Bíblia - Tradição - Magistério

Dois cânones: Escritura e Tradição

Como se define o cânon bíblico?

Muitos protestantes diriam: “As Tradições apostólicas nos obrigariam se pudéssemos identificar quais tradições são apostólicas e quais não são. Obviamente, queremos obedecer e aceitar tudo o que os apóstolos mandaram e ensinaram em nome de Deus”.

Isso é certo. Os protestantes que dizem isto reconhecem a autoridade do ensino dos apóstolos. Então simplesmente precisam conhecer o mecanismo pelo qual nós [católicos] reconhecemos os ensinamentos dos apóstolos.

1. O PRINCÍPIO CANÔNICO

Como o fazemos? A resposta é que reconhecemos a Tradição apostólica da mesma maneira que reconhecemos a Escritura apostólica. Hoje nos vemos perante uma grande variedade de tradições, algumas apostólicas e outras meramente humanas. Do mesmo modo, a Igreja primitiva se encontrou diante de um corpo de escritos, alguns apostólicos e outros meramente humanos.

A Igreja primitiva teve que classificar esses documentos e descobrir quais eram autenticamente Escritos apostólicos – aqueles escritos por um apóstolo ou companheiro seu – e quais eram simplesmente escritos humanos – aqueles que apenas diziam proceder de um apóstolo. O modo como fez foi através da aplicação de certas provas.

2. A PALAVRA DE DEUS DÁ TESTEMUNHO DE SI MESMA?

Alguns anticatólicos, como James White, gostam de dizer que o autor do Salmo 119 sabia o que era a Palavra de Deus, mesmo não estando a Igreja Católica próxima dele para dizê-lo. Porém, a menos que fosse um profeta ou tivesse acesso a um profeta, o salmista não tinha um cânon infalivelmente conhecido no seu tempo. O cânon não estava ainda concluído, muito menos estabelecido. 

Anticatólicos como White afirmam que a Palavra de Deus se autentica por si mesma, que não necessita de testemunhos. Essa afirmação simplesmente não é bíblica. Na Escritura, as pessoas tinham normalmente que examinar a revelação para assegurar se realmente comunicava a Palavra de Deus. Isto não era sempre óbvio, mesmo para as pessoas que recebiam a revelação…

Por exemplo, em 1Samuel 3, quando Deus fala pela primeira vez a Samuel, o jovem profeta não reconhece a Palavra de Deus. Pensa que era o ancião e sacerdote Eli quem estava a chamá-lo; então se levanta, vai até o lugar onde Eli descansava e lhe diz: “Aqui estou, pois me chamaste”. Porém, Eli lhe diz: “Eu não te chamei. Volta a descansar”. Isto ocorre três vezes. Deus chama Samuel e o jovem profeta, pensando que era Eli, sai [da cama] e se apressa a ter com ele, para ver o que quer. Finalmente, o ancião e experiente sacerdote percebe que é Deus quem está chamando o rapaz e lhe diz para que, da próxima vez, escute a voz. Ocorre, assim, que o jovem profeta não foi capaz de reconhecer a voz de Deus e o experiente sacerdote Eli teve que ajudá-lo a reconhecer a Palavra de Deus. Por óbvio, a Palavra de Deus não deu testemunho de si mesma para Samuel.

De modo semelhante, em 1Reis 13, um homem de Deus é enviado de Judá para Betel, para profetizar. Deus lhe diz para que não coma nem beba até regressar. Porém, ao regressar, um velho profeta de Deus lhe diz que o Senhor revogou a ordem de comer e beber. O homem de Deus vai então para sua casa, com o ancião, para ceiar. Porém, enquanto comia, teve a revelação de que a ordem para não comer nem beber continuava vigorando; o velho profeta havia mentido! Aqui temos, então, outro caso onde um profeta não é imediatamente capaz de discernir entre a voz de Deus e a voz do erro. O homem que Deus enviou a Betel não detectou o fato de que a mensagem do velho profeta não era Palavra de Deus. Tal falsa revelação não deu testemunho de si mesma como falsa Palavra de Deus.

Em Deuteronômio 13 e 18, Deus concede duas provas para se saber se um profeta revela a Palavra de Deus. Se o profeta faz uma falsa previsão ou aconselha a adorar outros deuses, não fala pela boca do Senhor. O fato de Deus conceder estas provas demonstra que as revelações devem ser examinadas porque nem sempre são óbvias se são ou não Palavras de Deus.

