Documentos da Igreja

Divini redemptoris

DIVINI REDEMPTORIS

CARTA ENCÍCLICA

DO SUMO PONTÍFCE

PIO XI

SOBRE O COMUNISMO ATEU

19 de Março de 1937

 

Aos Veneráveis Irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e outros Ordinários em paz e comunhão com a Sé Apostólica.

Veneráveis Irmãos: Saudação e Benção Apostólica.

1. A promessa dum Redentor ilumina a primeira página da história da humanidade; e destarte a confiante esperança de melhores tempos aliviou a tristeza do paraíso perdido (cf. Gen. 3, 23) e acompanhou o gênero humano no seu atribulado caminho, até que, na plenitude dos tempos (Gal. 4, 4), vindo à terra o Salvador do Mundo, satisfez a expectativa e inaugurou uma nova civilização universal, a civilização cristã, imensamente superior àquela a que o homem até então com tanto trabalho atingira em nações mais privilegiadas.

2. A luta, porém, entre o bem e o mal ficou no mundo como triste herança da culpa original; e o antigo tentador nunca desistiu de iludir a humanidade com enganosas promessas. Assim é que, no decurso dos séculos, de agitação em agitação, chegamos à revolução dos nossos dias, que, em toda parte, podemos dizer, já desencadeada ou seriamente ameaçadora, em amplitude e violência supera quaisquer provações de anteriores perseguições contra a Igreja. Povos inteiros acham-se no perigo de recair em pior barbárie do que a em que ainda se encontrava a maior parte do mundo ao aparecer o Redentor.

3. Perigo tão ameaçador, vós já o compreendestes, Veneráveis Irmãos, é o comunismo bolchevista e ateu, que visa subverter a ordem social e abalar os próprios fundamentos da civilização cristã.

I. ATITUDE DA IGREJA DIANTE DO COMUNISMO.

1) Considerações precedentes.

4. Diante de tal ameaça, não podia a Igreja Católica silenciar, e não silenciou. Não silenciou principalmente esta Sé Apostólica, que tem consciência de ser missão sua especialíssima a defesa da verdade e da justiça e de todos os bens eternos que o comunismo menospreza e combate. Já desde os tempos em que meios cultos pretenderam libertar a sociedade humana dos laços da moral e da religião, Nossos Predecessores chamaram a atenção do mundo, aberta e explicitamente, para as conseqüências da descristianização da humana sociedade. No que diz respeito ao comunismo, já em 1864, nosso venerado Predecessor Pio IX, de saudosa memória, fulminou solene condenação, confirmada em seguida no Silabo, contra "aquela nefanda doutrina do chamado comunismo, sumamente contrária ao próprio direito natural, e que, uma vez admitida, levaria à subversão radical dos direitos, das coisas, das propriedades de todos e da mesma sociedade humana" (Enc. Qui pluribus, 9 nov. de 1846, DP 35. ? Cf. Syllabus, § IV, DP 36). Posteriormente, outro Predecessor Nosso de imortal memória, Leão XIII, na Encíclica Quod Apostolici Muneris, definia-o: "peste destruidora que, infeccionando a medula da sociedade humana, a levaria à ruína" (Enc. Quod Apololici muneris, 28 dez 1878, DP 17); e com visão clara apontava que os movimentos ateus das massas, na obra do tecnismo, se originavam daquela filosofia, que já há séculos procurava separar a ciência e a vida, da fé e da Igreja.

2) Atos do presente Pontificado.

5. Também Nós, durante o nosso Pontificado, com freqüente e zelosa insistência temos denunciado as correntes atéias que aumentam ameaçadoramente. Quando em 1924, a Nossa Missão de Socorro volta da União Soviética, em alocução apropriada dirigida ao mundo, Nós declaramos contra o comunismo (18 dez. 1924, A. A. S., XVI, pp. 494-495). Em Nossas Encíclicas Miserentissimus Redemptor (8 de maio 1928, DP 21), Quadragesimo anno (15 de maio 1931, DP 3), Caritate Christi (3 de maio 1932, DP 29), Acerba animi (29 set. 1932, A. A. S., XXIV, pp. 321-33), Dilectissima Nobis (3 junho 1933, A. A. S., XXV, pp. 261-274), levantamos solene protesto contra as perseguições desencadeadas na Rússia, México e Espanha; nem se extinguiu ainda o eco universal das alocuções por Nós proferidas o ano passado, quando da inauguração da Exposição Mundial da Imprensa Católica, da audiência aos espanhóis exilados e da Mensagem para a Festa do Santo Natal. Ainda os mais encarniçados inimigos da Igreja, que de Moscou, com investidas incessantes, dirigem a luta contra a civilização cristã, por palavras e fatos, dão testemunho de que o Papado, também em nossos dias, continuou fielmente a tutelar o santuário da religião cristã, e com maior freqüência e de maneira mais convincente, que qualquer outra autoridade terrena, fez voltar as vistas de todos para o perigo comunista.

3) Necessidade de outro documento.

6. Mas, não obstante estas repetidas admoestações paternas, que foram por vós, Veneráveis Irmãos, aos fiéis transmitidas tão fielmente, e comentadas por meio de tantas e recentes Cartas Pastorais vossas, mesmo coletivas, o perigo, sob o impulso de hábeis agitadores, agrava-se de dia para dia. Portanto, Nós nos julgamos obrigados a levantar de novo a voz, com documento ainda mais solene, como é praxe desta Sé Apostólica, Mestra da verdade, documento naturalmente exigido pelo fato de estar no desejo de todo o mundo católico. Confiamos, pois, que o eco da Nossa voz se espalhe por toda parte, onde se encontrem inteligências isentas de preconceitos, e corações sinceramente desejosos do bem da humanidade; tanto mais que a Nossa palavra vem agora dolorosamente comprovada pela visão dos frutos amargos das idéias subversivas, como Nós prevíramos e prenunciáramos, e que se vão multiplicando assustadoramente com os fatos, nos países já por ele dominados, ou como ameaça, nos demais países do mundo.

7. Nós, portanto, ainda uma vez, queremos expor, a modo de breve síntese, os princípios do comunismo ateu, como aparecem principalmente no bolchevismo, com seus métodos de ação, contrapondo a tais princípios falsos a luminosa doutrina da Igreja, e inculcando, nova e insistentemente, os meios pelos quais a civilização cristã, única civitas verdadeiramente humana, poderá salvar-se deste satânico flagelo, e desenvolver-se em prol do verdadeiro bem-estar da sociedade humana.

II. DOUTRINA E FRUTOS DO COMUNISMO.

Doutrina.

1.                                                      Falso ideal.

8. O comunismo hodierno, de maneira mais acentuada que outros movimentos semelhantes do passado, em si oculta uma idéia de falsa redenção. Determinado pseudo-ideal de justiça, de igualdade e de fraternidade no trabalho, penetra-lhe toda a doutrina e operosidade dum certo misticismo falso que, às multidões, lisonjeadas por enganosas promessas, comunica ardor e entusiasmo contagioso, especialmente em tempos como o nosso, em que a distribuição defeituosa das coisas deste mundo resulta insólita miséria. Vangloria-se ainda este pseudo-ideal de ter sido como que o promotor de certo progresso econômico, o qual, quando de fato existe, tem a sua explicação em outras causas, como sejam a intensificação da produção industrial em países que dela eram quase falhos, valendo-se também das enormes riquezas naturais que possuem: e o uso de métodos brutais para executar trabalhos ingentes com pouca despesa.

2) Materialismo evolucionista de Marx.

9. A doutrina que o comunismo disfarça, sob aparências por vezes tão sedutora, baseia-se hoje em substância sobre princípios já divulgados por Marx do materialismo dialético e histórico, do qual os teoristas do bolchevismo pretendem possuir a única, genuína interpretação. Tal doutrina ensina não existir senão uma única realidade, a matéria, com suas forças cegas, a qual por evolução se torna planta, animal, homem. Também a sociedade humana não é senão aparência e forma da matéria, que por igual forma envolve, e por necessidade inevitável tende, num perpétuo conflito de forças, para a síntese final: uma sociedade sem classes. Nessa doutrina, como se vê claramente, não há lugar para a idéia de Deus, não há diferença entre o espírito e a matéria, nem entre a alma e o corpo; não existe a sobrevivência da alma depois da morte, nem há portanto esperança alguma em outra vida. Insistindo sobre o aspecto dialético do seu materialismo, os comunistas pretendem que o conflito, que leva o mundo para a síntese final, pode ser acelerado pelos homens. Esforçam-se, assim, por tornar mais pungentes os antagonismos que surgem entre as diversas classes da sociedade; e a luta de classes, com seus ódios e destruições, toma aspecto de cruzada em prol do progresso da humanidade. De outra parte, todas as forças, sejam elas quais forem, que resistam a estas violências sistemáticas, devem ser aniquiladas como inimigas do gênero humano.

3) A que se reduzem o homem e a família.

