Ao me converter ao Catolicismo Romano, tive que enfrentar dois assuntos de importância: eclesiologia e autoridade. Neste ensaio tratarei do primeiro, especificamente no que se refere aos problemas da eclesiologia da assim chamada “restauração”. Quando falo da “eclesiologia da restauração”, estou me referindo a uma visão da História da Igreja que é sustentada, com pequenas variações, pela maioria dos fundamentalistas e evangélicos.

O conceito mais usual é o seguinte: “Na cidade de Jerusalém, no primeiro Pentecostes após sua ascensão ao céu, Jesus Cristo estabeleceu um reino divino ou igreja, e podemos ver o seu registro no segundo capítulo do livro dos Atos”[1]. “Por alguns anos a partir desse início (…) a igreja continuou como um corpo unido, mantendo a pureza da fé tal como era expressada nas Escrituras; porém, com o passar do anos, foi caindo gradualmente na influência dos falsos apóstolos e suas doutrinas errôneas, o que resultou em uma apostasia geral ou afastamento da instrução divina”[2].

A partir deste ponto, começamos a encontrar variações no conceito. Alguns sustentam que Cristo sempre teve um grupo fiel de seguidores em alguma parte do planeta. Outros insistem que toda a igreja caiu por inteiro na apostasia, sendo “restaurada” posteriormente. Apesar das variações, no entanto, todos os que aceitam as teorias restauracionistas concordam no seguinte: a igreja estabelecida por Cristo experimentou uma queda universal na apostasia e essa queda durou mais de um milênio.

Simplesmente, o inconveniente de tal conceito de História da Igreja é que ele é totalmente antibíblico. Vamos refletir por alguns segundos sobre o que a Bíblia diz acerca da Igreja de Jesus Cristo. Mais ou menos cinco séculos antes de Cristo, uma profecia dispôs o cenário para o estabelecimento do Reino de Deus: “Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre” (Daniel 2,44). Anteriormente, no contexto da mesma profecia, o Reino dos Céus é comparado com uma pedra que “se tornou grande monte, e encheu toda a terra” (Daniel 2,35).

Estas palavras são universalmente reconhecidas como proféticas no que concerne à Igreja. Criam a expectativa de um Reino que conquistará, se expandirá e durará para sempre! O Novo Testamento nos oferece uma imagem da Igreja que está em completa sintonia com a profecia de Daniel. Consideremos isto: Jesus disse que Seu Reino era como uma semente de mostarda que, quando plantada, cresce até se transformar em uma grande árvore (Mateus 13,31-32). A influência inextingüível deste Reino na História é comparada ao fermento (Mateus 13,33). Nosso Senhor declarou aos Seus Apóstolos que Ele mesmo construirá a Igreja e que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16,18). O Apóstolo Paulo se refere à mesma Igreja como “coluna e fundamento da Verdade” (1Timóteo 3,15) e também como o instrumento pelo qual Deus escolheu tornar conhecida a Sua Sabedoria (Efésios 3,10) e o lugar onde Ele será glorificado por gerações sem fim (Efésios 3,21).

Nosso Bendito Salvador considerou a unidade da Igreja, Sua Igreja, como um testemunho vital e necessário para a autenticidade da Sua Missão (João 17,20-21). Este fato é realçado ainda mais pelas palavras finais de Jesus: “Ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra” (Atos 1,8). No relato de Mateus, Jesus assegura aos seus discípulos com as conhecidas palavras: “Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mateus 28,20). Parece a você que estas palavras do Mestre soam como a descrição de um Reino que está destinado a cair? Deveríamos crer que Cristo realizou tantas grandes obras com sua Igreja no primeiro século para deixá-la desaparecer do mundo por mais de um milênio? Jamais! E, no entanto, é isso o que os restauracionistas querem que acreditemos. Reconheço que nem todos os restauracionistas expressam suas idéias nestes exatos termos, porém, é o que está implicado em suas idéias.

Em todo caso, como já vimos, as Escrituras não nos permitem chegar à mesma conclusão a que eles chegaram. A esta altura, o leitor deve estar pensando sobre as graves advertências que o Novo Testamento fornece sobre os falsos mestres e sobre a apostasia. Em geral, essas advertências não significam que o barco iria afundar por completo. As advertências não permitem essa interpretação e os textos citados nem sequer autorizam tal conclusão. O objetivo de Cristo para a sua Igreja não pode ser desviado pelos seus inimigos de dentro ou de fora. Por favor, volte a ler as advertências. Quase invariavelmente se referem a uma preocupação específica apontada no contexto.

Por exemplo: a advertência de Jesus sobre “falsos profetas que vêm a vós sob pele de cordeiro, porém, por dentro são lobos vorazes” (Mateus 7,15), está bem definida contextualmente: são os que se levantam contra os ensinamentos do Sermão da Montanha. O aviso de Pedro, de que “haverá falsos mestres entre vós, que secretamente introduzirão heresias” (2Pedro 2,1) se refere especificamente, no seu contexto, àqueles que promovem a imoralidade e que chegam até a “negar o Senhor que os comprou”. João nos adverte severamente que “muitos falsos profetas se levantaram no mundo” (1João 4,1); pelo contexto, igualmente, João revela que tinha em mente aqueles que negavam a vinda de Cristo na carne. Historicamente essas advertências encontraram seu cumprimento nas heresias gnósticas.

