Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso
DIÁLOGO E ANÚNCIO

INTRODUÇÃO

25 anos depois da “Nostra aetate”,

1. Há vinte e cinco anos, foi promulgada a Nostra aetate, a declaração do Concílio Vaticano II sobre as relações da Igreja com as outras religiões. O documento salientou a importância do diálogo inter-religioso. Recordou, ao mesmo tempo, o constante dever da Igreja de anunciar Cristo, Caminho, Verdade e Vida, em que os homens e as mulheres encontram a sua plenitude (cf. NA 2).

a um documento sobre Diálogo e Missão,

2. Para promover o trabalho do diálogo, o Papa Paulo VI criou, em 1964, o Secretariado para os não-cristãos, atualmente denominado Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso. Após a Assembléia Plenária de 1984, o Secretariado publicou um documento com o título A atitude da Igreja perante os seguidores de outras religiões. Reflexões e orientações sobre diálogo e missão. O documento declara que a missão evangelizadora da Igreja “é uma realidade unitária mas complexa e articulada”. Indica os seus elementos principais: presença e testemunho; empenho pela promoção social e pela libertação do ser humano; vida litúrgica, oração e contemplação; diálogo inter-religioso; e, por fim, anúncio e catequese.(1)

O anúncio e o diálogo — cada um no próprio âmbito — são ambos considerados elementos componentes e formas autênticas da única missão evangelizadora da Igreja. Ambos são orientados para a comunicação da verdade salvífica.

segue-se outro sobre Diálogo e Anúncio.

3. O presente documento oferece ulteriores considerações sobre estes dois elementos. Salienta, antes de tudo, as suas características, e estuda, depois, a sua recíproca relação. O diálogo é o primeiro a ser enfrentado, não por ser prioritária em relação ao anúncio, mas simplesmente pelo fato que o diálogo constitui a principal preocupação do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, que iniciou a preparação deste documento. O documento, de fato, foi discutido em primeiro lugar durante a Assembléia Plenária do Secretariado, em 1987. As observações feitas naquela ocasião, juntamente com ulteriores consultas, deram vida ao texto que segue, terminado e aprovado durante a Assembléia Plenária do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, em abril de 1990. O processo inteiro foi caracterizado por uma estreita colaboração entre o Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso e a Congregação para a Evangelização dos Povos. Os dois Dicastérios propõem estas reflexões à Igreja universal.

O tema é de atualidade

4. Entre as razões que tornam atual um tema como o estudo das relações entre diálogo e anúncio, podem ser mencionadas as seguintes:

num mundo pluralista

a) No mundo de hoje, caracterizado pela rapidez das comunicações, pela mobilidade das pessoas, pela interdependência, está-se criando uma nova tomada de consciência sobre o pluralismo religioso. As religiões já não se contentam simplesmente com o fato de existir e de sobreviver. Em alguns casos, manifestam um renovamento propriamente dito. Continuam a inspirar e a influenciar a vida de milhões de adeptos. No atual contexto de pluralismo religioso, não pode ser ignorado o importante papel das tradições religiosas.

onde há hesitação a respeito do diálogo

b) Só gradualmente se começa a compreender em que consiste o diálogo inter-religioso entre cristãos e seguidores de outras tradições religiosas, tal como foi delineado pelo Concílio Vaticano II. Em alguns lugares a sua prática ainda é incerta. A situação muda de um país para o outro. Pode depender do tamanho da comunidade cristã, de outras tradições religiosas presentes, e de outros fatores culturais, sociais e políticos. Um exame mais aprofundado da questão poderia ajudar a incentivar o diálogo.

e são levantadas questões.

c) A prática do diálogo suscita alguns problemas na mente de muitos. Há aqueles que pareceriam pensar, erroneamente, que na missão atual da Igreja o diálogo deveria simplesmente substituir o anúncio. No extremo oposto, alguns não conseguem ver o valor do diálogo inter-religioso. Outros, ainda, estão perplexos e perguntam: se o diálogo inter-religioso assumiu tal importância, o anúncio da mensagem evangélica perdeu a sua urgência? O esforço que tende a conduzir as pessoas para a comunidade da Igreja tornou-se secundário, supérfluo? Há, porém, a exigência de uma orientação doutrinal e pastoral, a que este documento gostaria de conduzir, sem pretender oferecer uma resposta exaustiva às muitas e complexas questões que surgem a este propósito.

Quando este texto entrava na fase final de preparação para a publicação, o Santo Padre João Paulo II ofereceu à Igreja a sua Encíclica Redemptoris missio, onde são enfrentadas estas questões e muitas outras. O presente documento desenvolve mais pormenorizadamente o ensinamento da Encíclica sobre o diálogo e sobre a sua relação com a proclamação (cf. RM 55-56), e deve, ser lido à luz dessa Encíclica.

O Dia de Oração pela Paz em Assis

5. O Dia mundial de oração pela paz, celebrado em Assis, a 27 de outubro de 1986, por iniciativa do Papa João Paulo II, é outro estímulo à reflexão. No mesmo dia e posteriormente, em particular na sua alocução aos Cardeais e à Cúria romana, em dezembro de 1986, o Santo Padre explicou o significado da celebração de Assis. Acentuou a unidade fundamental do gênero humano, na sua origem e no seu destino, e o papel da Igreja como sinal efetivo desta unidade. Pôs em relevo, com vigor, o exato alcance do diálogo inter-religioso, reafirmando ao mesmo tempo o dever da Igreja de anunciar Jesus Cristo ao mundo.(2)

e o encorajamento dado pelo Papa João Paulo II

6. No ano seguinte, o Papa João Paulo II declarou aos membros da Assembléia Plenária do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso: “Do mesmo modo que o diálogo inter-religioso é um elemento da missão da Igreja, a proclamação da obra salvífica de Deus em Jesus Cristo Nosso Senhor é outro. Não se trata de escolher um e ignorar ou rejeitar o outro”.(3) A orientação, indicada pelo Papa, encoraja-nos a continuar a nossa reflexão sobre este tema.

são ulteriores estímulos para enfrentar a temática.

7. Este documento é dirigido a todos os católicos, e em particular àqueles que desempenham um papel de guia na comunidade ou estão empenhados num trabalho de formação. É proposto também à atenção dos cristãos que pertencem a outras Igrejas ou comunidades eclesiais e que refletiram, elas próprias, sobre as questões levantadas.(4) E para desejar que também os seguidores das outras tradições religiosas lhe prestem atenção.

Propõe-se um esclarecimento da terminologia:

Antes de prosseguir, será útil esclarecer os ter-mos usados neste documento:

evangelização,

8. O termo missão evangelizadora, ou mais simplesmente evangelização, refere-se à missão da Igreja no seu conjunto. Na Exortação apostólica Evangelii nuntiandi, o vocábulo evangelização é usado em diversas acepções. Significa “levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e, pelo seu influxo, transformá-las a partir de dentro, tornar nova a própria humanidade” (EN 18). Mediante a evangelização, além disso, a Igreja “procura converter ao mesmo tempo a consciência pessoal e coletiva dos seres humanos, a atividade em que eles se aplicam, e a vida e o meio concreto que lhes são próprios” (ibid.).

A Igreja desempenha a sua missão de evangelização através de diversas atividades. O conceito de evangelização assume, portanto, um amplo significado. Pois bem, no mesmo documento este conceito de evangelização é usado num sentido mais específico como “o anúncio claro e irresistível do Senhor Jesus” (EN 22). A Exortação afirma que “este anúncio — kerigma, pregação ou catequese — ocupa um tal lugar na evangelização que com freqüência se tornou sinônimo dela. No entanto, ele não é senão um aspecto da evangelização” (ibid.). Neste documento, o termo missão evangelizadora é usado para evangelização em sentido lato, enquanto o aspecto mais específico é apresentado com o termo anúncio.

diálogo,

9. O diálogo pode ser compreendido de diversos modos. Em primeiro lugar, em nível puramente humano, significa comunicação recíproca, para alcançar um fim comum ou, em um nível mais profundo, uma comunhão interpessoal. Em segundo lugar, o diálogo pode ser considerado como uma atitude de respeito e de amizade, que penetra, ou deveria penetrar, em todas as atividades que constituem a missão evangelizadora da Igreja. Isto pode ser chamado — com razão — “o espírito do diálogo”. Em terceiro, num contexto de pluralismo religioso, o diálogo significa “o conjunto das relações inter-religiosas, positivas e construtivas, com pessoas e comunidades de outros credos para um conhecimento mútuo e um recíproco enriquecimento” (DM 3), na obediência à verdade e no respeito à liberdade. Isto inclui quer o testemunho quer a ,descoberta das respectivas convicções religiosas. E nesta última acepção que o presente documento utiliza o termo diálogo como um dos elementos integrantes da missão evangelizadora da Igreja.

anúncio,

10. O anúncio é a comunicação da mensagem evangélica, o mistério de salvação realizado por Deus para todos em Jesus Cristo, com o poder do Espírito. E um convite a um empenho de fé em Jesus Cristo, a entrar, mediante o batismo, na comunidade dos crentes que é a Igreja. Este anúncio pode fazer-se em forma solene e pública, como aconteceu no dia do Pentecostes (cf. At 2,541) ou sob forma de simples conversão privada (cf. At 8,30-38). Conduz naturalmente a uma catequese que tende a aprofundar esta fé. O anúncio é a base, o centro e o ápice da evangelização (cf. EN 27).

conversão,

11. Na idéia de conversão está sempre incluído um movimento geral para Deus, “o retorno do coração humilde e contrito a Deus, com o desejo de lhe submeter mais generosamente a própria vida” (DM 37). De maneira mais específica, conversão pode também referir-se à mudança de adesão religiosa e, em particular, ao fato de abraçar a fé cristã. O significado do termo conversão, utilizado neste documento, dependerá do contexto em que estiver inserido.

religiões e tradições religiosas.

12. Os termos religiões e tradições religiosas são aqui usados em sentido genérico e analógico. Compreendem aquelas religiões que, juntamente com o cristianismo, fazem referência A. fé de Abraão, (5) e às grandes tradições religiosas da Ásia, da África e demais Continentes.