10. Ademais, o comunismo despoja o homem da liberdade, princípio espiritual de conduta moral, tira à pessoa humana toda a dignidade e qualquer freio moral contra os assaltos dos cegos instintos. Ao indivíduo, em relação à coletividade, nenhum direito natural da personalidade humana é reconhecido, sendo a mesma, no comunismo, simples roda e engrenagem do sistema; nas relações dos homens entre si, sustenta-se o princípio da igualdade absoluta, que renega toda hierarquia e qualquer autoridade por Deus estabelecida, inclusive a dos pais; tudo quanto entre os homens existe de autoridade e subordinação, tira a sua origem da coletividade, como de fonte primeira e única. Nem aos indivíduos se concede direito algum de propriedade sobre bens da natureza e meios de produção, visto que, sendo fonte de outros bens, a posse deles levaria ao domínio de um homem sobre o outro. Por isto mesmo deverá ser destruída radicalmente tal natureza de propriedade particular, como fonte primordial de toda a escravidão econômica.

11. Negando à vida humana todo caráter sagrado e espiritual, essa doutrina considera naturalmente o matrimônio e a família como instituição puramente artificial e civil, ou então, fruto de determinado sistema econômico: negam a existência do vínculo matrimonial de natureza jurídico-moral, que nada tem a ver com o beneplácito do indivíduo ou da coletividade, e, por conseguinte, negam a indissolubilidade do mesmo vínculo. Para o comunismo particularmente não existe vínculo algum que prenda a mulher à família e ao lar doméstico. Proclamando o princípio da emancipação da mulher, afasta-a da vida doméstica e da assistência à prole, para leva-la à vida pública e às atividades coletivas, na mesma medida que o homem, transmitindo para a coletividade o desvelo do lar e dos filhos (cf. Enc. Casti connubii, 31 dez. 1930, DP 4). Nega-se, enfim, aos pais o direito da educação, julgado como direito exclusivo da comunidade, em cujo nome somente, e por comissão, podem os pais exerce-lo.

4) o que seria então a sociedade.

12. Que seria a sociedade humana baseada sobre tais fundamentos materialistas? Uma coletividade sem outra hierarquia que a do sistema econômico. Teria a sociedade como única missão a produção por meio do trabalho coletivo, e como fim o gozo dos bens terrenos, num paraíso em que "cada um daria conforme a sua capacidade, e receberia segundo as suas precisões". À capacidade o comunismo reconhece o direito, ou melhor, o arbítrio limitado, de obrigar ao trabalho coletivo os indivíduos, sem nenhuma consideração ao seu bem-estar pessoal, ainda contra sua vontade, e até violentamente. Nessa coletividade, tanto a moral quanto a ordem jurídica não seriam senão emanação do sistema econômico do tempo, de origem portanto terrestre, mutável e efêmera. Resumindo: pretende-se introduzir nova época e nova civilização, fruto exclusivo de cega evolução: "uma humanidade sem Deus".

13. Quando, finalmente, se transformar em realidade o ideal coletivista, no sentido utópico da sociedade sem qualquer distinção de classes, então o Estado político, instrumento hoje de domínio dos capitalistas sobre os proletários, perderá toda a sua razão de ser e "desaparecerá". Entretanto, enquanto não se chega a essa feliz condição de vida, o Estado e o poder político são, para o comunismo, o meio mais eficaz e mais universal de conseguir os seus fins.

14. Eis, Veneráveis Irmãos, o novo e suposto evangelho que à humanidade o comunismo bolchevista e ateu anuncia, como mensagem salutar e redentora! Sistema cheio de erros e de sofismas, em oposição tanto à razão quanto à divina Revelação; subversor da ordem social, porque outra coisa não é senão a destruição de suas bases fundamentais: sistema que desconhece a verdadeira origem, natureza e fim do Estado, e nega os direitos da pessoa humana, de sua dignidade e liberdade.

Difusão:

1) Loucas promessas.

15. Como, porém, pode acontecer que tal sistema, cientificamente há muito tempo refutado, e na prática desmentido, chegue a difundir-se tão rapidamente por toda parte? A explicação é que mui poucos conseguiram penetrar a verdadeira natureza do comunismo; a maioria dos homens, ao contrário, cede à tentação habilmente preparada sob forma de alucinantes promessas. Com o pretexto de querer exclusivamente melhorar a sorte das classes trabalhadoras, extinguir reais abusos causados pela economia liberal, e obter mais eqüitativa distribuição dos bens terrenos (fins, sem dúvida, perfeitamente legítimos), e aproveitando a crise econômica mundial, o comunismo consegue fazer penetrar a sua influência até em classes sociais que, por princípio, rejeitam qualquer forma de materialismo e de terrorismo. E como todo erro contém parte de verdade, esse aspecto de verdade a que acenamos, posto ardilosamente em relevo conforme as circunstâncias, para encobrir, quando convier, a dureza repugnante e inumana dos princípios e métodos do comunismo, seduz também espíritos não vulgares, até se tornarem por sua vez apóstolos do mesmo junto às jovens inteligências, pouco capazes ainda de descobrir os erros fundamentais do sistema. Além disso, os pregoeiros do comunismo sabem aproveitar também os antagonismos de raça, as divisões ou oposições dos diversos sistemas políticos, a desorientação no campo da ciência sem Deus, para penetrar nas Universidades e, com argumentos pseudocientíficos, fortalecer os princípios da própria doutrina.

2) O liberalismo lhe preparou o caminho.

16. Para explicar como o comunismo aceitou fazer-se aceitar sem prévio exame por tantas multidões de operários, convém não esqueçamos que para isso estavam os operários preparados pelo abandono moral e religioso em que os havia deixado a economia liberal. Com os turnos de trabalho, mesmo dominicais, não se lhes dava tempo de satisfazer em dias festivos os mais graves deveres religiosos. Não se pensava em construir igrejas junto às oficinas, nem era facilitado o ministério sacerdotal; continuava-se, ao contrário, a promover positivamente o laicismo. Recebe-se, portanto, agora a herança de erros, por nossos Predecessores e por Nós mesmos tantas vezes denunciados, e não é de admirar que, num mundo tão largamente descristianizado, se espalhe o erro comunista.

3) Propaganda astuciosa e vastíssima.

17. Além disso, tão rápida difusão das idéias comunistas, já espalhadas em todos os países, grandes e pequenos, cultos e menos desenvolvidos, ao ponto de nenhum canto da terra ter ficado delas imune, explica-se por uma propaganda verdadeiramente diabólica, como talvez o mundo nunca viu; propaganda dirigida por um único centro, mas que muito habilmente se adapta às condições dos diversos povos; propaganda de grandes recursos financeiros, de gigantesca organizações, de congressos internacionais, de inúmeras forças bem adestradas; propaganda que se faz por meio de folhas avulsas e revistas, nos cinemas, nos teatros, pelo rádio, nas Escolas e até nas Universidades, penetrando pouco a pouco em todas as classes sociais, ainda as melhores, sem quase perceberem o veneno que sempre mais lhe corrompe a mente e o coração.

4) Conspiração do silêncio na imprensa.

18. Terceiro fator poderoso da difusão do comunismo é a verdadeira conspiração do silêncio em grande parte da imprensa mundial não-católica. Dizemos conspiração, porque não se pode de outro modo explicar que essa imprensa, tão cobiçosa de pôr em relevo até os menores acontecimentos de cada dia, se tenha por tanto tempo calado sobre os horrores cometidos na Rússia, no México e também em grande parte da Espanha, e fale relativamente tão pouco de tão vasta organização mundial, qual é o comunismo de Moscou. Deve-se, em parte, tal silêncio a razões duma política menos previdente, favorecida por várias forças ocultas que, há muito, procuram destruir a ordem social cristã.

Conseqüências dolorosas:

1) Rússia e México.

19. Temos neste momento, diante dos olhos, os dolorosos efeitos dessa propaganda. Onde o comunismo logrou implantar-se e dominar ? e aqui. Nos passam pela mente com singular afeto paterno os povos da Rússia e do México ? aí se esforçou por todos os meios por destruir (e o proclama abertamente), desde os seus alicerces a civilização e a religião cristãs, extinguindo no coração dos homens, mormente da mocidade, todo sentimento religioso. Bispos e Padres foram banidos, condenados a trabalhos forçados, fuzilados e assassinados de maneira desumana; simples leigos, por terem defendido a religião, foram tidos como suspeitos, maltratados, perseguidos, levados para as prisões, e arrastados aos tribunais.

2) Horrores do comunismo na Espanha.

20. Mesmo onde, como em nossa caríssima Espanha, o flagelo comunista ainda não teve tempo de fazer sentir todos os efeitos de suas teorias, todavia aí se desencadeou infelizmente com mais violência. Não se abateu uma ou outra igreja, este ou aquele claustro, mas, quando se tornou possível, foram destruídas todas as igrejas, todos os claustros e qualquer vestígio de religião cristã, ainda que ligado aos mais insignes monumentos da arte e da ciência. O furor comunista não se limitou a matar Bispos e milhares de Sacerdotes, de religiosos e religiosas, principalmente aqueles e aquelas que, de maneira particular, se dedicavam com maior desvelo aos operários e aos pobres; mas fez número muito maior de vítimas entre leigos de todas as classes, que até hoje são, pode-se dizer, diariamente trucidados em massa pelo fato de serem bons cristãos, ou pelo menos, contrários ao ateísmo comunista. Tão espantosa destruição executa-se com tal ódio, barbaridade e crueldade, que se não acreditaria possível em nosso século. Não pode haver homem privado, que pense sabiamente, nem homem de Estado, consciente de sua responsabilidade que se não horrorize ao pensar se possa repetir, amanhã em outras nações civilizadas, o que hoje acontece na Espanha.

