Documentos da Igreja

Documento de aparecida – parte iii

TERCEIRA PARTE:  VIDA DE JESUS CRISTO PARA NOSSOS POVOS

CAPÍTULO 7
A MISSÃO DOS DISCÍPULOS A SERVIÇO DA VIDA PLENA

347. “A Igreja peregrina é missionária por natureza, porque toma sua origem da missão do Filho e do Espírito Santo, segundo o desígnio do Pai”198. Por isso, o impulso missionário é fruto necessário à vida que a Trindade comunica aos discípulos.

7.1 Viver e comunicar a vida nova em Cristo a nossos povos

348. A grande novidade que a Igreja anuncia ao mundo é que Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, a Palavra e a Vida, veio ao mundo para nos fazer “partícipes da natureza divina” (2 Pe 1,4), e para que participemos de sua própria vida. É a vida trinitária do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a vida eterna. Sua missão é manifestar o imenso amor do Pai, que quer que sejamos seus filhos. O anúncio do kerygma convida a tomar consciência desse amor vivificador de Deus que nos é oferecido em Cristo morto e ressuscitado. Isto é o que primeiro necessitamos anunciar e também escutar, porque a graça tem um primado absoluto na vida cristã e na atividade evangelizadora da Igreja: “Pela graça de Deus sou o que sou” (1 Cor 15,10).

349. O chamado de Jesus no Espírito e o anúncio da Igreja apelam sempre à nossa acolhida, confiados pela fé. “Aquele que crê em mim tem a vida eterna”. O batismo não só purifica dos pecados. Faz renascer o batizado, conferindo-lhe vida nova em Cristo, que o incorpora à comunidade dos discípulos e missionários de Cristo, à Igreja, e o faz filho de Deus, permite reconhecer a Cristo como Primogênito e Cabeça de toda a humanidade. Sermos humanos implica vivermos fraternalmente e sempre atentos às necessidades dos mais fracos.

350. Nossos povos não querem andar pelas sombras da morte. Têm sede de vida e  de felicidade em Cristo. Buscam-no como fonte de vida. Desejam essa vida nova em Deus, para a qual o discípulo do Senhor nasce pelo batismo e renasce pelo sacramento da reconciliação. Procuram essa vida que se fortalece, quando é confirmada pelo Espírito de Jesus e quando o discípulo renova sua aliança de amor em Cristo, com o Pai e com os irmãos, em cada celebração eucarística. Acolhendo a Palavra de vida eterna e alimentados pelo Pão descido do céu, quer viver a plenitude do amor e conduzir todos ao encontro com Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.

351. No entanto, no exercício de nossa liberdade, às vezes recusamos essa vida nova (cf. Jo 5,40) ou não perseveramos no caminho (cf. Hb 3,12-14). Com o pecado, optamos por um caminho de morte. Por isso, o anúncio de Jesus sempre convoca à conversão, que nos faz participar do triunfo do Ressuscitado e inicia um caminho de transformação.

352. Dos que vivem em Cristo se espera um testemunho muito  crível de santidade e de compromisso. Desejando e procurando essa santidade não vivemos menos, mas melhor, porque, quando Deus pede mais, é porque está oferecendo muito mais: “Não tenham medo de Cristo! Ele não tira nada e nos dá tudo!”199.

7.1.1 Jesus a serviço da vida

353. Jesus, o Bom Pastor, quer nos comunicar a sua vida e se colocar a serviço da vida. Vemos como ele se aproxima do cego no caminho (cf. Mc 10,46-52), quando dignifica a samaritana (cf. Jo 4,7-26), quando cura os enfermos (cf. Mt 11,2-6), quando alimenta o povo faminto (cf. Mc 6,30-44), quando liberta os endemoninhados (cf. Mc 5,1-20). Em seu Reino de vida Jesus inclui a todos: come e bebe com os pecadores (cf. Mc 2,16), sem se importar que o tratem como comilão e bêbado (cf. Mt 11,19); toca leprosos (cf. Lc 5,13),  deixa que uma prostituta unja seus pés (cf. Lc 7,36-50) e, de noite, recebe Nicodemos para convida-lo a nascer de novo (cf. Jo 3,1-15). Igualmente, convida a seus discípulos à reconciliação (cf. Mt 5,24), ao amor pelos inimigos (cf. Mt 5,44) e a optarem pelos mais pobres (cf. Lc 14,15-24).

354. Em sua palavra e em todos os sacramentos Jesus nos oferece um alimento para o caminho. A Eucaristia é o centro vital do universo, capaz de saciar a fome de vida e de felicidade: “Aquele que come de mim, viverá” (Jo 6,57). Nesse banquete feliz participamos da vida eterna e, assim, nossa existência cotidiana se converte em uma Missa prolongada. Mas todos os dons de Deus requerem uma disposição adequada para que possam produzir frutos de mudança. Especialmente, nos exigem um espírito comunitário, que abramos os olhos para reconhecê-lo e servi-lo nos mais pobres: “No mais humilde encontramos o próprio Jesus”200. Por isso, São João Crisóstomo exortava: “Querem em verdade honrar o corpo de Cristo? Não consintam que esteja nu. Não o honrem no templo com mantos de seda enquanto fora o deixam passar frio e nudez”201.

7.1.2 Várias dimensões da vida em Cristo

369. Jesus Cristo é a plenitude que eleva a condição humana à condição divina para sua glória: “Eu vim para dar vida aos homens e para que a tenham em abundância” (Jo 10,10). Sua amizade não nos exige que renunciemos a nossos desejos de plenitude vital, porque Ele ama nossa felicidade também nesta terra. Diz o Senhor que Ele criou tudo “para que o desfrutemos” (1 Tm 6,17).

356. A vida nova de Jesus Cristo atinge o ser humano por inteiro e desenvolve em plenitude a existência humana “em sua dimensão pessoal, familiar, social e cultural”202. Para isso, faz falta entrar em um processo de mudança que transfigure os vários aspectos da própria vida. Só assim será possível perceber que Jesus Cristo é nosso salvador em todos os sentidos da palavra. Só assim manifestaremos que a vida em Cristo cura, fortalece e humaniza. Porque “Ele é o Vivente, que caminha a nossa lado, manifestando-nos o sentido dos acontecimentos, da dor e da morte, da alegria e da festa”203. A vida em Cristo inclui a alegria de  comer juntos, o entusiasmo por progredir, a paixão por trabalhar e por aprender, a alegria de servir a quem necessite de nós, o contato com a natureza, o entusiasmo dos projetos comunitários, o prazer de uma sexualidade vivida segundo o Evangelho e todas as coisas com as quais o Pai nos presenteia como sinais de seu amor sincero. Podemos encontrar o Senhor em meio às alegrias de nossa limitada existência e, dessa forma, brota uma gratidão sincera.

357. Mas o consumismo hedonista e individualista, que coloca a vida humana em função de um prazer imediato e sem limites, obscurece o sentido da vida e a degrada. A vitalidade que Cristo oferece nos convida a ampliar nossos horizontes e a reconhecer que abraçando a cruz cotidiana entramos nas dimensões mais profundas da existência. O Senhor que nos convida a valorizar as coisas e a progredir, também nos previne sobre a obsessão por acumular: Não amontoem tesouros nesta terra” (Mt 6,19). “de que serve ao homem ganhar o mundo, mas perder a sua vida?” (Mt 16,26). Jesus Cristo nos oferece muito, inclusive muito mais do que esperamos. À Samaritana, ele dá mais do que a água do poço. À multidão faminta ele oferece mais do que o alívio  da fome. Entrega-se a si mesmo como a vida em abundância. A vida nova em Cristo é participação na vida de amor do Deus Uno e Trino. Começa no batismo e chega a sua plenitude na ressurreição final.

7.1.3 A serviço de uma vida plena para todos

358. Mas as condições de vida de muitos abandonados, excluídos e ignorados em sua miséria e sua dor, contradizem este projeto do Pai e desafiam os cristãos a um maior compromisso a favor da cultura da vida. O Reino de vida que Cristo veio trazer é incompatível com essas situações desumanas. Se pretendemos fechar os olhos diante destas realidades, não somos defensores da vida do Reino e nos situamos no caminho da morte: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos. Aquele que não ama, permanece na morte” (1 Jo 3,14). É necessário sublinhar “a inseparável relação entre o amor a Deus e o amor ao próximo”204, que “convida a todos a suprimir as graves dificuldades sociais e as enormes diferenças no acesso aos bens”205. Tanto a preocupação por desenvolver estruturas mais justas como por transmitir os valores sociais do Evangelho situam-se neste contexto de serviço fraterno à vida digna.

359. Descobrimos, dessa forma, uma lei profunda da realidade: a vida só se desenvolve plenamente na comunhão fraterna e justa. Porque “Deus, em Cristo, não redime só a pessoa individual, mas também as relações sociais entres os seres humanos”206. Diante de diversas situações que manifestam a ruptura entre irmãos, compele-nos que a fé católica de nossos povos latino-americanos e caribenhos se manifeste em uma vida mais digna para todos. O rico magistério social da Igreja nos indica que não podemos conceber uma oferta de vida em Cristo sem um dinamismo de libertação integral, de humanização, de reconciliação e de inserção social.

7.1.4 Uma missão para comunicar vida

360. A vida se acrescenta dando-a e se enfraquece no isolamento e na comodidade. De fato, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam na missão de comunicar vida aos demais. O Evangelho nos ajuda a descobrir que um cuidado enfermo da própria vida depõe contra a qualidade humana e cristã dessa mesma vida.  Vive-se muito melhor quando temos liberdade interior para dá-la a todos: “Quem aprecia sua vida terrena, a perderá” (Jo 12,25). Aqui descobrimos outra lei profunda da realidade: “ que a vida se alcança e amadurece à medida que se a entrega para dar vida aos outros. Isso é, definitivamente, a missão.

361. O projeto de Jesus é instaurar o Reino de seu Pai. Por isso, pede a seus discípulos: “Proclamem que está chegando o Reino dos céus!” (Mt 10,7). Trata-se do Reino da vida. Porque a proposta de Jesus Cristo a nossos povos, o conteúdo fundamental desta missão, é a oferta de uma vida plena para todos. Por isso, a doutrina, as normas, as orientações éticas e toda a atividade missionária das Igrejas, deve deixar transparecer esta atrativa oferta de uma vida mais digna, em Cristo, para cada homem e para cada mulher da América Latina e do Caribe.

362. Assumimos o compromisso de uma grande missão em todo o Continente, que nos exigirá aprofundar e enriquecer todas as razões e motivações que permitam converter a cada cristão em um discípulo missionário. Necessitamos desenvolver a dimensão missionária da vida de Cristo. A Igreja necessita de uma forte comoção que a impeça de se instalar na comodidade, no estancamento e na indiferença, à margem do sofrimento dos pobres do Continente. Necessitamos que cada comunidade cristã se transforme num poderoso centro de irradiação da vida em Cristo. Esperamos um novo Pentecostes que nos livre do cansaço, da desilusão, da acomodação ao ambiente; esperamos uma vinda do Espírito que renove nossa alegria e nossa esperança. Por isso, é imperioso assegurar calorosos espaços de oração comunitária que alimentem o fogo de um ardor incontido e tornem possível um atrativo testemunho de unidade “para que o mundo creia” (Jo 17,21).

363. A força deste anúncio de vida será fecundo se o fazemos da forma adequada, com as  atitudes do Mestre, tendo sempre a Eucaristia como fonte e alvo de toda atividade missionária. Invocamos o Espírito Santo para poder dar um testemunho de proximidade que entranha proximidade afetuosa, escuta, humildade, solidariedade, compaixão, diálogo, reconciliação, compromisso com a justiça social e capacidade de compartilhar, como Jesus fez. Ele continua convocando, continua oferecendo incessantemente uma vida digna e plena para todos. Nós somos agora, na América Latina e no Caribe, seus discípulos e discípulas, chamados a navegar mar adentro para uma pesca abundante. Trata-se de sair de nossa consciência isolada e de nos lançarmos com ousadia e confiança à missão de toda a Igreja.

364. Detemos o olhar em Maria e reconhecemos nela uma imagem perfeita da discípula missionária. Ela nos exorta a fazer o que Jesus nos diz (cf. Jo 2,5) para que Ele possa derramar sua vida na América Latina e no Caribe. Junto com ela queremos estar atentos uma vez mais à escuta do Mestre, e ao redor dela, voltarmos a receber com estremecimento ao mandado missionário de seu filho: “Vão e façam, discípulos de todos os povos” (Mt 28,19). Escutamos Jesus como comunidade de discípulos missionários que experimentaram o encontro vivo com Ele e queremos compartilhar com os demais essa alegria incomparável todos os dias.

7.2 Conversão pastoral e renovação missionária das comunidades

365. Esta firme decisão missionária deve impregnar todas as estruturas eclesiais e todos os planos pastorais de dioceses, paróquias, comunidades religiosas, movimentos e de qualquer instituição da Igreja. Nenhuma comunidade deve se isentar de entrar decididamente, com todas suas forças, nos processos constantes de renovação missionária e de abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favoreçam a transmissão da fé.

366. A conversão pessoal desperta a capacidade de submeter tudo a serviço da instauração do reino da vida. Os bispos, presbíteros, diáconos permanentes, consagrados e consagradas, leigos e leigas, são chamados a assumir uma atitude de permanente conversão pastoral,  que envolve escutar com atenção e discernir “o que o Espírito está dizendo às Igrejas” (Ap 2,29) através dos sinais dos tempos nos quais Deus se manifesta.

367. A pastoral da Igreja não pode prescindir do contexto histórico onde vivem seus membros. Sua vida acontece em contextos sócio-culturais bem concretos. Estas transformações sociais e culturais representam naturalmente novos desafios para a Igreja em sua missão de construir o Reino de Deus. Em fidelidade ao Espírito santo que a conduz, nasce dali a necessidade de uma renovação eclesial, que envolve reformas espirituais, pastorais e também institucionais.

368. A conversão dos pastores nos leva também a viver e promover uma espiritualidade de comunhão e participação, “propondo-a como princípio educativo em todos os lugares onde se forma o homem e o cristão,, onde se educam os ministros do altar, as pessoas consagradas e os agentes pastorais, onde se constroem as famílias e as comunidades”207. A conversão pastoral requer que as comunidades eclesiais sejam comunidades de discípulos missionários ao redor de Jesus Cristo, Mestre e Pastor. Dali nasce a atitude de abertura,  de diálogo e de disponibilidade para promover a co-responsabilidade e participação efetiva de todos os fiéis na vida das comunidades cristãs. Hoje, mais do que nunca, o testemunho de comunhão eclesial e de santidade são uma urgência pastoral. A programação pastoral há de se inspirar no mandamento novo do amor (cf Jo 13,35)208.

369. Encontramos o modelo paradigmático desta renovação comunitária nas primitivas comunidades cristãs (cf. At 2,42-47), que souberam buscar novas formas para evangelizar de acordo com as culturas e as circunstâncias.  Ao mesmo tempo, motiva-nos a eclesiologia de comunhão do Concílio Vaticano II, o caminho sinodal no pós-concílio e as Conferências Gerais anteriores do Episcopado Latino-americano e do Caribe. Não esqueçamos que como nos assegura Jesus, “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estarei no meio deles” (Mt 18,20).

370. A conversão pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária. Assim, será possível que “o único programa do Evangelho siga introduzindo-se na história de cada comunidade eclesial”209 com novo ardor missionário, fazendo com que a Igreja se manifeste como uma mãe que nos sai ao encontro, uma casa acolhedora, uma escola permanente de comunhão missionária.

371. O projeto pastoral da Diocese, caminho de pastoral orgânica, deve ser uma resposta consciente e eficaz para atender as exigências do mundo de hoje com “indicações programáticas concretas, objetivos e métodos de trabalho, de formação e valorização dos agentes e da procura dos meios necessários que permitam que o anúncio de Cristo chegue às pessoas, modele as comunidades e incida profundamente na sociedade e na cultura mediante o testemunho dos valores evangélicos”210. Os leigos devem participar do discernimento, da tomada de decisões, do planejamento e da execução211. Este projeto diocesano exige um acompanhamento constante por parte do bispo, dos sacerdotes e dos agentes pastorais, com uma atitude flexível que lhes permita se manter atentos às exigências da realidade sempre mutável.  