13. O diálogo inter-religioso deveria estender-se a todas as religiões e a seus seguidores. Contudo, este documento não tratará do diálogo com os seguidores dos chamados “novos movimentos religiosos” devido à diversidade das situações que apresentam, e à necessidade de discernir os valores humanos e religiosos que contêm.(6)

I – DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

A) APROXIMAÇÃO CRISTÃ ÀS TRADIÇÕES RELIGIOSAS

As tradições religiosas são consideradas positivamente

14. Uma justa avaliação das outras tradições religiosas supõe normalmente um estreito contato com elas. Isto implica, além de conhecimentos teóricos, uma experiência prática do diálogo inter-religioso com os seguidores destas tradições. Mas também é verdade que uma correta avaliação teológica destas tradições, pelo menos em termos gerais, permanece sempre um pressuposto necessário para o diálogo inter-religioso. Devemos nos aproximar sensivelmente destas tradições porque encerram valores espirituais e humanos. Exigem respeito da nossa parte visto que, no curso dos séculos, deram testemunho dos esforços feitos para encontrar as respostas “aos mais árduos problemas da condição humana” (NA 1) e expressão à experiência religiosa e às expectativas de milhões de adeptos seus, e continuam a fazê-lo hoje

pelo Vaticano II

15. O Vaticano II deu a orientação para esta avaliação positiva. O significado exato do que afirma o Concílio exige uma cuidadosa e atenta verificação. O Concílio reafirma a doutrina tradicional segundo a qual a salvação em Jesus Cristo é, através de caminhos misteriosos, uma realidade oferecida a todas as pessoas de boa vontade. A afirmação clara desta convicção basilar do Vaticano II encontra-se na Constituição Gaudium et spes. O Concílio ensina que Cristo, novo Adão, mediante o mistério da sua Encarnação, da sua Morte e Ressurreição, atua em cada pessoa, para a conduzir a uma renovação interior:

“E isto vale não apenas para aqueles que crêem em Cristo, mas para todos os homens de boa vontade, no coração dos quais, invisivelmente, opera a graça. Na verdade, se Cristo morreu por todos e a vocação última do ser humano é realmente uma só, a saber, divina, nós devemos acreditar que o Espírito Santo oferece a todos, de um modo que só Deus conhece, a possibilidade de serem associados ao mistério pascal” (GS 22).

que descobre nelas os efeitos da graça divina

16. O Concílio vai mais além. Fazendo sua a visão — e a terminologia — de alguns padres da Igreja primitiva, Nostra aetate fala da presença, nestas tradições, de “um raio daquela Verdade que ilumina todos os homens” (NA 2). Ad Gentes reconhece a presença de “sementes do Verbo” e aponta “as riquezas que Deus generoso dispensou aos povos” (AG 11). Lumen gentium faz referência ao bem “semeado” não só “no coração e na mentalidade dos homens”, mas também “nos ritos próprios e culturas dos povos” (LG 17).

e a ação do Espírito Santo,

17. Estas poucas referências bastam para demonstrar que o Concílio reconheceu abertamente a presença de valores positivos não só na vida religiosa de cada crente das outras tradições religiosas, mas também nas mesmas tradições religiosas a que eles pertencem. Atribui estes valores à presença ativa de Deus mesmo através do seu Verbo, e também à ação universal do Espírito: “Sem dúvida alguma — afirma Ad Gentes — o Espírito Santo estava já operando no mundo, antes da glorificação do Filho” (AG 4).

Partindo, pois, de tudo isto, pode-se ver que estes elementos, como preparação para o Evangelho (LG 16), desempenharam e ainda desempenham um papel providencial na economia divina da salvação. E a Igreja — reconhecendo-o — é levada a entrar em “diálogo e colaboração” (NA 2; cf. GS 92-93): “E exorta os seus filhos a que (…), dando testemunho da fé e da vida cristã, reconheçam, conservem e promovam os bens espirituais e morais, assim como os valores sócio-culturais nelas existentes” (NA 2).

mas salienta o papel da atividade da Igreja.

18. O Concílio é consciente da necessidade da atividade missionária da Igreja para aperfeiçoar em Cristo estes elementos que se encontram em outras religiões. O Concílio afirma claramente: “Liberta dos contágios malignos tudo quanto de verdade e de graça se encontrava já nos gentios, como uma presença velada de Deus, e restitui-o a Cristo seu autor, que destrói o império do demônio e afasta as diversas malícias do pecado. E então tudo o que de bom se encontra semeado no íntimo dos homens ou nos próprios ritos e culturas dos povos, não só não perece, mas é sanado, elevado e consumado para glória de Deus, confusão do demônio e felicidade do homem” (AG 9).

A história da ação salvífica de Deus

19. O Antigo Testamento dá testemunho do fato que, desde o início da criação, Deus estabeleceu uma aliança com todos os povos (cf. Gn 1-11). Isto demonstra que há uma só história de salvação para a humanidade inteira. A Aliança com Noé, o homem que “andou com Deus.” (Gn 6,9), é o símbolo da intervenção de Deus na história das nações. Algumas personagens não Israelitas do Antigo Testamento, no Novo são consideradas como participantes desta única história de salvação. Abel, Enoque e Noé são propostos como modelos de fé (cf. Hb 11,4-7). Eles conheceram, adoraram e creram no único verdadeiro Deus, idêntico ao Deus que se revelou a Abraão e a Moisés. Melquisedec, o Sumo Sacerdote das Nações, abençoa Abraão, o pai de todos os crentes (cf. Hb 7,1-17). E esta história de salvação que vê o seu cumprimento final em Jesus Cristo, em quem se estabelece a nova e definitiva aliança para todos os povos.

estende-se, para além do Povo Eleito, a todas as nações.

20. A consciência religiosa de Israel é caracterizada pela profunda convicção do seu estatuto especial de povo eleito por Deus. A sua eleição, depois, acompanhada de um processo de formação e de exortações contínuas para proteger a pureza do monoteísmo, constitui uma missão. Os profetas insistem continuamente na lealdade e na fidelidade ao Único Deus Verdadeiro e anunciam o Messias prometido. Mas estes mesmos profetas, sobretudo no período do exílio, apresentam uma perspectiva universal, a consciência de que a salvação de Deus se estende, para além e através de Israel, às nações. Isaías prediz que no fim dos tempos as nações acorrerão à casa do Senhor, e dirão: “Vinde, subamos à montanha do Senhor, à casa do Deus de Jacó: O Senhor nos ensinará os seus caminhos, e nós andaremos pelas suas veredas” (Is 2,3). Está dito também: “todos os confins da terra verão o triunfo do nosso Deus” (Is 52,10). Também na literatura Sapiencial, que documenta os intercâmbios culturais entre Israel e os povos que o circundam, é claramente afirmada a ação divina em todo o Universo. Ela estende-se para além dos confins do Povo Eleito e penetra na história das nações e na vida dos indivíduos.

A missão universal de Jesus

21. Dirigindo a atenção para o Novo Testamento, vê-se que Jesus declara ter vindo para reunir as ovelhas perdidas de Israel (cf. Mt 15,24) e proibiu aos seus discípulos, momentaneamente, de Irem às Nações (cf. Mt 10,5). Mas manifestou uma atitude de abertura para com os homens e as mulheres que não pertenciam ao Povo Eleito de Israel. Entra em diálogo com eles, reconhece o que de bom há neles. Admirou-se com a prontidão do centurião em crer, dizendo que nunca tinha encontrado uma tão grande fé em Israel (Mt 8,5-13). Realizou milagres de curas em benefício dos “estrangeiros” (cf. Mc 7,24-30; Mt 15,21-28), e estes milagres eram sinais da vinda do Reino. Conversou com a Samaritana e falou-lhe da hora em que o culto não seria limitado a um lugar particular, mas os verdadeiros adoradores “hão de adorar o Pai em espírito e verdade” (Jo 4,23). Jesus abre, portanto, um horizonte novo, além daquilo que é puramente local, para uma universalidade que é cristológica e pneumatológica no seu caráter. Porque o novo santuário é agora o corpo do Senhor Jesus (cf. Jo 2,21) que o Pai ressuscitou com o poder do Espírito.

anuncia o Reino de Deus

22. A mensagem de Jesus, por conseguinte provada com o testemunho da sua vida, demonstra que na sua pessoa o Reino de Deus, através dele, vem ao mundo. No início do seu ministério público, na Galiléia das nações, ele diz: “completou-se o tempo e o Reino de Deus está perto”. Indica também as condições para entrar neste Reino: “Arrependei-vos e acreditai na Boa Nova” (Mc 1,15). Esta mensagem não se limita àqueles que pertencem ao povo especialmente eleito. Com efeito, Jesus anunciou explicitamente a entrada dos gentios no Reino de Deus (cf. Mt 8,10-11; Mt 11,20-24; Mt 25,31-32.34), um Reino que é ao mesmo tempo histórico e escatológico. É o Reino do Pai que, para que venha, é necessário rezar (cf. Mt 6,10), e o Reino mesmo de Jesus, porque Jesus declara abertamente que ele próprio é rei (cf. Jo 18,33-37). Em Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, nós temos a plenitude da revelação, e o cumprimento dos desejos das Nações.

que se estende a todos os povos.

23. No Novo Testamento as referências à vida religiosa das Nações e também às suas tradições religiosas podem parecer contrastantes, mas são, de fato, complementares. Por um lado, há o veredito negativo da carta aos Romanos, acerca daqueles que não conheceram Deus na criação, e que caíram na idolatria e na depravação (cf. Rm 1,18-32). Por outro lado, os Atos mostram a atitude aberta e positiva de Paulo para com os gentios, tanto no seu discurso em Licaônia (cf. At 14,8-18), como no discurso no Areópago de Atenas, onde lhes louva o espírito religioso e lhes anuncia aquele que, sem conhecerem, adoravam como o “Deus desconhecido” (At 17,22-34). É preciso ter em conta também o fato de a tradição sapiencial ser aplicada a Jesus, Sabedoria de Deus, no Novo Testamento, Palavra de Deus que ilumina todo homem (cf. Jo 1,9) e que, mediante a encarnação, estabelece a sua morada entre nós (cf. Jo 1,14).