3) Conseqüências naturais do sistema.

21. Nem se pode dizer que tais atrocidades sejam fenômeno transitório, que sói acompanhar qualquer revolução de grandes proporções, excessos isolados de irritação, comuns a toda guerra. Não, são frutos naturais do sistema, a que falta todo freio interior. Um freio é necessário ao homem, quer considerado como indivíduo, quer na sociedade. Mesmo os povos bárbaros tiveram esse freio, na lei natural por Deus esculpida na alma de cada homem. Quando esta lei natural foi mais bem observada, viram-se antigas nações se erguerem a uma grandeza tal, que ainda deslumbra, mais do que conviria, a certos estudiosos superficiais da história humana. Arrancando-se, porém, do coração dos homens a idéia de Deus, necessariamente, serão pelas paixões impelidos para a mais atroz barbárie.

4) Guerra contra tudo que é divino.

22. É o que infelizmente estamos vendo: pela primeira vez na história assistimos a uma luta friamente voluntária e cuidadosamente preparada pelo homem, contra "tudo o que é divino" (II Tess 2, 4). O comunismo é, por sua natureza, anti-religioso, e considera a religião como o "ópio do povo", porque os princípios religiosos, que falam da vida de além-túmulo, dissuadem o proletário de ter por fim a consecução do paraíso soviético, que pertence a esta terra.

5) O terrorismo.

23. Não se pisa, porém, impunemente, a lei natural e o Autor da mesma: o comunismo não pode nem poderá alcançar seu intento, mesmo no campo puramente econômico. Verdade é que na Rússia pôde contribuir para sacudir os homens e coisas de longa e secular inércia, e obter por todos os meios, freqüentemente ilícitos, qualquer êxito material; mas, por testemunhos insuspeitos e recentíssimos, sabemos que de fato nem lá conseguiu o que prometera, não obstante a escravidão a que submeteu milhões de homens. Também no campo econômico a moral é necessária, qualquer sentimento moral da responsabilidade que, aliás, não tem lugar num sistema exclusivamente materialista, como é o comunismo. Para substituí-lo, só resta o terrorismo, como precisamente vemos agora na Rússia, onde antigos companheiros de conspiração e de lutas se dilaceram mutuamente; terrorismo que, além do mais, não consegue opor um dique não só à corrupção dos costumes, mas nem sequer à destruição da estrutura social.

6) Um pensamento paterno aos povos oprimidos da Rússia.

24. Com isso, porém, não queremos de modo algum condenar em massa os povos da União Soviética, por quem nutrimos a mais viva afeição paternal. Sabemos como vários entre eles gemem debaixo do jugo cruel que lhes impuseram à força homens, em máxima parte estranhos aos verdadeiros interesses do país, e reconhecemos que muitos outros foram iludidos por enganosas esperanças. Acusamos o sistema e seus fautores que julgaram fosse a Rússia terreno mais adaptado para pôr em prática um sistema há decênios já elaborado, e que de lá continuam a propagá-lo por todo o mundo.

III. A LUMINOSA E CONTRÁRIA DOUTRINA DA IGREJA.

25. Expostos assim os erros e meios violentos e enganosos do comunismo bolchevista e ateu, já é tempo, Veneráveis Irmãos, de lhe opor, com brevidade, a verdadeira noção da Civitas humana ? a humana Sociedade, tal qual vós a conheceis, e como no-la ensinam a razão e a Revelação, por intermédio da Igreja, Mestra dos povos.

1) Realidade suprema: Deus.

26. Acima de qualquer outra realidade está o sumo, único e supremo ser, Deus, Criador todo-poderoso de todas as coisas, Juiz sapientíssimo e justíssimo dos homens. Esta suprema realidade ? Deus ? é a mais absoluta condenação das descaradas mentiras do comunismo. E, em verdade, não porque crêem os homens Deus existe; mas porque Ele existe, n?Ele acredita e Lhe dirige seus rogos, todo aquele que não fecha voluntariamente os olhos diante da verdade.

2) Que são o homem e a família segundo a razão e a fé.

27. Quanto ao homem, o que dele dizem a fé e a razão, Nós já expusemos os pontos fundamentais na Encíclica sobre a educação cristã (Enc. Divini Illius Magistri, 31 dez. 1929, DP 7). Possui o homem uma alma espiritual e imortal; é pessoa, dotada admiravelmente pelo Criador de dons de corpo e de alma, ? verdadeiro "microcosmo", conforme diziam os antigos ? pequeno mundo, que vale muito mais que todo o imenso mundo inanimado. Ele tem, nesta e na outra vida, só Deus por último fim; pela graça santificante é elevado à dignidade de filho de Deus, e incorporado ao reino de Deus, no Místico Corpo de Jesus Cristo. Conseqüentemente, dotou-o Deus com muitas e várias prerrogativas: direito à vida, à integridade do corpo, aos meios necessários de subsistência; direito de aspirar ao seu último fim pelo caminho traçado por Deus; direito de associação, de propriedade, e uso dessa propriedade.

28. Como o matrimônio e o direito ao uso natural do matrimônio são de origem divina, assim também a constituição e prerrogativas fundamentais da família foram determinadas e fixadas pelo mesmo Criador, e não pelo humano arbítrio nem por fatores econômicos. Na Encíclica sobre o matrimonio cristão (Enc. Casti conubii, 31 dez. 1931, DP 4) e na outra Nossa Carta a que Nos referimos, sobre a educação, largamente tratamos desses assuntos.

Que é a sociedade.

1) Direitos e deveres mútuos entre o homem e a sociedade.

29. Deus, porém, ao mesmo tempo, destinou o homem para a vida social, por exigência da própria natureza humana. É a sociedade, no plano do Criador, meio natural, de que pode e deve utilizar-se o homem para alcançar os seus fins, sendo a sociedade humana para o homem, e não vice-versa. Isto não se entende no sentido do liberalismo individualista, que ao uso egoísta do indivíduo subordina a sociedade; mas só no sentido de que, mediante a união orgânica com a sociedade, a todos se torne possível, por mútua colaboração, a realização da felicidade terrena; além disso, entende-se no sentido de que, na sociedade, se podem aperfeiçoar as qualidades individuais e sociais, inerentes à natureza humana, qualidades que pairam acima do interesse imediato do momento, e na sociedade reproduzem a imagem da divina perfeição, o que, no homem isolado não pode verificar-se. Mas esse último fim da sociedade é, ele próprio, em última análise ordenado ao homem para que reconheça o reflexo da perfeição divina e assim o faça reverter em louvor e adoração ao Criador. Não a sociedade humana, qualquer que ela seja, mas somente o homem, ou pessoa humana, é dotado de razão e de vontade moralmente livre.

30. Destarte, como não pode o homem dispensar-se das obrigações por Deus exigidas em relação à sociedade civil, e como os representantes do poder civil têm o direito de coagir o homem ao cumprimento do próprio dever, quando este ilegalmente se recusar a cumpri-lo, assim também a sociedade que lhe foram concedidos pelo Criador, aos quais ? os mais importantes, acima Nos referimos; nem pode, por princípio, impedir-lhe o uso de tais direitos. É pois conforme a razão e, por exigência da razão, que, no fim de contas, todas as coisas terrenas sejam dispostas para a pessoa humana, a fim de que, por intermédio dela, se encaminhem para o Criador. Bem se aplica ao homem, ou à pessoa humana o que sobre a economia da salvação cristã escreve aos de Corinto o Apóstolo das Gentes: "Tudo é vosso, pois sois de Jesus Cristo, e Cristo é de Deus" (I Cor. 3, 23). Enquanto o comunismo empobrece a pessoa humana, invertendo os termos de relação entre o homem e a sociedade, elevam-na tão alto a razão e a Revelação!

2) A ordem econômico-social.

31. Com relação à ordem econômico-social, foram os princípios diretivos expostos na Encíclica social de Leão XIII, sobre a questão do trabalho (Enc. Rerum Novarum, 15 maio de 1891, DP 2) e em nossa Encíclica sobre a restauração social (Enc. Quadragesimo anno, 15 maio de 1931, DP 3) foram adaptados às exigências dos tempos atuais. Posteriormente, insistindo outra vez na doutrina secular da Igreja acerca do caráter individual e social da propriedade privada, temos fixado o direito e dignidade do trabalho, as relações de mútuo apoio e auxílio que devem existir entre os detentores de capital e os trabalhadores, o salário por estrita justiça devida ao operário, para ele e para a família.

32. Mostramos, na mesma Encíclica, que os meios para salvar o mundo atual da lastimável ruína em que o liberalismo amoral o fez cair, não se encontram na luta de classes e no terror, nem no abuso autocrático do poder do Estado, mas na penetração da justiça social e do sentimento do amor cristão, na ordem econômico-social. Mostramos como a sã prosperidade deve ser reconstruída de conformidade com os verdadeiros princípios de sadio cooperativismo, que respeite a devida hierarquia social, e como todas as corporações devem unir-se em harmônica unidade, inspirando-se no princípio do bem comum da sociedade. E a principal e mais genuína missão do poder público e civil consiste precisamente em promover, com eficácia, essa harmonia e coordenação de todas as forças sociais.