372. Levando em consideração as dimensões de nossas paróquias é aconselhável a setorização em unidades territoriais menores, com equipes próprias de animação e de coordenação que permitam uma maior proximidade com as pessoas e grupos que vivem na região. É recomendável que os agentes missionários promovam a criação de comunidades de famílias que fomentem a colocação em comum de sua fé cristã e das respostas aos problemas. Reconhecemos como um fenômeno importante de nosso tempo o aparecimento e difusão de diversas formas de voluntariado missionário que se ocupam de uma pluralidade de serviços. A Igreja apóia as redes e programas de voluntariado nacional e internacional que surgiram em muitos países, na esfera das organizações da sociedade civil, para o bem dos mais pobres de nosso continente, à luz dos princípios de dignidade, subsidiariedade  e solidariedade, em conformidade com a Doutrina Social da Igreja. Não se trata só de estratégias para procurar êxitos pastorais, mas da fidelidade na imitação do Mestre, sempre próximo, acessível, disponível a todos, desejoso de comunicar vida em cada região da terra.

7.3. Nosso compromisso com a missão ad gentes

373. Conscientes e agradecidos porque o Pai amou tanto ao mundo que enviou seu Filho para salva-lo (cf. Jo 3,16), queremos ser continuadores de sua missão, visto que esta é a razão de ser da Igreja e que define sua identidade mais profunda.

374. Como discípulos missionários, queremos que a influência de Cristo chegue até aos confins da terra. Descobrimos a presença do Espírito Santo em terras de missão mediante sinais:

1) A presença dos valores do Reino de Deus nas culturas, recriando-as a partir de dentro para transformar as situações anti-evangélicas.
2) Os esforços de homens e mulheres que encontram em suas crenças religiosas o impulso para seu compromisso histórico.
3) O nascimento da comunidade eclesial.
4) O testemunho de pessoas e comunidades que anunciam Jesus Cristo com a santidade de suas vidas.

375. Sua Santidade Bento XVI confirmou que a missão ad gentes se abre a novas dimensões: “O campo da Missão ad gentes tem se ampliado notavelmente e não se pode defini-lo baseando-se só em considerações geográficas ou jurídicas. Na verdade, os verdadeiros destinatários da atividade missionária do povo de Deus não são só os povos não cristãos e das terras distantes, mas também nos campos sócio-culturais e, sobretudo,  os corações”212.

376. Ao mesmo tempo, o mundo espera de nossa Igreja latino-americana e caribenha um compromisso mais significativo com a missão universal em todos os Continentes. Para não cair na armadilha de nos fechar em nós mesmos, devemos nos formar como discípulos missionários sem fronteiras, dispostos a ir “á outra margem”, àquela na qual Cristo não é ainda reconhecido como Deus e Senhor, e a Igreja não está presente213.

377. Os discípulos, que por essência são também missionários em virtude do Batismo e da Confirmação, são formados com um coração universal, aberto a todas as culturas e a todas as verdades, cultivando a capacidade de contato humano e de diálogo. Estamos dispostos com a coragem que nos dá o Espírito, a anunciar a Cristo onde não é aceito, com nossa vida, com nossa ação, com nossa profissão de fé e com sua Palavra. Os emigrantes são igualmente discípulos e missionários, e são chamados a ser uma nova semente de evangelização, a exemplo de tantos emigrantes e missionários que trouxeram a fé cristã a nossa América.

378. Queremos estimular as Igrejas locais para que apóiem e organizem os centros missionários nacionais e atuem em estreita colaboração com as Obras Missionais Pontifícias e outras instâncias eclesiais cooperantes, cuja importância e dinamismo para a animação e a cooperação missionária reconhecemos e agradecemos de coração.  Por ocasião dos cinqüenta anos da encíclica Fidei Donum, agradecemos a Deus pelos missionárias e missionárias que vieram ao Continente e aqueles que hoje estão presentes nele, dando testemunho do espírito missionário de suas Igrejas locais ao serem enviados por elas.

379. Nosso desejo é que esta V Conferência seja um estímulo para que muitos discípulos de nossas Igrejas vão e evangelizem na “outra margem”. A fé se fortalece quando é transmitida e é preciso que entremos em nosso continente em uma nova primavera da missão ad gentes. Somos Igrejas pobres, mas “devemos dar a partir de nossa pobreza e a partir da alegria de nossa fé”214 e isto sem colocar sobre alguns poucos enviados o compromisso que é de toda a comunidade cristã. Nossa capacidade de compartilhar nossos dons espirituais, humanos e materiais com outras Igrejas, confirmará a autenticidade de nossa nova abertura missionária. Por isso, estimulamos a participação na celebração dos congressos missionários.


CAPÍTULO 8
O REINO DE DEUS E A PROMOÇÃO DA DIGNIDADE HUMANA


380. A missão do anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo tem uma destinação universal. Seu mandado de caridade alcança todas as dimensões da existência, todas as pessoas, todos os ambientes da convivência e todos os povos. Nada do humano pode lhe parecer estranho.  A Igreja sabe, por revelação de Deus e pela experiência humana da fé, que Jesus Cristo é a resposta total, superabundante e satisfatória às perguntas humanas sobre a verdade, o sentido da vida e da realidade, a felicidade, a justiça e a beleza. São as inquietudes que estão arraigadas no coração de toda pessoa e que pulsam no mais profundo da cultura dos povos. Por isso, todo sinal autêntico de verdade, bem e beleza na aventura humana vem de Deus e clama por Deus.

381.Procurando aproximar da vida de Jesus Cristo como resposta aos desejos de nossos povos, destacamos a seguir alguns grandes campos de atividade, prioridades e tarefas para a missão dos discípulos de Jesus Cristo no hoje da América Latina e do Caribe.

8. 1 Reino de Deus, justiça social e caridade cristã

382. “O prazo se cumpriu. O Reino de Deus está chegando. Convertam-se e creiam no Evangelho” (Mc 1,15). A voz do Senhor continua nos chamando como discípulos missionários e nos desafia a orientar toda nossa vida a partir da realidade transformadora do Reino de Deus que se faz presente em Jesus. Acolhemos com muita alegria esta boa nova. Deus amor é Pai de todos os homens e mulheres de todos os povos e raças. Jesus Cristo é o Reino de Deus que procura demonstrar toda sua força transformadora em nossa Igreja e em nossas sociedades. N'Ele, Deus tem nos escolhido para que sejamos seus filhos com a mesma origem e destino, com a mesma dignidade, com os mesmos direitos e deveres vividos no mandamento supremo do amor. O Espírito colocou este germe do Reino em nosso Batismo e o faz crescer pela graça da conversão permanente graças à Palavra de Deus e aos sacramentos.

383. Sinais evidentes da presença de Deus são: a experiência pessoal e comunitária das bem-aventuranças, a evangelização dos pobres, o conhecimento e cumprimento da vontade do Pai, o martírio pela fé, o acesso de todos aos bens da criação, o perdão mútuo, sincero e fraterno, aceitando e respeitando a riqueza da pluralidade e a luta para não sucumbir à tentação e não ser escravos do mal.

384. O fato de ser discípulos e missionários de Jesus Cristo para que nossos povos, n'Ele, tenham vida leva-nos a assumir evangelicamente e a partir da perspectiva do Reino as tarefas prioritárias que contribuem para a dignificação do ser humano e a trabalhar junto com os demais cidadãos e instituições para o bem do ser humano. O amor de misericórdia para com todos os que vêem vulnerada sua vida em qualquer de suas dimensões, como bem nos mostra o Senhor em todos seus gestos de misericórdia, requer que socorramos as necessidades urgentes, ao mesmo tempo que colaboremos com outros organismos ou instituições para organizar estruturas mais justas nos âmbitos nacionais e internacionais. É urgente criar estruturas que consolidem uma ordem social, econômica e política na qual não haja iniquidade e onde haja possibilidade para todos. Igualmente, requerem-se novas estruturas que promovam uma autêntica convivência humana, que impeçam a prepotência de alguns e que facilitem o diálogo construtivo para os necessários consensos sociais.

385. A misericórdia sempre será necessária, mas não deve contribuir para criar círculos viciosos que sejam funcionais a um sistema econômico iníquo. Requer-se que as obras de misericórdia estejam acompanhadas pela busca de uma verdadeira justiça social, que vá elevando o nível de vida dos cidadãos, promovendo-os como sujeitos de seu próprio desenvolvimento. Em sua Encíclica Deus Caritas est, o Papa Bento XVI tratou com clareza inspiradora a complexa relação entre justiça e caridade. Ali, disse-nos que “a ordem justa da sociedade e do Estado é uma tarefa principal da política” e não da Igreja. Mas a Igreja “não pode nem deve colocar-se à margem na luta pela justiça”215. Ela colabora purificando a razão de todos aqueles elementos que ofuscam e impedem a realização de uma libertação integral. Também é tarefa da Igreja ajudar com a pregação, a catequese, a denúncia e o testemunho do amor e da justiça, para que despertem na sociedade as forças espirituais necessárias e se desenvolvam os valores sociais. Só assim as estruturas serão realmente mais justas, poderão ser mais eficazes e sustentar-se no tempo. Sem valores não há futuro e não haverá estruturas salvadoras, visto que nelas sempre subjaz a fragilidade humana.

386. A Igreja tem como missão própria e específica comunicar a vida de Jesus Cristo a todas as pessoas, anunciando a Palavra, administrando os sacramentos e praticando a caridade. É oportuno recordar que o amor se mostra nas obras mais do que nas palavras, e isto vale também para nossas palavras nesta V Conferência. Nem todo o que diz Senhor, Senhor… (cf. Mt 7,21). Os discípulos missionários de Jesus Cristo tem a tarefa prioritária de dar testemunho do amor de Deus e ao próximo com obras concretas. Dizia São Alberto Hurtado: “Em nossas obras, nosso povo sabe que compreendemos sua dor”.

8.2 A dignidade humana

387. A cultura atual tende a propor estilos de ser e de viver contrários à natureza e a dignidade do ser humano. O impacto dominante dos ídolos do poder, da riqueza e do prazer efêmero tem se transformado, acima do valor da pessoa, na norma máxima de funcionamento e no critério decisivo na organização social. Diante desta realidade, anunciamos, uma vez mais, o valor supremo de cada homem e de cada mulher. Na verdade, o Criador, ao colocar tudo o que foi criado a serviço do ser humano, manifesta a dignidade da pessoa humana e convida a respeitá-la (cf. Gn 1,26-30).

388. Proclamamos que todo ser humano existe pura e simplesmente pelo amor de Deus que o criou e pelo amor de Deus que o conserva em cada instante. A criação do homem e da mulher a sua imagem e semelhança é um acontecimento divino de vida, e sua fonte é o amor fiel do Senhor. Por conseguinte, só o Senhor é o autor e o dono da vida, e o ser humano, sua imagem vivente, é sempre consagrado, desde sua concepção, em todas as etapas da existência, até sua morte natural e depois da morte. O olhar cristão sobre o ser humano permite perceber seu valor que transcende todo o universo: “Deus nos mostrou de modo insuperável como ama cada homem, e com isso confere a ele uma dignidade infinita”216.

389. Nossa missão, para que nossos povos tenham vida n'Ele, manifesta nossa convicção de que o sentido, a fecundidade e a dignidade da vida humana se encontra no Deus vivo revelado em Jesus. É urgente a tarefa de entregar a nossos povos a vida plena e feliz que Jesus nos traz, para que cada pessoa humana viva de acordo com a dignidade que Deus lhe deu. Fazemos isso com a consciência de que essa dignidade alcançará sua plenitude quando Deus for tudo em todos. Ele é o Senhor da vida e da história, vencedor do mistério do mal e acontecimento salvífico que nos faz capazes de emitir um juízo verdadeiro sobre a realidade, que salvaguarde a dignidade das pessoas e dos povos. 

390. Nossa fidelidade ao Evangelho, exige que proclamemos a verdade sobre o ser humano e sobre a dignidade de toda pessoa humana em todos os espaços públicos e privados do mundo de hoje e a partir de todas as instâncias da vida e da missão da Igreja. 

8.3 A opção preferencial pelos pobres e excluídos

391. Dentro desta ampla preocupação pela dignidade humana, situa-se nossa angústia pelos milhões de latino-americanos e latino-americanas que não podem levar uma vida que responda a essa dignidade. A opção preferencial pelos pobres é uma das peculiaridades que marca a fisionomia da Igreja latino-americana e caribenha. De fato, João Paulo II, dirigindo-se a nosso continente, sustentou que “converter-se ao Evangelho para o povo cristão que vive na América, significa revisar todos os ambientes e dimensões de sua vida, especialmente tudo o que pertence a ordem social e á obtenção do bem comum”217.

392. Nossa fé proclama que “Jesus Cristo é o rosto humano de Deus e o rosto divino do homem”218. Por isso, “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza”219. Esta opção nasce de nossa fé em Jesus Cristo, o Deus feito homem, que se fez nosso irmão (cf. Hb 2,11-12). Ela, no entanto, não é exclusiva, nem excludente.

393. Se esta opção está implícita na fé cristológica, os cristãos, como discípulos e missionários, são chamados a contemplar nos rostos sofredores de nossos irmãos, o rosto de Cristo que nos chama a servi-lo neles: “Os rostos sofredores dos pobres são rostos sofredores de Cristo”220. Eles desafiam o núcleo do trabalho da Igreja, da pastoral e de nossas atitudes cristãs. Tudo o que tenha relação com Cristo, tem relação com os pobres e tudo o que está relacionado com os pobres reivindica a Jesus Cristo: “Quando fizeram a um deste meus irmãos menores, fizeram a mim” (Mt 25,40). João Paulo II destacou que este texto bíblico “ilumina o mistério de Cristo”221. Porque em Cristo, o maior se fez menor, o forte se fez fraco, o rico se fez pobre.

394. De nossa fé em Cristo nasce também a solidariedade como atitude permanente de encontro, irmandade e serviço. Ela há de se manifestar em opções e gestos visíveis, principalmente na defesa da vida e dos direitos dos mais vulneráveis e excluídos, e no permanente acompanhamento em seus esforços por serem sujeitos de mudança e de transformação de sua situação. O serviço de caridade da Igreja entre os pobres “é um campo de atividade que caracteriza de maneira decisiva a vida cristã, o estilo eclesial e a programação pastoral”322.

395. O Santo Padre nos recorda que a Igreja está convocada a ser “advogada da justiça e defensora dos pobres”223 diante das “intoleráveis desigualdades sociais e econômicas”224, que “clamam ao céu”225. Temos muito que oferecer, visto que “não há dúvida de que a Doutrina Social da Igreja é capaz de despertar esperança em meio às situações mais difíceis, porque se não há esperança para os pobres, não haverá para ninguém, nem sequer para os chamados ricos”226. A opção preferencial pelos pobres exige que prestemos especial atenção àqueles profissionais católicos que são responsáveis pelas finanças das nações, naqueles que fomentam o emprego, nos políticos que devem criar as condições para o desenvolvimento econômico dos países, a fim de lhes dar orientações éticas coerentes com sua fé.

396. Comprometemo-nos a trabalhar para que a nossa Igreja Latino-americana e Caribenha continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive até o martírio. Hoje queremos ratificar e potencializar a opção preferencial pelos pobres feita nas Conferências anteriores227. Que sendo preferencial implique que deva atravessar todas nossas estruturas e prioridades pastorais. A Igreja Latino-americana é chamada a ser sacramento de amor, de solidariedade e de justiça entre nossos povos.

397. Nesta época costuma acontecer de defendermos de forma demasiada nossos espaços de privacidade e lazer, e nos deixemos contagiar facilmente pelo consumismo individualista. Por isso, nossa opção pelos pobres corre o risco de ficar em um plano teórico ou meramente emotivo, sem verdadeira incidência em nossos comportamentos e em nossas decisões. É necessária uma atitude permanente que se manifeste em opções e gestos concretos228, e evite toda atitude paternalista. É solicitado que dediquemos tempo aos pobres, prestar a eles uma amável atenção, escutá-los com interesse, acompanhá-los nos momentos difíceis, escolhê-los para compartilhar horas, semanas ou anos de nossas vidas e, procurando, a partir deles, a transformação de sua situação. Não podemos esquecer que o próprio Jesus propôs isso com seu modo de agir e com suas palavras: “Quando deres um banquete, convida os pobres, os inválidos, os coxos e os cegos” (Lc 14,13).

