capazes de ajudar, quer por palavra quer por escrito, àqueles que não receberam esta instrução. Assim agiu meu avô Jesus: em primeiro lugar, ele se dedicou totalmente à leitura da Lei e dos Profetas, e dos demais livros recebidos pelos nossos antepassados, e atingiu um conhecimento muito grande acerca deles; depois, ele mesmo se sentiu movido a escrever um livro sobre a instrução e a sabedoria, para que, praticando os seus ensinamentos, as pessoas desejosas de aprender pudessem fazer progressos ainda maiores, vivendo conforme a Lei’. Expressa então claramente que seu avô quis fazer um livro didático, para auxiliar no conhecimento da Lei, mas não expressa nenhum tipo de revelação, eis que foi escrito baseado no conhecimento daquela [Lei], adquirido por sua [própria] experiência”.

A primeira coisa que vem à mente diante deste argumento são as seguintes questões fundamentais:

1) O autor pensa que para um livro ser inspirado deve afirmar que o é?

2) O autor pensa que pelo fato de um livro afirmar ser inspirado então ele realmente o é?

Iniciemos pela primeira questão:

1) O autor pensa que para um livro ser inspirado deve afirmar que o é?

Se o autor pensa que a resposta para esta pergunta é “SIM”, então está equivocado! Na verdade, pouquíssimos livros da Bíblia afirmam ser inspirados e muitos dos livros que os protestantes aceitam em seu cânon não afirmam ser divinamente inspirados; e se este critério fosse verdadeiro, deveriam desejar – seguindo tal linha de pensamento – que [esses livros] também o afirmassem ser.

Por exemplo: o livro de Rute (aceito pelos protestantes) não diz em nenhuma parte: “Assim diz Jeová”, “Veio a mim a palavra de Jeová”, “Jeová falou a…”

Podemos ver um outro exemplo bem no início do Evangelho de Lucas:

– “Visto que muitos tentaram narrar ordenadamente as coisas que se verificaram entre nós, tal como nos foram transmitidas desde o início por testemunhas oculares e servidores da Palavra, decidi também eu – após ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens – escrevê-las ordenadamente para ti, ilustre Teófilo, para que conheças a solidez dos ensinamentos que recebeste” (Lucas 1,1-4).

Temos aqui nada menos que o Evangelista afirmando que ele mesmo decidiu, após INVESTIGAR tudo cuidadosamente, narrar os fatos, para que Teófilo pudesse conhecer os ensinamentos que recebeu. É possível ver claramente que [Lucas] aqui:

1.1) Não estava consciente de estar escrevendo um livro inspirado por Deus;

1.2) Não estava consciente de que o seu escrito era destinado a pertencer à Bíblia (já que [pessoalmente] dirigido a Teófilo);

1.3) Tampouco afirma “Veio a mim a palavra de Jeová”, “Jeová falou a…”, requisito este que o autor protestante parece exigir para que um livro possa ser tido por inspirado; no entanto, o próprio Lucas reconhece tratar-se de um compêndio, fruto da sua “investigação cuidadosa”.

Com efeito, o mesmo critério usado pelo protestante para desqualificar os livros do Eclesiástico e dos Macabeus desqualifica também o Evangelho de Lucas; contudo, os protestantes aceitam este último, o que demonstra haver uma dupla medida [para o mesmo peso], aplicada seletivamente quando acham conveniente.

Um outro exemplo podemos ver no livro do Eclesiastes, também aceito pelos protestantes, que começa dizendo:

– “Palavras de Cohélet, filho de Davi, rei de Jerusalém” (Eclesiastes 1,1).

E não apenas isto, já que este livro afirma desconhecer certos fatos que Deus certamente conhece:

– “Quem sabe se o alento de vida dos homens ascende para o alto e se o alento de vida das feras desce para baixo da terra? Percebo que não há nada melhor para o homem do que alegrar-se em suas obras, eis o seu salário. Porém, quem o guiará para contemplar o que há de ocorrer depois?” (Eclesiastes 3,21-22).

E se este livro for lido com atenção, é possível constatar que se repetem nele muitas expressões semelhantes (Eclesiastes 3,19, p.ex.).

Em suma, temos aqui o Cohélet dizendo:

1.1) Que o livro é “palavra sua” [não de Deus];

1.2) Desconhecer fatos que [certamente] Deus conhece.

Então por que, seguindo o mesmo critério, os protestantes não desprezam este livro? Simplesmente porque a resposta para a nossa questão nº 1 é “NÃO”; e para que um livro seja inspirado NÃO DEVE [necessariamente] afirmar que o seja.

Passemos agora para a segunda questão fundamental:

2) O autor pensa que pelo fato de um livro afirmar ser inspirado então ele realmente o é?