É por isso que Paulo diz em 1Tessalonicenses 5,20-21: “Não desprezeis as profecias, examinando-as todas e retendo o que for bom”. A Bíblia nos diz assim, explicitamente, que devemos examinar o que é Palavra de Deus e o que não é, como em 1João 4,1: “Examinai os espíritos para saber se procedem de Deus”.

Logo, a Palavra de Deus não dá testemunho de si mesma da forma como alegam alguns protestantes. Deus nos convida e manda examinar qualquer revelação que pretenda provir d’Ele. Isto inclui a Escritura. Se alguém oferece um livro que pretende ser [parte da] Escritura, tem que ser examinado para ver se é um escrito apostólico ou um escrito meramente humano.

3. A CHAVE PARA A CANONICIDADE

Como sabemos quais livros pertencem à Bíblia? A resposta da Igreja primitiva era: aqueles livros que são apostólicos pertencem ao cânon da Escritura; se um livro foi transmitido pelos apóstolos como Escritura (p.ex., os livros do Antigo Testamento) ou se foi escrito por um dos apóstolos ou um de seus companheiros (p.ex., os livros do Novo Testamento), então pertence à Bíblia. A apostolicidade foi, assim, a prova para a canonicidade.

O protestante J.N.D.Kelly, historiador da Igreja primitiva, escreve: “A menos que se pudesse mostrar que um livro procedia da pena de um apóstolo, ou a menos que tivesse a autoridade de um apóstolo por detrás dele, era imperiosamente rejeitado, não importando quão edificante ou popular pudesse ser para os fiéis” (Doutrinas Cristãs Primitivas, p. 60).

Porém, como se poderia saber quais livros eram apostólicos? Certamente que não através de um livro que pretendesse ser apostólico, pois havia muitos evangelhos e cartas falsas que circulavam com o nome dos apóstolos. Tampouco o Espírito Santo prometeu a cada cristão uma revelação quanto aos livros que pertenceriam à Bíblia…

Como era, então, a prova de apostolicidade considerada na Igreja primitiva? Basicamente, havia duas provas; e ambas incluíam a tradição.

Primeiro, eram reconhecidos como apostólicos aqueles livros que estavam de acordo com os ensinamentos dos apóstolos e transmitidos à Igreja. Os escritos gnósticos e outros escritos que não coincidiam com a Tradição apostólica eram deixados de lado. Isto é algo que os escrituristas evangélicos admitem.

O exegeta protestante F.F.Bruce escreve que: “[Os padres da Igreja primitiva] recorreram ao critério da ortodoxia (…) Este recurso ao testemunho das igrejas fundadas pelos apóstolos foi desenvolvido especialmente por Ireneu (…) Quando começavam a circular Evangelhos ou Atos desconhecidos (…) a pergunta mais importante acerca destes era: Que ensinam acerca da pessoa e da obra de Cristo? Conservam o testemunho apostólico (…)?” (O Cânon da Escritura, p. 260).

Segundo, eram considerados como apostólicos aqueles livros que eram pregados em várias igrejas como provenientes da pena de um apóstolo ou de um de seus companheiros – não apenas suas doutrinas, mas o próprio livro. Se uma certa obra não era considerada apostólica e não se pregava como tal nas igrejas, então era rejeitada. Este era também um recurso à Tradição, pois tinha em vista a Tradição das igrejas como um guia para a apostolicidade. Se a Tradição das igrejas não reconhecia um livro como apostólico, este não era incluído no cânon.

O fato de que isso também era praticado pela Igreja primitiva, para estabelecer a apostolicidade, é admitido inclusive pelos escrituristas protestantes. F.F.Bruce escreve: “É digno de nota – quando alguém pensa nisso – que os quatro Evangelhos canônicos são anônimos, embora os evangelhos que proliferavam no fim do século segundo e mais tarde, afirmassem ter sido escritos por apóstolos e outras testemunhas oculares. Eclesiásticos católicos viram, então, que era necessário defender a autenticidade apostólica dos Evangelhos (…) A autoria apostólica de Mateus e João estava bem estabelecida na tradição. E quanto a Marcos e Lucas? Sua autoria também estava bem estabelecida na tradição” (Idem, p. 257).

Certamente, nem todas as igrejas estavam de acordo. Alguns apologetas protestantes se apegam à afirmação do fragmento Muratoriano, uma antiga lista do cânon, do ano 170 d.C. aproximadamente, que inclui quase todo o Novo Testamento. Porém, não dizem que referido fragmento também omitia algumas obras do seu cânon: não incluía Hebreus, 1-2Pedro e 3João. Ademais, incluía algumas obras que os apologetas protestantes não considerariam como canônicas: o Apocalipse de Pedro e a Sabedoria de Salomão. Havia, pois, manifesto desacordo na extensão do cânon.