398. Só a proximidade que nos faz amigos nos permite apreciar profundamente os valores dos pobres de hoje, seus legítimos desejos e seu modo próprio de viver a fé. A opção pelos pobres deve nos conduzir à amizade com os pobres. Dia a dia os pobres se fazem sujeitos da evangelização e da promoção humana integral: educam seus filhos na fé, vivem uma constante solidariedade entre parentes e vizinhos, procuram constantemente a Deus e dão vida ao peregrinar da Igreja. À luz do Evangelho reconhecemos sua imensa dignidade e seu valor sagrado aos olhos de Cristo, pobre como eles e excluído como eles. Desta experiência cristã compartilharemos com eles a defesa de seus direitos.

8.4 Uma renovada pastoral social para a promoção humana integral

399. Assumindo com nova força esta opção pelos pobres, manifestamos que todo processo evangelizador envolve a promoção humana e a autêntica libertação “sem a qual não é possível uma ordem justa na sociedade”229. Entendemos, além disso, que a verdadeira promoção humana não pode se reduzir a aspectos particulares: “Deve ser integral, isto é, promover a todos os homens e a todo homem”230, a partir da vida nova em Cristo que transforma  a pessoa de tal maneira que “a faz sujeito de seu próprio desenvolvimento”231. Para a Igreja, o serviço da caridade, assim como o anúncio da Palavra e a celebração dos sacramentos, “é expressão irrenunciável da própria essência”232.

400. Portanto, a partir de nossa condição de discípulos e missionários, queremos estimular o Evangelho da vida e da solidariedade em nossos planos pastorais, à luz da Doutrina Social da Igreja. Além disso, promover caminhos eclesiais mais efetivos, com a preparação e compromisso dos leigos para intervir nos assuntos sociais. As palavras de João Paulo II nos enchem de esperança: “Ainda que imperfeito e provisório, nada do que se possa realizar mediante o esforço solidário de todos e a graça divina em um momento dado da história, para fazer mais humana a vida dos homens, terá sido perdido ou terá sido em vão”233

401. As Conferências Episcopais e as igrejas locais tem a missão de promover renovados esforços para fortalecer uma Pastoral Social estruturada, orgânica e integral que, com a assistência e a promoção humana234, faça-se presente nas novas realidades de exclusão e de marginalização em que vivem os grupos mais vulneráveis, onde a vida está mais ameaçada. No centro dessa ação está cada pessoa, que é acolhida e servida com cordialidade cristã.  Nesta atividade a favor da vida de nossos povos, a Igreja católica apóia a colaboração mútua com outras comunidades cristãs.

402. A globalização faz emergir em nossos povos, novos rostos pobres. Com especial atenção e em continuidade com a Conferências Gerais anteriores, fixamos nosso olhar nos rostos dos novos excluídos: os migrantes, as vítimas da violência, os deslocados e refugiados, as vítimas do tráfico de pessoas e seqüestros, os desaparecidos, os enfermos de HIV e de enfermidades endêmicas, os toxico-dependentes, idosos, meninos e meninas que são vítimas da prostituição, pornografia e violência ou do trabalho infantil, mulheres maltratadas, vítimas da violência, da exclusão e do tráfico para a exploração sexual, pessoas com capacidades diferentes, grandes grupos de desempregados (as), os excluídos pelo analfabetismo tecnológico, as pessoas que vivem na rua das grandes cidades, os indígenas e afro-americanos, agricultores sem terra e os mineiros. A Igreja, com sua Pastoral Social, deve dar acolhida e acompanhar esta pessoas excluídas nas esferas a que correspondam.

403. Nesta tarefa e com criatividade pastoral, devem-se elaborar ações concretas que tenham incidência nos Estados para a aprovação de políticas sociais e econômicas que atendam as várias necessidades da população e que conduzam para um desenvolvimento sustentável. Com a ajuda de diferentes instâncias e organizações, a Igreja pode fazer uma permanente leitura cristã e uma aproximação pastoral à realidade de nosso continente, aproveitando o rico patrimônio da Doutrina Social da Igreja. Desta maneira, terá elementos concretos para exigir daqueles que têm a responsabilidade de elaborar e aprovar as políticas que afetam nossos povos, que o façam a partir de uma perspectiva ética, solidária e autenticamente humanista. Nesse aspecto  os leigos e as leigas possuem um papel fundamental, assumindo tarefas pertinentes na sociedade.

404. Estimulamos os empresários que dirigem as grandes e médias empresas e aos microempresários, os agentes econômicos da gestão produtiva e comercial, tanto da ordem privada quanto comunitária, por serem criadores de riqueza em nossas nações, quando se esforçam em gerar emprego digno, em facilitar a democracia e em promover a aspiração a uma sociedade mais justa e a uma convivência cidadã com bem-estar e em paz. Igualmente  estimulamos os que não investem seu capital em ação especulativas mas em criar fontes de trabalho, preocupando-se com os trabalhadores, considerando-os 'a eles e a suas famílias' a maior riqueza da empresa, que, como cristãos, vivem modestamente por terem feito da austeridade um valor inestimável, que colaboram com os governos na preocupação e conquista do bem comum e se forem pródigos em obras de solidariedade e de misericórdia.

405. Por fim, não podemos nos esquecer que a maior pobreza é a de não reconhecer a presença do mistério de Deus e de seu amor na vida do homem e seu amor, que é o único que verdadeiramente salva e liberta. Na verdade, “quem exclui a Deus de seu horizonte falsifica o conceito de realidade e, consequentemente,só pode terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas235. A verdade desta afirmação parece evidente diante do fracasso de todos os sistemas que colocam Deus entre parêntesis.

8.5 Globalização da solidariedade e justiça internacional

406. A Igreja na América Latina e no Caribe sente que tem uma responsabilidade em formar cristãos e sensibilizá-los a respeito das grandes questões da justiça internacional. Por isso, tanto os pastores como os construtores da sociedade têm que estar atentos aos debates e normas internacionais sobre a matéria. Isto é especialmente importante para os leigos que assumem responsabilidades públicas, solidários com a vida dos povos. Por isso, propomos o seguinte:

a). Apoiar a participação da sociedade civil para a re-orientação e conseqüente reabilitação ética da política. Por isso, são muito importantes os espaços de participação da sociedade civil para a vigência da democracia, uma verdadeira economia solidária e um desenvolvimento integral, solidário e sustentável.

b). Formar na ética cristã que estabelece como desafio a conquista do bem comum a criação de oportunidades para todos, a luta contra a corrupção, a vigência dos direitos do trabalho e sindicais; é necessário colocar como prioridade a criação de oportunidades econômicas para setores da população tradicionalmente marginalizados, como as mulheres e os jovens, a partir do reconhecimento de sua dignidade. Por isso, é necessário trabalhar por uma cultura da responsabilidade em todo nível que envolva pessoas, empresas, governos e o próprio sistema internacional.

c). Trabalhar pelo bem comum global é promover uma justa regulação da economia, das finanças e do comércio mundial. É urgente prosseguir no desendividamento externo para favorecer os investimentos em desenvolvimento e gasto social236, prever regulações globais para prevenir e controlar os movimentos especulativos de capitais, para a promoção de um comércio justo e a diminuição das barreiras protecionistas dos poderosos, para assegurar preços adequados das matérias primas que os países empobrecidos produzem e de normas justas para atrair e regular os investimentos e serviços entre outros.

d). Examinar atentamente os Tratados inter-governamentais e outras negociações a respeito do livre comércio. A Igreja do país latino-americano envolvido, à luz de um balanço de todos os fatores que estão em jogo, precisa encontrar os caminhos mais eficazes para alertar os responsáveis políticos e a opinião pública a respeito das eventuais conseqüências negativas que podem afetar os setores mais desprotegidos e vulneráveis da população.

e). Chamar todos os homens e mulheres de boa vontade a colocarem em prática princípios fundamentais como o bem comum (a casa é de todos), a subsidiariedade, a solidariedade intergeracional e intrageracional.

8.6 Rostos sofredores que doem em nós

8.6.1 Pessoas que vivem na rua nas grandes cidades

407. Nas grandes cidades é cada vez maior o número das pessoas que vivem na rua. Requerem cuidado especial, atenção e trabalho de promoção humana por parte da Igreja, de tal modo que enquanto se-lhes proporciona ajuda no necessário para a vida, que também sejam incluídos em projetos de participação e promoção nos quais eles próprios sejam sujeitos de sua re-inserção social.

408. Queremos chamar a atenção dos governos locais e nacionais para que elaborem políticas que favoreçam a atenção a estes seres humanos, assim como atendam as causas que produzem este flagelo que afeta milhões de pessoas em toda nossa América Latina e no Caribe.

409. A opção preferencial pelos pobres nos impulsiona, como discípulos e missionários de Jesus, a procurar caminhos novos e criativos a fim de responder a outros efeitos da pobreza.  A situação precária e a violência familiar com freqüência obrigam muitos meninos e meninas a procurarem recursos econômicos na rua para sua sobrevivência pessoal e familiar, expondo-se também a graves riscos morais e humanos.

410. É dever social do Estado criar uma política inclusiva das pessoas  da rua. Nunca se aceitará como solução a esta grave problemática social a violência e inclusive o assassinato dos meninos e jovens da rua, como tem sucedido lamentavelmente em alguns países de nosso continente.

8.6.2 Migrantes

411. É expressão de caridade, também eclesial, o acompanhamento pastoral dos migrantes. Há milhões de pessoas que por diferentes motivos estão em constante mobilidade. Na América Latina e Caribe os emigrantes, deslocados e refugiados sobretudo por causas econômicas, políticas e de violência constituem um fato novo e dramático. 

412. A Igreja, como Mãe, deve se sentir como Igreja sem fronteiras, Igreja familiar, atenta ao fenômeno crescente da mobilidade humana em seus diversos setores. Considera indispensável o desenvolvimento de uma mentalidade e uma espiritualidade a serviço pastoral dos irmãos em mobilidade, estabelecendo estruturas nacionais e diocesanas apropriadas, que facilitem o encontro do estrangeiro com a Igreja local de acolhida. As Conferências Episcopais e as Dioceses devem assumir profeticamente esta pastoral específica com a dinâmica de unir critérios e ações que favoreçam uma permanente atenção também aos migrantes, que devem chegar a ser também discípulos e missionários.

413. Para conseguir este objetivo, faz-se necessário reforçar o diálogo e a cooperação de saída e de acolhida entre as Igrejas, a fim de dar uma atenção comunitária e pastoral aos que estão em mobilidade, apoiando-os em sua religiosidade e valorizando suas expressões culturais em tudo aquilo que se refira ao Evangelho. É necessário, que nos Seminários e Casas de formação se tome consciência sobre a realidade da mobilidade humana, para dar a esse fenômeno uma resposta pastoral. Também se requer a preparação de leigos que com sentido cristão, profissionalismo e capacidade de compreensão, possam acompanhar aqueles que chegam, como também as famílias que deixam nos lugares de saída237. Cremos que “a realidade das migrações não deve nunca ser vista só como um problema, mas também e sobretudo, como um grande recurso para o caminho da humanidade”238.

414. Entre as tarefas da Igreja a favor dos migrantes está indubitavelmente a denúncia profética dos atropelos que sofrem frequentemente, como também o esforço por incidir, junto aos organismos da sociedade civil, nos governos dos países, para conseguir uma política migratória que leve em consideração os direitos das pessoas em mobilidade. Deve ter presente também os deslocados pela violência. Nos países açoitados pela violência se requer a ação pastoral para acompanhar as vítimas e oferecer-lhes acolhida e capacita-los para que possam viver de seu trabalho. Ao mesmo tempo, deverá aprofundar seu esforço pastoral e teológico para promover uma cidadania universal na qual não haja distinção de pessoas.

415. Os migrantes devem ser acompanhados pastoralmente por suas Igrejas de origem e estimulados a se fazer discípulos e missionários nas terras e comunidades que os acolhem, compartilhando com eles as riquezas de sua fé e de suas tradições religiosas. Os migrantes que partem de nossas comunidades podem oferecer uma valiosa contribuição missionária às comunidades que os acolhem.

416. As generosas remessas enviadas pelos imigrantes latino-americanos a partir dos Estados Unidos, Canadá, países europeus e outros,  evidencia sua capacidade de sacrifício e amor solidário a favor das próprias famílias e pátrias de origem. É, geralmente, ajuda dos pobres para os pobres.


8.6.3 Enfermos

417. A Igreja tem feito uma opção pela vida. Esta nos projeta necessariamente para as periferias mais profundas da existência: o nascer e o morrer, a criança e o idoso, o são e o enfermo. São Irineu nos diz que “a glória de Deus é o homem vivo”, inclusive o fraco, o recém-nascido, o envelhecido pelos anos e o enfermo. Cristo enviou seus apóstolos a pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos, verdadeiras catedrais do encontro com o Senhor Jesus.

418. Desde o início da evangelização este duplo mandado tem sido cumprido. O combate à enfermidade tem como finalidade conseguir a harmonia física, psíquica, social e espiritual para o cumprimento da missão recebida. A Pastoral da Saúde é a resposta às grandes interrogações da vida, como são o sofrimento e a morte, à luz da morte e da ressurreição do Senhor.

419. A saúde é um tema que move grandes interesses no mundo, mas não proporcionam uma finalidade que a transcenda. Na cultura atual a morte não cabe e, diante de sua realidade, trata-se de oculta-la. Abrindo a sua dimensão espiritual e transcendente, a Pastoral da Saúde se transforma no anúncio da morte e ressurreição do Senhor, única e verdadeira saúde. Ela unifica na economia sacramental de Cristo o amor de muitos “bons samaritanos”, presbíteros, diáconos, religiosas, leigos e profissionais da saúde. As 32.116 instituições católicas dedicadas à Pastoral da Saúde na América Latina representam um recurso para a evangelização que se deve aproveitar.

420. A maternidade da Igreja se manifesta nas visitas aos enfermos nos centros de saúde, na companhia silenciosa ao enfermo, no carinhoso trato, na delicada atenção às necessidades da enfermidade, através dos profissionais e voluntários discípulos do Senhor. Ela abriga com sua ternura, fortalece o coração e, no caso do moribundo, acompanha-o no trânsito definitivo. O enfermo recebe com amor a Palavra, o perdão, o Sacramento da Unção e os gestos de caridade dos irmãos. O sofrimento humano é uma experiência especial da cruz e da ressurreição do Senhor.

421. Deve-se, portanto, estimular nas Igrejas locais a Pastoral da Saúde que inclua diferentes campos de atenção. Consideramos de grande prioridade fomentar uma pastoral com pessoas que vivem com o HIV – Aids, em seu amplo contexto e em seus significados pastorais: que promova o acompanhamento compreensivo, misericordioso e a defesa dos direitos das pessoas infectadas; que  implemente a informação, promova a educação e a prevenção, com critérios éticos, principalmente entre as novas gerações para que desperte a consciência de todos para conter a pandemia. A partir desta V Conferência pedimos aos governos o acesso gratuito e universal aos medicamentos para a Aids e a doses oportunas.

8.6.4 Dependentes de drogas

422. O problema da droga é como uma mancha de óleo que invade tudo. Não reconhece fronteiras, nem geográficas, nem humanas. Ataca igualmente a países ricos quanto pobres, a crianças, jovens, adultos e idosos, a homens e mulheres. A Igreja não pode permanecer indiferente diante deste flagelo que está destruindo a humanidade, especialmente as novas gerações. Sua tarefa deve ser direcionada em três direções: prevenção, acompanhamento e apoio das políticas governamentais para reprimir esta pandemia. Na prevenção, insiste na educação nos valores que devem conduzir às novas gerações, especialmente o valor da vida e do amor, a própria responsabilidade e a dignidade dos filhos de Deus. No acompanhamento, a Igreja está ao lado do dependente para ajudá-lo a recuperar sua dignidade e vencer esta enfermidade. No apoio à erradicação da droga, não deixa de denunciar a criminalidade sem nome dos narco-traficantes que comercializam com tantas vidas humanas, tendo como objetivo o lucro e a força em suas mais baixas expressões.

423. Na América Latina e no Caribe, a Igreja deve promover uma luta frontal contra o consumo e tráfico de drogas, insistindo no valor da ação preventiva e reeducativa, assim como apoiando os governos e entidades civis que trabalham neste sentido, exortando o estado em sua responsabilidade de combater o narcotráfico e prevenir o uso de todo tipo de droga. A ciência tem indicado a religiosidade como um fator de proteção e recuperação importante para o usuário de drogas.

424. Denunciamos que a comercialização da droga se tornou algo cotidiano em alguns de nossos países devido aos enormes interesses econômicos ao redor dela. Conseqüência disso é o grande número de pessoas, em sua maioria crianças e jovens, que agora se encontram escravizados e vivendo em situações muito precárias, que recorrem a droga para acalmar sua fome ou para escapar da cruel e desesperadora realidade em que vivem239.