Se a resposta do autor para esta pergunta é “SIM”, então ele deveria reconhecer [como inspirado] inclusive o Corão, já que este afirma [expressamente] ser Palavra de Deus. E não apenas o Corão, como também centenas de outras obras, que não se encontram na Bíblia protestante.

Portanto, se analisarmos as respostas destas duas questões teremos que:

Para um livro ser inspirado, NÃO PRECISA dizer que o é; e mesmo que um livro afirme ser inspirado, isto NÃO PROVA que de fato o seja. Logo, este argumento protestante é totalmente insuficiente.

ARGUMENTO 2: O LIVRO DE TOBIAS (UM DOS DEUTEROCANÔNICOS) NÃO PODE SER INSPIRADO PORQUE AFIRMA QUE DEUS PODE PERDOAR OS PECADOS GRAÇAS À ESMOLA

O argumento é proposto da seguinte maneira:

– “Tobit 12.9: ‘Dar esmola salva da morte e purifica de todo pecado. Os que dão esmola gozarão de longa vida’. O perdão dos pecados graças às esmolas”.

O autor está aqui cometendo diversos erros ao desqualificar este livro apenas porque a Bíblia diz algo que a doutrina da sua denominação não aceita; por isso, o fato de a passagem mencionar que Deus pode conceder misericórdia a quem age com caridade não é aceitável para ele. A pergunta de rigor seria: o autor também desqualifica a Carta do Apóstolo Pedro?

– “E, sobretudo, tende entre vós fervorosa caridade, porque a caridade cobrirá uma multidão de pecados” (1Pedro 4,8).

O problema aqui é que, sob a ótica protestante, baseada na “Sola Fides”, não existe um entendimento claro da doutrina do mérito, a qual é interpretada por eles como um meio pelo qual os católicos “compram” o perdão dos pecados através das obras. Mas na verdade não é assim. Nós, católicos, cremos que a salvação é “graça”, mas que Deus também nos concedeu a “graça” de recompensar o nosso “SIM” a Ele. (…) Que Deus, recompensando os nossos méritos, coroa os seus dons é [doutrina] amplamente ensinada por todo o Evangelho:

– “Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (Mateus 5,7).

– “Que a tua esmola seja em segredo, e teu Pai, que vê o secreto, te recompensará publicamente” (Mateus 6,4).

– “Mas fazei para vós tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não corroem, e onde os ladrões não alcançam nem furtam” (Mateus 6,20).

– “Saiba que aquele que tiver convertido o pecador do erro de seu caminho salvará uma alma da morte e cobrirá uma multidão de pecados” (Tiago 5,20).

– “E quem, como meu discípulo, tiver dado a um destes pequeninos tão somente um copo de água fresca, Eu afirmo: não perderá a sua recompensa” (Mateus 10,42).

– “Aquele que planta e aquele que rega são uma mesma coisa, embora cada um receba a sua recompensa conforme o seu trabalho” (1Coríntios 3,8).

– “Se permanecer a obra daquele que sobreedificou, será recompensado” (1Coríntios 3,14).

ARGUMENTO 3: O ECLESIÁSTICO (UM DOS DEUTEROCANÔNICOS) NÃO PODE SER INSPIRADO PORQUE AFIRMA QUE DEUS ABORRECE OS MAUS E OS CASTIGARÁ, ALÉM DE PEDIR QUE SEJA DADO AO BOM E NÃO AO MAU

Este argumento é proposto da seguinte forma:

– “Eclesiástico 12.6-7: ‘Também Deus aborrece os maus e os castigará. Deveis dar ao bom, mas não ao mau. Deveis oferecer alívio ao aflito, mas não dês nada ao orgulhoso’. Isto contradiz claramente o mandamento divino de amar aos nossos inimigos e não considera a misericórdia divina. Não é permitido a nós julgar se uma pessoa é boa ou má; todo juízo pertence a Deus”.

Nosso autor protestante se equivoca novamente aqui, por não compreender que a Bíblia é uma Revelação progressiva, onde Deus vai pouco a pouco Se revelando aos homens até chegar à plenitude da Revelação, que é Cristo em Si mesmo. Não podemos rejeitar como inspirados todos os livros onde a Revelação não havia ainda atingido a plenitude e onde Cristo não havia conferido ainda o Seu toque definitivo. Recordemos também que na Bíblia Deus é o “Autor Principal”, sendo o homem o “Instrumento”, o “Autor Secundário”; devemos, portanto, entender que a cultura de cada época influiu nos escritos (tal como o lápis na intensidade da linha sobre o papel) e nem mesmo por isso deixam de ter o “Selo Divino”. Daí a importância de interpretar a Bíblia no seu contexto.

