D. Estêvão Tavares Bettencourt, osb (+2008)

Distinção entre “espírito” e “matéria”

– “Hoje em dia fala-se muito em energia. A matéria – dizem – é energia e a própria alma humana não vem a ser senão matéria ou energia aperfeiçoada. O que pensar disso?” (Raul Santos – Piauí).
– “Não são os pensamentos e afetos produtos do cérebro? Qual a relação vigente entre a alma e o cérebro?” (S.O.S. – Rio de Janeiro).

O problema se põe brevemente nos termos seguintes:

MATÉRIA = ENERGIA = ALMA (HUMANA)

Em virtude desta equação, desaparece a distinção essencial entre matéria e alma humana (que também dizem «espírito»). Esta se dissolve naquela e vã é qualquer esperança de imortalidade pessoal para o indivíduo.

Na equação acima, o termo «energia» é evidentemente o ponto nevrálgico. Vejamos, pois, primeiramente, qual sentido lhe atribuem os físicos quando a equiparam à matéria; a seguir, examinaremos o que se entende por alma humana. Feito isto, estaremos habilitados a julgar se de fato a equação é concludente.

1. A energia na Física

Em Física, dá-se o nome de «energia» a um potencial capaz de se converter em trabalho; é medido pela quantidade de trabalho a que equivale. Todo corpo que possa produzir trabalho, possui, por conseguinte, energia; assim, uma mola comprimida, um combustível, um veículo… Distinguem-se diversas formas de energia, as quais propriamente não são mais que manifestações de um único potencial: a energia mecânica, a eletromagnética, a térmica, a química, a cinética etc.

A Teoria da Relatividade concorreu para precisar um pouco mais o conceito de energia. Já no fim do século passado, havia-se observado que, quando os elétrons e os íons positivos estão em movimento, para se lhes comunicar aceleração, é necessária uma força tanto maior quanto mais veloz é o seu movimento ou, equivalentemente, quanto maior é a sua energia cinética; isto insinuava que o aumento de energia cinética implicava em aumento de massa. Ora, Einstein confirmou a conclusão de que o aumento da velocidade de um corpo significa aumento da massa do mesmo, e calculou que este incremento se verifica segundo a fórmula m = E / c2, o que quer dizer:

o aumento da massa corresponde ao incremento da energia cinética dividido pelo quadrado da velocidade da luz no vácuo. Em consequência de suas observações, Einstein propunha a questão: já que a energia cinética tem massa (ou é correspondente à massa), não se deverá admitir que toda a massa de um corpo é energia? A matéria então seria uma imensa concentração de energia, segundo a fórmula: E = m.c2.

Nem todos os cientistas respondem afirmativamente a Einstein; há quem só aceite a identificação da energia cinética com a sua respectiva massa, não com a massa total do corpo. A teoria de Einstein é de modo geral comprovada pelas reações nucleares; nestas, a energia que entra em jogo corresponde às variações da massa dos corpos reagentes, conforme a fórmula de Einstein.

Para o estudo do problema proposto, estes dados de Física nos bastam, permitindo-nos concluir o seguinte: embora os físicos não possam determinar com muita precisão o que é a energia, uma coisa é certa a todos: a energia em Física é um valor quantitativo, exprimível em cifras, comensurável de acordo com as leis da Matemática e da Geometria.

2. A alma humana na Filosofia

Passemos agora à consideração da alma humana.

1. Esta é chamada pelo filósofo grego Aristóteles (+322 a.C.) “energéia”, “ato”. A semelhança de vocábulos, porém, encobre conceitos assaz diversos na Física e na Metafísica (ou na Filosofia).

A alma humana é, sem dúvida, princípio de trabalho (como a energia), mas nem o trabalho da alma nem a própria alma podem ser enquadrados dentro de fórmulas matemáticas; em outros termos: o pensamento, os afetos não são dados quantitativos, suscetíveis de expressão numérica. Por conseguinte, a alma é de índole diversa da índole da energia e da matéria de que falam os físicos; e — diga-se — de índole tão diversa que não pode haver transição entre matéria ou energia material e alma humana.

Como se provaria isto com exatidão?

A natureza da alma humana se manifesta por seu modo de agir, pois, como reza o princípio universalmente reconhecido, tal modo de agir supõe tal modo de ser, como tal efeito supõe tal causa, tal movimento supõe tal força.