425. É responsabilidade do Estado combater com firmeza e com base legal, a comercialização indiscriminada da droga e o consumo ilegal da mesma. Lamentavelmente, a corrupção também se faz presente nesta esfera, e aqueles que deveriam estar na defesa de uma vida mais digna, às vezes fazem uso ilegítimo de suas funções para se beneficiar economicamente.

426. Estimulamos todos os esforços que se realizam a partir do Estado, da sociedade civil e das Igrejas em acompanhar estas pessoas. A Igreja Católica tem muitas obras que respondem a esta problemática a partir do nosso ser discípulos e missionários de Jesus, ainda que não de maneira suficiente diante da magnitude do problema; são experiências que reconciliam os dependentes com a terra, com o trabalho, com a família e com Deus. Merecem especial atenção, neste sentido, as Comunidades terapêuticas, por sua visão humanística e transcendente da pessoa.


8.6.5 Detido em prisões

427. Uma realidade que golpeia a todos os setores da população, mas principalmente o mais pobre, é a violência produto das injustiças e outros males que durante longos anos está sendo semeado nas comunidades. Isto induz a uma maior criminalidade e, por fim, a que sejam muitas as pessoas que tem que cumprir penas em recintos penitenciários desumanos, caracterizados pelo comércio de armas, drogas, aglomeração, torturas, ausência de programas de reabilitação, crime organizado que impede um processo de reeducação e de inserção na vida produtiva da sociedade. No momento atual, os cárceres são com freqüência, lamentavelmente, escolas para aprender a delinqüir.

428. É necessário que os Estados considerem com seriedade e verdade a situação do sistema de justiça e a realidade carcerária. É necessário uma maior agilidade nos procedimentos judiciais, uma atenção personalizada da pessoa civil e militar que, em condições muito difíceis, trabalha nos recintos penitenciários, e o reforço da formação ética e dos valores correspondentes.

429. A Igreja agradece aos capelães e voluntários que, com grande entrega pastoral, trabalham nos recintos carcerários. Contudo, deve-se fortalecer a pastoral penitenciária, onde se incluam a tarefa evangelizadora e de promoção humana por parte dos capelães e do voluntariado carcerário. Tem prioridade as equipes de Direitos Humanos que garantem o devido processo aos privados de liberdade e uma atenção muito próxima à família dos presos.

430. Recomenda-se às Conferências Episcopais e Dioceses fomentar as comissões de pastoral penitenciária, que sensibilizem a sociedade sobre a grave problemática carcerária, estimulem processos de reconciliação dentro do recinto penitenciário e incidam nas políticas locais e nacionais no que se refere à segurança cidadã e à problemática penitenciária.

CAPÍTULO 9
FAMÍLIA, PESSOAS E VIDA

431. Não podemos nos deter aqui para analisar todas as questões que integram a atividade pastoral da Igreja, nem podemos propor projetos acabados ou linhas de ação exaustivas. Só nos deteremos a fim de mencionar algumas questões que alcançaram particular relevância nos últimos tempos, para que, posteriormente, as Conferências Episcopais e outros organismos locais avancem em considerações mais amplas, concretas e adaptadas às necessidades do próprio território.

9.1 O matrimônio e a família

432. A família é um dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos e caribenhos e é patrimônio da humanidade inteira. Em nossos países, uma parte importante da população está afetada por difíceis condições de vida que ameaçam diretamente a instituição familiar. Em nossa condição de discípulos e missionários de Jesus Cristo somos chamados a trabalhar para que esta situação seja transformada e a família assuma seu ser e sua missão240 no âmbito da sociedade e da Igreja241.

433. A família cristã está fundada no sacramento do matrimônio entre um homem e uma mulher, sinal do amor de Deus pela humanidade e da entrega de Cristo por sua esposa, a Igreja. A partir desta aliança se manifestam a paternidade e a maternidade, a filiação e a fraternidade e o compromisso dos dois por uma sociedade melhor.

434. Cremos que “a família é imagem de Deus que, em seu mistério mais íntimo não é uma solidão, mas uma família”242. Na comunhão de amor das três Pessoas divinas, nossas famílias tem sua origem, seu modelo perfeito, sua motivação mais bela e seu último destino.

435. Visto que a família é o valor mais querido por nossos povos, cremos que se deve assumir a preocupação por ela como um dos eixos transversais de toda ação evangelizadora da Igreja. Em toda diocese se requer uma pastoral familiar “intensa e vigorosa”243 para proclamar o evangelho da família, promover a cultura da vida e trabalhar para que os direitos das famílias sejam reconhecidos e respeitados.

436. Esperamos que os legisladores, governantes e profissionais da saúde, conscientes da dignidade da vida humana e do fundamento da família em nossos povos, defendam-na e protejam-na dos crimes abomináveis do aborto e da eutanásia; esta é sua responsabilidade. Por isso, diante de leis e disposições governamentais que são injustas à luz da fé e da razão, deve-se favorecer a objeção de consciência. Devemos nos ater à “coerência eucarística”, isto é, ser conscientes de que não podem receber a sagrada comunhão e ao mesmo tempo agir com atos ou palavras contra os mandamentos, em particular quando se propicia o aborto, a eutanásia e outros graves delitos contra a vida e a família. Esta responsabilidade pesa de maneira particular sobre os legisladores, governantes e os profissionais da saúde244.

437. Para tutelar e apoiar a família, a pastoral familiar pode estimular, entre outras, as seguintes ações:

a) Comprometer de uma maneira integral e orgânica ás outras pastorais, os movimentos e associações matrimoniais e familiares a favor das famílias.
b) Estimular projetos que promovam famílias evangelizadas e evangelizadoras.
c) Renovar a preparação remota e próxima para o sacramento do matrimônio e da vida familiar com itinerários pedagógicos de fé245.
d) Promover, em diálogo com os governos e a sociedade, políticas e leis a favor da vida, do matrimônio e da família246.
e) Estimular e promover a educação integral dos membros da família, especialmente daqueles membros da família que estão em situações difíceis, incluindo a dimensão do amor e da sexualidade247.
f) Estimular centros paroquiais e diocesanos com uma pastoral de atenção integral à família, especialmente aquelas que estão em situações difíceis: mães adolescentes e solteiras, viúvas e viúvos, pessoas da terceira idade, crianças abandonadas, etc.
g) Estabelecer programas de formação, atenção e acompanhamento para a paternidade e a maternidade responsáveis.
h) Estudar as causas das crises familiares para encará-las em todos os seus fatores.
i) Continuar oferecendo formação permanente, doutrinal e pedagógica para os agentes de pastoral familiar.
j) Acompanhar com cuidado, prudência e amor compassivo, seguindo as orientações do Magistério248, os casais que vivem em situação irregular, conscientes que os divorciados e casados novamente não são permitidos comungar249. Requerem-se mediações para que a mensagem de salvação chegue a todos. É urgente estimular ações eclesiais, com um trabalho interdisciplinar de teologia e ciências humanas, que ilumine a pastoral e a preparação de agentes especializados para o acompanhamento destes irmãos.
k) Diante das petições de nulidade matrimonial, fazer com que os Tribunais eclesiásticos sejam acessíveis e tenham uma correta e rápida atuação250.
l) Ajudar a criar possibilidades para que os meninos e meninas órfãos e abandonados consigam, pela caridade cristã, condições de acolhida e adoção e possam viver em família.
m) Organizar casas de acolhida e um acompanhamento específico para socorrer com compaixão e solidariedade ás meninas e adolescentes grávidas, ás mães “solteiras”, os lares incompletos.
n) Ter presente que a Palavra de Deus, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, solicita-nos uma atenção especial em relação às viúvas. Procurar uma maneira para que elas recebam uma pastoral que as ajude a enfrentar esta situação, muitas vezes de desamparo e de solidão.


9.2 As crianças

438. A infância, hoje em dia, deve ser destinatária de uma ação prioritária da Igreja, da família e das instituições do Estado, tanto pelas possibilidades que oferece como pela vulnerabilidade a que se encontra exposta. As crianças são dom e sinal da presença de Deus em nosso mundo por sua capacidade de aceitar com simplicidade  mensagem evangélica. Jesus os escolheu com especial ternura (cf. Mt 19,14), e apresentou sua capacidade de acolher o Evangelho como modelo parar entrar no Reino de Deus (cf. Mc 10,14; Mt 18,3).

439. Vemos com dor a situação de pobreza, de violência intra-familiar (sobretudo em famílias irregulares ou desintegradas), de abuso sexual, pela qual passa um bom número de nossas crianças: os setores de infância trabalhadora, crianças de rua, crianças portadora de HIV, órfãos, soldados, e crianças enganadas e expostas à pornografia e prostituição forçada, tanto virtual quanto real. Sobretudo, a primeira infância (0 a 6 anos) requer um cuidado e atenção especiais. Não se pode permanecer indiferente diante do sofrimento de tantas crianças inocentes.

440. Por outro lado, a infância, ao ser a primeira etapa da vida do recém-nascido, constitui uma ocasião maravilhosa para a transmissão da fé. Vemos com gratidão a valiosa ação de tantas instituições a serviço da infância.

441. A esse respeito, propomos algumas orientações pastorais:
a) Inspirar-se na atitude de Jesus para com as crianças, de respeito e acolhida como os prediletos do Reino, atendendo a sua formação integral. De importância para toda sua vida é o exemplo de oração de seus pais e avós, que têm a missão de ensinar a seus filhos e netos as primeiras orações.
b) Estabelecer, onde não existam, O Departamento ou Seção da Infância para desenvolver ações pontuais e orgânicas a favor dos meninos e meninas.
c) Promover processos de reconhecimento da infância como um setor decisivo de especial cuidado por parte da Igreja, da Sociedade e do Estado.
d) Tutelar a dignidade e os direitos naturais inalienáveis dos meninos e das meninas, sem prejuízo dos legítimos direitos dos pais. Cuidar para que os meninos recebam a educação adequada a sua faixa etária no âmbito da solidariedade, da afetividade e da sexualidade humana.
e) Apoiar as experiências pastorais de atenção à primeira infância.
f) Estudar e considerar as pedagogias adequadas para a educação na fé das crianças, especialmente em tudo aquilo relacionado à iniciação cristã, privilegiando o momento da primeira comunhão.
g) Valorizar a capacidade missionária dos meninos e das meninas, que não só evangelizam seus próprios companheiros, mas que também podem ser evangelizadores de seus próprios pais.
h) Promover e difundir processos permanentes de pesquisa sobre a infância, que façam sustentável, tanto o reconhecimento de seu cuidado, como as iniciativas a favor da defesa e de sua promoção integral.
i) Fomentar a instituição da Infância Missionária.

9.3 Os adolescentes e jovens


442. Merece especial atenção a etapa da adolescência. Os adolescentes não são crianças nem são jovens. Estão na idade da procura de sua própria identidade, de independência frente a seus pais, de descoberta do grupo. Nesta idade, facilmente podem ser vítimas de falsos líderes constituindo grupos. É necessário estimular a pastoral dos adolescentes, com suas próprias características, que garanta sua perseverança e o crescimento na fé. O adolescente procura uma experiência de amizade com Jesus.


443. Os jovens e adolescentes constituem a grande maioria da população da América latina e do Caribe. Representam um enorme potencial para o presente e futuro da Igreja  e de nossos povos como discípulos e missionários do Senhor Jesus. Os jovens são sensíveis para descobrir sua vocação a ser amigos e discípulos de Cristo. São chamados a ser “sentinelas da manhã251”, comprometendo-se na renovação do mundo à luz do Plano de Deus. Não temem o sacrifício nem a entrega da própria vida, mas sim uma vida sem sentido. Por sua generosidade, são chamados a servir a seus irmãos, especialmente aos mais necessitados, com todo seu tempo e sua vida. Tem capacidade para se opor às falsas ilusões de felicidade e aos paraísos enganosos das drogas, do prazer, do álcool e de todas as formas de violência. Em sua procura pelo sentido da vida, são capazes e sensíveis para descobrir o chamado particular que o Senhor Jesus lhes faz. Como discípulos missionários, as novas gerações são chamadas a transmitir a seus irmãos jovens, sem distinção alguma, a corrente de vida que procede de Cristo e a compartilhá-la em comunidade, construindo a Igreja e a sociedade.

444. Por outro lado, constatamos com preocupação que inumeráveis jovens do nosso continente passam por situações que os afetam significativamente: as sequelas da pobreza, que limitam o crescimento harmônico de suas vidas e geram exclusão; a socialização cuja transmissão de valores já não acontece primariamente nas instituições tradicionais, mas em novos ambientes não isentos de uma forte carga de alienação; e sua permeabilidade às formas novas de expressões culturais, produto da globalização, que afeta sua própria identidade pessoal e social. São presa fácil das novas propostas religiosas e pseudo-religiosas.  As crises, pelas quais passa a família hoje em dia, produz profundas carências afetivas e conflitos emocionais.

445. Estão muito afetados por uma educação de baixa qualidade, que os deixa por baixo dos níveis necessários de competitividade, somado aos enfoques antropológicos reducionistas, que limitam seus horizontes de vida e dificultam a tomada de decisões duradouras. Vê-se ausência de jovens na esfera política devido á desconfiança que geram as situações de corrupção, o desprestígio dos políticos e a procura de interesses pessoais frente ao bem comum. Constata-se com preocupação suicídios de jovens. Outros não tem possibilidades de estudar ou trabalhar e muitos deixam seus países por não encontrar neles um futuro, dando assim ao fenômeno da mobilidade humana e da migração um rosto juvenil. Preocupa também o uso indiscriminado e abusivo que muitos jovens fazem da comunicação virtual.

446. Diante destes desafios sugerimos algumas linhas de ação:

a) Renovar, em estreita união com a família, de maneira eficaz e realista, a opção preferencial pelos jovens, em continuidade com as Conferências Gerais anteriores, dando novo impulso à Pastoral da Juventude nas comunidades eclesiais (dioceses, paróquias, movimentos, etc).
b) Estimular os Movimentos eclesiais que tem uma pedagogia orientada à evangelização dos jovens e convida-los a colocar mais generosamente suas riquezas carismáticas, educativas e missionárias a serviço das Igrejas locais. 
c) Propor aos jovens o encontro com Jesus Cristo vivo e seu seguimento na Igreja, à luz do Plano de Deus, que garanta a realização plena de sua dignidade de ser humano, que estimule-os a formar sua personalidade e que proponha a eles uma opção vocacional específica: o sacerdócio, a vida consagrada ou o matrimônio. Durante o processo de acompanhamento vocacional, irá aos poucos introduzindo gradualmente os jovens na oração pessoal e na lectio divina, na freqüência aos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação, da direção espiritual e do apostolado.
d) Privilegiar na Pastoral da Juventude processos de educação e amadurecimento na fé como resposta de sentido e orientação da vida e garantia de compromisso missionário. De maneira especial, buscar-se-á implementar uma catequese atrativa para os jovens que os introduza no conhecimento do mistério de Cristo, buscando mostrar a eles a beleza da Eucaristia dominical que os leve a descobrir nela Cristo vivo e o mistério fascinante da Igreja.
e) A pastoral da Juventude ajudará os jovens a se formar de maneira gradual, para a ação social e política e a mudança de estruturas, conforme a Doutrina Social da Igreja, fazendo própria a opção preferencial e evangélica pelos pobres e necessitados.
f) É imperativa a capacitação dos jovens para que tenham oportunidades no mundo do trabalho e evitar que caiam na droga e na violência.
g) Nas metodologias pastorais, procurar uma maior sintonia entre o mundo adulto e o mundo dos jovens.
h) Assegurar a participação dos jovens em peregrinações, nas Jornadas nacionais e mundiais da Juventude, com a devida preparação espiritual e missionária e com a companhia de seus pastores.

9.4 O bem-estar dos idosos

447. O acontecimento da apresentação no templo (cf. Lc 2,41-50) coloca-nos diante do encontro das gerações: as crianças e os anciãos. A criança que surge para a vida, assumindo e cumprindo a Lei, e os anciãos, que a festejam com a alegria do Espírito Santo. Crianças e anciãos constróem o futuro dos povos. As crianças porque levarão adiante a história, os anciãos porque transmitem a experiência e a sabedoria presente em suas vidas.