Finalmente, as advertências paulinas sobre o “homem do pecado” (2Tessalonicenses 2,3) e “apostasia” se ajustam à descrição dos imperadores romanos idólatras, que se autoproclamavam deuses e à queda em que incorreram alguns crentes ao enfrentar a perseguição romana. Ocorre que nenhuma destas advertências, nem uma sequer, mostra-se como um aviso de que toda a Igreja de Cristo seria devastada e destruída por falsos mestres. É certo que falsos mestres vieram e muitos crentes caíram na apostasia[3]. Apesar disto, a Igreja de Cristo triunfou sobre tudo e permaneceu marchando sempre fiel Àquele que a equipou sobrenaturalmente para sua divina Missão. Tal foi a promessa de Nosso Senhor e assim é o testemunho da História. A esta altura, pretender que a Igreja de Cristo tenha desabado completamente (ou caiu tão débil que essencialmente desapareceu do cenário mundial) é crer implicitamente que Deus deixou esta terra sem nenhuma esperança real de salvação por mais de mil anos[4]!

Recordem-se as palavras de Paulo aos atenienses: “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam; Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (Atos 17,30-31). O que Paulo diz, com efeito, é: “Não há mais desculpas!” E por que esta mudança de política? Por que a ignorância não será mais desculpada? Porque a luz veio ao mundo! O Reino de Deus e de seu Cristo chegou e tomou para si mesmo o lema “arrependimento para o perdão dos pecados” para todo o mundo! (Lucas 24,47).

Esta mensagem deve ser levada por mensageiros. Portanto, sem uma Igreja viva, crescente e fiel a mensagem não poderia ser proclamada e toda a alma, no planeta inteiro, por um período de mais de mil anos, teria perecido sem sequer ter tido a oportunidade de ouvir o Evangelho. Tal pensamento não apenas é inacreditável como também escandaloso, estando completamente divorciado do Evangelho! O Filho Unigênito de Deus não sofreu para salvar o mundo para que seu objetivo fosse destruído por falhas e debilidades humanas! Por que, então, se tem acreditado nesta espécie de teoria sobre a História da Igreja, nesta idéia de “total apostasia”? A resposta para esta pergunta pode ser encontrada no uso arbitrário e generalizado da falácia da “Sola Scriptura”[5]. Usando este dogma infundado como ponto de partida, muitas pessoas têm criado em suas mentes uma idéia de como a Igreja deveria ser, segundo suas próprias interpretações particulares da Bíblia.

Como não conseguem encontrar essa igreja imaginária nos anais da História, se vêem “forçadas” a concluir que a Igreja de Cristo entrou em colapso sob um ataque em massa de apostasia. Em seguida, para agregar credibilidade às suas idéias, fazem referência às advertências [bíblicas] sobre apostasia. Mas, como vimos anteriormente, as Escrituras ensinam claramente que a Igreja de Cristo seria um reino crescente, dinâmico e duradouro, enquanto que as advertências de apostasia não se referem a uma queda total da Igreja do Senhor. Por que, então, aqueles que propõem a teoria da “grande apostasia” não consideram a possibilidade de que as suas próprias imagens mentais de Igreja é que são falsas?

O fato inegável é que a única Igreja que se encontra continuamente na História é a Igreja Católica. Igualmente irrefutável é o fato de que as igrejas protestantes de nossos dias só podem ser encontradas antes do século XVI graças à imaginação daqueles que “descobrem” tais igrejas nas Escrituras. Os escritos cristãos do primeiro, segundo e terceiro séculos revelam uma Igreja que é católica na fé e na prática. Uma Igreja que crê na regeneração pelo Batismo, no Batismo de crianças, na presença real de Cristo na Eucaristia, na primazia do Bispo de Roma, na comunhão dos santos, no Purgatório[6]… Mencionei estas doutrinas apenas para demonstrar um ponto: a Igreja não mudou através dos séculos; ela é a Igreja Católica. De fato, se a idéia da “grande apostasia” fosse verdadeira, a Igreja deveria ter experimentado uma convulsão cataclísmica ainda antes que se secasse a tinta dos últimos livros do Novo Testamento. Novamente, creio que a insidiosa influência dos “falsos mestres” é uma coisa; porém, crer que seduziram a Igreja inteira à uma apostasia total tão rapidamente é outra coisa completamente diferente!