3) Hierarquia social e prerrogativa do Estado.

33. Suposta a colaboração orgânica para a tranqüilidade, a doutrina católica reivindica para o Estado a dignidade e a autoridade de defensor vigilante e previdente dos direitos divinos e humanos, sobre os quais as Sagradas Escrituras e os Padres da Igreja freqüentemente insistem. Não é verdade que na sociedade civil todos temos direitos iguais, e que não exista hierarquia legítima. Basta que nos reportemos às Encíclicas de Leão XIII, acima citadas, especialmente a que trata do poder do Estado (Enc. Diuturnum illud, 20 maio de 1881, DP 12), e à outra sobre a constituição cristã do Estado (Enc. Immortale Dei, 1° novembro de 1885, DP 14). Nelas encontra o católico com muita clareza expostos os princípios da razão e da fé, que o tornarão capaz de se precaver contra os erros e perigos da concepção comunista do Estado. Espoliação de direitos e escravização do homem; negação da primeira e sublime origem do Estado e do poder do Estado; abuso horrível do poder ao serviço do terrorismo coletivista são, de fato, coisas contrárias à ética natural e à vontade do Criador. Quer o homem, quer a sociedade civil tiram a sua origem do Criador, que os ordenou, mutuamente, um para o outro; portanto, nenhum dos dois pode isentar-se dos deveres que lhes são recíprocos nem renegar ou menoscabar os próprios direitos. O mesmo Criador regulou essa mútua relação em seus traços fundamentais, e é injusta usurpação o que o comunismo se arroga, ao querer impor, em lugar da lei divina baseada sobre os princípios imutáveis da verdade e da caridade, um programa político de partido, que promana do arbítrio humano, e é cheio de ódio.

4) Beleza de tal doutrina da Igreja.

34. Ao ensinar tão luminosa doutrina não tem outro fim a Igreja senão realizar o feliz anúncio apregoado pelos Anjos na gruta de Belém, ao nascer o Redentor: "Glória a Deus… e paz aos homens…" (Lc. 2, 14); paz verdadeira, e verdadeira felicidade também neste mundo, enquanto é possível, com vistas e em preparação da eterna felicidade; aos homens, porém, de boa vontade. Tal doutrina é igualmente alheia a todos os extremos do erro como de quaisquer exageros de partidos ou sistemas que lhes sejam aderentes; atém-se sempre ao equilíbrio da verdade e da justiça; reivindica-o em teoria, aplica-o e promove-o na prática, conciliando direitos e deveres de uns com os outros, isto é, a autoridade com a liberdade, a dignidade do indivíduo com a do Estado, a personalidade humana do súdito, com a representação divina no superior, e pois a devida dependência e o amor ordenado de si próprio, da família e da pátria, com o amor de outras famílias e de outros povos, fundado no amor de Deus, Pai de todos, primeiro princípio e último fim. Não separa o justo interesse dos bens temporais da solicitude dos eternos. Se a estes subordina aqueles, segundo a palavra do seu divino Fundador: "Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo mais vos será dado por acréscimo" (Mt. 6, 33), longe está de se desinteressar das coisas humanas e de prejudicar a prosperidade civil e as vantagens materiais, que, antes, sustenta e promove na maneira mais razoável e eficaz. Assim, mesmo no campo econômico-social, embora nenhum sistema técnico tenha proposto, pois não é isto de sua alçada, todavia a Igreja tem fixado claramente pontos e traços que se prestam a diversas aplicações concretas, conforme as condições dos tempos, lugares e povos, e apontam o caminho seguro para alcançar o aperfeiçoamento da sociedade.

35. A sabedoria e suma utilidade desta doutrina é admitida por quantos a conhecem verdadeiramente. Com toda razão insignes estadistas puderam afirmar que, após terem estudado diversos sistemas sociais, nada de mais sábio haviam encontrado do que os princípios expostos nas Encíclicas Rerum Novarum e Quadragesimo anno. Mas também em países não-católicos se reconhece quanto são úteis, para a sociedade humana, as doutrinas sociais da Igreja; assim que, há um mês apenas, eminente homem político do Extremo Oriente, não cristão, não duvidou em proclamar que a Igreja, com a sua doutrina de paz e fraternidade cristã, altíssima contribuição traz para o estabelecimento e manutenção da paz operosa entre as nações. Até os próprios comunistas conforme sabemos por seguras informações, vindas de toda parte a este Centro de Cristandade, se ainda não de todo corrompidos, quando se lhes expõe a doutrina social da Igreja, reconhecem a sua superioridade sobre as doutrinas de seus chefes e mestres. Só os alucinados pela paixão e pelo ódio fecham os olhos à luz da verdade, e a combatem com teimosia.

5) A Igreja procedeu de acordo com essa doutrina.

36. Os inimigos da Igreja, porém, reconhecendo embora a sabedoria de sua doutrina, censuram a Igreja por não ter sabido proceder conforme os princípios, e por isso afirmam que outros caminhos devem ser procurados. Quanto é falsa e injusta a acusação, demonstra-o toda a história do Cristianismo. Para só fazer menção de um ponto característico, foi o Cristianismo que primeiro proclamou, de maneira e com amplitude e convicção até então desconhecidas, a verdadeira e universal fraternidade dos povos de qualquer condição e raça, contribuindo assim poderosamente para a abolição da escravidão, não com revoltas sanguinolentas, mas pela força interior de sua doutrina, que fazia a orgulhosa patrícia romana ver na escrava uma sua irmã em Cristo. Foi o Cristianismo, que adora o Filho de Deus feito homem por amor dos homens, transformado em "Filho do Carpinteiro", ou antes, "Carpinteiro" Ele próprio (Mt. 13, 55; Mc. 6, 3), foi o Cristianismo que elevou o trabalho manual à sua verdadeira dignidade; esse trabalho manual anteriormente tão desprezado, que até Marcos Túlio Cícero, tão discreto, não hesitou tratá-lo com palavras que hoje envergonhariam a qualquer sociólogo: "Todos os operários se ocupam em ofícios desprezíveis, pois a oficina não pode conter algo de nobre" (M. T. Cícero, De officiis, Lib. I, c. 42).

37. Fiel a tais princípios, a Igreja regenerou a sociedade humana; surgiram, sob o seu influxo, obras de caridade, poderosas corporações de artistas e trabalhadores de toda categoria, escarnecidas como coisas da Idade Média pelo liberalismo do século passado, e agora reivindicadas para a admiração dos nossos contemporâneos, que procuram em muitos países fazer reviver de algum modo o conceito das mesmas. E quando outras correntes embaraçavam a obra, impedindo a influência salutar da Igreja, esta, até os nossos dias, não desistia de admoestar os que estavam no erro. Basta recordarmos com que firmeza, energia e constância, Nosso Predecessor Leão XIII reivindicou para o operário o direito de associação, que o liberalismo dominante nos mais poderosos Estados se obstinava em negar. Tal influência da doutrina da Igreja, ainda na hora presente, é maior do que parece, por isso que, grande e certo, embora não se possa ver nem medir, é o predomínio das idéias sobre os fatos.

38. Bem se pode dizer, com toda verdade, que a Igreja, à semelhança de Cristo, passa através dos séculos, fazendo a todos o bem. Não haveria socialismo nem comunismo, se os que governaram os povos não houvessem desprezado os ensinamentos e maternais conselhos da Igreja: preferiram, diversamente, sobre alicerces do liberalismo e do laicismo construir outros edifícios sociais, que pareciam à primeira vista poderosos e grandes; mas bem depressa reconheceram que, por lhes faltarem sólidos fundamentos, se foram desmoronando desastradamente, uma após o outro, como aliás há de desmoronar tudo quanto se não apóia sobre a única pedra angular, que é Jesus Cristo.

IV. REMÉDIOS E MEIOS DE DEFESA.

39. Esta, Veneráveis Irmãos, a doutrina da Igreja, a única que pode trazer verdadeira luz, tanto no campo social, como qualquer outro campo, e que pode, contrariamente à ideologia comunista, dar salvação. É mister, porém, que tal doutrina passe sempre cada vez mais para a vida prática, conforme admoestação do Apóstolo S. Tiago: "Sêde… cumpridores da palavra, e não simples ouvintes, iludindo-vos a vós mesmos" (Tgo. 1, 22); por isso, o que mais urge na atualidade é usar, com energia, de oportunos remédios, em oposição eficaz à ameaçadora agitação que se vai preparando. Alentamos firme confiança em que ao menos a paixão, com que os filhos das trevas dia e noite trabalham para a sua propaganda materialista e atéia, sirva para estimular santamente os filhos da luz a ter um zelo igual, antes maior, da honra da Majestade divina.

40. Que é preciso, portanto, fazer, de que remédios haveremos de usar, para defender a Cristo e a civilização cristã contra esse pernicioso inimigo? Como pai no seio de sua família, quereríamos tratar, quase na intimidade, dos deveres que a todos os filhos da Igreja impõe a grande luta de nossos dias, dirigindo também a Nossa paternal admoestação aos filhos que dela se afastaram.

Renovação da vida cristã.