448. O respeito e a gratidão dos anciãos deve ser testemunhado em primeiro lugar por sua própria família. A Palavra de Deus nos desafia de muitas maneiras a respeitar e valorizar os mais velhos e anciãos. Convida-nos, inclusive, a aprender deles, com gratidão e a acompanhá-los em sua solidão e fragilidade. A frase de Jesus: “aos pobres sempre terão com vocês e poderão socorrê-los quando quiserem” (Mc 14,7), pode muito bem ser entendida, porque fazem parte de cada família, povo e nação. No entanto, muitas vezes, são esquecidos ou descuidados pela sociedade e até mesmo por seus próprios familiares.

449. Muitos de nossos idosos gastaram sua vida pelo bem de sua família e da comunidade, a partir de seu lugar e vocação. Muitos são verdadeiros discípulos missionários de Jesus, por seu testemunho e suas obras. Merecem ser reconhecidos como filhos e filhas de Deus, chamados a compartilhar a plenitude do amor e a serem queridos em particular pela cruz de suas doenças, da capacidade diminuída ou da solidão. A família não deve olhar só as dificuldades que traz conviver com eles ou o ter que atende-los. A sociedade não pode considerá-los como um peso ou uma carga. É lamentável que em alguns países não haja políticas sociais que se ocupem suficientemente dos idosos já aposentados, pensionistas, enfermos ou abandonados. Portanto, exortamos a criação de políticas sociais justas e solidárias, que atendam a estas necessidades.

450. A Igreja se sente comprometida a procurar a atenção humana integral de todas as pessoas idosas, também ajudando-as a viver o seguimento de Cristo em sua atual condição e incorporando-as à missão evangelizadora o quanto possível. Por isso, enquanto agradece o trabalho que já vem realizando religiosas, religiosos e voluntários, a Igreja quer renovar suas estruturas pastorais e preparar inclusive mais agentes, a fim de ampliar este valioso serviço de amor.

9.5 A dignidade e participação das mulheres

451. A antropologia cristã ressalta a igual identidade entre homem e mulher em razão de terem sido criados a imagem e semelhança de Deus. O mistério da Trindade nos convida a viver uma comunidade de iguais na diferença. Em uma época marcada pelo machismo, a prática de Jesus foi decisiva para significar a dignidade da mulher e de seu valor indiscutível:  falou com elas (cf Jo 4,27), teve singular misericórdia com as pecadoras (cf. Lc 7,36-50; Jo 8,11), curou-as (cf. Mc 5,25-34), reivindicou sua dignidade (cf Jo 8,1-11), escolheu-as como primeiras testemunhas de sua ressurreição (cf. Mt 28,9-10) e incorporou-as ao grupo de pessoas que lhe eram mais próximas (cf. Lc 8,1-3). A figura de Maria, discípula por excelência entre discípulos, é fundamental na recuperação da identidade da mulher e de seu valor na Igreja. O canto do Magnificat mostra Maria como mulher capaz de se comprometer com sua realidade e de ter uma voz profética diante dela.

452. A relação entre a mulher e o homem é de reciprocidade e de colaboração mútua. Trata-se de harmonizar, complementar e trabalhar somando esforços. A mulher é co-responsável, junto com o homem, pelo presente e pelo futuro de nossa sociedade humana.

453. Lamentamos que inumeráveis mulheres de toda condição não sejam valorizadas em sua dignidade, fiquem com freqüência sozinhas e abandonadas, não se reconheçam nelas suficientemente seu abnegado sacrifício e inclusive heróica generosidade no cuidado e educação dos filhos nem na transmissão da fé na família. Muito menos se valoriza nem se promove adequadamente sua indispensável e peculiar participação na construção de uma vida social mais humana e na edificação da Igreja. Ao mesmo tempo, sua urgente dignificação e participação pretende ser distorcida por correntes ideológicas, mascadas pela marca cultural das sociedades de consumo e do espetáculo, que são capazes de submeter as mulheres a novas formas de escravidão. Na América Latina e no Caribe é necessário superar uma mentalidade machista que ignora a novidade do cristianismo, onde se reconhece e proclama a “igual dignidade e responsabilidade da mulher em relação ao homem”252.

454. Nesta hora da América Latina e do Caribe é imperativo escutar o clamor, muitas vezes silenciado, de mulheres que são submetidas a muitas formas de exclusão e de violência em todas as suas formas e em todas as etapas de suas vidas. Entre elas, as mulheres pobres, indígenas e afro-americanas tem sofrido uma dupla marginalização. É necessário que todas as mulheres possam participar plenamente na vida eclesial, familiar, cultural, social e econômica, criando espaços e estruturas que favoreçam uma maior inclusão.

455. As mulheres constituem, geralmente, a maioria de nossas comunidades. São as primeiras transmissoras da fé e colaboradoras dos pastores, que devem atendê-las, valorizá-las e respeitá-las.

456. É necessário valorizar a maternidade como missão excelente das mulheres. Isto não se opõe a seu desenvolvimento profissional e ao exercício de todas as suas dimensões, o qual permite ser fiéis ao plano original de Deus que dá ao casal humano, de forma conjunta, a missão de melhorar a terra. A mulher é insubstituível no lar, na educação dos filhos e na transmissão da fé. Mas isto não exclui a necessidade de sua participação ativa na construção da sociedade. Para isso é necessário propiciar uma formação integral de maneira que as mulheres possam cumprir sua missão na família e na sociedade.

457. A sabedoria do plano de Deus nos exige favorecer o desenvolvimento de sua identidade feminina em reciprocidade e complementaridade com a identidade do homem. Por isso a Igreja é chamada a compartilhar, orientar e acompanhar projetos de promoção da mulher com organismos sociais já existentes, reconhecendo o ministério essencial e espiritual que a mulher leva em suas entranhas: receber a vida, acolhê-la, alimentá-la, dar-lhe a luz, sustentá-la, acompanhá-la e exercitar seu ser mulher criando espaços habitáveis de comunidade e de comunhão. A maternidade não é uma realidade exclusivamente biológica, mas se expressa de diversas maneiras. A vocação materna se cumpre através de muitas formas de amor, compreensão e serviço aos demais. A dimensão maternal também se concretiza, por exemplo, na adoção de crianças, oferecendo-lhes proteção e lar. O compromisso da Igreja nesta esfera é ético e profundamente evangélico.

458. Propomos algumas ações pastorais:

a) Estimular a organização da pastoral de maneira que ajude a descobrir e desenvolver em cada mulher e nos âmbitos eclesiais e sociais o “gênio feminino253” e promova o mais amplo protagonismo das mulheres.
b) Garantir a efetiva presença da mulher nos ministérios que na Igreja são confiados aos leigos, assim como também nas instâncias de planejamento e decisão pastorais, valorizando sua contribuição.
c) Acompanhar as associações femininas que lutam para superar situações difíceis, de vulnerabilidade ou de exclusão.
d) Promover o diálogo com autoridade para a elaboração de programas, leis e políticas públicas que permitam harmonizar a vida de trabalho da mulher com seus deveres de mãe de família.

9.6 A responsabilidade do homem e pai de família

459. O homem, a partir de sua especificidade, é chamado pelo Deus da vida a ocupar um lugar original e necessário na construção da sociedade, na geração da cultura e na realização da história. Profundamente motivados pela bela realidade do amor que tem sua fonte em Jesus Cristo, o homem se sente fortemente convidado a formar uma família. Ali, em uma essencial disposição de reciprocidade e complementaridade, vivem e valorizam para a plenitude de sua vida, a ativa e insubstituível riqueza da contribuição da mulher, que lhes permite reconhecer mais nitidamente sua própria identidade.

460. Enquanto batizado, o homem deve se sentir enviado pela Igreja a todos os campos de atividade que constituem sua vocação e missão dando testemunho como discípulo e missionário de Jesus Cristo na família. No entanto, em não poucos casos, desafortunadamente, termina renunciando a esta responsabilidade e delegando-a às mulheres ou esposas. 

461. Tradicionalmente, devemos reconhecer que uma porcentagem significativa deles na América latina e Caribe, se mantém á margem da Igreja e do compromisso que nela são chamados a realizar. Deste modo, afastam-se de Jesus Cristo, da vida plena que tanto desejam e procuram. Esta condição de distância ou indiferença por parte dos homens, que questiona fortemente o estilo de nossa pastoral convencional, contribui para que vá crescendo a separação entre fé e cultura, a gradual perda do que interiormente é essencial e doador de sentido, a fragilidade para resolver adequadamente conflitos e frustrações, à fraqueza para resistir ao embate e seduções de uma cultura consumista, frívola e competitiva, etc. Tudo isto os faz vulneráveis diante da proposta de estilos de vida que, propondo-se como atrativos, terminam sendo desumanizadores. Em um número cada vez mais freqüente deles, vai se abrindo passagem à tentação de ceder à violência, infidelidade, abuso do poder, dependência de drogas, alcoolismo, machismo, corrupção e abandono de seu papel de pais.

462. Por outro lado, uma grande porcentagem de homens se sentem cobrados na família, no trabalho e socialmente. Carentes de maior compreensão, acolhida e afeto da parte dos seus, de serem valorizados de acordo com o que contribuíram materialmente e sem espaços vitais onde compartilhar seus sentimentos mais profundos com toda liberdade,  eles são expostos a uma situação de profunda insatisfação que os deixa a mercê do poder desintegrador da cultura atual. Diante desta situação, e em consideração às conseqüências mencionadas traz para a vida matrimonial e para os filhos, faz-se necessário estimular em todas nossas Igrejas locais uma especial atenção pastoral para o pai de família.

463. Propõem-se algumas ações pastorais:

a) Revisar os conteúdos das diversas catequeses preparatórias aos sacramentos, como as atividades e movimentos eclesiais relacionados com a pastoral familiar, para favorecer o anúncio e a reflexão ao redor da vocação que o homem é chamado e viver no matrimônio, na família, na Igreja e na sociedade.
b) Aprofundar nas instâncias pastorais pertinentes, o papel específico que cabe ao homem na construção da família enquanto Igreja Doméstica, especialmente como discípulo e missionário evangelizador de seu lar.
c) Promover em todos os campos de atividade da educação católica e da pastoral de jovens, o anúncio e o desenvolvimento dos valores e atitudes que facilitem aos jovens e às jovens gerarem competências que lhes permitam favorecer o papel de homem na vida matrimonial, no exercício da paternidade e na educação da fé de seus filhos.
d) Desenvolver nas universidades católicas, à luz da antropologia e da moral cristã, a pesquisa e a reflexão necessárias que permitam conhecer a situação atual do mundo dos homens, das conseqüências do impacto dos atuais modelos culturais em sua identidade e missão, e pistas que possam colaborar no projeto de orientações pastorais a respeito.
e) Denunciar uma mentalidade neoliberal que não vê no pai de família mais do que um instrumento de produção e ganância, relegando-o inclusive na família a um papel de mero provedor. A crescente prática de políticas públicas e iniciativas privadas de promover inclusive o domingo como dia de trabalho, é uma medida profundamente destrutiva da família e dos pais.
f) Favorecer na vida da Igreja a ativa participação dos homens, gerando e promovendo espaços e serviços nos campos assinalados.

9.7 A cultura da vida: sua proclamação e sua defesa

464. O ser humano, criado a imagem e semelhança de Deus, também possui uma altíssima dignidade que não podemos pisotear e que somos convocados a respeitar e a promover. A vida é presente gratuito de Deus, dom e tarefa que devemos cuidar desde a concepção, em todas as suas etapas até a morte natural, sem relativismos.

465. A globalização influi nas ciências e em seus métodos, prescindindo dos procedimentos éticos. Como discípulos de Jesus temos que levar o Evangelho ao grande cenário das mesmas, promover o diálogo entre ciência e fé e, nesse contexto, apresentar a defesa da vida. Este diálogo deve ser realizado pela ética e em casos especiais por uma bioética bem fundamentada. A bioética trabalha com esta base epistemológica, de maneira interdisciplinar, onde cada ciência contribui com suas conclusões.

466. Não podemos escapar deste desafio de diálogo entre a fé, a razão e as ciências. Nossa prioridade pela vida e pela família, carregadas de problemáticas que são debatidas nas questões éticas e na bioética, conduz-nos a iluminá-las com o Evangelho e o Magistério da Igreja254.

467. Hoje, assistimos hoje a novos desafios que nos pedem para ser vozes dos que não têm voz. A criança que está crescendo no seio materno e nas pessoas que se encontram no ocaso de suas vidas, são uma voz de vida digna que grita ao céu e que não pode deixar de nos estremecer. A liberalização e banalização das práticas abortivas são crimes abomináveis, assim como a eutanásia, a manipulação genética e embrionária, ensaios médicos contrários a ética, pena de morte e tantas outras maneiras de atentar contra a dignidade e a vida do ser humano. Se quisermos sustentar um fundamento sólido e inviolável para os direitos humanos, é indispensável reconhecer que a vida humana deve ser defendida sempre, desde o momento da fecundação. De outra maneira, as circunstâncias e conveniências dos poderosos sempre encontrarão desculpas para maltratar as pessoas255.

468. Os desejos de vida, de paz, de fraternidade e de felicidade não encontram resposta em meios aos ídolos do lucro e da eficácia, da insensibilidade diante do sofrimento alheio, dos ataques à vida intra-uterina, a mortalidade infantil, a deterioração de alguns hospitais e todas as modalidade de violência contra crianças, jovens, homens e mulheres. Isto sublinha a importância da luta pela vida e pela dignidade e integridade da pessoa humana. A defesa fundamental da dignidade e destes valores começa na família.

469. A fim de que discípulos e missionários louvem a Deus dando graças pela vida e servindo à mesma, propomos as seguintes ações:

a) Continuar a promoção, nas Conferências Episcopais e nas dioceses, de cursos sobre família e questões éticas para os Bispos e para os agentes de pastorais que possam ajudar a fundamentar com solidez os diálogos a respeito dos problemas e situações particulares sobre a vida.
b) Procurar que presbíteros, diáconos, religiosos e leigos busquem estudos universitários de moral familiar, questões éticas e, quando seja possível, cursos mais especializados de bioética256.
c) Promover foros, painéis, seminários e congressos que estudem, reflitam e analisem temas concretos da atualidade sobre a vida em suas diversas manifestações e, sobretudo, no ser humano, especialmente no que se refere ao respeito pela vida desde a concepção até sua morte natural.
d) Pedir às universidades católicas para organizar programas de bioética acessíveis a todos e tomem posição pública diante dos grandes temas da bioética.
e) Criar nas Conferências Episcopais um comitê de ética e bioética, com pessoas preparadas no tema, que garantam fidelidade e respeito à doutrina do Magistério da Igreja sobre a vida,  para que seja a instância que pesquise, estude, discuta e atualize a comunidade no momento que o debate público seja necessário. Este comitê enfrentará as realidades que se apresentarão na localidade, no país ou no mundo, para defender e promover a vida no momento oportuno.
f) Oferecer aos matrimônios programas de formação em paternidade responsável e sobre o uso dos métodos naturais de regulação da natalidade, como pedagogia exigente de vida e de amor257.
g) Apoiar e acompanhar pastoralmente e com especial ternura e solidariedade as mulheres que decidiram não abortar e acolher com misericórdia aquelas que abortaram para ajudá-las a curar suas graves feridas e convida-las a ser defensoras da vida. O aborto faz duas vítimas: certamente, a criança, mas, também, a mãe.
h) Promover a formação e ação de leigos competentes, anima-los a que se organizem para defender a vida e a família e estimula-los a participar em organismos nacionais e internacionais.
i) Assegurar que se incorpore a objeção de consciência nas legislações e cuidar para que seja respeitada pelas administrações públicas.

9.8 O cuidado com o meio-ambiente

470. Como discípulos de Jesus, sentimo-nos convidados a dar graças pelo dom da criação, reflexo da sabedoria e da beleza do Logos criador. No desígnio maravilhoso de Deus, o homem e a mulher são convocados a viver em comunhão com Ele, em comunhão entre eles e com toda a criação. O Deus da vida encomendou ao ser humano sua obra criadora para que “a cultivasse e a guardasse” (Gn 2,15). Jesus conhecia bem a preocupação do Pai pelas criaturas que Ele alimenta (cf. Lc 12,24) e embeleza (cf. Lc 12,27). E enquanto andava pelos caminhos de sua terra não só se detinha para contemplar a beleza da natureza, mas também convidava seus discípulos a reconhecer a mensagem escondida nas coisas (cf. Lc 12,24-27; Jo 4,35). As criaturas do Pai dão glória “somente com sua existência”258, e por isso o ser humano deve fazer uso delas com cuidado e delicadeza259.