Ora, a atividade característica da alma humana é o raciocínio ou a vida intelectual. Esta transcende a matéria, a quantidade, as dimensões. De onde se segue que a própria alma humana deve transcender a matéria, a quantidade, ou deve ser imaterial, espiritual (já que o espírito não cai sob os sentidos e todo conhecimento humano começa pelos sentidos, ninguém saberia definir diretamente o que é um espírito; pode-se apenas assegurar que é um ser real, ontologicamente mais perfeito do que a matéria, porque emancipado das imperfeições desta — dimensões, lugar no espaço, desgaste — ; brevemente: é um ser real não-material).

Importa, porém, tomar consciência exata de que a atividade da inteligência transcende, como acima foi dito, a matéria.

Comparemo-la com a atividade dos sentidos (olhos, ouvidos, tato…): estes só podem conhecer tal indivíduo, dotado de tais dimensões, tal cor, tal odor, tal sabor etc.; as suas possibilidades de conhecer estão sempre presas à matéria e por esta limitadas. O mesmo não se dá com a inteligência: é verdade que esta necessita dos dados que os sentidos lhe fornecem, para começar a raciocinar; ela elabora, porém, estes dados, fazendo abstração do que têm de material e contingente; assim, a inteligência chega a conhecer as essências abstratas, emancipadas da matéria; conhece a ideia da Beleza, ao passo que os sentidos só conhecem este ou aquele objeto belo; conhece a ideia do Dever como tal, independentemente desta ou daquela situação concreta; apreende a essência do Homem — animal racional — emancipada das características contingentes e materiais de tamanho, idade, raça, únicas características que os sentidos conseguem apreender. Destas observações é que se deduz a conclusão: já que a alma humana é capaz de agir ultrapassando a matéria, é imaterial, não podendo ser expressa por fórmulas matemáticas, como é expressa a energia de que fala a Física.

E note-se que não há transição entre o material e o imaterial ou espiritual; em outros termos: o modo de agir do espírito não pode estar implicitamente contido no modo de agir da matéria. Com efeito, a matéria é, por definição, o que está limitado pela extensão, pela quantidade; desde que se lhe tire esta característica, a matéria se destrói em vez de se aperfeiçoar (matéria sem extensão ou sem contornos é algo de contraditório). De outro lado, o espírito, exercendo uma atividade que transcende os limites da matéria (como foi acima dito), não pode provir desta, pois o que é menos não pode por si ser fonte do que é mais (ninguém dá o que não tem). A inteligência apreende o ser como tal, sem restrições, em sua infinitude (tudo o que ela conhece, ela começa a conhecê-lo como ser; o conceito de ser recobre tudo, tanto o Criador como as criaturas); os sentidos, ao contrário, só apreendem este determinado ser. Ora, entre este determinado ser e o ser como tal não há transição possível como entre o finito e o infinito não há passagem possível (o infinito não é um finito aumentado).

A Psicologia experimental, por sua vez, demonstra que o conhecimento intelectual não pode ser reduzido ao conhecimento sensitivo.

Eis um dos casos mais significativos dentre os que se tem observado:

Disponha-se uma série de vasilhas fechadas, na primeira das quais se coloca o alimento de um macaco; faça-se ver a este que é no primeiro recipiente que ele encontra o que lhe interessa. Repita-se a experiência, encerrando o alimento na segunda, e não na primeira vasilha; o animal, se não é advertido, vai procurar o alimento na primeira, porque retém os dados concretos da experiência anterior. Num terceiro ensaio, coloque-se o alimento fechado no terceiro recipiente; guiado pelas impressões sensíveis do ensaio precedente, o macaco se dirige para o segundo vaso. Caso se multiplicam os ensaios, verifica-se que o animal procura de cada vez o recipiente em que na experiência anterior encontrou o que queria. Nunca chega a abstrair dessas diversas experiências a lei de progresso que as rege; nunca se desvencilha das notas concretas da vasilha em que por último encontrou a presa, deduzindo que não é o fato de ser a segunda, a terceira ou a quarta vasilha que interessa, mas é o fato de ser a vasilha “n+1” (fórmula em que “n” designa o número da experiência anterior). Ora, uma criança sujeita a tal teste, depois de três ou cinco experiências, consegue abstrair a lei “n+1” do fenômeno. Destes ensaios se conclui que:

a) O animal, por mais semelhante que seja ao homem, jamais se desembaraça do material; não possui, portanto, princípio de ação imaterial, ao passo que o indivíduo humano, desde os seus primeiros anos, possui uma atividade e, por conseguinte, um princípio de atividade (uma alma) imateriais;

b) Não há transição entre o material e o imaterial (ou espiritual).