Os padres dos primeiros séculos

24. Também a tradição pós-bíblica contém dados contrastantes. Nos escritos dos padres encontram-se facilmente juízos negativos sobre o mundo religioso do seu tempo. E, apesar disso, a antiga tradição manifesta uma notável abertura. Muitos padres da Igreja retomam a tradição sapiencial como está refletida no Novo Testamento. Em particular, alguns autores do século II e do início do século III, como Justino, Ireneu e Clemente de Alexandria, falam, de modo explícito ou de maneira equivalente, dos “germes” lançados pela Palavra de Deus entre as Nações. (7) Pode-se, portanto, afirmar que para eles, antes e fora da economia cristã, Deus se manifestou, embora de modo incompleto. Esta manifestação do Logos é uma prefiguração da revelação plena em Jesus Cristo, que tal manifestação indica.

oferecem uma Teologia da história

25. Com efeito, estes padres dos primeiros séculos apresentam aquilo que se poderia chamar de teologia da história. A história converte-se em história da salvação, à medida que Deus, através dela, se manifesta progressivamente e se comunica à humanidade. Este processo de manifestação e de comunicação divina atinge o seu ápice na encarnação do Filho de Deus em Jesus Cristo. E o significado da distinção de Ireneu entre as quatro alianças feitas por Deus com o gênero humano: com Adão, Noé, Moisés e Jesus Cristo.(8) Esta mesma corrente patrística, cuja importância não se pode subestimar — atingiu, pode-se dizer, o seu ponto culminante com Agostinho, que nas suas últimas obras salienta a presença e a influência universal do mistério de Cristo, ainda antes da Encarnação. Em cumprimento do seu plano de Salvação, Deus, no seu Filho, alcançou a humanidade inteira. Assim, em certo sentido, o cristianismo já existia “no início da humanidade”.(9)

que o Magistério retoma.

26. O Concílio Vaticano II quis ligar-se a esta antiga visão cristã da história. Depois do Concílio, o Magistério da Igreja, especialmente na pessoa do Papa João Paulo II, continuou nesta mesma direção. O Papa reconhece explicitamente a presença operante do Espírito Santo na vida dos membros das outras tradições religiosas, como quando na Redemptor hominis afirma que “a sua crença firme” é “efeito também ela do Espírito da verdade operante para além das fronteiras visíveis do Corpo Místico” (RH 6). Na sua Encíclica Dominum et vivificantem vai ainda mais longe e afirma a ação universal do Espírito Santo no mundo antes da economia do Evangelho, para a qual esta ação estava ordenada, e fala desta mesma ação universal do Espírito, hoje, também fora do Corpo visível da Igreja (cf. DV 53).

O Papa João Paulo II

27. Na sua alocução à Cúria romana, depois do Dia de Oração em Assis, o Papa João Paulo II salientava mais uma vez a presença universal do Espírito Santo, afirmando que “toda oração autêntica é suscitada pelo Espírito Santo, o qual está misteriosamente presente no coração de cada ser humano”, quer seja cristão ou não. Mas de novo, neste mesmo discurso, indo além de uma perspectiva individual, o Papa recordou os principais elementos que juntos constituem, a base teológica para uma aproximação positiva às outras tradições religiosas e à prática do diálogo inter-religioso.

ensina o mistério da unidade de toda a humanidade

28. Antes de tudo há o fato de a humanidade inteira formar uma só família, baseada numa origem comum, porque todos os homens e todas as mulheres são criados por Deus à sua imagem. Paralelamente, todos são chamados a um destino comum, que é a plenitude de vida em Deus. Além disso, o plano divino de salvação é único e o seu centro é Jesus Cristo que, na Encarnação, “se uniu de certo modo a cada homem” (cf. RH 13; GS 22,2). E, por fim, deve-se mencionar a presença ativa do Espírito Santo na vida religiosa dos membros das outras tradições religiosas. O Papa, por conseguinte, conclui falando de “um mistério de unidade” que se manifestou claramente em Assis, “para além das diferenças entre as profissões religiosas”. (10)

e a unidade da salvação.

29. Deste mistério de unidade deriva que todos os homens e todas as mulheres que são salvos participam — embora de modo diferente — do mesmo mistério de salvação em Jesus Cristo, mediante o seu Espírito. Os cristãos são conscientes disto, graças à sua fé, enquanto os outros desconhecem que Jesus Cristo é a fonte de salvação. O mistério de salvação atinge-os, por caminhos conhecidos por Deus, graças à ação invisível do Espírito de Cristo. E através da prática daquilo que é bom nas suas próprias tradições religiosas, e seguindo os ditames da sua consciência, que os membros das outras religiões respondem afirmativamente ao convite de Deus e recebem a salvação em Jesus Cristo, mesmo se não o reconhecem como o seu Salvador (cf. AG 3, 9, 11).

É necessário um discernimento.

30. Podem-se discernir facilmente os frutos do Espírito Santo na vida pessoal dos indivíduos, cristãos e não-cristãos (cf. Gl 5,22-23). E muito mais difícil identificar, nas outras tradições religiosas, elementos da graça capazes de sustentar a resposta afirmativa dos seus membros à chamada de Deus. Requer-se, por conseguinte, um discernimento, cujos critérios é preciso estabelecer. Muitas pessoas sinceras, inspiradas pelo Espírito de Deus, assinalaram certamente com a sua marca a elaboração e o desenvolvimento das suas respectivas tradições religiosas. Mas isto não implica necessariamente que tudo nelas seja bom.

31. Afirmar que as outras tradições religiosas contêm elementos da graça não significa, por outro lado, que tudo, nelas, seja fruto da graça. O pecado atua no mundo e portanto as tradições religiosas, apesar dos seus valores positivos, refletem também os limites do espírito humano, que por vezes está inclinado a escolher o mal. Uma aproximação aberta e positiva às outras tradições religiosas não autoriza, portanto, a fechar os olhos perante as contradições que possam existir entre elas e a revelação cristã. Onde for necessário, é preciso reconhecer que existe incompatibilidade entre certos elementos essenciais da religião cristã e alguns aspectos destas tradições.

O diálogo apresenta a todos um desafio.

32. Isto significa, portanto que, embora entrando com um espírito aberto no diálogo com os membros das outras tradições religiosas, os cristãos podem também questioná-los, num espírito pacífico, sobre o conteúdo de seus credos. Mas os próprios cristãos devem aceitar, por sua vez, serem questionados. De fato, apesar da plenitude da revelação de Deus em Jesus Cristo, algumas vezes o modo como os cristãos compreendem a própria religião e a vivem pode ter necessidade de purificação.

B) O LUGAR DO DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO NA MISSÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA

A Igreja é o sacramento universal de salvação,

33. A Igreja foi querida por Deus e instituída por Cristo para ser, na plenitude dos tempos, sinal e instrumento do plano divino de salvação (LG 1), cujo centro é o mistério de Cristo. Ela é o “sacramento universal de salvação” (LG 48) e “é necessária para a Salvação” (LG 14). O próprio Senhor Jesus inaugura a sua missão “com a pregação da Boa Nova, quer dizer, da vinda do Reino de Deus” (LG 5).

germe e início do Reino

34. A relação entre Igreja e Reino é misteriosa e complexa. Como o Vaticano II ensina, “o Reino manifesta-se principalmente na própria pessoa de Cristo”. Mas a Igreja, que recebeu do Senhor Jesus a missão de anunciar o Reino, “constitui, na terra, o germe e o início”. Ao mesmo tempo, a Igreja “no seu crescer lento, aspira ao Reino perfeito” (LG 5). “O Reino é inseparável da Igreja, porque ambos são inseparáveis da pessoa e da obra de Jesus mesmo… Portanto, não é possível separar a Igreja do Reino, como se a primeira pertencesse exclusivamente ao campo imperfeito da história, enquanto o segundo fosse o perfeito cumprimento escatológico do plano divino de salvação”. (11)

e para ela são todos ordenados.

35. Os membros das outras tradições religiosas são ordenados ou orientados (ordinantur) para a Igreja, enquanto ela é o sacramento em que o Reino de Deus está “misteriosamente” presente, pois, à medida que eles respondem à chamada de Deus, sentida na sua consciência, são salvos em Jesus Cristo e, por conseguinte, já compartilham, de qualquer modo, da realidade significada pelo Reino. A missão da Igreja é fazer crescer “o Reino de nosso Senhor e do seu Cristo” (Ap 11,15), de que é serva. Uma parte deste papel consiste, portanto, em reconhecer que a realidade inicial deste Reino pode ser encontrado também para além dos confins da Igreja, por exemplo, nos corações dos seguidores de outras tradições religiosas, à medida que vivem valores evangélicos e permanecem abertos à ação do Espírito. Deve-se recordar que esta realidade está, na verdade, em estado inicial; ela encontrará o seu complemento no ser ordenado para o Reino de Cristo, já presente na Igreja, mas que só se realizará plenamente no mundo que há de vir.

A Igreja em peregrinação

36. A Igreja, na terra, está sempre em peregrinação. Embora sendo santa por instituição divina, os seus membros não são perfeitos, e trazem o sinal dos limites humanos. Conseqüentemente, a sua transparência como sacramento de salvação ofusca-se. E por isto que a Igreja mesma, “enquanto instituição humana e terrena”, e não só os seus membros, tem sempre necessidade de renovação e reforma (UR 6).

avança para a plenitude da verdade divina

37. Quando se trata da revelação divina, o Concílio ensina que “a verdade profunda, tanto a respeito de Deus como da salvação dos homens e das mulheres, manifesta-se a nós por esta revelação na pessoa de Cristo, que é simultaneamente o mediador e a plenitude de toda a revelação” (DV 2). Fiéis ao mandato recebido de Cristo mesmo, os apóstolos transmitiram, por sua vez, esta Revelação. Portanto, “esta tradição apostólica progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo; com efeito, tanto a compreensão das coisas como das palavras transmitidas, cresce” (DV 8). Tudo isto se realiza graças ao estudo e à experiência espiritual, e se exprime também graças ao ensinamento dos Bispos que receberam um carisma seguro de verdade. E por isso que a Igreja “tende continuamente para a plenitude da verdade divina, até que nela se cumpram as palavras de Deus” (ibid.). Não há aqui contradição com a instituição divina da Igreja nem com a plenitude da revelação divina em Jesus Cristo que lhe foi confiada.

num diálogo de salvação

38. Neste contexto, é mais fácil ver por que e em que sentido o diálogo inter-religioso é um elemento integrante da missão evangelizadora da Igreja. A razão fundamental do empenho da Igreja no diálogo não é meramente de natureza antropológica, mas principalmente teológica. Deus, num diálogo que dura ao longo dos tempos, ofereceu e continua a oferecer a salvação à humanidade. Para ser fiel à iniciativa divina, a Igreja deve, pois, entrar num diálogo de salvação com todos.