471. A América Latina e o Caribe, estão se conscientizando da natureza como uma herança gratuita que recebemos para proteger, como espaço precioso da convivência humana e como responsabilidade cuidadosa do senhorio do homem para o bem de todos. Esta herança muitas vezes se manifesta frágil e indefesa diante dos poderes econômicos e tecnológicos. Por isso, como profetas da vida, queremos insistir que, nas intervenções sobre os recursos naturais, não predominem os interesses de grupos econômicos que arrasam irracionalmente as fontes de vida, em prejuízo de nações inteiras e da própria humanidade. As gerações que nos sucederão têm direito a receber um mundo habitável e não um planeta com ar contaminado. Felizmente, em algumas escolas católicas, começou-se a introduzir entre as disciplinas uma educação em relação à responsabilidade ecológica.

472. A Igreja agradece a todos os que se ocupam da defesa da vida e do ambiente.  É necessário dar particular importância à mais grave destruição em curso da ecologia humana260. Ela está próxima aos homens do campo que, com amor generoso, trabalham duramente a terra para tirar, à vezes em condições extremamente difíceis, o sustento para suas famílias e contribuir com todos os frutos da terra. Valoriza especialmente os indígenas por seu respeito à natureza e pelo amor à mãe terra como fonte de alimento, casa comum e altar do compartilhar humano.

473. A riqueza natural da América Latina e do Caribe experimentam hoje uma exploração irracional que vai deixando um rastro de dilapidação, e inclusive de morte por toda nossa região. Em todo esse processo o atual modelo econômico tem uma enorme responsabilidade pois privilegia o desmedido afã pela riqueza, acima da vida das pessoas e dos povos e do respeito racional da natureza. A devastação de nossas florestas e da biodiversidade mediante uma atitude predatória e egoísta, envolve a responsabilidade moral daqueles que a promovem, porque coloca em perigo a vida de milhões de pessoas e, em especial, do habitat dos homens do campo e indígenas, que são expulsos para as terras improdutivas e para as grandes cidades para viverem amontoados nos cinturões de miséria. Nossa região tem necessidade de progredir em seu desenvolvimento agro-industrial para valorizar as riquezas de suas terras e  suas capacidades humanas a serviço do bem-comum. Porém, não podemos deixar de mencionar os problemas que uma industrialização selvagem e descontrolada causa em nossas cidades e no campo, que vai contaminando o ambiente com todo tipo de dejetos orgânicos e químicos. Da mesma maneira é preciso alertar a respeito das indústrias extrativas de recursos que, quando não tem procedimentos para controlar e neutralizar seus efeitos danosos sobre o ambiente circundante, produzem a eliminação das florestas, a contaminação da água e transformam as regiões exploradas em imensos desertos. 

474. Diante desta situação, oferecemos algumas propostas e orientações:

a) Evangelizar nossos povos para descubram o dom da criação, sabendo contempla-la e cuidar dela como casa de todos os seres vivos e matriz da vida do planeta, a fim de exercitar responsavelmente o senhorio humano sobre a terra e sobre os recursos para que possam render todos os seus frutos em uma destinação universal, educando para um estilo de vida de sobriedade e austeridade solidárias.
b) Aprofundar a presença pastoral nas populações mais frágeis e ameaçadas pelo desenvolvimento predatório e apoiá-las em seus esforços para conseguir uma eqüitativa distribuição da terra, da água e dos espaços urbanos.
c) Procurar um modelo de desenvolvimento alternativo261, integral e solidário, baseado em uma ética que inclua a responsabilidade por uma autêntica ecologia natural e humana, que se fundamente no evangelho da justiça, da solidariedade e do destino universal dos bens, e que supere a lógica utilitarista e individualista, que não submete os poderes econômicos e tecnológicos a critérios éticos. Portanto, estimular nossos homens do campo a se organizarem de tal maneira que possam conseguir sua justa reivindicação.
d) Empenhar nossos esforços na promulgação de políticas públicas e participações cidadãs que garantam a proteção, conservação e restauração da natureza.
e) Determinar medidas de monitoramento e de controle social sobre a aplicação dos padrões ambientais internacionais nos países.

475. Criar nas Américas consciência sobre a importância da Amazônia para toda a  humanidade. Estabelecer entre as Igrejas locais de diversos países sul-americanos que estão na bacia amazônica uma pastoral de conjunto com prioridades diferenciadas para criar um modelo de desenvolvimento que privilegie os pobres e sirva ao bem comum. Apoiar a Igreja que vive na Amazônia, com os recursos humanos e financeiros necessários para que siga proclamando o evangelho da vida e desenvolva seu trabalho pastoral na formação de leigos e sacerdotes através de seminários, cursos, intercâmbios, visitas às comunidades e material educativo.

CAPÍTULO 10
NOSSOS POVOS E A CULTURA


10.1 A cultura e sua evangelização

476. A cultura, em sua compreensão maior, representa o modo particular com o qual os homens e os povos cultivam sua relação com a natureza e com seus irmãos, com eles mesmos e com Deus, a fim de conseguir uma existência plenamente humana262. Enquanto tal, a cultura é patrimônio comum dos povos e também da América Latina e do Caribe.

477. A V Conferência em Aparecida olha positivamente e com verdadeira empatia as diferentes formas de cultura presentes em nosso continente. A fé só é adequadamente professada,  entendida e vivida quando penetra profundamente no substrato cultural de um povo263. Deste modo, toda a importância da cultura para a evangelização aparece, pois a salvação dada por Jesus Cristo deve ser luz e força para todos os desejos, para as situações alegres ou sofridas e para as questões presentes nas culturas respectivas dos povos. O encontro da fé com as culturas purifica-as, permite que desenvolvam suas virtualidades, enriquece-as, pois todas elas procuram em sua última instância a verdade, que é Cristo (Jo 14,6).

478. Com o Santo Padre damos graças pelo fato de que a Igreja, “ajudando os fiéis cristãos a viverem sua fé com alegria e coerência” tem sido, ao longo de sua história neste continente, criadora e animadora de cultura: “A fé em Deus tem animado a vida e a cultura destes povos durantes mais de cinco séculos”. Esta realidade foi expressa na “arte, na música, na literatura e, sobretudo, nas tradições religiosas e na idiossincrasia  de suas gentes, unidas por uma mesma história e por um mesmo credo, formando uma grande sintonia na diversidade de culturas e de línguas!264.

479. Com a inculturação da fé, a Igreja se enriquece com novas expressões e valores, manifestando e celebrando cada vez melhor o mistério de Cristo, conseguindo unir mais a fé à  vida e contribuindo, assim, para uma catolicidade mais plena, não só geográfica, mas também cultural. No entanto, este patrimônio cultural latino-americano e caribenho se vê confrontado com a cultura atual, que apresenta luzes e sombras. Devemos considera-la com empatia para entende-la, mas também com uma postura crítica para descobrir o que nela é fruto da limitação humana e do pecado. Ela apresenta muitas e sucessivas mudanças, provocadas por novos conhecimentos e descobrimentos da ciência e da tecnologia. Assim se desvanece uma única imagem do mundo que oferecia orientação para a vida cristã. Recai, portanto, sobre o indivíduo toda a responsabilidade de construir sua personalidade e plasmar sua identidade social. Assim temos, por um lado, a emergência da subjetividade, do respeito à dignidade e à liberdade de cada um, sem dúvida uma importante conquista da humanidade. Por outro lado,  este mesmo pluralismo de ordem cultural e religiosa, propagado fortemente por uma cultura globalizada, acaba por erigir o individualismo como característica dominante da atual sociedade, responsável pelo relativismo ético e pela crise da família.

480. Muitos católicos se encontram desorientados frente a esta mudança cultural. Compete á Igreja denunciar claramente “estes modelos antropológicos incompatíveis com a natureza e a dignidade do homem”265. É necessário apresentar a pessoa humana como o centro de toda a vida social e cultural, resultando nela: a dignidade de ser imagem e semelhança de Deus e a vocação de ser filhos no Filho, chamados a compartilhar sua vida por toda a eternidade. A fé cristã nos mostra Jesus Cristo como a verdade última do ser humano266, o modelo no qual o ser humano se realiza em todo seu esplendor ontológico e existencial. Anuncia-lo integralmente em nossos dias exige coragem e espírito profético. Neutralizar a cultura de morte com a cultura cristã da solidariedade é um imperativo que diz respeito a todos nós e que foi um objetivo constante do ensino social da Igreja. No entanto, o anúncio do Evangelho não pode prescindir da cultura atual. Esta deve ser conhecida, avaliada e, em certo sentido, assumida pela Igreja, com uma linguagem compreendida por nossos contemporâneos. Somente assim a fé cristã poderá aparecer como realidade pertinente e significativa de salvação. Mas esta mesma fé deverá gerar modelos culturais alternativos para a sociedade atual. Os cristãos, com os talentos que têm recebido, talento apropriados deverão ser criativos em seus campos de atuação: o mundo da cultura, da política, da opinião pública, da arte e da ciência.

10.2 A educação como bem público

481. Anteriormente nos referimos à educação católica, mas, como pastores, não podemos ignorar a missão do Estado no campo educativo, velando de um modo particular pela educação das crianças e dos jovens. Estes centros educativos não deveriam ignorar que a abertura à transcendência é uma dimensão da vida humana, através da qual a formação integral das pessoas reivindica a inclusão de conteúdos religiosos.

482. A Igreja crê que “as crianças e os adolescentes têm direito de ser estimulados a apreciar com reta consciência os valores morais, prestando a esses valores sua adesão pessoal e também de ser estimulados a conhecer e amar mais a Deus. A Igreja roga, pois, encarecidamente a todos os que governam os povos, ou que estão à frente da educação, procurem que a juventude nunca se veja privada deste sagrado direito”267.

483. Diante das dificuldade que encontramos em vários países a esse respeito, queremos nos empenhar na formação religiosa dos fiéis que assistem às escolas públicas de gestão estatal, procurando acompanha-los também através de outras instâncias formativas em nossas paróquias e dioceses. Ao mesmo tempo, agradecemos a dedicação dos professores de religião nas escolas públicas e os animamos nesta tarefa. Estimulamo-los para que promovam uma capacitação doutrinal e pedagógica. Agradecemos também àqueles que, pela oração e pela vida comunitária, esforçam-se por ser testemunho de fé e de coerência nestas escolas.

10.3 Pastoral da Comunicação social

484. A revolução tecnológica e os processos de globalização formatam o mundo atual como uma grande cultura midiática. Isto envolve uma capacidade para reconhecer as novas linguagens, que podem favorecer uma maior humanização global. Estas novas linguagens configuram um elemento articulador das mudanças na sociedade.

485. “Nosso século tem sido influenciado pelos meios de comunicação social, por isso, o primeiro anúncio, a catequese ou o posterior aprofundamento da fé, não podem prescindir desses meios”. “Colocados a serviço do Evangelho, eles oferecem a possibilidade de difundir quase sem limites o campo de audição da Palavra de Deus, fazendo chegar a Boa Nova a milhões de pessoas. A Igreja se sentiria culpada diante de Deus se não empregasse esses poderosos meios, que a inteligência humana aperfeiçoa cada vez mais. Com eles, a Igreja ‘proclama a partir dos telhados’ (cf. Mt 10,27; Lc 12,3) a mensagem de que é depositária. Neles, encontra uma versão moderna e eficaz do ‘púlpito’. Graças a eles, pode falar às multidões”268.

486. A fim de formar discípulos e missionários neste campo, nós, bispos reunidos na V Conferência, comprometemo-nos a acompanhar os comunicadores, procurando:

a) Conhecer e valorizar esta nova cultura da comunicação.
b) Promover a formação profissional na cultura da comunicação de todos os agentes e cristãos.  
c) Formar comunicadores profissionais competentes e comprometidos com os valores humanos e cristãos na transformação evangélica da sociedade, com particular atenção aos proprietários, diretores, programadores e locutores.
d)  Apoiar e otimizar, por parte da Igreja, a criação de meios de comunicação social próprios, tanto nos setores televisivos e de rádio, como nos sites de Internet e nos meios impressos;
e) Estar presente nos meios de comunicação de massa: imprensa, rádio e TV, cinema digital, sites de Internet, fóruns e tantos outros sistemas para introduzir neles o mistério de Cristo.
f) Educar na formação crítica quanto ao uso dos meios de comunicação a partir da primeira idade;
g) Animar as iniciativas existentes ou a serem criadas neste campo, com espírito de comunhão.
h) Promover leis para criar nova cultura que protejam as crianças, jovens e as pessoas mais vulneráveis para que a comunicação não transgrida os valores e, ao contrário, criem critérios válidos de discernimento269.
i) Desenvolver uma política de comunicação capaz de ajudar tanto as pastorais de comunicação como os meios de comunicação de inspiração católica a encontrar seu lugar na missão evangelizadora da Igreja.

487. A internet, vista dentro do panorama da comunicação social, deve ser entendida na linha já proclamada no Concílio Vaticano II como uma das “maravilhosas invenções da tecnologia”270. “Para a Igreja, o novo mundo do espaço cibernético é uma exortação à grande aventura da utilização de seu potencial para proclamar a mensagem evangélica. Este desafio está no centro do que significa, no início do milênio, seguir o mandado do Senhor, de “avançar”: Dunc in altum! (Lc 5,4)”271.

488. “A Igreja se aproxima a este novo meio com realismo e confiança. Como os outros instrumentos de comunicação, ele é um meio e não um fim em si mesmo. A Internet pode oferecer magníficas oportunidades de evangelização, se usada com competência e uma clara consciência de suas forças e fraquezas”272.

489. Os meios de comunicação, em geral, não substituem as relações pessoais nem a vida comunitária. No entanto, os sites podem reforçar e estimular o intercâmbio de experiências e de informações que intensifiquem a prática religiosa através de acompanhamentos e orientações. Também na família devem aos pais alertar seus filhos para o uso consciente dos conteúdos disponíveis na Internet, para complementar sua formação educacional e moral.

490. Visto que a exclusão digital é evidente, as paróquias, comunidades, centros culturais e instituições educacionais católicas poderiam ser estimuladoras da criação de pontos de rede e de salas digitais para promover a inclusão, desenvolvendo novas iniciativas e aproveitando, com um olhar positivo, aquelas que já existem. Na América Latina e no Caribe existem revistas, jornais, sites, portais e serviços on line de conteúdos informativos e formativos, além de orientações religiosas e sociais diversas, tais como “sacerdote”, “orientador espiritual”, “orientador vocacional”, “professor”, “médico”, entre outros. Existem inumeráveis escolas e instituições católicas que oferecem cursos a distância de teologia e de cultura bíblica.

10.4 Novos lugares e centros de decisão

491. Queremos felicitar e incentivar a tantos discípulos e missionários de Jesus Cristo que, com sua presença ética coerente, continuam semeando os valores evangélicos nos ambientes onde tradicionalmente se faz cultura e nos novos lugares: o mundo das comunicações, a construção da paz, o desenvolvimento e a libertação dos povos, sobretudo das minorias, a promoção da mulher e das crianças, a ecologia e a proteção da natureza. E “o vastíssimo lugar da cultura, da experimentação científica, das relações internacionais”273. Evangelizar a cultura, longe de abandonar a opção preferencial pelos pobres e pelo compromisso com a realidade, nasce do amor apaixonado por Cristo, que acompanha o Povo de Deus na missão de inculturar o Evangelho na história, ardente e infatigável em sua caridade humana.

492. Uma tarefa de grande importância é a formação de pensadores e pessoas que estejam nos níveis de decisão. Para isso, devemos empregar esforço e criatividade na evangelização de empresários, políticos e formadores de opinião no mundo do trabalho, dirigentes sindicais, cooperativos e comunitários.

493. Na cultura atual, estão se abrindo novos campos missionários e pastorais que se abrem. Um deles é, sem dúvida, a pastoral do turismo274 e do entretenimento, que tem um campo imenso de realização nos clubes, nos esportes, no cinema, centros comerciais e outras opções que diariamente chamam a atenção e pedem para ser evangelizados.

494. Diante da falsa visão de uma incompatibilidade entre fé e ciência tão difundida em nossos dias, a Igreja proclama que a fé não é irracional. “Fé e razão são duas asas pelas quais o espírito humano se eleva na contemplação da verdade”275. Por isto, valorizamos a tantos homens e mulheres de fé e ciência, que aprenderam a ver na beleza da natureza os sinais do Mistério, do amor e da bondade de Deus, e são sinais luminosos que ajudam a compreender que o livro da natureza e da Sagrada Escritura falam do mesmo Verbo que se fez carne.