São estas as considerações que levam a negar a identidade entre espírito (alma humana) e matéria. A energia da Física moderna, que serviria de ponte entre os dois termos, está toda e exclusivamente do lado da matéria, e não atinge a transcendência do espírito.

2. Mas – replica-se – é fato inegável que nossas ideias dependem das imagens concretas adquiridas pelos sentidos. Não será isto um argumento contra a apregoada transcendência do conhecimento intelectivo?

– Não. Enquanto a alma humana está unida ao corpo, depende deste (em particular, do cérebro) para começar a exercer a sua atividade intelectiva (não foi em vão que o Criador uniu alma e corpo para constituírem um só vivente). Ela recebe dos sentidos externos (que funcionam em correlação com o cérebro, sede do senso comum) o material que ela passa a elaborar; elabora-o, porém, transcendendo as limitações dos sentidos, ou seja, discernindo o que há de acidental e o que há de essencial em um determinado objeto percebido (a inteligência, raciocinando, por exemplo, percebe que o que faz Pedro ser homem: não é a sua estatura, nem a cor de seus cabelos nem o timbre de sua voz, dados estes apreendidos pelos sentidos; mas é o fato de ser animal racional, característica que os sentidos por si não apreendem).

Há, sem dúvida, certa correspondência entre cérebro e pensamento (é para o cérebro que conflui toda a vida sensitiva, da qual depende o pensamento). Esta correlação, porém, não é tão rigorosa que permita estabelecer a equação «cérebro = pensamento»; ela se explica pelo simples fato de que é dos sentidos ou dos órgãos que recebemos o material a ser elaborado (espiritualizado) na inteligência.

Com efeito, a experiência desmente o axioma «a grandes cabeças, grandes espíritos»: homens notavelmente inteligentes, como Cícero, Rafael, Descartes, Voltaire, Napoleão, tiveram crânio relativamente pequeno. Além disto, os cientistas propõem hoje a seguinte escala de capacidade craniana: homens pré-históricos (Neandertal..), 1660 cm3; esquimós, 1546 cm3; holandeses, 1530 cm3; chineses, 1518 cm3; neozelandeses, 1497 cm3; japoneses, 1486 cm3; italianos, 1467 cm3; negros do Dahomey, 1452 cm3; anglo-saxões, 1412 cm3. Ora, esta escala está longe de corresponder às manifestações de inteligência dadas pelos mencionados povos no decorrer dos séculos.

Nem o peso absoluto do cérebro é critério dirimente para se avaliar a capacidade intelectual: a baleia tem 4500 g de cérebro; o elefante, 3000 g; o delfim, 1800 g, ao passo que o homem médio, conforme certos antropologistas, apenas 1360 g, (Broca assinala 1157 g para a média dos varões, 995 g para a média das mulheres). Será que, por isto, a baleia é inteligente, e mais inteligente do que o homem? Mesmo entre os homens, grandes vultos intelectuais tiveram peso cerebral inferior ao normal.

Também a chamada «massa cinzenta», que constitui a camada cortical do cérebro, não é estritamente correlativa à inteligência. Em caso afirmativo, quanto mais circunvoluções, pregas e sulcos houvesse no cérebro, tanto mais superfície e massa cinzenta nele se encontrariam e, em consequência, maior inteligência no indivíduo. Ora não é o que se verifica: o elefante, o carneiro e o jumento têm cérebro mais enrugado do que o homem, ao passo que o do castor é liso; muitos deficientes e loucos apresentam um cérebro de face muito complexa.

Em consequência, também por estas observações se chega à conclusão de que não se pode tachar o pensamento de «secreção do cérebro» ou de «energia cerebral aperfeiçoada».

Repitamo-lo: o cérebro, como um dos principais órgãos da vida sensitiva, condiciona de certo modo a vida intelectiva do homem, pois esta se acha arquitetada sobre aquela; a atividade da inteligência, porém, é especificamente diversa da do cérebro, como o infinito é intrinsecamente diverso do finito. A diferença entre atividade cerebral e atividade intelectual não é simplesmente quantitativa, mas é qualitativa.

Sobre as relações entre inteligência e cérebro nos loucos, veja-se “A inteligência humana é fruto da evolução da matéria? “; sobre as operações de Orage Nielson e Puech, ver “Por que a ideia de ‘destino’ ainda sobrevive?”.

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 5 – mai/1958
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