Finalmente, o cânon do Novo Testamento foi estabelecido pelo Concílio de Roma, no ano 382, durante o papado de Dâmaso I. Até então, os livros específicos [do cânon] não estavam firmemente estabelecidos.

Portanto, um apologeta protestante deverá concordar que os [eclesiásticos] presentes ao Concílio de Roma incluíram no cânon todos os livros verdadeiros e somente os verdadeiros; ou então deverá discordar. Mas, se discordar, estará discordando também do cânon do Novo Testamento existente na Bíblia que ele mesmo usa, já que foi o Concílio de Roma que estabeleceu o citado cânon. Porém, se aceitar que o Concílio de Roma incluiu todos os livros verdadeiros – e apenas os livros verdadeiros do cânon do Novo Testamento – então deverá admitir que a Igreja primitiva emitiu uma decisão infalível (infalível porque incluiu todos os livros verdadeiros – e só eles – tomando, assim, uma decisão inequívoca sob a condução providencial de Deus, a qual é infalível).

Esta decisão infalível foi tomada 300 anos após a morte do último apóstolo. Porém, se os Concílios da Igreja são capazes de chegar a decisões infalíveis 300 anos após a morte do último apóstolo, o apologeta protestante não terá motivos para afirmar que [os Concílios] são incapazes de fazer o mesmo mais tarde na História da Igreja.

4. O CÂNON DA TRADIÇÃO

O fato de a Igreja ter decidido sobre isso 300 anos depois da morte do último apóstolo é significativo, mas não menos significativo é o fato de que, quando tomou esta decisão, a fez com base na Tradição.

Como já dissemos, a Igreja tinha à sua frente tradições opostas acerca dos livros que deveriam ser incluídos na Escritura. Algumas tradições, por exemplo, diziam que Hebreus estaria incluído no cânon; outras diziam que não. Uma destas tradições (a que apontava a sua inclusão no cânon) era apostólica; a outra (partidária da exclusão), era meramente humana. Para decidir se a carta aos Hebreus pertencia [ou não] à Escritura, a Igreja teve que decidir em favor de uma tradição sobre a outra. Assim, para estabelecer a apostolicidade de um escrito, teve que estabelecer a apostolicidade da tradição.

Como resultado, a Igreja não apenas pôde estabelecer regras sobre o que é apostólico – ainda que centenas de anos após a morte do último apóstolo – como também pôde regulamentar quais tradições são apostólicas e quais não são – o que pode ser feito em qualquer época da História da Igreja.

Com efeito, a Igreja pode estabelecer regras sobre o cânon da Tradição do mesmo modo que fez com relação ao cânon da Escritura. A Igreja é a esposa viva de Cristo e ela reconhece a voz do seu Esposo. Ela é capaz de apontar determinados escritos e dizer: “Aquele é apostólico; aquele não é”. E é capaz de apontar certas tradições e dizer: “Aquela é apostólica; aquela outra não. Nesta reconheço a voz do meu Esposo; naquela, não”.

O mecanismo pelo qual estabelecemos o cânon da Tradição é, então, o mesmo pelo qual estabelecemos o cânon da Escritura. O mesmo princípio vale para ambos os contextos. A Igreja é testemunha de ambos os cânones.

5. PROVAS PARA O CÂNON DA TRADIÇÃO

Obviamente, a Igreja se utiliza de provas para reconhecer quais tradições são apostólicas, assim como tinha provas para estabelecer quais escrituras eram apostólicas.

Uma das provas consiste em ver se uma determinada tradição contradiz o que foi previamente revelado. Como assinalam bem os anticatólicos, tais tradições devem ser provadas à luz das Escrituras. Se uma determinada tradição contradiz algo que Deus disse na Escritura (ou algo dito em uma bem conhecida Tradição apostólica), isso mostra que é simplesmente uma tradição humana, que deve ser descartada. A Igreja se alegra de poder provar tais tradições pela luz da Escritura.

 Com certeza, a Igreja também aplica o lado secundário desta prova: na Igreja primitiva, qualquer escrito apresentado que não coincidisse com a Tradição apostólica era afastado do cânon da Escritura. Assim, quando nos séculos segundo e terceiro, os escritos gnósticos ensinavam que Jesus não era Deus ou que o Deus do Antigo Testamento não era o Deus de Jesus Cristo, esses livros foram sumariamente rejeitados tendo por base a sua não-coincidência com a Tradição apostólica.