495. Queremos valorizar sempre mais os espaços de diálogo entre fé e ciência, inclusive nos meios de comunicação. Uma forma de fazê-lo é através da difusão da reflexão e da obra dos grandes pensadores católicos, especialmente do século XX, como referências para a justa compreensão da ciência.

496. Deus não é só a suma Verdade. Ele é também a suma Bondade e a suprema Beleza. Por isso, “a sociedade tem a necessidade de artistas da mesma maneira que necessita de cientistas, técnicos, trabalhadores, especialistas, testemunhas da fé, professores, pais e mães, que garantam o crescimento da pessoa e o progresso da comunidade, através daquela forma sublime de arte que é a “arte de educar”276.

497. É necessário comunicar os valores evangélicos de maneira positiva e propositiva. São muitos os que se dizem descontentes, não tanto com o conteúdo da doutrina da Igreja, mas com a forma como ela é apresentada. Para isso, na elaboração de nossos planos pastorais queremos:

a) Favorecer a formação de um laicato capaz de atuar como verdadeiro sujeito eclesial e competente interlocutor entre a Igreja e a sociedade e entre a sociedade e a Igreja.
b) Otimizar o uso dos meios de comunicação católicos, fazendo-os mais atuantes e eficazes, seja para a comunicação da fé, seja para o diálogo entre a Igreja e a sociedade.
c) Atuar com os artistas, esportistas, profissionais da moda, jornalistas, comunicadores e apresentadores, assim como com os produtores de informação nos meios de comunicação, com os intelectuais, professores, líderes comunitários e religiosos.
d) Resgatar o papel do sacerdote como formador de opinião.

498. Aproveitando as experiências dos Centros de Fé e Cultura ou Centros Culturais Católicos, trataremos de criar ou dinamizar os grupos de diálogo entre a Igreja e os formadores de opinião dos diversos campos. Convocamos nossas Universidades Católicas para que sejam cada vez mais lugar de produção e irradiação do diálogo entre fé e razão e do pensamento católico.

499. Cabe também às Igrejas da América Latina e do Caribe criar oportunidades para a utilização da arte na catequese de crianças, adolescentes e adultos, assim como nas diferentes pastorais da Igreja. É necessário também que as ações da Igreja nesse campo sejam acompanhadas por um melhora técnica e profissional exigida pela própria expressão artística. Por outro lado, é também necessária a formação de uma consciência crítica que permita julgar com critérios objetivos a qualidade artística do que realizamos.

500. É fundamental que as celebrações litúrgicas incorporem em suas manifestações elementos artísticos que possam transformar e preparar a assembléia para o encontro com Cristo. A valorização dos espaços de cultura existente, onde se incluem os próprios templos, é uma tarefa essencial para a evangelização pela cultura. Nessa linha,  também se deve incentivar a criação de centros culturais católicos, necessários especialmente nas áreas mais carentes onde o acesso à cultura é mais urgente e reivindica melhorar o sentido do humano.

10.5 Discípulos e missionários na vida pública

501. Os discípulos e missionários de Cristo devem iluminar com a luz do Evangelho todos os espaços da vida social. A opção preferencial pelos pobres, de raiz evangélica, exige uma atenção pastoral atenta aos construtores da sociedade277. Se muitas das estruturas atuais geram pobreza, em parte é devido à falta de fidelidade a compromissos evangélicos de muitos cristãos com especiais responsabilidades políticas, econômicas e culturais.

502. A realidade atual de nosso continente manifesta que existe “uma notável ausência no âmbito político, comunicativo e universitário, de vozes e iniciativas de líderes católicos de forte personalidade e de vocação abnegada que sejam coerentes com suas convicções éticas e religiosas”278.

503. Entre os sinais de preocupação, destaca-se, como uma das mais relevantes a concepção que se tem formado do ser humano, homem e mulher. Agressões à vida, em todas as suas instâncias, em especial contra os mais inocentes e fracos, pobreza aguda e exclusão social, corrupção e relativismo ético, entre outros aspectos, tem como referência um ser humano, na prática, fechado a Deus e ao outro.

504. Os fortes poderes, animados ou por um antigo laicismo exacerbado, ou por um relativismo ético que se propõe como fundamento da democracia, pretende refutar toda presença e contribuição da Igreja na vida pública das nações e a pressionam para que se retire para os templos e para seus serviços “religiosos”. Consciente da distinção entre a comunidade política e comunidade religiosa, base de sã laicidade, a Igreja não deixará de se preocupar pelo bem comum dos povos e, em especial, pela defesa de princípios éticos não negociáveis porque estão arraigados na natureza humana.

505. São os leigos de nosso continente, conscientes de sua chamada à santidade em virtude de sua vocação batismal, os que têm de atuar à maneira de um fermento na massa para construir uma cidade temporal que esteja de acordo com o projeto de Deus. A coerência entre fé e vida no âmbito político, econômico e social exige a formação da consciência, que se traduz em um conhecimento da Doutrina Social da Igreja. Para uma adequada formação na mesma, será de muita utilidade o Compêndio da Doutrina Social da Igreja. A V Conferência se compromete a levar a cabo uma catequese social incisiva, porque “a vida cristã não se expressa somente nas virtudes pessoais, mas também nas virtudes sociais e políticas”279.

506. O discípulo e missionário de Cristo que trabalha nos âmbitos da política, da  economia e nos centros de decisões sofre a influência de uma cultura frequentemente dominada pelo materialismo, pelos interesses egoístas e por uma concepção do homem contrária à visão cristã. Por isso, é imprescindível que o discípulo se fundamente no seguimento do Senhor que concede a ele a força necessária, não só para não sucumbir diante das insídias do materialismo e do egoísmo, mas para construir ao redor dele um consenso moral sobre os valores fundamentais que tornam possível a construção de uma sociedade justa.

507. Pensemos em quão necessário é a integridade moral nos políticos. Muitos dos países latino-americanos e caribenhos, mas também em outros continentes vivem na miséria, por problemas endêmicos de corrupção. Quanta disciplina de integridade moral necessitamos, entendendo essa disciplina no sentido cristão do auto-domínio para fazer o bem, para ser servidor da verdade e do desenvolvimento de nossas tarefas sem nos deixar corromper por favores, interesses e vantagens. É necessário muita força e muita perseverança para conservar a honestidade que deve surgir de uma nova educação que rompa o círculo vicioso da corrupção que reina absoluta. Realmente necessitamos de muito esforço para avançar na criação de uma  verdadeira riqueza moral que nos permita pré-ver nosso próprio futuro.

508. Nós, bispos reunidos na V Conferência, queremos acompanhar os construtores da sociedade, visto que é a vocação fundamental da Igreja neste setor, formar as consciências, ser advogada da justiça e da verdade e educar nas virtudes individuais e políticas280. Queremos chamar ao sentido de responsabilidade dos leigos para que estejam presentes na vida pública e mais concretamente “na formação dos consensos necessários e na oposição contra a injustiça”281.

10.6 A Pastoral Urbana

509. O cristão de hoje não se encontra mais na primeira linha da produção cultural, mas recebe sua influência e seus impactos. As grandes cidades são laboratórios dessa cultura contemporânea complexa e plural.

510. A cidade se converteu no lugar próprio das novas culturas que estão sendo geradas e se impondo, com uma nova linguagem e uma nova simbologia. Esta mentalidade urbana se difunde também, no próprio mundo rural. Definitivamente, a cidade procura harmonizar a necessidade de desenvolvimento com o desenvolvimento das necessidades, fracassando frequentemente neste propósito.

511. No mundo urbano acontecem complexas transformações sócio-econômicas, culturais, políticas e religiosas que fazem impacto em todas as dimensões da vida. É composto de cidades satélites e de bairros periféricos.

512. Na cidade convivem diferentes categorias sociais tais como as elites econômicas, sociais e políticas; a classe média com seus diferentes níveis e a grande multidão dos pobres. Nela, coexistem binômios que a desafiam cotidianamente: tradição- modernidade; globalidade-particularidade; inclusão-exclusão; personalização-despersonalização; linguagem secular-linguagem religiosa; homogeneidade-pluralidade, cultura urbana-pluri-multiculturalismo.

513. A Igreja em seu início se formou nas grandes cidades de seu tempo e se serviu delas para se propagar. Por isso, podemos realizar com alegria e coragem a evangelização da cidade atual. Diante da nova realidade novas experiências se realizam na Igreja, tais como a renovação das paróquias, setorização, novos ministérios, novas associações, grupos, comunidades e movimentos. Mas se percebem atitudes de medo em relação à pastoral urbana; tendência a se fechar nos métodos antigos e de tomar uma atitude de defesa diante da nova cultura, com sentimentos de impotência diante das grandes dificuldades das cidades.

514. A fé nos ensina que Deus vive na cidade, em meio as suas alegrias, desejos e esperanças, com também em meio as suas dores e sofrimentos. As sombras que marcam o cotidiano das cidades, como exemplo, a violência, pobreza, individualismo e exclusão,  não podem nos impedir que busquemos e contemplemos a Deus da vida também nos ambientes urbanos. As cidades são lugares de liberdade e de oportunidade. Nelas, as pessoas tem a possibilidade de conhecer mais pessoas, interagir e conviver com elas. Nas cidades é possível experimentar vínculos de fraternidade, solidariedade e universalidade. Nelas, o ser humano é constantemente chamado a caminhar sempre mais ao encontro do outro, conviver com o  diferente, aceita-lo e ser aceito por ele.

515. O projeto de Deus é “a Cidade Santa, a nova Jerusalém”, que desce do céu, de junto a Deus, “vestida como uma noiva que se adorna para seu esposo”, que é “a tenda que Deus instalou entre os homens. Acampará com eles; eles serão seu povo e o próprio Deus estará com eles. Enxugará as lágrimas de seus olhos e não haverá morte nem luto, nem pranto, nem dor, porque tudo o que é antigo terá desaparecido” (Ap 21,2-4). Este projeto em sua plenitude é futuro, mas já está se realizando em Jesus Cristo, “o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim” (Ap 21,6), que nos diz “Eu faço novas todas as coisas” (Ao 21,5).

516. A Igreja está a serviço da realização desta Cidade Santa, através da proclamação e da vivência da Palavra, da celebração da Liturgia, da comunhão fraterna e do serviço, especialmente aos mais pobres e aos que mais sofrem e, dessa forma, através de Cristo como fermento do Reino vai transformando a cidade atual.

517. Reconhecendo e agradecendo o trabalho renovador que já se realiza em muitos centros urbanos, a V Conferência propõe e recomenda uma nova pastoral urbana que:

a) Responda aos grandes desafios da crescente urbanização.
b) Seja capaz de atender às variadas e complexas categorias sociais, econômicas, políticas e culturais: pobres, classe média e elites.
c) Desenvolva uma espiritualidade da gratidão, da misericórdia, da solidariedade fraterna, atitudes próprias de quem ama desinteressadamente e sem pedir recompensa.
d) Abra-se a novas experiências, estilos e linguagens que possam encarnar o Evangelho na cidade.
e) Transforme as paróquias cada vez mais em comunidades de comunidades.
f) Aposte mais intensamente na experiência de comunidades ambientais, integradas em nível supra-paroquial e diocesano.
g) Integre os elementos próprios da vida cristã: a Palavra, a Liturgia, a comunhão fraterna e o serviço, especialmente aos que sofrem pobreza econômica e novas formas de pobreza.
h) Difunda a Palavra de Deus, anuncie-a com alegria e ousadia e realize a formação dos leigos de tal modo que possam responder as grandes perguntas e aspirações de hoje e se inseriram nos diferentes ambientes, estruturas e centros de decisão da vida urbana.
i) Fomente a pastoral da acolhida aos que chegam à cidade e aos que já vivem nela, passando de um passivo esperar a um ativo buscar e chegar aos que estão longe com novas estratégias tais como visitas às casas, o uso dos novos meios de comunicação social e a constante proximidade ao que constitui para cada pessoa a sua cotidianidade.
j) Ofereça atenção especial ao mundo do sofrimento urbano, isto é, que cuide dos caídos ao longo do caminho e aos que se encontram nos hospitais, encarcerados, excluídos, dependentes das drogas, habitantes das novas periferias, nas novas urbanizações e das famílias que, desintegradas, convivem de fato.
k) Procure a presença da Igreja, por meio de novas paróquias e capelas, comunidades cristãs e centros de pastoral, nas novas concentrações humanas que crescem aceleradamente nas periferias urbanas das grandes cidades devido às migrações internas e situações de exclusão;

518. Para que os habitantes dos centros urbanos e de suas periferias, cristãos  ou não cristãos possam encontrar em Cristo a plenitude de vida, sentimos a urgência de que os agentes de pastoral, enquanto discípulos e missionários, esforcem-se em desenvolver:

a) Um estilo pastoral adequado à realidade urbana com atenção especial a linguagem, às estruturas e práticas pastorais assim como aos horários;
b) Um plano de pastoral orgânico e articulado que se integre a um projeto comum às paróquias, comunidades de vida consagrada, pequenas comunidades, movimentos e instituições que incidem na cidade, e que seu objetivo seja chegar ao conjunto da cidade. Nos casos de grandes cidades nas quais existem várias Dioceses, faz-se necessário um plano inter-diocesano;
c) Uma setorização das paróquias em unidade menores que permitam a proximidade e um serviço mais eficaz;
d) Um processo de iniciação cristã e de formação permanente que retroalimente a fé dos discípulos do Senhor integrando o conhecimento, o sentimento e o comportamento;
e) Serviços de atenção, acolhida pessoal, direção espiritual e do sacramento da reconciliação, respondendo á sociedade, ás grandes feridas psicológicas que sofrem muitos nas cidades, levando em consideração as relações inter-pessoais;
f) Uma atenção especializada aos leigos em suas diferentes categorias: profissionais, empresariais e trabalhadores;
g) Processos graduais de formação cristã com a realização de grandes eventos de multidões, que mobilizem a cidade, que façam sentir que a cidade é um conjunto, que é um todo, que saibam responder á afetividade de seus cidadãos e, em uma linguagem simbólica, saibam transmitir o Evangelho a todas as pessoas que vivem na cidade;
h) Estratégias para chegar aos lugares fechados das cidades como grandes aglomerados de casas, condomínios, prédios residenciais ou nas favelas;
i) Uma presença profética que saiba levantar a voz em relação a questões de valores e princípios do Reino de Deus, ainda que contradiga todas as opiniões, provoque ataques e se fique só no anúncio. Isto é, que seja farol, cidades colocada no alto para iluminar;
j) Uma maior presença nos centros de decisão da cidade, tanto nas estruturas administrativas como nas organizações comunitárias, profissionais e de todo tipo de associação para velar pelo bem comum e promover os valores do Reino;
k) A formação e acompanhamento de leigos e leigas que, influindo nos centros de opinião, organizem-se entre si e possam ser assessores para toda a ação social;
l) Uma pastoral que leve em consideração a beleza no anúncio da Palavra e nas diversas iniciativas, ajudando a descobrir a plena beleza que é Deus;
m) Serviços especiais que respondam às diferentes atividades da cidade: trabalho, descanso, esportes, turismo, arte, etc.
n) Uma descentralização dos serviços eclesiais de modo que sejam muito mais os agentes de pastoral que se integrem a esta missão, levando em consideração as categorias profissionais;
o) Uma formação pastoral dos futuros presbíteros e agentes de pastoral capaz de responder aos novos desafios da cultura urbana.

519. No entanto, tudo o que foi dito anteriormente não tira a importância, de uma renovada pastoral rural que fortaleça os habitantes do campo e seu desenvolvimento econômico e rural, neutralizando as migrações. Deve-se anunciar a eles a Boa Nova para que enriqueçam suas próprias culturas e as relações comunitárias e sociais.

10.7 A serviço da unidade e da fraternidade de nossos povos

520. Na nova situação cultural afirmamos que o projeto do Reino está presente e é possível, e por isso aspiramos a uma América Latina e Caribe unidos, reconciliados e integrados. Esta casa comum é habitada por uma complexa mestiçagem e uma pluralidade étnica e cultural, “na qual o Evangelho tem se transformado (…) no elemento chave de uma síntese dinâmica que, com cores diversas segundo as nações, expressa de todas as formas a identidade dos povos latino-americanos”282.

521. Os desafios que enfrentamos hoje na América Latina e no mundo tem uma característica peculiar. Eles não afetam a todos os nossos povos de maneira similar mas que, para ser enfrentados, requerem uma compreensão global e uma ação conjunta. Cremos que “um fator que pode contribuir notavelmente para superar os urgentes problemas que hoje afetam este continente é a integração latino-americana”283.