Mas o problema que o autor enfrenta é que tal argumento também se volta contra ele, já que outros livros aceitos pelos protestantes também indicam exatamente o mesmo ensinamento. Eis alguns exemplos:

– “E perseguireis vossos inimigos e cairão à espada diante de vós: e cinco de vós perseguirão a cem; e cem de vós perseguirão a dez mil; e vossos inimigos cairão à espada diante de vós” (Levítico 26,7-8).

– “Ele tornará o mal aos meus inimigos; cortai-os por Tua verdade!” (Salmo 54,7 [Bíblia Reina-Valera]; Salmo 54,7 [Bíblia de Jerusalém]).

– “Que a mesa diante deles seja um laço; e o que lhes é para o bem, uma armadilha. Que seus olhos sejam obscurecidos e que suas forças titubeiem para sempre. Derrama Tua ira sobre eles, e o poder do Teu furor os atinja. Que o palácio deles seja sitiado; que não haja morador nas tendas deles, porque perseguiram a quem Tu feriste e falam da dor daqueles que Tu cobriste de chagas. Que acrescentem maldade à própria maldade; que não ingressem na Tua justiça” (Salmo 69,22-28 [Bíblia Reina-Valera]; Salmo 69,23-29 [Bíblia de Jerusalém]).

– “Persegui meus inimigos e os alcancei; e não retornei enquanto não os exterminei. Eu os feri e não puderam se levantar; caíram sob os meus pés, pois me concedeste forças para a luta; oprimiste meus inimigos para que eu os subjugasse. E Tu me ofereceste a nuca dos meus inimigos e pude destruir aqueles que me aborreciam. Pediram, mas não houve quem se salvasse; [pediram] até mesmo a Jeová, mas não foram ouvidos. E espalhei-os como pó diante do vento; espalhei-os como a poeira das ruas” (Salmo 18,37-42 [Bíblia Reina-Valera]; Salmo 18,38-43 [Bíblia de Jerusalém]).

Passagens como estas abundam em quase todo o Antigo Testamento, mas estas são suficientes para o [tema] que ora nos ocupa.

Vemos aí que o Salmista pede para que os seus inimigos “sejam cortados”; para que Deus “derrame a Sua ira sobre eles”; para que “acrescentem maldade à própria maldade”; que “sejam exterminados”; e que, mesmo pedindo a Deus, Este “não os ouviu”. Se compararmos tudo isto com a Revelação de Cristo, que clamou na Cruz: “Pai: perdoai-os, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23,43), e com o coração do Evangelho que nos ensina “a amar aqueles que nos odeiam” (Mateus 5,44-45), é claro que encontraremos um grande desenvolvimento da Revelação e daquilo que Deus quer para nós; mas nem por isso quer dizer que esses Escritos não pertençam ao grupo de livros inspirados por Deus; pelo contrário, foi Deus quem, por Cristo, trouxe a Revelação definitiva. Com efeito, o próprio Cristo ensina:

– “Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’; porém, Eu vos digo: Amai vossos inimigos e rogai por aqueles que vos perseguem, para que sejais filhos do vosso Pai celeste, que faz o sol brilhar sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos” (Mateus 5,43-45).

Voltando ao nosso ponto e tratando de respoder as dificuldades que possamos sentir para entender essas duras passagens do Antigo Testamento, o certo é que se os protestantes forem rejeitar o livro do Eclesiástico por causa de uma passagem que não ensina o amor aos inimigos, então melhor seria que rejeitassem de pronto metade do Antigo Testamento, para que não demonstrassem essa dupla medida [para o mesmo peso].

ARGUMENTO 4: O LIVRO DE JUDITE (UM DOS DEUTEROCANÔNICOS) NÃO PODE SER INSPIRADO PORQUE DEUS NÃO JUSTIFICA A MENTIRA E NEM A INSPIRA, JÁ QUE JUDITE PEDE A DEUS O PODER PARA ENGANAR

Este argumento é proposto da seguinte maneira:

– “Judite 9.13: ‘Dai-me palavras para que eu possa enganá-los e causar-lhes destruição e morte, já que possuem planos perversos contra a Tua aliança, contra o Templo consagrado a Ti, contra o Monte Sião e contra a Cidade que é lar e propriedade dos Teus filhos’. Deus é a verdade: nunca justifica a mentira nem a inspira, de modo que este texto ensina algo contrário à Palavra de Deus”.