com as pessoas de outras religiões,

39. O Papa Paulo VI ensinou-o claramente na sua primeira Encíclica, Ecclesiam suam. O Papa João Paulo II salientou também a chamada da Igreja ao diálogo inter-religioso, dando-lhe o mesmo fundamento. Dirigindo-se aos participantes na Assembléia Plenária do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, em 1984, declarou: “O diálogo (inter-religioso) é fundamental para a Igreja, chamada a colaborar no plano de Deus com os seus métodos de presença, de respeito e de amor para com todos os homens”. Depois, continuou chamando a atenção para uma passagem do decreto Ad Gentes: “Intimamente unidos com os homens e as mulheres na sua vida e na sua atividade, os discípulos de Cristo esperam poder oferecer-lhes o verdadeiro testemunho de Cristo e operar neles a salvação, mesmo onde não podem anunciar plenamente a Cristo” (AG 12). Precedentemente tinha afirmado: “O diálogo insere-se na missão salvífica da Igreja e é por isto que é um diálogo de salvação”.(12)

e isto leva a um empenho mais profundo

40. Neste diálogo de salvação, os cristãos e os outros são chamados a colaborar com o Espírito do Senhor Ressuscitado, Espírito que está presente e opera universalmente. O diálogo inter-religioso não tende simplesmente para uma compreensão mútua e para relações amistosas. Atinge um nível muito mais profundo, que é o do espírito, onde o intercâmbio e a partilha consistem num testemunho mútuo do próprio credo e numa descoberta comum das respectivas convicções religiosas. Mediante o diálogo, os cristãos e os outros são convidados a aprofundar seu empenho religioso e a responder, com crescente sinceridade, ao apelo pessoal de Deus e ao dom gratuito que ele faz de si mesmo, dom que sempre passa, como proclama a nossa fé, através da mediação de Jesus Cristo e da obra do seu Espírito.

e a uma conversão a Deus.

41. Com este objetivo, ou seja, uma conversão mais profunda de todos para Deus, o diálogo inter-religioso já possui o seu próprio valor. Neste processo de conversão, “pode nascer a decisão de deixar uma situação espiritual ou religiosa anterior, a fim de se dirigir para outra” (DM 37). O diálogo sincero supõe, por um lado, aceitar reciprocamente a existência das diferenças, ou também das contradições, e, pelo outro respeitar a livre decisão que as pessoas tomam em conformidade com a própria consciência (cf. DH 2). O ensinamento do Concílio deve ser tido sempre em mente: “E todos os homens estão obrigados a procurar a verdade, sobretudo no que se refere a Deus e à sua Igreja, e a abraçá-la e a pô-la em prática, uma vez conhecida” (DH 1).

C) FORMAS DE DIÁLOGO

As formas de diálogo

42. Existem formas diferentes de diálogo inter-religioso. Pode ser útil recordar aqui as mencionadas pelo documento de 1984 do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso (cf. DM 28-35). As formas citadas são quatro, sem que se tenha procurado estabelecer uma ordem de prioridade:

a) O diálogo da vida, onde as pessoas se esforçam por viver num espírito de abertura e de boa vizinhança, compartilhando as suas alegrias e tristezas, os seus problemas e as suas preocupações.

b) O diálogo das obras, onde os cristãos e os outros colaboram em vista do desenvolvimento integral e da libertação da gente.

c) O diálogo dos intercâmbios teológicos, onde os peritos procuram aprofundar a compreensão das suas respectivas heranças religiosas, e apreciar os valores espirituais uns dos outros.

d) O diálogo da experiência religiosa, onde pessoas radicadas nas próprias tradições religiosas compartilham as suas riquezas espirituais, por exemplo, no que se refere à oração e à contemplação, à fé e aos caminhos da busca de Deus e do Absoluto.

estão ligadas umas às outras

43. Seria oportuno não perder de vista esta variedade de formas de diálogo. Se fosse limitado ao intercâmbio teológico, o diálogo poderia ser facilmente considerado um produto de luxo na missão da Igreja, e, por conseguinte, um campo reservado aos especialistas. Pelo contrário, guiadas pelo Papa e pelos seus bispos, todas as Igrejas locais e todos os membros destas Igrejas são chamados ao diálogo, mas nem todos da mesma maneira. Pode-se notar contudo que estas formas diferentes estão ligadas umas às outras. Os contatos da vida cotidiana e o empenho comum na ação abrirão normalmente o caminho, a fim de cooperar para a promoção dos valores humanos e espirituais; poderiam, por fim, levar também ao diálogo da experiência religiosa, em resposta às grandes questões suscitadas no espírito humano pelas circunstâncias da vida (cf. NA 2). Os intercâmbios em nível de experiência religiosa podem tornar as discussões teológicas mais vivas. Estas, por sua vez, podem iluminar as experiências e encorajar relações mais estreitas.

e dizem respeito à libertação humana

44. É necessário, além disso, acentuar a importância do diálogo no que se refere ao desenvolvimento integral, à justiça social e à libertação humana. As Igrejas locais, como testemunhas de Jesus Cristo, são chamadas a empenhar-se neste campo de modo desinteressado e imparcial. E preciso que lutem a favor dos direitos humanos, que proclamem as exigências da justiça, e que denunciem as injustiças não só quando são vítimas delas seus membros, mas independentemente da crença religiosa das vítimas. É preciso também que todos se associem para procurar resolver os grandes problemas que a sociedade e o mundo devem enfrentar, e para promover a educação em favor da justiça e da paz.

e à cultura.

45. Outro contexto em que o diálogo inter-religioso parece urgente é o da cultura. O conceito de cultura é mais amplo que o de religião. Há uma concepção segundo a qual a religião representa a dimensão transcendente da cultura e, em certo sentido, a sua alma. As religiões contribuíram sem dúvida para o progresso da cultura e para a edificação de uma sociedade mais humana. Mas, algumas vezes, as práticas religiosas tiveram um influxo alienante sobre as culturas. Uma cultura autônoma secularizada pode hoje exercer um papel crítico a respeito de certos elementos negativos em certas religiões. A questão, portanto, é complexa dado que diversas religiões podem coexistir numa única moldura cultural, enquanto uma mesma religião deve exprimir-se em contextos culturais diferentes. Acontece também que as diferenças religiosas podem conduzir para culturas diversas numa mesma região.

46. A mensagem cristã mantém muitos valores que se encontram e são vividos na sabedoria e no rico patrimônio das culturas, mas pode também pôr em questão os valores geralmente aceitos numa determinada cultura. E precisamente um diálogo atento que permite reconhecer e acolher os valores culturais que respeitam a dignidade da pessoa e o seu destino transcendente. Por outro lado, certos aspectos e culturas tradicionalmente cristãs podem ser postos de novo em questão pelas culturas locais de outras tradições religiosas (cf. EN 20). Nestas relações complexas entre cultura e religião, o diálogo inter-religioso, em nível cultural, tem uma importância considerável. O seu objetivo será eliminar as tensões e os conflitos, e também os eventuais confrontos, para uma melhor compreensão entre as diversas culturas religiosas existentes numa determinada região. Poderá contribuir para purificar as culturas de todos os elementos desumanizantes e ser, assim, um agente de transformação. Poderá também ajudar a promover os valores culturais tradicionais ameaçados pelo modernismo e pelo nivelamento que uma internacionalização indiscriminada pode comportar.

D) DISPOSIÇÕES PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO E SEUS FRUTOS

O diálogo exige equilíbrio,

47. O diálogo requer uma atitude equilibrada tanto da parte dos cristãos como da parte dos seguidores das outras tradições. Não deveriam ser nem demasiado ingênuos nem hipercríticos, mas abertos e acolhedores. Já se fez referência ao desinteresse e à imparcialidade, assim como à aceitação das diferenças, e também às possíveis contradições. As outras disposições requeridas são a vontade de se empenhar em conjunto, ao serviço da verdade, e a prontidão em se deixar transformar pelo encontro.

convicção religiosa

48. Isto não significa que, ao entrar em diálogo, devam ser postas de lado as próprias convicções religiosas. Pelo contrário, a sinceridade do diálogo inter-religioso exige que se entre nele com a integralidade da própria fé. Ao mesmo tempo, permanecendo firmes na sua fé que em Jesus Cristo, o único mediador entre Deus e o ser humano (cf. l Tm 2,4-6), foi-lhes dada a plenitude da revelação, os cristãos não se devem esquecer que Deus também se manifestou de certo modo aos seguidores das outras tradições religiosas. Por conseguinte, são chamados a considerar as convicções e os valores dos outros abertamente.

e abertura à verdade,

49. Além disso, a plenitude da verdade recebida em Jesus Cristo não dá aos cristãos, individualmente, a garantia de terem assimilado de modo pleno essa verdade. Em última análise, a verdade não é algo que possuímos, mas uma pessoa por quem nos devemos deixar possuir. Trata-se, portanto, de um processo sem fim. Embora mantendo intacta a sua identidade, os cristãos devem estar dispostos a aprender e a receber dos outros e por intermédio deles os valores positivos das suas tradições. Assim, mediante o diálogo, podem ser induzidos a vencer os preconceitos inveterados, a rever as idéias preconcebidas e a aceitar, por vezes, que a compreensão da sua fé seja purificada.

mas promete ricas recompensas.

50. Se os cristãos cultivarem esta abertura e aceitarem ser postos à prova, vão acolher os frutos do diálogo. Assim descobrirão tudo aquilo que a ação de Deus, através de Jesus Cristo e do seu Espírito, realizou e continua realizando no mundo e na humanidade inteira. Longe de lhes enfraquecer a fé, o verdadeiro diálogo torná-la-á mais profunda. Terão, cada vez mais, consciência da sua identidade cristã e compreenderão mais claramente os elementos distintivos da mensagem cristã. A sua fé abrir-se-á a novas dimensões, ao mesmo tempo que descobrem a presença operante do mistério de Jesus Cristo para além dos confins visíveis da Igreja e do rebanho cristão.