522. Por um lado, vai-se configurando uma realidade global que torna possível novos modos de conhecer, aprender e se comunicar, que nos coloca em contato diário com a diversidade de nosso mundo e cria possibilidades para uma união e solidariedade mais estreitas em níveis regionais e em nível mundial. Por outro lado, geram-se novas formas de empobrecimento, exclusão e injustiça. O Continente da esperança deve conseguir sua integração sobre os fundamentos da vida, do amor e da paz.

523. Reconhecemos uma profunda vocação à unidade no “coração” de cada homem, por terem todos a mesma origem e Pai, por levarem em si a imagem e semelhança do próprio Deus em sua comunhão trinitária (cf. Gn 1,26). A Igreja se reconhece nos ensinos do Concílio Vaticano II como “sacramento de unidade do gênero humano”, consciente da vitória pascal de Cristo, mas vivendo no mundo que está ainda sob o poder do pecado, com sua seqüela de contradições, dominações e morte. A partir desta leitura cristã da história, percebe-se a ambigüidade do atual processo de globalização.

524. A Igreja de Deus na América latina e no Caribe é sacramento de comunhão de seus povos. É morada de seus povos; é casa dos pobres de Deus. Convoca e congrega todos em seu mistério de comunhão, sem discriminações nem exclusões por motivo de sexo, raça, condição social e identidade nacional. Quanto mais a Igreja reflete, vive e comunica este dom de inaudita unidade, que encontra na comunhão trinitária sua fonte, modelo e destino, parece mais significativo e incisivo seu operar como sujeito de reconciliação e comunhão na vida de nossos povos. Maria Santíssima é a presença materna indispensável e decisiva na gestação de um povo de filhos e irmãos, de discípulos e missionários de seu Filho.

525. A dignidade de nos reconhecer como uma família de latino-americanos e caribenhos envolve uma experiência singular de proximidade, fraternidade e solidariedade. Não somos um mero continente, apenas um fato geográfico com um mosaico ininteligível de conteúdos. Muito menos somos uma soma de povos e de etnias que se justapõem. Uma e plural, a América Latina é a casa comum, a grande pátria de irmãos e – como afirmou S.S. João Paulo II em Santo Domingo284 – “de alguns povos a quem a mesma geografia, a fé cristã, a língua e a cultura uniram definitivamente no caminho da história”. É, pois, uma unidade que está muito longe de se reduzir a uniformidade, mas que se enriquece com muitas diversidades locais, nacionais e culturais.

526. A III Conferência Geral do Episcopado Latino-americano já se propunha a “retomar com renovado vigor a evangelização da cultura de nossos povos e dos diversos grupos étnicos” para que “a fé evangélica, como base de comunhão, projete-se no sentido de formar uma integração justa nos quadros respectivos de uma nacionalidade, de uma grande pátria latino-americana (…)”285. A IV Conferência em Santo Domingo voltava a propor “o permanente rejuvenescimento do ideal de nossos próceres sobre a Pátria Grande”. A V Conferência em Aparecida expressa sua firme vontade de prosseguir nesse compromisso.

527. Não há, certamente, outra região que conte com tantos fatores de unidade como a América latina – dos quais a vigência da tradição católica é o cimento fundamental de sua construção – mas trata-se de uma unidade comprometida, porque é atravessada por profundas dominações e contradições, e é incapaz de incorporar em si “todos os sangues” e de superar a brecha de estridentes desigualdades e marginalizações. Nossa pátria é grande, mas será realmente “grande” quando a for para todos, com maior justiça. Na verdade, é uma contradição dolorosa que o Continente com o maior número de católicos seja também o de maior iniqüidade social.

528. Nos últimos 20 anos apreciamos os avanços significativos e promissores nos processos e sistemas de integração de nossos países. As relações comerciais e políticas tem se intensificado. Uma comunicação e solidariedade mais estreita entre o Brasil e os países hispano-americanos e os caribenhos é nova. No entanto, há graves bloqueios que travam esses processos. Uma mera integração comercial é frágil e ambígua. Também é frágil e ambígua quando essa integração se reduz a questão de cúpulas políticas e econômicas e não se fundamenta na vida e na participação dos povos. Os atrasos na integração tendem a aprofundar a pobreza e as desigualdades, enquanto as redes de narcotráfico se integram mais das fronteiras. Não obstante que a linguagem política abunde sobre a integração, a dialética da contraposição parece prevalecer sobre o dinamismo da solidariedade e amizade. A unidade não se constrói pela contraposição a inimigos comuns, mas pela realização de uma identidade comum.

10.8 A integração dos indígenas e afro-americanos

529. Como discípulos de Jesus Cristo, encarnado na vida de todos os povos descobrimos e reconhecemos a partir da fé as “sementes do Verbo”286 presentes nas tradições e culturas dos povos indígenas da América Latina. Deles valorizamos seu profundo apreço comunitário pela vida, presente em toda a criação, na existência cotidiana e na milenária experiência religiosa, que dinamiza suas culturas, e que chega a sua plenitude na revelação do verdadeiro rosto de Deus por Jesus Cristo.

530. Como discípulos e missionários a serviço da vida, , acompanhamos os povos indígenas e originários no fortalecimento de suas identidades e organizações próprias, na defesa do território e em uma educação intercultural bilíngüe e na defesa de seus direitos. Comprometemo-nos também a criar consciência na sociedade a respeito da realidade indígena e seus valores, através dos meios de comunicação social e outros espaços de opinião.  A partir dos princípios do Evangelho, apoiamos a denúncia de atitudes contrárias à vida plena em nossos povos de origem e nos comprometemos a prosseguir na obra de evangelização dos indígenas, assim como a procurar as aprendizagens educativas e de trabalho com as transformações culturais que isso implica.

531. A Igreja está atenta diante das tentativas de desarraigar a fé católica das comunidades indígenas; com isso elas ficariam em situação de falta de defesa e de confusão frente aos embates das ideologias e de alguns grupos alienantes, e isso atentaria contra o bem das mesmas comunidades.

532. O seguimento de Jesus no Continente passa também pelo reconhecimento dos afro-americanos como um desafio que nos desafia para viver o verdadeiro amor a Deus e ao próximo. Ser discípulos e missionários significa assumir a atitude de compaixão e cuidado do Pai, que se manifesta na ação libertadora de Jesus. “A Igreja defende os autênticos valores culturais de todos os povos, especialmente dos oprimidos, indefesos e marginalizados, diante da força dominadora das estruturas de pecado manifestas na sociedade moderna”287. Conhecer os valores culturais, a história e as tradições dos afro-americanos, entrar em diálogo fraterno e respeitoso com eles, é um passo importante na missão evangelizadora da Igreja. Acompanha-nos nele o testemunho de São Pedro Claver.

533. Por isto, a Igreja denuncia a prática da discriminação e do racismo em  suas diferentes expressões, pois ofende no mais profundo a dignidade humana criada a “imagem e semelhança de Deus”. Preocupa-nos que poucos afro-americanos cheguem à educação superior, sem a qual se torna mais difícil seu acesso às esferas de decisão na sociedade. Em sua missão de advogada da justiça e dos pobres a Igreja se faz solidária aos afro-americanos nas reivindicações pela defesa de seus territórios, na afirmação de seus direitos, na cidadania, nos projetos próprios de desenvolvimento e consciência de negritude.  A Igreja apóia o diálogo entre cultura negra e fé cristã e suas lutas pela justiça social, e incentiva a participação ativa dos afro-americanos nas ações pastorais de nossas Igrejas e do CELAM. A Igreja com sua pregação, vida sacramental e pastoral precisará ajudar para que as feridas culturais injustamente sofridas na história dos afro-americanos, não absorvam, nem paralisem a partir do seu interior, o dinamismo de sua personalidade humana, de sua identidade étnica, de sua memória cultural, de seu desenvolvimento social nos novos cenários que se apresentam.

10.9 Caminhos de reconciliação e solidariedade

534. A Igreja precisa animar cada povo a transformar sua pátria numa casa de irmãos onde todos tenham uma casa para viver e conviver com dignidade.  Essa vocação requer a alegria de querer ser e fazer uma nação, um projeto histórico sugestivo de vida em comum. A Igreja precisa educar e conduzir cada vez mais à reconciliação com Deus e com os irmãos. Precisa somar e não dividir. Importa cicatrizar as feridas, evitar maniqueísmos, perigosas exasperações e polarizações. Os dinamismos de integração digna, justa e eqüitativa no interior de cada um dos países favorece a integração regional e, ao mesmo tempo, é incentivada por ela.

535. É necessário educar e favorecer nossos povos em todos os gestos, obras e caminhos de reconciliação e de amizade social, de cooperação e de integração. A comunhão alcançada no sangue reconciliador de Cristo nos dá a força para sermos construtores de pontes, anunciadores da verdade, bálsamos para as feridas.  A reconciliação está no coração da vida cristã. Ela é iniciativa própria de Deus em busca de nossa amizade, que comporta consigo a necessária reconciliação com o irmão. Trata-se de uma reconciliação da qual necessitamos nos diversos âmbitos e em todos e entre todos os países.  Esta reconciliação fraterna pressupõe a reconciliação com Deus, fonte única de graça e de perdão, que alcança sua expressão e realização no sacramento da penitência que Deus nos concede através da Igreja.

536. No coração e na vida de nossos povos pulsa um forte sentido de esperança, não obstante as condições de vida que parecem ofuscar toda esperança. Ela se experimenta e se alimenta no presente, graças aos dons e sinais de vida nova que se compartilha; compromete-se na construção de um futuro de maior dignidade e justiça e aspira “os novos céus e nova terra” que Deus nos prometeu em sua morada eterna.

537. A América Latina e o Caribe não devem ser só o Continente da esperança. Além disso, devem também abrir caminhos para a civilização do amor. Assim se expressou o Papa Bento XVI no santuário mariano de Aparecida288: para que nossa casa comum seja um continente da esperança, do amor, da vida e da paz há que se ir, como bons samaritanos ao encontro das necessidades dos pobres e dos que sofrem e criar “as estruturas justas que são uma condição sem a qual não é possível uma ordem justa na sociedade…” Estas estruturas, continua o Papa, “não nascem nem funcionam sem um consenso moral da sociedade sobre os valores fundamentais e sobre a necessidade de viver estes valores com as necessárias renúncias, inclusive contra o interesse pessoal”, e “onde Deus está ausente (…) estes valores não se mostram com toda sua força nem se produz um consenso sobre eles”289. Essas estruturas justas nascem e funcionam quando a sociedade percebe que o homem e a mulher, criados a imagem e semelhança de Deus, possuem uma dignidade inviolável, a serviço da qual terão de conceber e atuar os valores fundamentais que regem a convivência humana. Este consenso moral e mudança de estruturas importam para diminuir a dolorosa iniqüidade que hoje existe em nosso continente, entre outras coisas através de políticas públicas e gastos sociais bem orientados, assim como do controle de lucros desproporcionais de grandes empresas. A Igreja estimula e propicia o exercício de uma “imaginação da caridade” que permita soluções eficazes.

538. Todas as autênticas transformações se forjam no coração das pessoas e se irradiam em todas as dimensões de sua existência e convivência. Não há novas estruturas se não há homens novos e mulheres novas que mobilizem e façam convergir nos povos ideais e poderosas energias morais e religiosas. Formando discípulos e missionários, a Igreja dá resposta a esta exigência.

539. A Igreja estimula e favorece a reconstrução da pessoa e de seus vínculos de pertencimento e convivência, a partir de um dinamismo de amizade, gratuidade e comunhão. Deste modo, neutralizam-se os processos de desintegração e atomização sociais. Para isso, é necessário aplicar o princípio da subsidiariedade em todos os níveis e estruturas da organização social. Na verdade, o Estado e o mercado não satisfazem nem podem satisfazer todas as necessidades humanas. Cabe, portanto, apreciar e estimular os voluntariados sociais, as diversas formas de livre auto-organização e participação populares e as obras de caridade, educativas, hospitalares, de cooperação no trabalho e outras promovidas pela Igreja, que respondem adequadamente a estas necessidades.

540. Os discípulos e missionários de Cristo promovem uma cultura do compartilhar em todos os níveis, em contraposição à cultura dominante de acumulação egoísta, assumindo com seriedade a virtude da pobreza como estilo de vida sóbrio para ir ao encontro e ajudar as necessidades dos irmãos que vivem na indigência.

541. Compete também à Igreja colaborar na consolidação das frágeis democracias, no positivo processo de democratização na América latina e no Caribe, ainda que existam atualmente graves desafios e ameaças de desvios autoritários. Urge educar para a paz, dar seriedade e credibilidade à continuidade de nossas instituições civis, defender e promover os direitos humanos, proteger em especial a liberdade religiosa e cooperar para despertar os maiores consensos nacionais.

542. A paz é um bem valioso, mas precário que todos devemos cuidar, educar e promover em nosso continente. Como sabemos, a paz não se reduz à ausência de guerras, nem à exclusão de armas nucleares em nosso espaço comum. Estas são conquistas já significativas, mas devemos promover a  geração de uma “cultura de paz” que seja fruto de um desenvolvimento sustentável, eqüitativo e respeitoso da criação (“o desenvolvimento é o novo nome da paz” dizia Paulo VI) e que nos permita enfrentar conjuntamente os ataques do narcotráfico e do consumo de drogas, do terrorismo e das muitas formas de violência que hoje imperam em nossa sociedade. A Igreja, sacramento de reconciliação e de paz, deseja que os discípulos e missionários de Cristo sejam também, ali mesmo onde se encontrem, “construtores de paz” entre os povos e nações de nosso Continente. A Igreja é chamada a ser uma escola permanente de verdade e de justiça, de perdão e de reconciliação para construir uma paz autêntica.

543. Uma autêntica evangelização de nossos povos envolve assumir plenamente a radicalidade do amor cristão, que se concretiza no seguimento de Cristo na Cruz; no padecer por Cristo por causa da justiça; no perdão e no amor aos inimigos. Este amor supera o amor humano e participa no amor divino, único eixo cultural capaz de construir uma cultura da vida.  No Deus Trindade a diversidade de Pessoas não gera violência e conflito, mas é a mesma fonte de amor e da vida. Uma evangelização que coloca a Redenção no centro, nascida de um amor crucificado, é capaz de purificar as estruturas da sociedade violenta e gerar novas estruturas. A radicalidade da violência só se resolve com a radicalidade do amor redentor.  Evangelizar sobre o amor de plena doação como solução ao conflito deve ser o eixo cultural “radical” de uma nova sociedade. Só assim o Continente da esperança pode chegar a se tornar verdadeiramente o Continente do amor.

544. Reafirmamos a importância do CELAM e reconhecemos que tem sido uma instância profética para a unidade dos povos latino-americanos e caribenhos, e tem demonstrado a viabilidade de sua cooperação e solidariedade a partir da comunhão eclesial. Por isso nos comprometemos a continuar fortalecendo seu serviço na colaboração colegial dos Bispos e no caminho de realização da identidade eclesial latino-americana e caribenha. Convidamos aos Episcopados de países envolvidos nos diferentes sistemas de integração sub-regionais, incluídos os da bacia Amazônica, a estreitar vínculos de reflexão e de cooperação.  Também estimulamos que continue o fortalecimento de vínculos para a relação entre o Episcopado latino-americano e os Episcopados dos Estados Unidos e Canadá à luz da Exortação Apostólica “Ecclesia in América”, assim como com os Episcopados europeus.

545. Conscientes de que a missão evangelizadora não pode seguir separada da solidariedade com os pobres e sua promoção integral, e sabendo que existem comunidades eclesiais que carecem dos meios necessários, é imperativo ajuda-las, imitando as primeiras comunidades cristãs, para que, de verdade, se sintam amadas. É imperativo, portanto, a criação de um fundo de solidariedade entre as Igrejas da América Latina e do Caribe que esteja a serviço das iniciativas pastorais próprias.

546. Ao enfrentar tão graves desafios nos estimulam as palavras do Santo padre: “Não há dúvida de que as condições para estabelecer uma paz verdadeira são a restauração da justiça, da reconciliação e do perdão. Desta conscientização, nasce a vontade de transformar também as estruturas injustas para estabelecer o respeito da dignidade do homem, criado à imagem e semelhança de Deus… Como tive a ocasião de afirmar, a Igreja não tem como tarefa própria empreender uma batalha política, no entanto, também não pode, nem deve ficar à margem da luta pela justiça”290.

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