Conheça Mais

Dom bosco, a igreja e os tempos

Hoje é muito comum justificar os mais absurdos erros e irreverências doutrinais como um “acompanhamento dos tempos”. Dentro dessa argumentação, a transformação do mundo pede uma nova leitura e compreensão acerca dos ensinos da Igreja. Entretanto, além do óbvio modernismo, esse raciocínio carrega um erro fatal e essencial; o tempo é por si só relativo!

A Igreja deve acompanhar os tempos para compreender as necessidades espirituais e pastorais do mundo, mas não deve nortear os seus ensinos sobre as intemperanças do orbe. Ao contrário, enquanto Mater et Magistra a Igreja não acompanha, é acompanhada, e seu ensino reflete apenas os ensinos de Cristo. Logo, relativizá-los, adaptá-los, é relativizar e adaptar os preceitos deixados por Nosso Senhor, ao não ser que acreditemos que Deus muda, o que se chocaria com a imutabilidade intrínseca da Verdade, ou que a doutrina da Igreja seja doutrina de homens, portanto mutável e falsa.  Ademais, a história se fecha dentro do homem inserido no seu contexto. Hoje podemos olhar para o passado e ponderar a respeito dos acontecimentos e eventos. A mentalidade do homem moderno, embebida num espírito de sabor liberal, tende, num primeiro momento, a rechaçar o esplendor do luminoso Ocidente. A perda de compreensão acerca do ethos da Civilização fez com que, na sociedade atual, houvesse um radical rompimento de identidade, ou seja, o caráter cristão, base da formação do homem ocidental, foi não apenas execrado como combatido.

A idéia de que a Igreja deve acompanhar os tempos, portanto macular a doutrina, parte de uma compreensão não apenas errada, mas infantil. Os seus articulares argumentam que a realidade do mundo atual clama, com urgência, uma nova postura e uma nova linguagem. Ora, um homem do séc. XXI tem o natural instinto de reconhecer que o séc. XXI é o período mais complexo dentro do processo histórico. O passado, como dimensão temporal pretérita que é, nunca é entendido de forma empírica, ou seja, sempre será compreendido dentro de uma ótica puramente teórica e analítica. O homem do séc. XXI tende a acreditar que a crise religiosa atual vai muito além da crise religiosa do séc. XIX, que a miséria atual é muito mais complexa do que a miséria do início do séc. XX ou que os conflitos sociais são bem mais problemáticos do que aqueles de outrora. Entretanto, esse tipo de raciocínio não consegue captar que o homem do passado está restrito ao próprio passado, ou seja, a crise religiosa no séc. XIX foi para o homem do séc. XIX o ápice, a fome no início do séc. XX foi para o homem do seu tempo a mais grave etc. Cada homem, dentro da sua realidade temporal, desenvolve uma visão de mundo que perfeitamente justificaria a adaptação dos ensinos da Igreja. Assim, o período no qual se insere é sempre o mais conturbado, gritante e digno de transformação. Pode ser que a crise, a miséria e os conflitos sociais de hoje sejam realmente mais graves do que o do pretérito, mas para o homem do passado a sua realidade era o parâmetro de medida.  No futuro, outros homens olharão para o passado, o atual presente, e estarão impossibilitados de compreender empiricamente a experiência que nós passamos.

O que tudo isso quer dizer? Se a Igreja fosse acompanhar os tempos se tornaria escrava do mundo. O homem do séc. XIX, restrito ao seu tempo, pediria uma adaptação da Igreja à sua dimensão, assim como o homem do séc. XX e do séc XXI etc. Ou seja, a Igreja seria apenas um reflexo das necessidades atuais da sociedade. Assim não teria durado sequer 100 anos d. C; os crentes poderiam alegar que a realidade vivida pelos cristãos no Império Romano era diferente daquela dos primeiros na Palestina e, portanto, seria pertinente acompanhar os tempos e adotar posturas adversas.