1) Remédio fundamental.

41. Como em todos os períodos mais tormentosos da história da Igreja, assim também o remédio fundamental é a renovação sincera da vida particular e pública conforme os princípios do Evangelho, em todos aqueles que se gloriam de pertencer ao Redil de Cristo a fim de que sejam realmente sal da terra, que preserva a sociedade humana de tal corrupção.

42. Com profunda gratidão ao Pai das luzes, de quem desce "todo o que de melhor nos é dado, e todo o dom perfeito" (Tgo. 1, 17), vemos por toda parte sinais consoladores dessa renovação espiritual, não só em tantas almas particularmente de escol, que nestes últimos anos se elevaram ao cume de sublime santidade, e em tantas outras, sempre mais numerosas, que generosamente caminham para a mesma luminosa senda, mas também no rejuvenescimento duma piedade sentida e vivida, em todas as classes sociais, ainda as mais cultas, conforme pusemos em relevo em nosso recente motu-próprio In multis solaciis de 28 de outubro passado, por ocasião da reorganização da Academia Pontifícia de Ciências (A. A. S., XXVIII, pp. 421-424).

43. Não podemos, porém, negar que muito ainda resta fazer nesse caminho de renovação espiritual. Até em países católicos, numerosos são os católicos só de nome e os que, seguindo embora mais ou menos fielmente as práticas mais essenciais da religião que se ufanam de professar, não cuidam todavia de conhecê-la melhor, de adquirir mais profunda convicção, e, menos ainda de trabalhar por que ao verniz exterior corresponda o brilho interior duma consciência reta e pura, que sente e cumpre todos os seus deveres sob os olhares de Deus. Sabemos quanto o Divino Salvador detesta essa vã enganosa exterioridade, Ele que de todos exigia adoração ao Pai "em espírito e verdade" (Jo. 4, 23). Quem não vive verdadeira e sinceramente conforme a fé que professa, hoje, quando tão galhardamente sopra o vento da luta e da perseguição, não poderá manter-se por longo tempo, mas será miseravelmente envolvido nesse novo dilúvio, que ameaça o mundo, e, destarte, enquanto prepara para si a própria ruína, também ao opróbrio exporá o nome cristão.

2) Desapego dos bens terrenos.

44. E aqui, Veneráveis Irmãos, queremos mais particularmente insistir em dois ensinamentos do Senhor, que têm especial relação com as condições atuais do gênero humano: o desapego dos bens terrenos, e o preceito da caridade. "Bem-aventurados os pobres de espírito", foram as primeiras palavras que saíram dos lábios do Divino Mestre, no sermão da montanha (Mt. 5, 3). E esta lição é hoje mais do que nunca necessária, em tempos de materialismo sedento de bens e de prazeres deste mundo. Todos os cristãos, ricos ou pobres, devem sempre ter o olhar fixo no Céu, lembrando-se de que "não temos aqui morada permanente, mas vamos em busca de outra futura" (Hb. 13, 14). Os ricos não devem pôr nas coisas da terra a própria felicidade, nem, para a consecução das mesmas, empregar seus melhores esforços; mas considerando-se simplesmente administradores, a quem assiste obrigação de um dia prestar contas ao Dono supremo, delas se hão de servir como de meios valiosos, que Deus lhes proporciona para fazer o bem; não deixem de distribuir aos pobres o supérfluo, conforme o preceito evangélico (Lc. 11, 41). De outra forma verificar-se-á com eles, e em relação às riquezas, a severa sentença de S. Tiago Apóstolo: "Eia, ricos, chorai agora, gemei desesperadamente, por causa das misérias que sobre vós advirão. Vossas riquezas apodreceram e vossos vestidos pela traça foram destruídos. Enferrujou-se o ouro e a prata de vossa propriedade; sua ferrugem servirá de testemunha contra vós, e como fogo devorará as vossas carnes. Acumulastes contra vós tesouros de ira, para os últimos dias…" (Tgo. 5, 1-3).

45. Quanto aos pobres, procurando por sua vez de acordo com as leis da caridade e da justiça, o necessário, e até melhores condições de vida, devem sempre permanecer também "pobres de espírito" (Mt. 5, 3), tendo os bens espirituais em maior apreço que os bens e gozos terrenos. Tenham em mente que se não conseguirá jamais fazer desaparecer do mundo as misérias, dores e atribulações, a que também estão sujeitos aqueles que na aparência se mostram mais afortunados. É necessário , pois, para todos, a paciência, a paciência cristã que dirige o coração para as promessas divinas duma eterna felicidade. "Sêde, pois, pacientes, ó irmãos, ? ainda com S. Tiago vos exortamos ? até a vinda do Senhor. O agricultor espera o fruto precioso da terra, e o espera com paciência, até receber o fruto temporão e o tardio. Sêde também vós pacientes, e reanimais os vossos corações, porque a chegada do Senhor está próxima" (Tgo. 5, 4-8). Assim, somente, se cumprirá a consoladora promessa do Senhor: "Bem-aventurados os pobres". E esta não é consolação nem promessa vã, como são as promessas dos comunistas; são palavras de vida e de verdade profunda aqui realizadas plenamente e, depois, na eternidade. Com efeito, quantos pobres, nestas palavras e na expectativa do Reino dos Céus, já proclamado propriedade deles, "porque o Reino de Deus é vosso" (Lc. 6, 20), encontram a felicidade que tantos ricos não possuem em suas riquezas, sempre inquietos e sequiosos de mais e mais riquezas.

3) Caridade cristã.

46. Mais importante ainda como remédio do mal de que tratamos, ou ao menos, mais diretamente ordenado a curá-lo, é o preceito da caridade. Nós referimo-Nos àquela caridade cristã "paciente e benigna" (I Cor. 13, 4) que, sem ares de aviltante proteção e sem qualquer ostentação, desde o início do Cristianismo ganhou para Cristo, os mais pobres entre os pobres ? os escravos; e somos gratos a quantos, em obras de beneficência, desde as conferências de S. Vicente de Paulo até as grandes e recentes organizações de assistência social, praticaram e praticam as obras de misericórdia espiritual e corporal. Quanto mais os operários e os pobres experimentarem em si mesmos o que por eles faz o espírito de amor, animado pela virtude de Cristo, tanto mais renunciarão ao preconceito de que o Cristianismo perdeu sua eficácia e que a Igreja esteja com aqueles que lhes exploram o trabalho.

47. Quando vemos, porém, de um lado multidões de indigentes realmente oprimidos pela miséria, por motivos alheios à sua vontade; e do outro, perto deles, muitos que se divertem despreocupadamente, e em coisas inúteis gastam enormes somas, não podemos deixar de reconhecer, com grande pesar, que não somente a justiça não é bem observada, mas também o preceito da caridade cristã não é suficientemente conhecido nem vivido, na prática de cada dia.

Desejamos, portanto, Veneráveis Irmãos, que, pela palavra e por escrito, seja sempre mais explicado este divino preceito, preciosa senha do reconhecimento deixado por Cristo a seus verdadeiros discípulos, preceito que nos ensina a ver nos que sofrem o mesmo Jesus Cristo, e nos impõe amor a nossos irmãos como nos amou o Divino Salvador, isto é, até o sacrifício de nós mesmos, e se preciso for, da própria vida. Sejam, pois, por todos e com freqüência meditadas aquelas palavras, a um tempo consoladora e terríveis, da sentença que no dia do Juízo Final será proferida pelo Supremo Juiz: "Vinde, ó benditos de meu Pai… porque tive fome, e vós me destes de comer, tive sede, e me destes de beber… Em verdade vos digo, que todas as vezes que algo fizestes em prol dos pequeninos entre meus irmãos, a mim o fizestes" (Mt. 25, 34-40). E ao contrário: "Ide longe de mim, amaldiçoados, para o fogo eterno… porque tive fome, e vós não me destes de comer, tive sede e me não destes de beber… Em verdade vos digo que todas as vezes que o não fizestes a um desses pequeninos entre meus irmãos, a mim não o fizestes" (Mt. 25, 41-45).

48. Para garantia, pois, da vida eterna e para poder socorrer eficazmente os indigentes, é mister voltar a uma vida mais modesta; renunciar aos prazeres freqüentemente pecaminosos, que o mundo hoje oferece exuberantemente, esquecer-se de si mesmo por amor do próximo. Divina força regeneradora tem este "novo preceito" (como lhe chama Jesus) da caridade cristã (Jo. 13, 34), cuja fiel observância infundirá nos corações paz interior desconhecida do mundo, e trará eficaz remédio aos males que atormentam a humanidade.

4) Deveres de estrita justiça.

49. Mas a caridade nunca será verdadeira, se não tiver em conta a justiça. Ensina o Apóstolo que "quem ama o próximo, cumpriu a lei"; e disto dá razão: "visto como Não pecar contra a castidade, Não matar, Não roubar… e os demais preceitos nesta forma se resumem: "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo" (Rom. 13, 8-9). Se, pois, segundo o Apóstolo, todos os deveres se reduzem ao exclusivo preceito da verdadeira caridade, mesmo aqueles que são de estrita justiça, como o "Não matar e o Não roubar", uma caridade, que prive o operário do salário a que faz jus por direito definido, não é caridade, mas nome vão e oca aparência de caridade. Nem o operário haverá de receber por esmola o que de justiça lhe pertence, nem se há de tentar dispensa dos grandes deveres da justiça com pequenas ofertas de misericórdia. Caridade e justiça impõem freqüentemente deveres que dizem respeito à mesma coisa embora sob diverso aspecto, e os operários, por motivo de dignidade, são justamente muito suscetíveis em relação aos deveres de outrem para com eles.