Porém, se desqualificarmos o livro de Judite porque ele pede para enganar os inimigos do Seu povo, também deveríamos desqualificar outros livros aceitos pelos protestantes. Um caso desses encontramos no livro de Josué, onde uma prostituta foi justificada quando escondeu os espiões do povo de Israel e MENTIU para os perseguidores, a fim de não serem capturados:

– “Josué, filho de Num, enviou secretamente a partir de Sittim dois espiões com esta ordem: ‘Ide e explorai o país e Jericó’. Foram e entraram na casa de uma prostituta chamada Rajab, e dormiram ali. Disseram ao rei de Jericó: ‘Eis que uns homens israelitas entraram aqui durante a noite para explorar o país’. Então o rei de Jericó ordenou que fosse dito a Rajab: ‘Faz sair os homens que entraram na tua casa, porque vieram para explorar todo o país’. Porém, a mulher tomou os dois homens e os escondeu. A seguir, respondeu: ‘É verdade que esses homens vieram à minha casa, porém eu não sabia de onde eram. Quando a porta ia ser trancada à noite, esses homens saíram e não sei para onde foram. Se vos apressardes, os alcançareis’. Porém, ela os tinha feito subir ao telhado, escondendo-os entre peças de linho que possuía amontoadas no telhado” (Josué 2,1-6).

Inclusive, se lermos a Carta do Apóstolo Tiago, veremos nada menos que o próprio Apóstolo afirmar que esta ação de Rajab foi justificada:

– “Do mesmo modo, Rajab, a prostituta: não foi ela justificada pelas obras, dando hospedagem aos mensageiros e fazendo-os seguir por outro caminho?” (Tiago 2,25).

ARGUMENTO 5: O LIVRO DA SABEDORIA (UM DOS DEUTEROCANÔNICOS) NÃO PODE SER INSPIRADO PORQUE, SEGUNDO O GÊNESIS, DEUS CRIOU O MUNDO A PARTIR DO NADA E ALI SE AFIRMA QUE FOI CRIADO DA MATÉRIA INFORME

Este argumento é proposto do seguinte modo

– “Sabedoria 11.17: ‘Tua mão onipotente, que da matéria informe criou o mundo’. Segundo o Gênesis, Deus criou o mundo a partir do nada, apenas com a sua Palavra”.

Aqui, o autor do escrito vê contradição onde não existe, já que por acaso Deus não criou a matéria informe também a partir do nada?

Vemos no próprio Gênesis que Deus criou o homem “do pó da terra” e a mulher “da costela do homem”, e não “do nada”. Ora, nem por isso o Gênesis se contradiz a si mesmo!

ARGUMENTO 6: O LIVRO DOS MACABEUS (DEUTEROCANÔNICO) NÃO PODE SER INSPIRADO PORQUE JUSTIFICA A ORAÇÃO PELOS MORTOS

Este argumento é proposto da seguinte maneira:

“2Macabeus 12.45: ‘Se ele não acreditasse na ressurreição dos soldados mortos, teria sido desnecessário e inútil orar por eles. Porém, como acreditava que aos que morriam piedosamente lhes aguardava uma grande recompensa, sua intenção era santa e piedosa. Por isso, fez oferecer esse sacrifício pelos mortos, para que Deus lhes perdoasse os pecados’. Justifica a oração pelos mortos”.

Temos aqui que a razão [para a rejeição do autor] é nada menos que o fato de o livro ensinar como piedosa a atitude de orar pelo descanso eterno dos falecidos; só por isto, o livro não seria inspirado. O certo é que o fato desta passagem contradizer a doutrina protestante não quer dizer que [o livro] não seja inspirado. Se aquilo que contradiz a doutrina protestante não é inspirado, então metade da Bíblia não o é!

Quando Lutero tentou eliminar do cânon os livros deuterocanônicos, tentou também eliminar do Novo Testamento, pela mesma razão: Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse. O livro dos Macabeus contradizia explicitamente o seu ensino, que negava a doutrina do Purgatório; Hebreus também era uma pedra de tropeço porque contradizia diversas outras doutrinas suas: primeiro, refutava taxativamente a doutrina de que o homem pode perder a sua salvação (Hebreus 2,1-3); mas não apenas isso, mas ainda porque citava um fato que somente era mencionado pelo livro dos Macabeus, que ele já havia previamente rejeitado!!!

O fato em questão encontra-se narrado em 2Macabeus 7: durante a perseguição contra os Macabeus, sete irmãos e sua mãe foram aprisionados. O rei os torturou para que comessem alimentos impuros, proibidos pela Lei [de Moisés]. Um após o outro morreu afirmando aguardar a ressurreição para a vida eterna (2Macabeus 7,1.5-9). Este fato é claramente citado em Hebreus 11,35, onde nada menos que o autor da epístola menciona todos aqueles fatos heroicos narrados pelas Escrituras sobre os nossos antepassados (fato este que não é narrado em nenhum dos livros protocanônicos!).