A Igreja é o Corpo Místico de Cristo e Cristo tem uma natureza Divina, portanto atemporal, e uma natureza humana, temporal e personificada. Se por um lado a Igreja deve levar em conta a evolução dos tempos, na medida em que as mudanças do mundo pedem uma nova forma de expor o Evangelho e a doutrina de sempre – pois do contrário a Igreja se encontraria fechada em si mesma – entretanto, por outro lado, essa constante atenção da Igreja às intemperanças do orbe não pode, em hipótese alguma, modificar e macular aquilo que é e sempre foi crido, já que a  crença e toda a riqueza sapiencial refletem o caráter sobrenatural da instituição, o fato de ter sido fundada por Cristo e encarregada de zelar pelo Depósito da Fé. Ou seja, a realidade temporal da Igreja se vincula ao projeto pastoral, missionário e catequético, a forma como a Mater et Magistra divulga a Boa Nova e espalha a mensagem de Cristo. Já a realidade atemporal da Igreja, se une aos ensinamentos basilares e essenciais – porque originados no seio dos preceitos deixados por Nosso Senhor – que dão formam à crença e sustentam e viabilizam a fé. Modificar tais ensinamentos, os temporalizar através de um relativismo que rebaixa a Divindade e naturaliza o sobrenatural, é, por consequência lógica, romper não apenas com o processo de aprofundamento dogmático, mas sim com  a compreensão que a Igreja sempre teve acerca das heranças deixadas por Cristo aos Apóstolos e seus Sucessores.

Para tornar nossa reflexão mais clara vejamos a situação da sociedade em pleno séc. XIX. A. Auffray SDB, na sua biografia sobre Dom Bosco diz que “nunca e em nenhuma época se tinha visto tanto descrédito contra o hábito religioso e a vida religiosa no Piemonte. Já dissemos como a imprensa oficiosa, precursora de uma legislação agnóstica, desencadeava lufadas de um vento anticlerical; estavam-se preparando leis que iriam causar um mal imenso à idéia cristã; todas as batinas eram olhadas com antipatia, mas principalmente o hábito dos frades. Um preconceito popular, que se procurava manter cuidadosamente, dava um sentido odioso às palavras: noviciado, profissão religiosa, votos, congregação. Pouco se fazia para encaminhar moços ao sacerdócio, e menos ainda para encaminhá-los aos claustros. Ao redor de Dom Bosco não havia portando ruína.” Além da ascensão de um espírito anticlerical ferrenho, a Itália passava por um período político conturbado; a reunificação, o florescimento de uma país coeso e politicamente unido, lutas partidárias, choques entre republicanos e monarquistas. Ademais, se juntava a tudo isso a forte crise social, com um crescente número de miseráveis e ignorantes. Como assustado ficou São João Bosco ao descobrir que nem mesmo o sinal da cruz alguns jovens sabiam fazer vivendo em plena Turim do séc. XIX!

Isto posto, podemos refletir com honestidade! O mundo, e em destaque a Itália, vivia momentos de fervor político, de sérios problemas sociais e de rompimento com as próprias origens cristãs. Os anos eram de total e completa transformação, um corte profundo nas bases estruturais da sociedade. Eras de mudanças! Ora, se a Igreja deve acompanhar os tempos, o que é visto como um verdadeiro axioma pelos relativistas, a efervescência do séc. XIX era o momento do Magistério refletir acerca das transformações do orbe e a necessidade de mudar a postura frente às intemperanças sociais. Entretanto, bem diferente dessa adaptação dos ensinos da Ecclesia, houve em resposta ao crescente espírito laicista e anticlerical uma enfática e forte defesa da crença de sempre; a Igreja surgiu como um sustentáculo e baluarte da perenidade, dos ensinamentos eternos e imutáveis que deveriam ser protegidos e resguardados dos ataques dos homens.

O próprio Dom Bosco foi um exemplo claro e objetivo da postura tomada pela Igreja. O Santo italiano sequer escrevia e falava sobre assuntos políticos, isso numa época em que clérigos saiam nas ruas defendendo a constituição e quando o Arcebispo de Turim estava exilado em Lião por se opor ao novo regime. O Santo dizia: “Em política não sou de ninguém.”  Mesmo num período tão tenso e conturbado, o Patrono da Juventude preferiu o silêncio, oração e formação espiritual, fiel ao que tanto repetia; “Minha política é a do Pater-Noster.” Dom Bosco colocava o seu ministério sacerdotal acima de qualquer divergência partidária e ideológica. Além de não se envolver em questões do mundo, o Santo nutria amizade com conservadores e liberais, republicanos anticlericais e monarquistas fidelíssimos; celebrava Missa na capela privada do seu afetuoso amigo Francisco II das Duas Sicílias, rei destronado pelos revolucionários, e, no outro dia, ia ao gabinete do Conde de Cavour ou de Urbano Ratazzi, árduos promotores do Risorgimento. Para o Apóstolo da Juventude era clara a necessidade de se aproximar dos grandes líderes, mesmo quando eram inimigos da fé, para disseminar a Verdade e promover nos corações o amor a Cristo. A sua influência em todos os círculos da elite política era reflexo do seu caráter apolítico e do seu apostolado que tinha apenas com fim a conversão e salvação das almas. Em Dom Bosco não havia, como hoje é comum, infelizmente, aquela dissociação da fidelidade do Sacerdote ao seu ministério. O Santo italiano não se envolvia em política porque sabia que essas questões do mundo diminuíam a rebaixavam a realidade sobrenatural representada na missão do Presbítero – o Sacerdote-político pode até lotar passeatas e encher as praças públicas, mas quem se encontra no leito de morte, clamando por uma boa confissão, vai atrás do Sacerdote que promove o Reino de Deus e tem vida devota. Dom Bosco falava: “Padre no altar, Padre no confessionário, Padre no meio de meus meninos, Padre em Florença [então sede do governo], Padre no tugúrio do pobre, como no palácio do Rei ou dos ministros. Quero ser sempre Padre!” – uma boa reflexão para os tempos onde muitos Sacerdotes dão verdadeiros contra-testemunhos escandalosos, frutos de uma auto-secularização.