50. Portanto a vós de modo particular Nos dirigimos, patrões e industriais cristãos, cuja tarefa freqüentemente tão difícil se torna, porque carregais pesada herança de erros dum regime econômico iníquo, que em várias gerações exerceu desastrosa influência: tende vós mesmos bem presente a vossa responsabilidade. Verdade é, infelizmente, que a maneira de proceder de certos meios católicos contribuiu para abalar a confiança dos trabalhadores na religião de Cristo. Não quiseram compreender que a caridade cristã exige o reconhecimento de certos direitos, que ao operário se devem, e que explicitamente lhe tem reconhecido a Igreja. Como se haverá de julgar o procedimento de patrões católicos, que, nalguns lugares, conseguiram impedir fosse lida, em suas igrejas patronais, a Nossa Encíclica Quadragesimo anno? E os industriais católicos que até hoje se mostram adversários dum movimento operário por Nós mesmos recomendado? Não é para se lastimar, em verdade, que o direito de propriedade, reconhecido pela Igreja tenha às vezes servido para defraudar o operário no justo salário e em seus direitos sociais?

5) Justiça social.

51. Existe, realmente, além da justiça comutativa, a justiça social, que impõe deveres, a que se não podem subtrair nem patrões nem operários. Compete-lhe propriamente exigir de cada um tudo quanto é necessário para o bem geral. Mas, como, em relação ao organismo do vivente, não se provê ao todo, se a cada uma das partes e a cada membro não se der quanto lhes é necessário ao exercício de suas funções, assim também não se pode prover acerca do organismo social e do bem de toda a sociedade, se a cada uma das partes e a cada membro que são homens que possuem a dignidade de pessoas, não se der tudo aquilo que lhes é necessário para exercer as próprias funções sociais. Praticada também a justiça social, dela resultará, na tranqüilidade e na ordem, intensa atividade de toda a vida econômica, mostrando que o corpo social está são, como acontece no corpo humano, cuja saúde se reconhece na imperturbável e ao mesmo tempo plena e benéfica energia de todo o organismo.

52.                          Não se pode entretanto afirmar ter-se cumprido a justiça social, se os operários não tiverem garantido o próprio sustento e o da família com um salário conveniente a esse fim; se lhes não é facilitada a oportunidade de adquirir modesto pecúlio, prevenindo-se desse modo contra a chaga da miséria comum, se não forem tomadas todas as providências em seu favor, com seguros públicos ou particulares para o tempo da velhice, da doença, ou quando se achem desempregados. Numa palavra, repetindo o que dissemos em Nossa Encíclica : "Poderá subsistir, de fato, e alcançará suas finalidades a economia social, quando a todos e a cada um de seus membros forem proporcionados todos os bens que podem ser fornecidos pelas forças e subsídios da natureza, pela técnica, e pela constituição social do fator econômico. Devem esses bens ser suficientemente abundantes, para que satisfaçam às necessidades duma honesta subsistência e para que sejam elevados os homens a melhores condições de vida, o que, tudo feito com prudência, não somente não é entrave para a virtude, mas a favorece consideravelmente" (DP 3, n. 75).

53. Se, pois, como acontece mais freqüentemente com o assalariado, não pode ser praticada a justiça pelo indivíduo, se todos não concordarem em praticá-la conjuntamente, mediante instituições que unam entre si empregadores, para evitar entre eles concorrência incompatível com a justiça devida aos empregados, então é dever dos donos de empresas e dos patrões promover e manter tais instituições necessárias, que se tornam meio normal para o cumprimento dos deveres de justiça. Lembrem-se também os empregados das obrigações de caridade e de justiça para com os empregadores, e fiquem certos de que dessa maneira melhor ainda defenderão os próprios interesses.

54. Considerando-se, portanto, a complexidade da vida econômica, ? como já notamos em nossa Encíclica Quadragesimo anno ? não é possível fazer reinar nas relações econômico-sociais a mútua colaboração da justiça e da caridade, senão por meio de um corpo de instituições profissionais e interprofissionais, sobre bases solidamente cristãs, ligadas entre si, e formando, sob moldes diversos e adequados a lugares e circunstâncias, o que se chamava Corporação.

6) Estudo e difusão da doutrina cristã.

55. Para dar à ação social maior eficácia, torna-se mui necessário promover o estudo dos problemas sociais à luz da doutrina da Igreja e difundir seus ensinamentos sob a proteção da Autoridade por Deus constituída na própria Igreja. Se a maneira de proceder de alguns católicos deixou algo a desejar, no campo econômico-social, isto freqüentemente se deu porque não conheceram nem meditaram bastante os ensinamentos dos Sumos Pontífices acerca do assunto. Torna-se, portanto, sumamente necessário que em todas as classes sociais se promova mais intensa formação social, que corresponda aos diversos graus de cultura intelectual, e se procure com toda solicitude e habilidade a mais larga difusão dos ensinamentos da Igreja, mesmo entre a classe operária. Sejam as inteligências iluminadas pela luz segura da doutrina católica e as vontades inclinadas a segui-la e aplica-la como norma de vida moral, pela observância conscienciosa dos múltiplos deveres sociais, opondo-se assim à incoerência e descontinuidade da vida cristã por Nós várias vezes comentada, motivo pelo qual alguns, enquanto na aparência se mostram fiéis cumpridores de seus deveres religiosos, no campo porém do trabalho, da indústria e profissão, no comércio ou no emprego, por deplorável desdobramento de consciência, levam uma vida muito desconforme com as normas assim chamadas da justiça e da caridade cristã, causando deste modo grave escândalo aos fracos e oferecendo aos maus fácil pretexto para desacreditar a própria Igreja.

56. Grande contribuição para esta restauração social pode fornecer a imprensa católica. Ela pode e deve primeiramente procurar, com modos vários e atraentes, tornar sempre mais bem conhecida a doutrina social, informar com exatidão e também com a devida amplitude, sobre as atividades do inimigo e sobre os meios empregados para o combate, que melhor resultado deram em várias regiões; poderá propor úteis sugestões, e estar alerta contra a astúcia e enganos com que os comunistas procuram, e já o conseguiram, atrair para si homens de boa fé.

7) Precaver-se contra as ciladas do comunismo.

57. Sobre este ponto já insistimos em Nossa Alocução de 12 de maio do ano passado, mas julgamos necessário, Veneráveis Irmãos, novamente de modo particular, chamar vossa atenção. O comunismo manifestou-se no começo tal qual era em toda a sua perversidade, mas logo percebeu que assim afastava de si os povos; mudou então de tática, e procura ardilosamente atrair as multidões, ocultando os próprios intuitos atrás de idéias, em si boas e atraentes.

Destarte, vendo o desejo comum de paz, os chefes do comunismo fingem ser os mais zelosos fautores e propagandistas do movimento pela paz mundial; mas ao mesmo tempo excitam os homens para a luta de classe, que faz correr rios de sangue, e, pressentindo falta de garantia interna de paz, recorrem a armamentos sem limites. Assim, sob denominações várias, que nem sequer fazem alusão ao comunismo, fundam associações e periódicos, que, na verdade, servem só para fazer penetrar suas idéias em meios que de outra forma lhes seriam menos acessíveis; procuram até infiltrar-se insidiosamente em associações católicas e religiosas. Assim, em alguns lugares, mantendo-se firmes em seus perversos princípios, convidam os católicos a colaborar com eles, no chamado campo humanitário e caritativo, propondo por vezes coisas em tudo até conformes ao espírito cristão e à doutrina da Igreja. Em outras partes, sua hipocrisia vai ao ponto de fazer acreditar que o comunismo, em países da maior fé ou de maior cultura, tomará feição mais branda, não impedirá o culto religioso e respeitará a liberdade de consciência. Mais. Alguns há que, referindo-se a certas mudanças introduzidas recentemente na legislação soviética, daí concluem que o comunismo está prestes a abandonar o seu programa de luta contra Deus.

58. Velai, Veneráveis Irmãos, por que se não deixem iludir os fiéis. Intrinsecamente perverso é o comunismo, e não se pode admitir, em campo algum, a colaboração recíproca, por parte de quem quer que pretenda salvar a civilização cristã. E se alguém, induzido em erro, cooperasse para a vitória do comunismo em seu país, seria o primeiro a cair vítima do próprio erro. Quanto mais se distinguirem pela antigüidade e grandeza de sua civilização cristã as regiões onde consegue penetrar o comunismo, tanto mais devastador se manifestará aí o ódio dos "sem-Deus".

8) Oração e penitência.

59. "Se o Senhor, porém, não for a sentinela da cidade, em vão velará seu guardião" (Sl. 126, 1). Por isto, como último e poderosíssimo remédio, recomendamo-vos, Veneráveis Irmãos, promover e intensificar, da maneira mais eficaz, em vossa Diocese, o espírito da oração unida à penitência cristã.