E) OBSTÁCULOS AO DIÁLOGO

No diálogo podem surgir dificuldades

51. Mesmo só no plano puramente humano, não é fácil praticar o diálogo. O diálogo inter-religioso ainda é mais difícil. E importante ser consciente dos obstáculos que podem surgir. Alguns poderiam dizer respeito igualmente aos membros de todas as tradições religiosas e poderiam, por conseguinte, impedir o bom êxito do diálogo. Outros poderiam referir-se de modo mais específico a certas tradições religiosas e criar dificuldades para iniciar um processo de diálogo.

devidas a diversos fatores humanos,

52. Mencionamos aqui alguns dos maiores obstáculos:

a) Uma fé escassamente enraizada.

b) Um conhecimento e uma compreensão insuficientes do credo e das práticas das outras religiões levam a uma falta de apreço do seu significado e, por vezes também, a interpretações erradas.

c) As diferenças culturais que surgem dos níveis diversos de instrução ou do uso de línguas diferentes.

d) Fatores sócio-políticos ou certos pesos do passado.

e) Uma compreensão errônea do significado de termos como conversão, batismo, diálogo etc.

f) Auto-suficiência, falta de abertura, que levam a atitudes defensivas ou agressivas.

g) A falta de convicção acerca do valor do diálogo inter-religioso, que alguns podem considerar como uma tarefa reservada a especialistas e outros como um sinal de fraqueza ou até de traição à fé.

h) A suspeita das motivações dos parceiros para o diálogo.

i) Um espírito polêmico, quando se exprimem convicções religiosas.

j) A intolerância, com freqüência agravada quando é associada a fatores políticos, econômicos, raciais e étnicos, e uma falta de reciprocidade no diálogo que pode levar à frustração.

k) Certas características do atual clima religioso: o crescente materialismo, a indiferença religiosa e o multiplicar-se de seitas religiosas, que geram confusão e novos problemas.

53. Muitos destes obstáculos nascem da falta de compreensão da verdadeira natureza do diálogo inter-religioso e do seu objetivo. E, portanto, necessário explicá-lo incessantemente. Requer-se muita paciência. E preciso recordar que o empenho da Igreja no diálogo não depende do êxito em conseguir chegar a uma compreensão e a um enriquecimento recíprocos; nasce, antes, da iniciativa de Deus que entra em diálogo com a humanidade, e do exemplo de Jesus Cristo cuja vida, morte e ressurreição deram ao diálogo a sua última expressão.

mas que não são insuperáveis.

54. Além disso, os obstáculos, mesmo reais, não devem levar a subestimar as possibilidades de diálogo ou a esquecer os resultados obtidos até agora. Houve progressos na compreensão recíproca e na cooperação ativa. O diálogo também teve um impacto positivo sobre a própria Igreja. Também outras religiões foram levadas, através do diálogo, à renovação e a uma maior abertura. O diálogo inter-religioso permitiu à Igreja compartilhar com outros os valores evangélicos. E por isto que, apesar das dificuldades, o empenho da Igreja no diálogo se mantém firme e irreversível.

II – ANÚNCIO DE JESUS CRISTO

A) O MANDATO CONFIADO PELO SENHOR RESSUSCITADO

O Senhor Jesus enviou os seus discípulos para anunciar o Evangelho

55. O Senhor Jesus confiou aos seus discípulos o mandato de anunciar o Evangelho. E o que narram os quatro Evangelhos e os Atos dos Apóstolos. Há, contudo, algumas variantes nas diversas versões. No Evangelho de Mateus, Jesus diz aos seus discípulos: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra: Ide, pois, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E eu estarei sempre convosco, até o fim do mundo” (Mt 28,18-20). O Evangelho de Marcos apresenta esta ordem de modo mais sucinto: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo, mas quem não acreditar será condenado” (Mc 16,15-16).

No Evangelho de Lucas, a expressão é menos direta: “Assim está escrito que o Messias haveria de sofrer e ressuscitar dentre os mortos ao terceiro dia, que haveria de ser pregado, em seu nome, o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas” (Lc 24,46-48). Nos Atos dos Apóstolos é acentuada a extensão daquele testemunho: “Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judéia e Samaria, e até os confins do mundo” (At 1,8). No Evangelho de João, a missão é expressa de modo ainda diferente: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os envio ao mundo” (Jo 17,18); “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós” (Jo 20,21). Anunciar a Boa Nova a todos os seres humanos, dar testemunho, batizar, ensinar, todos estes aspectos entram na missão evangelizadora da Igreja, mas devem ser considerados à luz da missão realizada por Jesus mesmo, a missão recebida do Pai.

anunciado por ele mesmo,

56. Jesus proclamava o Evangelho de Deus, dizendo: “Completou-se o tempo e o reino de Deus está perto: arrependei-vos e acreditai na Boa Nova” (Mc 1,14-15). Esta passagem resume todo o ministério de Jesus. Jesus proclama esta Boa Nova do Reino não só com as palavras, mas também com as suas ações, as suas atitudes, as suas opções, ou seja, com toda a sua vida e por fim com a sua morte e ressurreição. As suas parábolas, os seus milagres, os exorcismos que faz, tudo está ligado ao Reino de Deus por ele anunciado. Este Reino, por outro lado, não é só algo a anunciar, totalmente destacado da sua própria pessoa. Jesus mostra de modo claro que é por ele e nele que o Reino de Deus vem ao mundo (cf. Lc 17,20-22), e que nele o Reino já veio entre nós, embora ainda deva alcançar a sua plenitude.(13)

e de que deu testemunho mediante a sua vida.

57. Seu ensinamento é confirmado por sua vida. “Se não credes em mim, crede nas minhas obras” (Jo 10,38). Assim como as suas obras são explicadas com as suas palavras, cuja fonte é a consciência de ser um com o Pai: “Em verdade, em verdade vos digo: não pode o Filho fazer nada por si mesmo se não vir o Pai fazê-lo” (Jo 5,19). No processo diante de Pilatos, Jesus disse que tinha vindo ao mundo “a fim de dar testemunho da verdade” (Jo 18,37). Também o Pai dá testemunho dele, quer com palavras que vêm do céu quer nas obras poderosas, os sinais, que Jesus é capaz de realizar. E o Espírito que dá o seu “sinal” ao testemunho de Jesus, autenticando a sua veracidade (cf. Jo 3,32-35).

B) O PAPEL DA IGREJA

A atividade da Igreja para o anúncio

58. É neste contexto que se deve compreender o mandato confiado pelo Senhor ressuscitado à Igreja apostólica. A missão da Igreja é proclamar o Reino de Deus estabelecido na terra em Jesus Cristo, mediante a sua vida, a sua morte e ressurreição, como o dom decisivo e universal de salvação que Deus faz ao mundo. E por isso que “não há verdadeira evangelização se o nome, o ensinamento, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não são proclamados” (EN 22). Há, pois, continuidade entre o Reino anunciado por Jesus e o mistério de Cristo anunciado pela Igreja.

continua a de Jesus.

59. Continuando a missão de Jesus, a Igreja é “o germe e o início” do Reino (LG 5). Ela está a serviço deste Reino e dá-lhe “testemunho”. Isto compreende o testemunho de fé em Jesus Cristo, o Salvador, porque este é o verdadeiro coração da mesma fé e vida da Igreja. Na história da Igreja, todos os apóstolos foram “testemunhas” da vida, morte e ressurreição de Cristo.(14) O testemunho dá-se com palavras e atos, que nunca devem ser postos uns contra os outros. O ato ratifica a palavra, mas sem a palavra o ato pode ser mal-interpretado. O testemunho dos apóstolos, tanto em palavras como em sinais, está subordinado ao Espírito Santo enviado pelo Pai, para que se cumpra plenamente esta tarefa de testemunho.(15)

C) O CONTEÚDO DO ANÚNCIO

Pedro anuncia Cristo ressuscitado.

60. No dia do Pentecostes, em cumprimento da promessa de Cristo, o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos. Naquele tempo, “residiam em Jerusalém judeus piedosos provenientes de todas as nações que há debaixo do céu” (At 2,5) — a lista das pessoas presentes, dada pelo livro dos Atos, serve para salientar o alcance universal deste primeiro evento eclesial.

Pedro, em nome dos Onze, dirige-se à multidão reunida, anunciando Jesus acreditado por Deus com milagres e prodígios, crucificado pelos homens, mas ressuscitado por Deus. E conclui: “Saiba toda a casa de Israel, com absoluta certeza, que Deus estabeleceu, como Senhor e Messias, a esse Jesus por vós crucificado” (At 2,36). Pedro convida, todos os presentes a converterem-se, a tornarem-se discípulos de Jesus mediante o batismo no seu nome, para o perdão dos pecados, e assim receberem o dom do Espírito Santo. Mais tarde, diante do Sinédrio, Pedro dá testemunho da sua fé em Cristo ressuscitado, dizendo com clareza: “não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome dado aos homens que nos possa salvar” (At 4,11-12). Fala-se de novo da natureza universal da mensagem cristã de salvação, ao descrever a conversão de Cornélio. Quando Pedro deu testemunho da vida e da obra de Jesus, desde o início do seu ministério na Galiléia até a sua Ressurreição, “o Espírito Santo desceu sobre quantos ouviam a palavra”, por isso aqueles que acompanhavam Pedro ficaram estupefatos ao verem “que o dom do Espírito Santo fora derramado também sobre os pagãos” (At 10,44-45).

Paulo anuncia o mistério que esteve escondido ao longo dos séculos.

61. Os apóstolos, seguindo o evento do Pentecostes, apresentam-se como testemunhas da ressurreição de Cristo (cf. At 1,22; 4,33; 5,32-33), ou, numa fórmula mais concisa, simplesmente como testemunhas de Cristo (cf. At 3,15; 13,31). Isto emerge ainda mais claramente em Paulo “apóstolo por vocação, escolhido para anunciar o Evangelho de Deus” (Rm 1,1), que recebeu de Jesus Cristo “a graça e o apostolado, a fim de implantar, em honra do seu nome, a obediência à fé no meio de todos os gentios” (Rm 1,5). Paulo anuncia “o Evangelho que Deus de antemão prometera por meio dos seus profetas nas Santas Escrituras” (Rm 1,2), O “Evangelho de seu Filho” (Rm 1,9). Prega Cristo crucificado: “escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1 Cor 1,23; cf. 2,2); “porque ninguém pode pôr outro fundamento diferente do que foi posto, isto é, Jesus Cristo” (1Cor 3,11). Toda a mensagem de Paulo está resumida nesta solene declaração aos Efésios:

“A mim, o menor de todos os santos, foi dada esta graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo, e de elucidar a todos sobre qual seja a economia do Mistério escondido desde tempos antigos em Deus, que tudo criou”, para que esta multi-forme sabedoria de Deus seja agora revelada mediante a Igreja, “conforme o desígnio eterno que realizou em Cristo Jesus, Nosso Senhor” (Ef 3,8-11).