Os Oratórios eram considerados focos do pensamento reacionário, em alusão à fidelidade que o Santo nutria à Igreja e ao Papado. Quando todos eram anticlericais, Dom Bosco era ultramontano, de uma fidelidade ao Santo Padre tocante, sincera e completa – inclusive os filhos de Joseph de Maistre, filósofo que tão devotamente defendeu a Igreja e o Sumo Pontífice, eram benfeitores das obras salesianas. Ademais, ocorreu que o Ministério do Interior, irado com o trabalho apostólico de Dom Bosco, entrou no Oratório para investigar a acusação deste ser um foco de resistência, alegou que “o espírito que reina na sua casa não é compatível com a nossa política. Vossa Reverendíssima diz e faz muita coisa, mas está ao lado do Papa, e portanto, está contra nós”, mas o Santo retrucou: “Estou com o Papa e estarei até a morte”. São João Bosco ficou extremamente desconcertado quando um Sacerdote, que espontaneamente assistia ao Oratório de Valdocco, proferiu um sermão embebido em política, direto do púlpito. Dom Bosco costumava dizer que “Num exército pode-se muito bem cooperar para a vitória sem estar na primeira linha.” E, fazendo uma breve observação, como não remeter essa santa postura ao mesmo comportamento adotado pelo então Pe. Wojtyla, na Polônia, quando do combate ao comunismo?

Eram tempos de perseguição escancarada. Em 1848 foi dada a liberdade religiosa aos protestantes valdenses que, se sentido tão seguros com o beneplácito das leis que, ao mesmo tempo, tolhiam o Catolicismo, passaram a atacar a Igreja e a fazer atentados aos promotores da fé, como Dom Bosco. No mesmo ano as Damas do Sagrado Coração e os Jesuítas foram expulsos dos Estados Sardos, dois anos depois os tribunais eclesiásticos foram dissolvidos e proibiu-se às corporações religiosas e leigas de adquirir terrenos ou aceitar doações sem aval do Estado. Em 1854 foi limitado o número de clérigos dispensados do serviço militar e em 1855 foram dissolvidas as casas religiosas onde os membros não tinham trabalho apostólico. Em 1859 foi abolida a liberdade de ensino nas escolas. Ademais, todos esses projetos eram mantidos através de uma ação muito bem pensada entre o poder estatal e a imprensa anticlerical que, juntos, formavam no povo um forte espírito de violência contra o clero e a vida religiosa.

Hoje nós podemos venerar e clamar a intercessão de Nossa Senhora Auxiliadora na suntuosa e digna Basílica construída por Dom Bosco em honra à Virgem Santíssima. Entretanto, no período da construção, o Apóstolo da Juventude sofreu com a resistência do Conselho Municipal. Como eram tempos de forte e radical anticlericalismo, com um constante combate ao Papado e à Igreja, os burocratas achavam que por detrás da invocação de “Auxílio dos Cristãos” havia ocultado algum fim político, uma provocação e um ataque contra os inimigos modernos da fé que orquestravam a perseguição aos católicos. Óbvio que São João Bosco não nutria uma compreensão tão pequena acerca desse belíssimo título mariano que, da fato, era muito conveniente para os dias de perseguição. Entretanto, o Santo, com toda a sua prudência e caridade, preferiu omitir o título do Santuário no ofício entregue ao Município, assim, finalmente, pôde iniciar as obras. Enquanto Dom Bosco se distanciava de assuntos políticos mesmo quando era perseguido e tinha o seu apostolado tolhido, hoje, muitos religiosos, de diversas congregações, se distanciam da vida espiritual – vista como alienante -, adotando uma prática política que materializa a fé com um assistencialismo submerso num discurso de saber socializante. Para tais religiosos, isso não passa de um acompanhamento dos tempos. Ora, não seria essa, justamente, a mesma postura defendida por contemporâneos de Dom Bosco que clamavam a necessidade do clero sair nas ruas em defesa da constituição e da unificação nacional ou que orquestravam lutas contra o regime, em atitudes tão opostas aos ensinamentos e práticas do Santo italiano?