Não é, pois, possível negar a canonicidade de um livro só porque contradiz a interpretação de uma certa denominação [protestante] e cuja interpretação é diferente de toda a Igreja durante a História.

ARGUMENTO 7: O LIVRO DE JUDITE E O DE BARUC (DEUTEROCANÔNICOS) NÃO PODEM SER INSPIRADOS PORQUE CONTÊM IMPRECISÕES HISTÓRICAS

Este argumento é proposto do seguinte modo:

– “Judite 1.1: ‘Quando Nabucodonosor estava no 12º ano de seu reinado sobre os assírios em Nínive, sua capital’. É provado e documentado que Nabucodonosor nunca foi rei da Assíria, mas da Babilônia. E ainda que tenha conquistado esse reino, nunca mudou a sua capital para Nínive”.

– “Baruc 1.1-2: ‘Este é o livro que Baruc, filho de Nerias e descendente de Maaseias, Sedequias, Hasadias e Hilquias, escreveu na Babilônia, no 7º dia do mês do ano 5º após os caldeus terem se apoderado de Jerusalém e a incediarem’. Está em contradição com o livro de Jeremias, que afirma claramente que Baruc não estava na Babilônio, mas no Egito: ‘Pelo contrário, Johanan e todos os chefes militares reuniram a pouca gente de Judá que ainda restava (…), inclusive Jeremias e Baruc. Sem considerar a ordem do Senhor, todos partiram para o Egito e chegaram a cidade de Tafnes’ (Jeremias 43.4-7)”.

O fato de algum livro da Bíblia possuir imprecisões históricas NÃO O DESQUALIFICA como inspirado. Na verdade, muitos livros protocanônicos (que os protestantes também aceitam como inspirados) as possuem e nem por isso os protestantes os desqualificam.

O importante é compreender que as Sagradas Escrituras, por serem Palavra de Deus, contêm a verdade com vistas à nossa salvação. Pode haver na Bíblia imprecisões geográficas ou históricas, já que não é um livro científico, nem tampouco um livro feito sob os critérios modernos usados para se escrever história (isto não era essencial para os antigos). O fundamental é que a Bíblia é um livro religioso e que é dirigida principalmente para nos reverlar o que Deus dispôs para a nossa salvação. Os autores da Bíblia escreviam os fatos segundo a tradição que tinham recebido oralmente e não tinham a intenção de escrever livros científicos sobre a origem do mundo ou sobre a história de Israel. O que os seus autores queriam era nos transmitir, com o olhar da fé, o sentido e a importância viva e atual daquilo que Deus tinha feito em favor do Seu povo e da mensagem proclamada pelos Seus Profetas e também por Jesus.

Com efeito, não deveria nos causar surpresa que:

7.1) Os livros de Samuel recolham duas tradições diferentes sobre a morte de Saul:

– “Disse Saul ao seu escudeiro: ‘Tira a tua espada e traspassa-me, para que não o venham fazer esses incircuncisos, ultrajando-me!’ Mas o escudeiro não o quis fazer, porque se apoderou dele um grande terror. Então tomou Saul a sua espada e jogou-se sobre ela. O escudeiro, vendo que Saul estava morto, arremessou-se também ele sobre a sua espada e morreu com ele” (1Samuel 31,4-5).

– “Perguntou Davi ao mensageiro: ‘Como sabes que Saul e seu filho Jônatas morreram?’ O mensageiro respondeu: ‘Achava-me no monte de Gelboé, quando vi Saul atirar-se sobre a própria lança, enquanto era perseguido pelos carros e cavaleiros. Ora, voltando-se, viu-me e chamou-me. Eu disse: ‘Eis-me aqui’. ‘Quem és tu?’, disse ele. ‘Eu sou um amalecita’, respondi. Continuou ele: ‘Aproxima-te e mata-me, porque estou tomado de vertigem, se bem que ainda esteja cheio de vida’. Aproximei-me, pois, e matei-o, pois via que ele não poderia sobreviver depois da derrota. Tomei o diadema que tinha na cabeça e o bracelete do braço e os trouxe ao meu senhor; ei-los'” (cf. 2Samuel 1,1-10).

Na primeira tradição que trata da morte de Saul, ele mesmo se mata. Na segunda tradição, é um amalecita quem o mata. Apesar de serem duas tradições diferentes, o Profeta recolhe AMBAS.

Isto significa que os livros de Samuel não são inspirados? Por que o autor não rejeita também estes livros com a desculpa de que há neles imprecisões históricas?