Encontramos a mesma mensagem nas Cartas Pastorais. Deus “deseja que todos os seres humanos se salvem e conheçam a verdade. Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Homem, que se deu em resgate por todos” (1 Tm 2,46). Este “mistério da nossa religião” que é “bastante profundo” encontra a sua expressão num fragmento litúrgico:

“Manifestou-se na carne, foi justificado pelo Espírito, visto pelos anjos, pregado aos gentios, acreditado no mundo e exaltado na glória” (1 Tm 3,16).

João deu testemunho da palavra de vida.

62. O apóstolo João apresenta-se sobretudo como uma testemunha, alguém que viu Jesus e descobriu o seu mistério (cf. Jo 13,23-25; 21,24). “O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco” (1Jo 1,3). “E vimos e testificamos que o Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo” (1Jo 4,14). Para João, a Encarnação é o apoio da mensagem: “E o Verbo fez-se homem e veio habitar entre nós, e nós vimos a sua glória, glória que lhe vem do Pai, como Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). Em Jesus pode-se ver o Pai (cf. Jo 14,9); é o caminho para o Pai (cf. Jo 14,6). Levantado na cruz atrai todos a si (cf. Jo 12,32). E, realmente, “o salvador do mundo” (Jo 4,42).

A palavra, pregada pela Igreja, está cheia de poder.

63. “Prega a palavra”, escreve Paulo a Timóteo (2Tm 4,2). O conteúdo desta palavra exprime-se de diversos modos: é o Reino (cf. At 20,25), o Evangelho do Reino (cf. Mt 24,14), o Evangelho de Deus (cf. Mc 1,14; 1 Ts 2,9).

Mas estas formulações diferentes significam verdadeiramente a mesma coisa: pregar Jesus (cf. At 9,20; 19,13), pregar Cristo (cf. At 8,5). Assim como Jesus refere as palavras de Deus (cf. Jo 3,34), também os apóstolos pregam a palavra de Deus, precisamente porque pregam Jesus que é a Palavra.

A mensagem cristã, portanto, é poderosa e deve ser escutada por aquilo que verdadeiramente é, “não como palavra de homem, mas como palavra de Deus” (1Ts 2,13). Acolhida na fé, a palavra será “viva e eficaz”, “mais penetrante que uma espada de dois gumes” (Hb 4,12). E uma palavra que purifica (cf. Jo 15,3), é fonte de verdade que torna livres (cf. Jo 8,31-32). A palavra tornar-se-á uma presença interior: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai amá-lo-á e viremos a ele e faremos nele morada” (Jo 14,23). E esta a palavra de Deus que deve ser anunciada pelos cristãos.

D) A PRESENÇA E O PODER DO ESPÍRITO SANTO

A Igreja conta com a presença

64. Ao anunciar esta palavra, a Igreja sabe que pode contar com o Espírito Santo, que inspira o seu anúncio e leva aqueles que a escutam à obediência da fé.

É o Espírito que hoje — como nos inícios da Igreja — age em cada um dos evangelizadores que se deixa possuir e conduzir por ele, e põe na sua boca as palavras que ele sozinho não poderia encontrar, ao mesmo tempo que predispõe a alma daqueles que escutam, a fim de a tornar aberta a acolhedora para a Boa Nova e para o Reino anunciado (EN 75).

e com o poder do Espírito,

65. A força do Espírito é confirmada pelo fato que o testemunho mais poderoso é com freqüência dado precisamente no momento em que o discípulo é mais indefeso, incapaz de falar ou de agir, mas todavia permanece fiel. Como diz Paulo: “prefiro vangloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. Alegro-me nas minhas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por Cristo, pois, quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,9-10). O testemunho pelo qual o Espírito leva os homens e as mulheres a conhecerem Jesus como Senhor não é uma realização humana, mas obra de Deus.

E) A URGÊNCIA DO ANÚNCIO

para cumprir o seu dever

66. Como disse o Papa Paulo VI na sua Exortação Evangelii nuntiandi: “A apresentação da mensagem evangélica não é para a Igreja uma contribuição facultativa: é um dever que lhe incumbe, por mandato do Senhor Jesus, a fim de que os homens e as mulheres possam acreditar e serem salvos. Sim, esta mensagem é necessária; ela é única e não poderá ser substituída. Ela não admite indiferença, nem sincretismo, nem acomodação. E a salvação dos homens e das mulheres que está em causa” (EN 5). A urgência foi salientada por Paulo:

“Mas como hão de invocar aquele em quem não acreditaram? E como hão de acreditar naquele que não ouviram? E como ouvirão se ninguém lhes prega? E como pregarão se não forem enviados? Logo, a fé vem da pregação, e a pregação pela palavra de Cristo” (Rm 10,14s).

“Esta lei, estabelecida outrora pelo apóstolo Paulo, conserva ainda hoje todo o seu vigor” (EN 42). É oportuno recordar também estas outras palavras de Paulo: “Porque, se anuncio o Evangelho, não tenho de que me gloriar, pois que me é imposta essa obrigação: Ai de mim se não evangelizar!” (1Cor 9,16).

de anunciar a Salvação em Jesus Cristo.

67. O anúncio é uma resposta à aspiração humana à salvação.

“Onde quer que Deus abre a porta da palavra, para anunciar o mistério de Cristo a todos os homens, com confiança e constância, seja anunciado o Deus vivo e aquele que enviou para salvação de todos, Jesus Cristo, para que os não-cristãos, por moção interior do Espírito Santo, creiam e se convertam livremente ao Senhor, e sinceramente adiram àquele que, sendo ‘caminho, verdade e vida’ (Jo 14,6), satisfaz todas as suas exigências espirituais, superando-as” (AG 13).

F) AS MODALIDADES DO ANÚNCIO

A Igreja segue a guia do Espírito,

68. Proclamando a mensagem de Deus em Jesus Cristo, a Igreja evangelizadora deve ter sempre presente que este anúncio não se realiza no vácuo. Porque o Espírito Santo, o Espírito de Cristo, está presente e atua entre aqueles que escutam a Boa Nova, ainda antes de a ação missionária da Igreja iniciar (cf. RH 12; DV 53). Em muitos casos, eles podem já ter respondido implicitamente à oferta de Deus de salvação em Jesus Cristo; um sinal disto pode ser a prática sincera das próprias tradições religiosas, à medida que elas contêm autênticos valores religiosos. Podem já ter sido atingidos pelo Espírito e, de certo modo, estar associados, sem o saberem, ao Mistério Pascal de Jesus Cristo (cf. GS 22).

aprendendo como há de anunciar

69. Consciente daquilo que Deus já realizou naqueles a quem se dirige, a Igreja procura descobrir a maneira adequada de anunciar a Boa Nova. Deixa-se guiar pela pedagogia divina. Isto significa que aprende de Jesus mesmo e observa os tempos e as estações, como o Espírito sugere. Jesus, com efeito, revelou progressivamente àqueles que o escutavam, o significado do Reino, o plano salvífico de Deus realizado no mistério da sua pessoa. Só gradualmente, e com extremo cuidado, lhes revelou os significados pro-fundos da sua mensagem, a sua identidade de Filho de Deus e o escândalo da cruz. Também os seus discípulos mais próximos — como atestam os Evangelhos —, só chegaram à fé plena no seu Mestre através da própria experiência pascal e do dom do Espírito. Aqueles, pois, que desejam ser discípulos de Jesus, hoje, deverão passar através do mesmo pro-cesso, de descoberta e de empenho. Por conseguinte, o anúncio feito pela Igreja deve ser progressivo e paciente; deve manter o ritmo daqueles que escutam a mensagem, respeitando a sua liberdade e também a sua lentidão em crer (cf. EN 79).

com as qualidades próprias do Evangelho,

70. Também outras qualidades devem caracterizar o anúncio feito pela Igreja. Este deveria ser:

a) Confiante no poder do Espírito e obediente ao mandato recebido do Senhor.(16)

b) Fiel na transmissão do ensinamento recebido de Cristo e conservado na Igreja, depositária da Boa Nova a anunciar (cf. EN 15). “A fidelidade a uma mensagem da qual nós somos servidores… constitui o eixo central da evangelização” (EN 4). “Evangelizar não é para quem quer que seja um ato individual e isolado, mas profundamente eclesial” (EN 60).

c) Humilde, porque consciente de que a plenitude da revelação em Jesus Cristo foi recebida como dom gratuito, e que os mensageiros do Evangelho nem sempre estão plenamente à altura das suas exigências.

d) Respeitoso da presença e da ação do Espírito de Deus nos corações daqueles que escutam a mensagem, reconhecendo que o Espírito é “o agente principal de evangelização” (EN 75).

e) Dialogador, dado que no anúncio aquele que escuta a Palavra não é um ouvinte passivo. Existe um progresso dos “germes do Verbo”, já presentes em quem escuta, para o mistério pleno da salvação em Jesus Cristo. A Igreja deve reconhecer um pro-cesso de purificação e de iluminação no qual o Espírito de Deus abre a mente e o coração de quem escuta na obediência da fé.

Inculturado, encarnado na cultura e na tradição espiritual daqueles a quem se dirige, de modo que a mensagem não só lhes seja inteligível, mas também compreendida como correspondente às suas mais profundas aspirações, e verdadeiramente como a Boa Nova que eles esperavam (cf. EN 20; 62).

em estreita união com Cristo.

71. Para manter estas qualidades, a Igreja não deve ter em conta só as circunstâncias da vida e da experiência religiosa daqueles a quem se dirige. Deve também viver em diálogo constante com o seu Senhor e

Mestre, mediante a oração, a penitência, a meditação e a vida litúrgica, e sobretudo na celebração da Eucaristia. Só assim a proclamação e a celebração da mensagem evangélica se tornam plenamente vivas.

G) OBSTÁCULOS AO ANÚNCIO

O anúncio encontra dificuldades

72. O anúncio da Boa Nova por parte da Igreja impõe sérias exigências, tanto à Igreja evangelizadora e aos seus membros empenhados na evangelização, quanto àqueles que são chamados por Deus à obediência da fé cristã. Não é uma tarefa fácil.