As Escrituras não ensinam isso e, de fato, não permitem que tal coisa seja ensinada harmonicamente. Em suma: uma das maiores razões pelas quais não se pode permanecer no Protestantismo está nos problemas provenientes de sua eclesiologia, problemas que são compartilhados por todas as igrejas protestantes. Ainda que seja certo que as Escrituras nos advertem sobre falsos profetas, também nos ensinam claramente que a Igreja de Cristo jamais será destruída! Essas mesmas Escrituras nos apresentam uma Igreja visível, identificável como instituição, com uma hierarquia igualmente visível e identificável.

Além disso, todos os escritos primitivos do Cristianismo dão testemunho de que a Igreja é Católica na fé e na prática, enquanto que aceitar a idéia da “grande apostasia” seria negar a natureza essencial – a missão -, a glória dada por Deus à Sua Igreja, conforme revelado nas Escrituras. Portanto, me vejo obrigado a concluir que a eclesiologia restauracionista protestante é contrária à verdade das Escrituras, aos fatos registrados na História e à razão.

Na Igreja Católica, a Bíblia, a História e a razão se convergem. Nela encontramos a plenitude do Corpo Místico de Cristo segundo encontra-se descrito pelas Escrituras. Através da Igreja, Deus continua trazendo ao mundo os frutos da obra redentora de Cristo. Por seus Sacramentos, recebemos a graça de Cristo. Por meio do Santo Sacrifício da Missa, os méritos do sacrifício que Cristo fez uma vez por todas no Calvário, se tornam presentes em nossos dias e nos beneficiam.

Concluindo: é pelo ensinamento e autoridade [da Igreja Católica] – protegida pelo Espírito Santo – que continuamos ouvindo a voz de Cristo em nossos dias. Por essas razões e por muitas outras, a Igreja tem sido prudentemente descrita como uma extensão da Encarnação no tempo e no espaço. Não é de se estranhar, portanto, que São Paulo a tenha chamado, em 1Timóteo 3,15, de “coluna e fundamento da Verdade”.

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Notas:
[1] Tolle, James M., “The Church, Apostasy, Reformation, and Restoration”. Haun Publishing Co., Pasadena, Texas, p.3.
[2] Ibídem, p. 6.
[3] A existência de falsos mestres na Igreja primitiva não é o centro desta questão. As obras dos Padres dos primeiros séculos foram, em sua maioria, refutações a seitas desencantadas e heréticas, como os gnósticos, seitas que se ajustam às descrições contras as quais se fizeram advertências nas Escrituras no tocante aos falsos mestres. Isto é o que eram simplesmente: seitas heréticas. A palavra “heresia” provém de um vocábulo que significa “escolher” ou “pedaço”. Estes falsos mestres representavam apenas um setor e não a Igreja inteira. A palavra da qual deriva o termo “católico” significa “universal” (e, nesse sentido, “inteiro, completo”). Portanto, para se falar de heresia é necessário reconhecer a existência de um corpo principal e completo (a Igreja Católica), do qual estes setores se separaram. O corpo principal – a Igreja Universal e Católica daqueles primeiros séculos – era idêntico à atual Igreja Católica no tocante ao conteúdo da fé.
[4] Alguns poderiam objetar dizendo que as Escrituras estavam disponíveis para se ensinar a salvação aos homens. Contudo, o cânon das Escrituras só foi definido no final do século IV. Além disso, a imprensa só foi inventada em 1450 d.C., de modo que, antes disso, as cópias da Bíblia eram relativamente escassas. As pessoas em geral dependiam da transmissão oral do Evangelho. Isto não foi um descuido de Deus, mas parte integrante do seu plano eterno. Se – como São Paulo diz em Gálatas 4,4 – Deus enviou o seu Filho somente quando a plenitude dos tempos se fez presente, devemos crer que Deus sabia que a distribuição de material impresso não iria ser possível (tecnologicamente falando) por cerca de 1400 anos. Deus agiu assim porque, aparentemente, seus planos não dependiam da disponibilidade de informação escrita, mas de uma Igreja viva e dedicada ao ensino. Lembremos que a disposição original [de Jesus] foi a de enviar homens para pregar [o Evangelho]. Este é o plano de Deus.
[5] O latim “Sola Scritura” significa “Apenas as Escrituras”. É uma das idéias fundamentais da plataforma reformista alemã (a outra é a “Sola Fide”, “Apenas a Fé”). A “Sola Scriptura” afirma que a Bíblia – e somente a Bíblia – é suficiente por si mesma para guiar os fiéis em assuntos de fé e moral. (…)
[6] O leitor pode verificar estes fatos consultando os escritos dos primeiros Padres da Igreja. Uma boa fonte (em inglês) é “Faith of the Early Fathers”, de William A. Jurgens, 1970, publicado pela Liturgical Press, Collegeville, Minnessota (O que torna a obra de Jurgens tão útil é a ordenação dos escritos patrísticos por tópicos, com um índice de referências). NdoT.: outra fonte é o nosso subsite “Central de Obras do Cristianismo Primitivo-COCP” (http://cocp.veritatis.com.br) e os e-books da Série “Citações Patrísticas” que aí disponibilizamos.

 

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