7.2) A morte de Judas [Iscariotes] provém de duas tradições diferentes:

– “Judas, o traidor, vendo-o então condenado, tomado de remorsos, foi devolver aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos as trinta moedas de prata, dizendo-lhes: ‘Pequei, entregando o sangue de um justo’. Responderam-lhe: ‘O que nos importa? Isto é problema seu!’ Ele jogou então no templo as moedas de prata, saiu e foi enforcar-se” (Mateus 27,3-5).

– “[Disse Pedro:] ‘Irmãos, convinha que se cumprisse o que o Espírito Santo predisse na Escritura pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus. Ele era um dos nossos e teve parte no nosso ministério. Este homem adquirira um campo com o salário de seu crime. Depois, tombando para a frente, arrebentou-se pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram'” (Atos 1,16-18).

A primeira tradição aponta que Judas devolveu as moedas; a segunda, que ele comprou com elas um campo. A primeira, que ele se enforcou; a segunda, que caiu de cabeça e suas entranhas se derramaram.

7.3) Isso para não dizer que já foi cientificamente comprovado que o homem tem muito mais do que 6.000 anos sobre a terra [ao contrário do que afirmam muitas denominações protestantes].

A verdade é que o mesmo argumento que o nosso amigo usa para desqualificar os deuterocanônicos são empregados pelos ateus para desqualificar a Bíblia inteira; tudo isso por não compreenderem realmente qual é a finalidade da Bíblia: oferecer-nos a mensagem da salvação e não uma explicação de como Deus uniu átomos em moléculas, moléculas em partículas, partículas em pó, pó em homens, e explicando tudo isso detalhadamente: quando, onde, como, etc.

ARGUMENTO 8: O LIVRO DOS MACABEUS (DEUTEROCANÔNICO) NÃO PODE SER INSPIRADO PORQUE APOIA A INTERCESSÃO DOS SANTOS

Este argumento é proposto da seguinte maneira:

– “2Macabeus 15.12-16: ‘A visão era esta: (…) tratava-se de um personagem da mais alta autoridade. Onias tomou a palavra e disse: ‘Este é Jeremias, o Profeta de Deus, o amigo de seus irmãos, que ora muito pelo povo e pela Cidade Santa’. Jeremias estendeu a mão direita e deu a Judas uma espada de ouro, e lhe disse: ‘Toma esta espada santa, que Deus te confere; com ela destruirás os inimigos”. Vemos aqui outra crença religiosa católica: que os mortos (visto que Jeremias estava no céu) podem interceder pelos vivos, justificando assim a oração aos ‘Santos'”.

O que foi dito para o Argumento nº 6 é válido também para este outro argumento: nada menos que a negação da inspiração de um livro somente porque ensina uma doutrina contrária à doutrina protestante! Você compreende agora o porquê de Lutero não querer que [os livros deuterocanônicos] permanecessem no cânon? Apenas porque um livro escrito muito antes de Cristo ensina doutrinas católicas! Como, então, os protestantes poderão afirmar que a intercessão dos santos foi inventada muito séculos depois, após o reinado de Constantino?

O fato de nossos irmãos protestantes não conseguirem entender que em Cristo temos vida e vida em abundância, de forma que morrendo em santidade poderemos estar com Cristo – o que certamente é melhor (cf. Filipenses 1,23) – e que precisamente quando estamos na Sua presença não perdemos a capacidade de pedir e interceder EM CRISTO por nossos irmãos, todos formando um mesmo corpo e um mesmo espírito, com Cristo como cabeça, tal como fazemos aqui, em vida, não quer dizer que o referido livro não seja inspirado.

Não é curiosa esta doutrina protestante que afirma que uma vez COM Cristo e EM Cristo já não podemos pedir? Por acaso os Santos não clamam no céu? (ver Apocalipse 6,9-11).

ARGUMENTO 9: O LIVRO DE TOBIAS (DEUTEROCANÔNICO) NÃO PODE SER INSPIRADO PORQUE APOIA PRÁTICAS DE CURANDEIRISMO

Este argumento é proposto do seguinte modo:

– “Tobit 6.4-9: ‘O anjo lhe disse: ‘Abre-o e tira-lhe o fel, o coração e o fígado, e guardai-os. São um remédio bastante útil’ (…) Então o jovem perguntou ao anjo: ‘Amigo Azarias: para que servem de remédio o fel, o coração e o fígado do peixe?’ Ele respondeu: ‘Quando uma pessoa é atacada por um demônio ou espírito mau, queimam-se diante dessa pessoa o coração e o fígado do peixe; o ataque cessa e jamais volta a se repetir. E quando uma pessoa possui nuvens nos olhos, se forem untados com o fel e a seguir soprados, fica curada”. Apoia aqui a prática dos curandeiros”.