A seguir, são apresentados alguns dos principais obstáculos que podem ser encontrados.

da parte dos cristãos

73. Dificuldades internas:

a) Pode acontecer que o testemunho cristão não corresponda àquilo em que se acredita; pode haver uma discrepância entre palavras e ações, entre a mensagem cristã e o modo de viver dos cristãos.

b) Os cristãos poderiam descuidar do anúncio do Evangelho “por negligência, por medo ou por vergonha — aquilo que São Paulo chamava exatamente ‘envergonhar-se do Evangelho’ (cf. Rm 1,16) — ou por se seguirem idéias falsas” (EN 80) a respeito do plano divino de salvação.

c) Os cristãos que não têm apreço nem respeito pelos outros crentes e pelas suas tradições religiosas, estão mal preparados para lhes anunciar o Evangelho.

d) Uma atitude de superioridade de alguns cristãos, que se manifesta em nível cultural, poderia fazer supor que uma determinada cultura está ligada à mensagem cristã, e que deve ser imposta aos convertidos.

e fora da comunidade cristã.

74. Dificuldades externas:

a) O peso da história torna o anúncio mais difícil, dado que certos métodos de evangelização, no passado, por vezes fizeram surgir temores e suspeitas entre os seguidores de outras religiões.

b) Os membros das outras religiões poderiam temer que o resultado da missão evangelizadora da Igreja fosse a destruição da sua religião e da sua cultura.

c) Uma concepção diferente dos direitos humanos ou uma falta de respeito pelas praxes deles pode dar como resultado a falta de liberdade religiosa.

d) A perseguição pode tornar o anúncio particularmente difícil ou quase impossível. Deve-se contudo recordar que a cruz é fonte de vida: “o sangue dos mártires é germe de cristãos”.

e) A identificação de uma religião particular com a cultura nacional, ou com um sistema político, cria um clima de intolerância.

f) Em alguns lugares, a conversão é proibida por lei, e os convertidos ao cristianismo podem encontrar sérios problemas, como o ostracismo por parte da sua comunidade religiosa de origem, do contexto social ou do ambiente cultural.

g) Num contexto pluralista, o perigo do indiferentismo, do relativismo ou do sincretismo religioso, cria obstáculos ao anúncio do Evangelho.

H) O ANÚNCIO DA MISSÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA

Na missão evangelizadora da Igreja,

75. A missão evangelizadora da Igreja foi, por vezes, entendida como se consistisse simplesmente em convidar todos os seres humanos a serem discípulos de Jesus na Igreja. Lentamente, foi-se desenvolvendo uma compreensão mais vasta da evangelização em que o anúncio do mistério de Cristo, contudo, constitui o centro. O decreto do Concílio Vaticano II sobre a atividade missionária da Igreja, quando trata da obra missionária, menciona a solidariedade com a humanidade, o diálogo e a colaboração, antes de falar de testemunho e de anúncio do Evangelho (cf. AG 11-13). O Sínodo dos Bispos, em 1974, e a Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi usaram, imediatamente depois, o termo evangelização em sentido lato. Na evangelização é a pessoa inteira do evangelizador a ser envolvida, com palavras, ações e testemunho de vida (cf. EN 21-22). Do mesmo modo, o seu objetivo estende-se a tudo aquilo que é humano, porque procura transformar a cultura e as culturas, mediante a força do Evangelho (cf. EN 18-20). Mas o Papa Paulo VI precisou bem que “A evangelização há de conter sempre — ao mesmo tempo como base, centro e ápice do seu dinamismo — uma proclamação clara que, em Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida a todos os homens, como dom da graça e da misericórdia do mesmo Deus” (EN 27). E neste sentido que o Documento de 1984, do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, inclui o anúncio entre os diversos elementos de que é composta a missão evangelizadora da Igreja (cf. DM 13).

o anúncio é um dever sagrado.

76. É útil, contudo, salientar mais uma vez que proclamar o nome de Jesus e convidar as pessoas a serem seus discípulos na Igreja é um importante e sagrado dever a que a Igreja não pode furtar-se. A sua omissão tornaria a evangelização incompleta, porque, sem este elemento central, os outros, embora sendo formas autênticas da missão da Igreja, perderiam a sua coesão e vitalidade. E evidente, portanto que nas situações em que, por razões políticas ou de outra natureza, o anúncio é quase impossível, a Igreja já cumpre a sua missão evangelizadora não só graças à sua presença e ao seu testemunho, mas também mediante atividades como o empenho por um desenvolvimento humano integral e pelo diálogo. Por outro lado, nas situações em que as pessoas estão dispostas a escutar a mensagem do Evangelho e se encontram na possibilidade de responder, a Igreja tem o dever de ir ao encontro das suas expectativas.

III – DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO E ANÚNCIO

A) CORRELATOS MAS NÃO INTERCAMBIÁVEIS

A missão da Igreja

77. O diálogo inter-religioso e o anúncio, embora não no mesmo nível, são autênticos elementos da missão evangelizadora da Igreja. São legítimos e necessários. Estão intimamente ligados, mas não são intercambiáveis: o verdadeiro diálogo inter-religioso supõe, da parte do cristão, o desejo de fazer conhecer melhor, reconhecer e amar Jesus Cristo, e o anúncio de Jesus Cristo deve fazer-se no espírito evangélico do diálogo. As duas atividades permanecem distintas mas, como a experiência demonstra, a mesma Igreja local e a mesma pessoa podem estar diversamente empenhadas em ambas.

deve ser sensível às circunstâncias.

78. Na prática, a maneira de cumprir a missão da Igreja depende das circunstâncias particulares de cada Igreja local, de cada cristão. Isto sempre implica certa sensibilidade pelos aspectos sociais, culturais, religiosos e políticos da situação, e também uma atenção aos “sinais dos tempos”, através dos quais o Espírito de Deus fala, instrui e guia. Esta sensibilidade e esta atenção desenvolvem-se mediante uma espiritualidade de diálogo. Esta requer um discernimento interior e uma reflexão teológica sobre o significado das diversas tradições religiosas no desígnio de Deus, e sobre a experiência daqueles que encontram nelas o seu alimento espiritual.

B) A IGREJA E AS RELIGIÕES

Estende-se a todos

79. Ao cumprir a sua missão, a Igreja entra em contato com indivíduos de outras tradições religiosas. Alguns tornam-se discípulos de Jesus Cristo na sua Igreja, no termo de uma profunda conversão e por uma livre decisão pessoal. Outros são atraídos pela pessoa de Jesus e pela sua mensagem, mas por várias razões não chegam a fazer parte do seu rebanho. Outros ainda parecem nutrir pouco ou nenhum interesse por Jesus. Seja qual for o caso, a missão da Igreja destina-se a todos. Também em relação às religiões a que eles pertencem, vê-se que no diálogo a Igreja tem um papel profético. Dando testemunho dos valores do Evangelho, ela apresenta interrogativos a estas religiões. Igualmente a Igreja, à medida que traz o sinal dos limites humanos, poderia ser posta em discussão.

Assim, ao promover estes valores, num espírito de emulação e de respeito para com o mistério de Deus, os membros da Igreja e os seguidores das outras religiões encontram-se como companheiros no caminho comum que toda a humanidade é chamada a percorrer. O Papa João Paulo II dizia-o em Assis, no final do dia de oração, de jejum e de peregrinação pela paz: “Procuremos ver nela uma antecipação do que Deus quereria que fosse o curso da história da humanidade: uma viagem fraterna na qual nos acompanhamos uns aos outros rumo à meta transcendente que ele estabelece para nós”.(17)

mediante o diálogo

80. A Igreja encoraja e estimula o diálogo inter-religioso não só entre ela e as outras tradições religiosas, mas também entre estas mesmas tradições religiosas. E, esta, uma maneira de cumprir o seu papel de “sacramento”, ou seja, de “sinal e também instrumento de união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (LG 1). O Espírito convida-a a encorajar todas as instituições e movimentos religiosos a encontrarem-se, a colaborarem e a purificarem-se, a fim de promoverem a verdade e a vida, a santidade e a justiça, o amor e a paz, dimensões daquele Reino que Cristo, no fim dos tempos, entregará a seu Pai (cf. 1Cor 15,24). Assim, o diálogo inter-religioso é verdadeiramente parte do diálogo de salvação iniciado por Deus.(18)

C) ANUNCIAR JESUS CRISTO

e mediante o anúncio,

81. Por outro lado, o anúncio tende a conduzir as pessoas a um conhecimento explícito daquilo que Deus fez por todos — homens e mulheres — em Jesus Cristo, e a convidá-los a serem discípulos de Jesus, tornando-se membros da Igreja. Quando a Igreja, obedecendo ao mandamento do Senhor ressuscitado e às sugestões do Espírito, desempenha esta tarefa de anúncio, é com freqüência necessário fazê-lo de modo progressivo. Deve-se realizar um discernimento para ver de que modo Deus está presente na história pessoal de cada um.

Os seguidores das outras religiões podem descobrir, como também os cristãos, que já compartilham muitos valores. Isto pode levar a se colocar a questão como um testemunho da comunidade cristã ou de uma profissão de fé pessoal, em que a plena identidade de Jesus é confessada humildemente. Então, quando os tempos estão maduros, pode fazer-se a pergunta decisiva de Jesus: “Quem dizeis que eu sou?” A verdadeira resposta a esta pergunta só pode brotar da fé. Pregar e confessar, movidos pela graça, que Jesus de Nazaré é Filho de Deus Pai, Senhor Ressuscitado e Salvador, constitui a fase final do anúncio. Aquele que professa livremente esta fé é convidado a ser discípulo de Jesus, na sua Igreja, e a tomar a sua parte de responsabilidade na própria missão.

D) EMPENHO NA ÚNICA MISSÃO

como dois caminhos da mesma missão.

82. Todos os cristãos são chamados a estar pessoalmente empenhados nestes dois caminhos para cumprir a missão única da Igreja, ou seja, o anúncio e o diálogo. A maneira como o fazem dependerá das circunstâncias e também do seu grau de preparação. Todavia, devem ter sempre presente que o diálogo, como já foi dito, não constitui a missão inteira da Igreja, que não pode simplesmente substituir o anúncio, mas permanece para o anúncio, enquanto nele o processo dinâmico da missão evangelizadora da Igreja atinge o seu ápice e a sua plenitude. Empenhados no diálogo inter-religioso, descobrirão as “sementes do Verbo” nos corações das pessoas e nas tradições religiosas a que pertencem. Aprofundando o seu apreço pelo mistério de Cristo, poderão discernir os valores positivos da busca humana do Deus desconhecido ou só parcialmente conhecido. Através das diferentes fases do diálogo, os interlocutores poderão sentir necessidade de informar e ser informados, de dar e receber explicações, de se questionarem reciprocamente. Os cristãos, empenhados no diálogo, têm portanto o dever de responder às expectativas dos seus parceiros sobre os conteúdos da fé cristã, e dar testemunho desta fé quando são chamados a fazê-lo, de dar a razão da esperança que está neles (cf. 1Pd 3,15). Para poderem fazê-lo, os cristãos devem aprofundar a sua fé, purificar os seus comportamentos, esclarecer a sua linguagem, tornar o seu culto cada vez mais autêntico.