Quando ao Salvador perguntaram os Apóstolos, por que não haviam eles conseguido libertar um possesso do espírito maligno, respondeu-lhes o Senhor: "Tais demônios não se expulsam senão pela oração e pelo jejum" (Mt. 17, 20). Também o mal que hoje atormenta a humanidade não poderá ser vencido senão por uma santa cruzada universal de orações e penitências. Recomendamos, pois, principalmente às Ordens contemplativas, masculinas e femininas, redobrarem suas preces e sacrifícios, a fim de impetrar do Céu para a Igreja valiosa proteção nas lutas presentes, pela poderosa intercessão da Virgem Imaculada, a qual, como esmagou um dia a cabeça da antiga serpente, assim continua sempre como segura defensora e invencível "Auxílio dos Cristãos".

V. MINISTROS E AUXILIARES DESTA OBRA SOCIAL DA IGREJA.

1.                              Os sacerdotes.

60. Para a obra mundial de salvação que vimos delineando, e para a aplicação dos remédios que sumariamente apontamos, ministros e operários evangélicos designados pelo divino Rei Jesus Cristo são, em primeiro lugar, os Sacerdotes. A eles, por especial vocação, guiados pelos Pastores Sagrados, e em união de filial obediência ao Vigário de Jesus Cristo na terra, é confiado o encargo de conservar acesa no mundo a chama da fé e de infundir nos fiéis aquela esperança sobrenatural, com que a Igreja, em nome de Jesus Cristo, combateu e venceu tantas outras batalhas: "É esta a vitória que vence o mundo, a nossa fé" (I Jo. 5, 4).

61. Lembramos de modo particular aos Sacerdotes a exortação, tantas vezes repetida, de Nosso Predecessor Leão XIII, de ir ao operário, exortação que Nós fazemos nossa, e completamos: "Ide ao operário, especialmente ao operário pobre; ide, em geral, aos pobres", seguindo nisto os ensinamentos de Jesus e sua Igreja. Com efeito, os pobres são as maiores vítimas dos embusteiros, que exploram sua miserável condição, para lhes despertar inveja contra os ricos e excitá-los a tomar para si, pela força, aquilo que lhes parece injustamente recusado pela fortuna; e se o sacerdote não for aos operários, aos pobres, para preveni-los, ou desenganá-los dos preconceitos ou das falsas teorias, tornar-se-ão eles fácil presa dos apóstolos do comunismo.

62. Não podemos negar que muito se tem feito neste sentido, particularmente depois das Encíclicas Rerum novarum e Quadragesimo anno; e, com paternal agrado, aplaudimos os laboriosos desvelos pastorais de tantos Bispos e Sacerdotes, que vão procurando e experimentando cautelosamente, com a devida prudência, novos métodos de apostolado, que melhor correspondam às exigências do tempo. Tudo isso, porém, é muito pouco para as necessidades presentes. Como, quando a pátria está em perigo, tudo aquilo que não é estritamente necessário ou diretamente destinado à urgente necessidade da defesa comum, passa para segundo plano, assim também, em nosso caso, qualquer outra obra, conquanto boa e bela, há de ceder lugar à necessidade vital de salvar o fundamento da fé e da civilização cristã. Portanto, nas paróquias, dando embora o que devem naturalmente dar para a cura habitual das almas, reservem os sacerdotes o melhor de suas energias e atividades para reconduzir a Cristo e à Igreja as massas dos trabalhadores e fazer penetrar o espírito cristão em meios que dele mais se alhearam. Encontrarão, nas multidões populares, inesperada correspondência e abundância de frutos, que lhes recompensará o penoso trabalho da primeira lavoura, como vimos e vemos em Roma e em várias metrópoles, onde, ao surgir de novas igrejas nos arrabaldes, se vão formando zelosas associações paroquiais e se operam verdadeiros milagres de conversões entre populações que eram hostis à religião, só porque a não conheciam.

63. Mas o meio mais eficaz de apostolado, entre as multidões de pobres e humildes, é o exemplo do sacerdote, exemplo de todas as virtudes sacerdotais, conforme as descrevemos em Nossa Encíclica Ad catholici sacerdotii (20 dez. 1935, DP 8); e, no caso presente, de modo especial, é necessário o exemplo luminoso da vida humilde, pobre, desinteressada, cópia fiel do Divino Mestre que podia, com franqueza divina, proclamar: "As raposas têm seus covis e as aves do ar seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça" (Mt. 8, 20). O verdadeiro sacerdote, evangelicamente pobre e desinteressado, faz milagres de bem no meio do povo, como S. Vicente de Paulo, o Cura d?Ars, Cottolengo, Dom Bosco e tantos outros; ao passo que o avarento e interesseiro, como dissemos na Encíclica já citada, ainda quando não se precipita como Judas, no abismo da traição, será no mínimo oco "bronze retumbante, címbalo inútil que tine" (I Cor. 13, 1); e mui freqüentemente, antes entrave que instrumento de graça, no meio do povo. E se, por dever de oficio, deve o sacerdote secular ou regular administrar bens temporais, lembre-se que não só há de observar escrupulosamente tudo o que prescreve a caridade e a justiça, mas de modo particular deve mostrar-se verdadeiro Pai dos pobres.

2) Ação Católica.

64. Dirigimos, depois do Clero, Nosso paternal convite aos caríssimos filhos Nossos do laicato, que militam nas fileiras da Ação Católica, de Nós tão querida, que, em outra ocasião (12 de maio 1936, A.A.S., XXIX, pp. 139-144), já declaramos ser "subsídio particularmente providencial" para a obra da Igreja, nestas tão difíceis contingências. Com efeito, a Ação Católica é também apostolado social, porque tende a difundir o Reino de Jesus não só nos indivíduos, mas ainda nas famílias e na sociedade. Antes de tudo, portanto, deve formar com particular empenho seus associados, e prepará-los para as santas pelejas do Senhor. Em tal trabalho de formação, mais do que nunca urgente e necessário, que há de ser sempre anteposto à ação direta e positiva, servirão de certo os círculos de estudo, as semanas sociais, cursos organizados de conferências e demais iniciativas apropriadas a tornar conhecida, no sentido cristão, a solução dos problemas sociais.

65. Soldados da Ação Católica, assim preparados e adestrados, serão os primeiros e imediatos apóstolos de seus companheiros de trabalho, e se tornarão preciosos auxiliares do sacerdote, para levar a luz da verdade e aliviar graves misérias materiais e espirituais, refratárias em várias partes à ação do ministro de Deus ou por inveterados preconceitos contra o Clero, ou lamentável apatia religiosa. Cooperar-se-á de tal modo, sob a direção de sacerdotes especializados, naquela assistência religiosa às classes trabalhadoras, meio para tanto encarecemos como o mais apropriado meio para preservar queridos filhos Nossos da cilada comunista.

66. Além do apostolado individual, quase sempre oculto, mas sobremaneira útil e eficaz, cabe à Ação Católica fazer, com a propaganda oral e escrita, larga difusão dos princípios fundamentais que sirvam para a constituição duma ordem social cristã, de acordo com os documentos pontifícios.

3) Organizações auxiliares.

67. Em torno da Ação Católica, agrupam-se organizações que temos já aplaudido, como auxiliares da mesma. Exortamos, com paternal afeto, também essas utilíssimas organizações a consagrar-se à grande missão de que tratamos, missão que, por sua importância vital, supera todas as demais.

4) Organizações de classe.

68. Nosso pensamento também se dirige às associações da classe de operários, de agricultores, engenheiros, médicos, patrões, estudantes, e outras semelhantes de homens e mulheres, que vivem nas mesmas condições culturais e, quase pela própria natureza, se reuniram em grupos homogêneos. São precisamente tais grupos e organizações destinados a estabelecer, na sociedade aquela ordem que Nós tivemos em mira na Encíclica Quadragesimo anno, e a difundir assim o reconhecimento da realeza de Cristo nos diversos campos da cultura e do trabalho.

69. E se, por condições diversas da vida econômica e social, o Estado se julgou no dever de intervir até o ponto de assistir e regulamentar diretamente essas instituições, com particulares disposições legislativas, salvo o respeito devido às liberdades e iniciativas particulares, ainda assim, em tais circunstâncias, a Ação Católica não pode ficar alheia à realidade, mas deve dar com sabedoria a contribuição de sua inteligência, pelo estudo dos novos problemas à luz da doutrina católica, e de sua atuação, pela participação leal e cheia de boa vontade de seus membros, nas novas formas e instituições, impregnando-as do espírito cristão, que é sempre princípio de ordem e de mútua e fraternal colaboração.

5) Apelo aos operários católicos.

70. Uma palavra particularmente paterna queremos aqui dirigir aos Nossos caros operários católicos, jovens e adultos que, talvez para galardão de sua fidelidade, por vezes heróica, nestes tempos tão difíceis têm que cumprir missão mui nobre e trabalhosa. Sob a orientação de seus Bispos e Sacerdotes, cabe-lhes reconduzir, para a Igreja de Deus, multidões imensas de irmãos no trabalho, que, irritados por não terem sido compreendidos ou tratados convenientemente, se afastaram de Deus. Os operários católicos, com o exemplo e por palavras, mostrem, a seus irmãos desviados, que a Igreja é Mãe carinhosa de todos aqueles que trabalham e sofrem, e nunca faltou nem faltará ao sagrado dever de mãe, na defesa de seus filhos. Se a missão que eles devem cumprir nas minas, nas fábricas, nas oficinas, em toda parte onde se trabalha, exige por vezes grandes sacrifícios, lembrem-se de que o Salvador do mundo deu exemplo não só de trabalho, mas também de sacrifício.