Este argumento tampouco pode ser utilizado para desqualificar o livro de Tobias, até porque o fato de o autor se servir das opiniões populares de seu tempo sobre a virtude curativa do fel, do coração e do fígado [dos peixes], incorporando-as no relato, não significa que esteja apoiando as práticas dos curandeiros. Consideremos também que na cultura judaica muitas doenças eram atribuídas a demônios. Também poderia tratar-se de um remédio natural; de fato, alguns comentaristas creem que o peixe em questão seria o chamado “luccio”, que em grego significa “peixe lobo”, cuja espécie abunda no rio Tigre. Bochard observa que o fel deste peixe, misturado com mel, era usado como remédio para tratar diversas enfermidades dos olhos. No caso da história narrada pelo livro de Tobias, o remédio poderia representar uma espécie de colírio.

Pois bem: se insistirmos interpretar a passagem literalmente, o que cura é um pedaço de carne [de peixe] ou um ato de obediência a alguém que representa Deus? Não foi Deus quem enviou o anjo? O anjo não representa e não fala em nome de Deus? Não poderia o anjo fazer com que o coração e o fígado do peixe fossem remédios úteis? Ora, o que é mais difícil? Que Deus se tenha feito homem no seio de uma Virgem, por ordem do anjo Gabriel, que representa Deus (cf. Lucas 1,26-38) OU que o coração e o fígado de um peixe curassem um homem cego (cf. Tobias 6,4-9)? Deveríamos imaginar também tratar-se de superstição o fato de Cristo ter untado com lama os olhos do cego (cf. João 9,6) ao invés de dar-lhe uma ordem direta para enxergar?

ARGUMENTO 10: O LIVRO DE TOBIAS (DEUTEROCANÔNICO) NÃO PODE SER INSPIRADO PORQUE APOIA PRÁTICAS DE BRUXARIA

Este argumento é proposto da seguinte forma:

– “Tobit 8.1-3: ‘Quando terminaram de ceiar, decidiram se recolher. Conduziram o jovem ao quarto. Tobias se lembrou, então, do que Rafael havia lhe dito. Tirou da sua bolsa o fígado e o coração do peixe e os colocou sobre as brasas que queimavam o incenso. O odor do peixe não permitiu a aproximação do demônio e este se retirou pelo ar, para a parte mais remota do Egito. Rafael foi e o encarcerou ali, retornando imediatamente’. Eis aí outra prática pagã e de bruxaria”.

O autor novamente se equivoca, interpretando que aqui são estimuladas práticas de bruxaria. Ao contrário, temos aqui uma obediência específica às instruções fornecidas pelo anjo: de fato, a primeira coisa que Tobias faz ao ingressar no leito conjugal é colocar em prática o que lhe foi aconselhado. A narrativa de o odor de peixe afastar o demônio não pode ser interpretada em sentido literal, como se o demônio fugisse do mau cheiro (como fazem os insetos ao sentir a presença de um inseticida), mas em sentido simbólico e espiritual: o bem vence o mal. Com esta vitória de Rafael sobre Asmodeu, cumpre-se a parte principal do plano de Deus para Sara: sua cura, confiada por Deus ao anjo Rafael. A lição, longe de promover práticas de bruxaria, ensina que para aquele que ama a Deus, a obediência ao Senhor e a oração em família espantam todos os males (cf. Tobias 6,18; 8,5).

– “E quando fores unir-te a ela, levantai-vos primeiro e fazei oração: suplicai ao Senhor do Céu que se apiede de vós e vos salve. E não tenhas medo, porque ela te foi destinada desde o princípio; tu a salvarás e ela permanecerá contigo. Eu te asseguro: ela te dará filhos que serão para ti como que irmãos. Não te preocupes” (Tobias 6,18).

Tudo isto confere unidade ao relato. A figura do peixe é o instrumento que Deus elege para curar e libertar. Deus, quando e como bem lhe convém, faz com que as coisas mais simples sirvam de instrumentos para os seus milagres. Da mesma forma, o Senhor Jesus Cristo com um pouco de terra misturada com Sua saliva curou um cego de nascença (João 9,6); a água do batimo é o elemento visível que Deus elegeu para nos regenerar pelo Espírito Santo (1Pedro 3,21); Deus agia por intermédio dos lenços e panos de Paulo, produzindo milagres (Atos 19,12); e para que Naaman, o sírio, fosse curado, foi-lhe exigido que se banhasse nas águas do rio Jordão (2Reis 5,9). Com efeito, Deus pode fazer uso de um peixe, ou do fígado de um mamute, ou do apêndice de um brontossauro se quiser. Porém, isto não quer dizer que o que curou, nos casos anteriores, foi o lenço, ou a água do Jordão, ou a lama, ou o que quer que seja… Será que somos então obrigados a interpretar [a passagem de Tobias] no sentido de que o que afugentou o demônio foi um pedaço de carne [de peixe]??