O amor deseja compartilhar,

83. Nesta aproximação do diálogo, como podem deixar de sentir a esperança e o desejo de compartilhar com os outros a própria alegria de conhecer e de seguir Jesus Cristo, Senhor e Salvador? Estamos, aqui, no centro do mistério do amor. A medida que a Igreja e os cristãos têm um amor profundo pelo Senhor Jesus, o desejo de compartilhá-lo com outros é motivado não só pela sua obediência ao mandamento do Senhor, mas por este mesmo amor. Não deveria ser surpreendente, mas absolutamente normal, que os seguidores das outras religiões possam desejar sinceramente compartilhar a sua fé.

Todo diálogo implica a reciprocidade e tem como objetivo eliminar o medo e a agressividade.

por indicação do Espírito

84. Os cristãos devem ser sempre conscientes da influência do Espírito Santo, e estar preparados para ir aonde o Espírito os conduz, segundo a providência e o desígnio de Deus. E o Espírito que guia a missão evangelizadora da Igreja. Cabe ao Espírito, de fato, inspirar o anúncio da Igreja e a obediência à fé. A nós compete estarmos atentos às sugestões do Espírito. Quer o anúncio seja possível ou não, a Igreja prossegue a sua missão no respeito da liberdade, mediante o diálogo inter-religioso, testemunhando e compartilhando os valores evangélicos. Assim, os parceiros no diálogo progredirão para responder ao apelo de Deus, de que têm consciência. Todos — os cristãos e os seguidores das outras religiões — são convidados por Deus mesmo a entrar no mistério da sua presciência, como seres humanos que procuram a sua luz e a sua verdade.

Só Deus conhece os tempos e as etapas do cumprimento desta longa busca humana.

E) JESUS NOSSO MODELO

e seguindo o exemplo de Jesus,

85. É neste clima de expectativa e de escuta que a Igreja e os cristãos continuam o anúncio e o diálogo inter-religioso com um verdadeiro espírito evangélico. Estão conscientes de que “Deus concorre em tudo para o bem dos que o amam” (Rm 8,28). A graça faz-lhes conhecer que ele é o Pai de todos, que se revelou em Jesus Cristo. Jesus não é porventura para eles o modelo e o guia no empenho tanto pelo anúncio como pelo diálogo? Não é porventura o único que, ainda hoje, pode dizer a uma pessoa sinceramente religiosa: “Não estás longe do Reino de Deus” (Mc 12,34)?

que se ofereceu por toda a humanidade.

86. Para os cristãos não se trata só de imitar Jesus, mas de estar intimamente unidos a ele. Convidou os seus discípulos e amigos a unirem-se a ele na sua oblação única em favor de toda a humanidade. O pão e o vinho, pelos quais deu graças, simbolizam a criação inteira. Vão se tornar o seu corpo “oferecido” e o seu sangue “derramado pela remissão dos pecados”. Mediante o ministério da Igreja, é a única Eucaristia a ser oferecida por Jesus em todos os tempos e lugares, desde o tempo da sua Paixão, Morte e Ressurreição em Jerusalém. Os cristãos unem-se aqui a Cristo na sua oferta que “traz a salvação ao mundo inteiro” (IV Oração Eucarística). Esta é uma oração agradável a Deus, que deseja que “todos os homens se salvem e conheçam a verdade” (1Tm 2,4). Assim, dão graças por “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama e tudo o que é virtuoso e louvável” (Fl 4,8). Haurem nela a graça do discernimento para serem assim capazes de ler os sinais da presença do Espírito e de conhecer o tempo oportuno e a correta maneira de anunciar Jesus Cristo.

CONCLUSÃO

Uma atenção especial a cada religião

87. A finalidade destas reflexões sobre o diálogo inter-religioso e o anúncio de Jesus Cristo foi fornecer alguns esclarecimentos fundamentais. Mas é importante recordar que as diversas religiões diferem umas das outras. Uma atenção especial deve ser dada às relações com os seguidores de cada religião.

requer estudo

88. E também importante que sejam empreendidos estudos específicos sobre a relação entre diálogo e anúncio, considerando cada religião no interior da sua área geográfica e do seu contexto sócio-cultural. As Conferências Episcopais poderiam confiar estes estudos a apropriadas comissões e a institutos de Teologia e de Pastoral. A luz dos resultados fornecidos por estes estudos, estes institutos poderiam também organizar cursos especiais e sessões de estudo que preparassem para o diálogo e para o anúncio. Uma atenção especial há de ser dirigida aos jovens que vivem num contexto pluralista e encontram seguidores de outras religiões na escola, no trabalho, nos movimentos juvenis, em outras associações e até mesmo nas próprias famílias.

e oração.

89. Diálogo e anúncio são tarefas difíceis, mas absolutamente necessárias. Todos os cristãos, cada um no próprio âmbito, deveriam ser encorajados a preparar-se melhor para cumprir o seu duplo empenho. Mas, ainda mais do que uma tarefa a cumprir, o diálogo e o anúncio são graças pelas quais é preciso rezar. Todos, portanto, devem implorar incessantemente o auxílio do Espírito Santo, a fim de que seja “o inspirador decisivo dos seus planos, das suas iniciativas e da sua atividade evangelizadora” (EN 75).

Pentecostes, 19 de maio de 1991.

Francis Card. ARINZE
Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso

Jozef Card. TOMKO
Prefeito da Congregação para a Evangelização dos povos

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NOTAS:
(1) A atitude da Igreja perante os seguidores de outras religiões (Reflexões e orientações sobre diálogo e missão), AAS 76, 1984, p. 816-828; ver também Bulletin Secretariatus pro non Christianis n. 56, 1984/2, n. 13 (Para a referência a este documento será usada a abreviatura DM). * (2) Cf. Insegnamenti di Giovanni Paolo II, Vol. IX, 2 1986, pp. 1.249-1.273, 2.019-2.029. Ver também Bulletin n. 54, 1987/ 1 que contém todos os discursos do Papa antes, durante e depois do Dia de Oração em Assis. * (3) Cf. Insegnamenti di Giovanni Paolo II, Vol. X, 1, 1987, p. 1.449-1.452. Ver também Bulletin n. 66, 1987/3, pp. 226-229. * (4) Cf. Lignes directrices sur le dialogue, Genebra, COE, 1979 Témoignage commun, Genebra, COE, 1983. * (5) Dado que o patrimônio espiritual comum aos judeus e aos cristãos é tão amplo (cf. NA 4), o diálogo entre cristãos e judeus tem exigências próprias e especiais. Não é tratado no presente documento. Para ter uma idéia completa sobre ele, ver os trabalhos da Comissão para as Relações Religiosas com o Hebraísmo: Orientações e sugestões para a aplicação da Declaração conciliar “Nostra aetate” n. 4, 1° de dezembro de 1974 (cf. L’Osservatore Romano, 4/1/1975): e subsídios para uma correta apresentação dos Judeus e do Hebraísmo na pregação e na catequese da Igreja Católica (cf. L’Osservatore Romano, 24-25/6/1985). * (6) A questão dos “novos movimentos religiosos” é tratada num recente documento publicado conjuntamente pelo Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, o Pontifício Conselho para o Diálogo com os Não-Crentes e o Pontifício Conselho para a Cultura (cf. L’Osservatore Romano, 7 de maio de 1986). * (7) Justino fala dos “germes” lançados pelo Logos nas tradições religiosas. Mas só mediante a Encarnação é que a manifestação do Logos se torna completa (1Apol., 46,1-4; 2Apol., 81 10,1-3; 13,4-6). Para Ireneu, o Filho, manifestação visível do Pai, revelou-se aos homens “desde o princípio”, e portanto a Encarnação traz consigo algo de essencialmente novo (Adv. Haer., 4 6,5-7; 4, 7, 2; 4, 20, 6-7). Segundo Clemente de Alexandria, a “filosofia” foi dada aos gregos por Deus como “uma aliança”, “uma pedra de expectativa para a filosofia segundo Cristo”, um “pedagogo” que conduziria o espírito grego para ele (Stromata, 1,5; 6,8; 7,2). * (8) Adv. Haer., 3, 11, 8. * (9) Retract., 1, 13, 3; cf. Ennar. in Ps. 118 (Sermo 2 9,9); p. 142, 3. * (10) Cf. Insegnamenti di Giovanni Paolo II, Vol. IX, 2, 1986, pp. 2.019-2.029. Texto inglês em L’Osservatore Romano, 5 de maio de 1987. Ver também Bulletin n. 64, 1987/1, pp. 62-70. * (11) João Paulo II, Discurso aos Bispos da Índia em visita “ad Limina “, 14 de abril de 1989 (AAS, Vol. LXXXI, p. 1.126) e Bulletin n. 71, 1989/2, p. 149. * (12) Insegnamenti di Giovanni Paolo II, Vol. VII, 1, 1984, pp. 595-599. * (13) Na Igreja primitiva o Reino de Deus é identificado com o Reino de Cristo (cf. Ef 5,5; Ap 11,15; 12,10). Ver também Orígenes, In Mt 14,7, Hom. in Lc 36, onde chama a Cristo autobasileia, e Tertuliano, Adv. Marc. IV, 33,8: “In evangelio est Dei Regnum, Christus ipse”. Sobre a compreensão correta do termo “reino” ver também o relatório da Comissão Teológica Internacional (10.1985): Temas escolhidos de eclesiologia, n. 10.3. * (14) Cf. At 2,32; 3,15; 10,39; 13,31; 23,11. * (15) Cf. Jo 15,26s; 1Jo 5,7-10; At 5,32. * (16) Cf. 1Ts 2,2; 2Cor 3,12; 7,4; Fl 1,20; Ef 3,12; 6,19-20; At 4,13.29.31; 9,27.28 etc. * (17) Insegnamenti di Giovanni Paolo II, Vol. IX, 2, 1986, p. 1.262. * (18) Cf. Ecclesiam suam, cap. III; ver também Insegnamenti di Giovanni Paolo II, Vol. VII, 1, 1984, p. 598.

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