6) Necessidade de concórdia entre os católicos.

71. A todos os Nossos filhos, portanto, de qualquer classe social, de qualquer nação, de qualquer agremiação religiosa e leiga, na Igreja, desejamos dirigir novo e mais caloroso apelo para a concórdia. Várias vezes o Nosso coração paterno foi magoado por cisões quase sempre fúteis em suas causas, e sempre trágicas em suas conseqüências, pondo em litígio filhos de uma só Mãe, a Igreja. Destarte, os amigos da desordem, não são tão numerosos, aproveitando tais divergências as tornam mais agudas, e acabam por lançar os mesmos católicos uns contra outros. Depois dos acontecimentos destes últimos meses, deveria parecer supérfluo todos aqueles que não compreenderam ou não querem compreender. Os que se empenham em fomentar discórdias entre católicos assumem grave responsabilidade diante de Deus e da Igreja.

7) Apelo a todos os que acreditam em Deus.

72.                          Mas, quanto a esse combate, alimentado pelo poder das trevas, contra a própria idéia da Divindade, apraz-Nos alentar a esperança de que, além dos que se gloriam do nome de Cristo, se oponham valorosamente também aqueles (e são a maior parte da humanidade) que ainda crêem em Deus e O adoram. Renovamos, portanto, o apelo que, há cinco anos fizemos em Nossa Encíclica Caritate Christi, a fim de que também eles leal e cordialmente concorram de sua parte para "afastar da humanidade o grande perigo que a todos ameaça".

Pois conforme dizíamos então, se "acreditar em Deus é fundamento inabalável de toda ordem social, de toda responsabilidade sobre a terra, assim todos aqueles que não querem a anarquia e o terror devem energicamente trabalhar para que os inimigos da religião não consigam o fim por eles tão abertamente proclamado" (3 de maio de 1932, A.A.S., XXIV, p. 184).

Deveres do Estado Cristão.

1) Auxiliar a Igreja.

73. Expusemos, Veneráveis Irmãos, a tarefa positiva de ordem doutrinária e ao mesmo tempo prática, que a Igreja assume pelo próprio motivo da missão que lhe confiou Cristo, de edificar a sociedade cristã, e, em nossos tempos, de combater e quebrantar os esforços do comunismo. Nesse intento, apelamos para todas e cada uma das classes sociais.

Para este mesmo cometimento espiritual da Igreja deve o Estado cristão também concorrer positivamente, auxiliando a Igreja na tarefa com os meios de que dispõe, os quais, embora sejam meios externos, têm por fim, em primeiro lugar, sempre o bem das almas.

74. Terão, por isso, os Estados todo cuidado de impedir que uma propaganda atéia, perturbadora de todos os fundamentos da ordem, semeie em suas terras a morte, visto que se não pode manter autoridade terrena, se não se reconhecer a autoridade da Majestade divina, nem se tornará inabalável o juramento, se não for feito em nome de Deus vivo. Repetimos o que várias vezes com tanta insistência temos afirmado, nomeadamente em nossa Encíclica Caritate Christi (DP 29): "Como há de perdurar qualquer contrato, e que valor pode ter um tratado, em que falta garantia de consciência? E como se pode falar em garantia de consciência onde a fé e temor de Deus são desprezados? Destruída esta base, cairá com ela toda a lei moral, e não haverá remédio algum que possa impedir a gradativa e inevitável ruína dos povos, das famílias, do Estado e da própria civilização humana" (3 maio de 1932, A.A.S., XXIV, 3. 190).

2) Providências de bem comum.

75. Além disto deve o Estado envidar esforços para estabelecer as condições materiais de existência sem as quais uma sociedade organizada não pode subsistir, para fornecer o trabalho principalmente aos pais de família e à mocidade. Nesse intuito sejam levadas as classes abastadas a tomar sobre si, pela necessidade urgente do bem comum, os encargos sem os quais a sociedade humana não pode salvar-se, nem elas mesmas poderiam encontrar salvação. As providências, porém, que ao Estado cabe tomar, para esse fim, devem ser tais que atinjam positivamente aqueles que de fato têm em mãos maiores capitais, que vão aumentando continuamente, com grave dano para os outros.

3) Administração sóbria e prudente.

76. O próprio Estado, tendo presente sua responsabilidade diante de Deus e da sociedade, com prudente e sóbria administração, sirva de exemplo a todos os outros. Hoje, mais do que nunca, a gravíssima crise mundial exige dos que dispõem de maiores recursos ? fruto do trabalho e energia de milhões de cidadãos ? que tenham sempre diante dos olhos unicamente o bem comum e, quanto lhes seja possível, se apliquem a promovê-lo. Também os servidores do Estado e todos os empregados, conscienciosamente, com fidelidade e desinteresse, cumpram suas obrigações, seguindo os luminosos exemplos antigos e recentes de homens insignes, que, trabalhando sem cessar, sacrificam toda a vida para o bem da pátria. Procure-se, pois, no comércio dos povos entre si, remover com solicitude aqueles impedimentos artificiais da vida econômica, que promanam de sentimentos de desconfiança e de ódio, lembrando-se de que todos os povos da terra constituem uma só família de Deus.

4) Não entravar a liberdade da Igreja.

77. Não deve, por igual, o Estado entravar a plena liberdade da Igreja em cumprir a sua divina missão de todo espiritual, a fim de assim contribuir, poderosamente, para salvar os povos da terrível tormenta da hora presente. Por toda parte, faz-se hoje apelo aos valores morais e espirituais; e, com razão, porque o mal que há de ser combatido é, antes de tudo, considerado, em sua primeira fonte, mal de natureza espiritual, e dessa fonte é que nascem, por lógica diabólica, todas as monstruosidades do comunismo. Ora, entre os valores morais e religiosos tem incontestavelmente preeminência a Igreja Católica. Logo, exige o próprio bem da humanidade que se não ponham obstáculos à sua atuação.

78. Se de outra forma se proceder, e, ao mesmo tempo se pretenda alcançar essa finalidade com meios puramente econômicos e políticos, cai-se na trama de perigoso erro. E, quando se exclui a religião da escola, da educação, da vida pública, e se põem em ridículo os representantes do Cristianismo e seus ritos sagrados, porventura não se fomenta o materialismo de onde tira a sua origem o comunismo? Nem a força, ainda a mais bem organizada, nem os ideais da terra, sejam embora maiores e os mais nobres, podem dominar um movimento que tem por base precisamente a demasiada estima dos bens terrenos.

5) Apelo paterno aos desviados.

80. Não podemos, porém, terminar esta Carta Encíclica, sem dirigir uma palavra aos mesmos filhos Nossos que estão já, ou quase, contaminados do mal comunista. Nós os exortamos calorosamente a ouvir a voz do Pai que os ama; e rogamos ao Senhor que os ilumine, a fim de que abandonem o caminho incerto, que a todos arrasta para imensa e tremenda ruína, e reconheçam também eles que o único Salvador é Jesus Cristo, Senhor Nosso: pois que não há sob o Céu outro nome dado aos homens, no qual possamos esperar salvação (At. 4, 12).

CONCLUSÃO.

1) São José, modelo e patrono.

81. E para apressar a "Paz de Cristo no Reino de Cristo" (Enc. Ubi Arcano, 23 dez. 1922, DP 19), colocamos a ingente ação da Igreja Católica contra o comunismo ateu mundial sob o amparo do poderoso Protetor da Igreja, S. José. Pertenceu à classe operária, e da pobreza experimentou o peso, para si e para a Sagrada Família, da qual era chefe vigilante e afetuoso; a ele foi confiado o Divino Infante, quando Herodes atirou no encalço d?Ele os seus algozes. Com uma vida de observância estrita de seus deveres cotidianos, deixou exemplo a todos aqueles que hão de ganhar o pão de cada dia com o trabalho de suas mãos, e mereceu ser chamado Justo, modelo vivo da justiça cristã que deve predominar na vida social.

82. Com os olhos voltados para o Alto, vê a nossa Fé os novos Céus e a nova terra, de que fala o primeiro Antecessor Nosso, S. Pedro (II Ped 3, 13; cf. Is 65, 17; 66, 22; Apoc 21, 1). Enquanto as promessas dos falsos profetas desta terra dão em sangue e lágrimas, resplandece de celestial beleza a grande profecia apocalíptica do Redentor do mundo: "Eis que eu renovo todas as coisas" (Apoc. 21, 5). Só nos resta, Veneráveis Irmãos, erguer as mãos paternas, e fazer descer sobre vós, sobre o vosso clero e povo, sobre toda a grande Família Católica, a Benção Apostólica. Dado em Roma, junto de S. Pedro, na festa de S. José, Patrono da Igreja Universal, aos 19 de março de 1937, em o ano XVI do Nosso Pontificado.

PIO PP. XI.

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