Naturalmente, uma vez posto à prova determinado escrito, tendo sido considerado canônico, não mais estará sujeito a provas. Uma vez que se demonstrou ser um escrito pertencente ao cânon da Escritura, não mais estará aberto para o debate. De modo semelhante, sendo uma tradição posta à prova e verificada canônica, tampouco estará sujeita a novos debates. Uma vez que se demonstrou ser Tradição pertencente ao canôn da Tradição, não estará mais sujeita a provas.

Um apologeta protestante não poderia questionar se um certo livro do Novo Testamento pertence ao cânon, com base em que [o livro] afirma algo difícil de ser reconciliado com outro livro [bíblico]. Uma vez que se verificou ser canônico, podemos confiar que é Palavra infalível de Deus e qualquer dificuldade aparente surgida entre ele e o que Deus disse em outra parte, pode ser resolvida. Da mesma forma, uma vez que uma Tradição foi provada e se demonstrou canônica, podemos confiar que é Palavra inequívoca de Deus, e qualquer dificuldade que surja entre ela e qualquer outra coisa dita por Deus em outra parte, tem uma solução possível. Se podemos ter confiança nas pequenas desarmonias do cânon da Escritura, podemos fazer o mesmo com relação ao cânon da Tradição.

Sabemos que quando Deus fala na Escritura surgem algumas dificuldades aparentes. Os liberais as usam para atacar a inerrância da Escritura; então os conservadores escrevem livros para mostrar por que estas supostas discrepâncias não o são na verdade. Porém, se Deus fala na Escritura de tal modo que permita surgir aparentes discrepâncias, então deveríamos esperar que ocorresse o mesmo quando Deus falasse em outra parte. Isto não é motivo de alarme!

6. O PROBLEMA CANÔNICO

 Porém, o apologeta protestante tem um problema muito mais fundamental, pois para justificar o seu princípio da “Sola Scriptura” – ou a assim chamada teoria do “Somente a Bíblia” – teria que afirmar que nós podemos saber quais livros pertencem à Bíblia sem reconhecer a lista autorizada da Tradição apostólica e da Igreja neste assunto. Se, como afirma a referida teoria protestante, tivéssemos que provar tudo a partir da “Sola Scriptura”, então teríamos que ser capazes de mostrar [quais livros] pertencem ao cânon da Escritura a partir da “Sola Scriptura”.

Na verdade, não podemos nem sequer começar a usar a “Sola Scriptura” sem antes identificar o que são as Escrituras. Se alguém diz saber o que são as Escrituras, estará então fazendo uso de um conhecimento possível apenas se revelado a ele [diretamente] por Deus – já que estamos falando de um assunto sobrenatural – o que significaria dizer que [essa pessoa] estaria recebendo uma possível revelação. Porém, se toda revelação possível deve ser encontrada na Bíblia, então a própria lista do cânon deve ser encontrada nas Escrituras. O apologeta protestante deve mostrar, então, a partir da ?sola Scriptura?, quais livros pertencem à Bíblia.

Mas isto é algo que não pode fazer. A lista do cânon não se encontra na Escritura. Muitos livros da Bíblia (de fato, praticamente todos os livros do Novo Testamento) não são citados por outros livros da Bíblia, muito menos citados explicitamente “como Escritura” (algo que necessariamente é muito popular entre os apologetas protestantes). E a Bíblia não nos dá uma série de provas pelas quais podemos provar infalivelmente quais livros realmente pertencem a ela. O fato é que não existem “índices inspirados” dentro da própria Bíblia, para dizermos quais [livros] pertencem a ela.

O apologeta protestante está num beco sem saída. Para usar a “Sola Scriptura”, tem que identificar quais são as Escrituras; e já que não pode fazê-lo a partir da “Sola Scriptura”, tem que recorrer para coisas exteriores à Escritura, para poder apresentar argumentos convincentes, significando que, ao mesmo tempo em que recorre a isto, acaba por desprezar o seu raciocínio. Não há como escapar do cânon da Tradição!

A Tradição apostólica era a chave para o cânon em dois sentidos: dizendo-nos quais doutrinas devem ensinar (ou não ensinar) os Livros apostólicos; e dizendo-nos quais livros foram escritos pelos apóstolos e seus companheiros.

Ironicamente, os protestantes – que normalmente rejeitam a Tradição em favor da Bíblia – eles mesmos usam uma Bíblia baseada na Tradição. De fato, muitos protestantes honestos admitiriam que eles se atêm a alguns livros porque, quando se tornaram cristãos, alguém lhes transmitiu (a palavra “transmitir” provém do latim “tradere”, que quer dizer “tradição”) cópias da Bíblia que continham apenas esses livros.

Fonte: http://www.apologetica.org. Tradução: Carlos Martins Nabeto.

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