ARGUMENTO 11: O LIVRO DOS MACABEUS (DEUTEROCANÔNICO) NÃO PODE SER INSPIRADO PORQUE NÃO CONDENA O SUICÍDIO

O argumento é apresentado da seguinte maneira:

– “2Macabeus 14.41-42: ‘As tropas já estavam a ponto de conquistar a torre onde se encontrava Razis e tentavam forçar a porta externa. Tendo recebido ordens de colocar fogo e queimar as portas, vendo-se Razis acossado por todos os lados, voltou a sua espada contra si mesmo e preferiu morrer nobremente, antes de cair nas mãos daqueles criminosos e sofrer injúrias indignamente’. Dá validade ao suicídio, não condenando-o”.

Novamente, isto é um sofisma; se [este argumento] fosse certo, excluiria também outros livros canônicos que os protestantes aceitam, onde aparecem suicídios não condenados pela Bíblia. É o caso do suicídio de Sansão:

– “Sansão, porém, invocando o Senhor, disse: ‘Senhor Javé, rogo-vos que vos lembreis de mim. Dai-me, ó Deus, ainda esta vez, força para vingar-me dos filisteus pela perda de meus olhos’. Abraçando então as duas colunas centrais sobre as quais repousava todo o edifício, pegou numa com a mão direita e noutra com a mão esquerda, e gritou: ‘Morra eu com os filisteus!’ Dizendo isso, sacudiu com todas as suas forças o edifício, que ruiu sobre os príncipes e sobre todo o povo reunido. Desse modo, matou pela sua própria morte muito mais homens do que os que matara em toda a sua vida. Então desceram a Gaza os seus irmãos e toda a sua família paterna, tomaram-no, e tendo voltado, sepultaram-no no túmulo de seu pai, entre Sorea e Estaol. Sansão fora juiz em Israel durante vinte anos” (Juízes 16,28-31).

Na passagem acima, Sansão pede a ajuda de Deus para que lhe dê forças e possa derrubar as colunas do prédio, causando a sua própria morte e também a dos filisteus que ali estavam. E Deus fornece essas forças!!!

A pergunta, então, seria: os protestantes excluíram o livro dos Juízes baseados neste argumento? Por que não o excluíram das suas Bíblias? O que vale para um livro não vale para o outro?

O mesmo ocorre com o suicídio de Saul (1Samuel 31,4), que tampouco é condenado pela Bíblia… Excluíram [os protestantes] o livro de Samuel?

CONCLUSÃO

Nenhum dos questionamentos levantados pelo autor para desqualificar a inspiração dos livros [deutero]canônicos é válido. Na verdade, algo é canônico não porque alguém acredite ou não haver contradições nele, nem porque não consegue entender certas passagens, tampouco por apresentar alguma imprecisão histórica ou o autor estar plenamente consciente de sua inspiração, muito menos por não concordar com as doutrinas particulares da sua denominação; mas porque “a Tradição Apostólica fez a Igreja discernir quais livros constituem a lista dos Livros Santos” (Dei Verbum 8,3; Novo Catecismo da Igreja Católica §120). Como diz a Dei Verbum no nº 9, “a Escritura é a Palavra de Deus colocada por escrito sob a inspiração do Espírito Santo. A Tradição recebe a Palavra de Deus, confiada por Cristo e pelo Espírito Santo aos Apóstolos, e a transmite integralmente aos seus sucessores, para que eles, iluminados pelo Espírito da Verdade, por sua pregação, a conservem fielmente, a exponham e a difundam. Por isso, a Igreja não retira exclusivamente da Sagrada Escritura apenas a certeza de tudo o que foi revelado. Assim se deve respeitar com o mesmo espírito de devoção”.

O fato de os protestantes aceitarem o cânon do Novo Testamento estabelecido pela Igreja Católica nos concílios [regionais] de Hipona (393 d.C.) e de Cartago (397 e 419 d.C.), ambos do norte da África, e não aceitarem a mesma decisão no tocante ao cânon alexandrino (com 46 livros para o Antigo Testamento), é uma incoerência, já que está provado que antes desta data não havia unanimidade quanto aos livros que compunham o Novo Testamento. E se para esta época (pós-Constantino) costuma-se apontar a tese protestante de que a Igreja já se encontrava corrompida, qual garantia existe de que os livros selecionados por uma Igreja tida por “apóstata” [pelos protestantes] possa dar um juízo real e verdadeiro sobre a inspiração da Bíblia por eles mesmo usada?

– “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus; e o que ligares na terra será ligado nos céus; e o que desligares na terra, será desligado nos céus” (Mateus 16,19).

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