Quem tem pouco dinheiro tende a confundir o dinheiro com o poder de compra que ele simboliza. Dinheiro é um símbolo de uma espécie de poder, e uma das espécies mais fracas.

Infelizmente, o país inteiro – capitaneado pelo STF – caiu neste engodo, ao tratar do caso do mensalão como se fosse mera corrupção e tratar um mecanismo criminoso de busca de poder como se fosse um vulgar mecanismo criminoso de desvio de dinheiro. Ora, dinheiro é menos que poder. O que estava em jogo no mensalão não era dinheiro para pagar as contas, ou mesmo para comprar mansões ou aviões: o que se vendia e comprava ali era o Brasil. Todo o dinheiro que circulou naquele vasto mecanismo de corrupção não era mais que um instrumento de obtenção de poder.

Esta diferença crucial entre dinheiro e poder acaba de ser mais uma vez provada, ainda no mesmo caso, pelo “empreguinho” oferecido ao presidiário José Dirceu, para que ele possa gozar de regime semiaberto e passar apenas as noites na cadeia. A oferta fácil de um salário de R$ 20 mil para desempenhar um cargo em que ele não tem experiência alguma só faz mostrar, mais uma vez, a subordinação do dinheiro ao poder. Este criminoso condenado, agente confesso de um governo estrangeiro, ainda tem poder suficiente para que seja um bom negócio para seu “patrão” oferecer-lhe esta sinecura. Se não fosse este emprego – muito além dos sonhos da imensa maioria da população –, seria outro. Se não nesta, em outra empresa. Não importa. O poder de que ainda goza José Dirceu é grande o bastante para que dinheiro – o salário, o pagamento de advogados ou qualquer outro custo financeiro – seja um detalhe irrelevante.

A mesma confusão foi também aproveitada pela caríssima assessoria de imagem do colega de quadrilha José Genoino. O fato de ele morar em casa modesta de bairro de classe média foi espremido até o talo, como se o fato de ele preferir o poder ao dinheiro o tornasse santo e honesto. Ora, tanto um quanto o outro, assim como todos os outros condenados e o até agora impune e supostamente desconhecido chefe da quadrilha, dedicaram-se a comprar e vender o Brasil. Dedicaram-se a sabotar os mecanismos democráticos e a anular a mera possibilidade de oposição política. Dedicaram-se a subordinar o Brasil a países estrangeiros, distribuindo o patrimônio do Estado em favor de seus companheiros de ideologia por toda a América Latina.

É um mero detalhe se, como José Dirceu e seu chefe, acumularam fortunas durante o processo. O que buscavam, e obtiveram, é o poder.

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