O homem atual até pode acreditar que a realidade presente é ainda mais complexa e problemática que essa do séc. XIX, entretanto, se os tempos devem ser acompanhados, a experiência de dois séculos atrás representa o rompimento formal e completo do homem com o seu pretérito. Nada passou ileso, até mesmo aqueles que estavam unidos no movimento contra-revolucionário, todos ficaram marcados pelos traumas da ascensão do materialismo anticlerical. Pode ser que o séc. XXI tenha situações mais drásticas, porém, se levarmos em conta o sentido literal da palavra “transformação”, o séc. XIX surge como a sua síntese. Dom Bosco disse que “Soprava na atmosfera um vendaval de independência que tornava bem difícil dar ordens” e o que é isso senão o espírito revolucionário? Entretanto, mesmo sendo a era do nascimento concreto de uma prática liberal atéia, com uma mutação na compreensão do ser humano acerca da existência, a Igreja jamais pensou ou acreditou que os seus ensinamentos e a sua doutrina – logo ensinamentos e doutrinas do Senhor – deveriam acompanhar os tempos e refletir as transformações da sociedade. Ao contrário, a Igreja, de maneira primorosa, se levantou com a voz infalível da Verdade, em defesa do Evangelho de Cristo, com toda a sábia e necessária radicalidade na proteção do Depósito da Fé.

Ademais, devemos fazer um aprofundamento mais sincero e honesto acerca do trato que muitos fiéis e religiosos têm com o Papado. Será que, de fato, reverenciamos a Cátedra de São Pedro como ela merece? Dom Bosco, Pai da Família Salesiana, é um exemplo claro e inconteste de fidelidade e obediência ao Sumo Pontífice. Entretanto, o que ontem seria compreendido com casualidade, hoje se tornou motivo de escândalo. Infelizmente, muitos são os religiosos que, de maneira escancarada, desmerecem e subestimam o ministério petrino. Quase sempre se sustentam em teologias imprecisas e em argumentações falaciosas como a dita “adaptação dos tempos”. Ora, a Igreja deve acompanhar os tempos, mas acompanhar os tempos não é macular pontos basilares e essenciais da doutrina cristã. Isso é prostituição da fé!

Como foi dito ao longo do texto, a realidade política nos tempos de Dom Bosco era extremamente tensa; um anticlericalismo atuante, a ascensão do liberalismo ateu e o crescimento de seitas protestantes – inclusive São João Bosco resolveu construir a Igreja de São João Evangelista porque era grande a presença valdense no bairro. Entretanto, mesmo com um contexto que desfavorecia o respeito e fidelidade ao Santo Padre, o Patrono da Juventude mostrou, não apenas uma reverência formal e burocrática, mas uma devoção filial ao Vigário de Cristo!

Como é penoso perceber que muitos católicos zombam e menosprezam os ensinamentos romanos, tratando com descaso e desleixo. Tamanho déficit de caridade para com a Santa Sé reflete, no profundo das almas, numa falta de formação acerca da religião, afinal um católico formado, que reconhece a doutrina como emanada e vinda diretamente de Nosso Senhor, respeita o Papado por enxergar no trono de Pedro o “Doce Cristo na Terra”, como sempre foi crido pela Igreja; “O Concilio de Florença definiu: “Que o Romano Pontífice (…) é o verdadeiro Vigário de Cristo, Cabeça de toda a Igreja e pai e mestre de todos os cristãos; e que a ele, na pessoa do Bem-Aventurado Pedro, foi dado, por Nosso Senhor Jesus Cristo, o pleno poder de apascentar, reger e governar toda a Igreja” . (D-S 3068). (Constituição Dogmática Pastor Aeternus). Ora, quem estimula e incita a desobediência cega aos ensinamentos do Sumo Pontífice são católicos que desconhecem a própria crença. E, de forma alguma, desmerecer o ministério petrino é “acompanhar os tempos”.

Voltemos para Dom Bosco. Em audiência com o Beato Pio IX, o Santo havia anotado no papel os avisos e pedidos que deveria fazer ao Santo Padre, porém a ação da Providência o antecipou! O Papa havia clamado para recomendar “a todos [os salesianos e alunos] a obediência e a fidelidade ao Vigário de Jesus Cristo”. Dom Bosco, surpreso, disse que era, justamente, a última coisa que iria solicitar ao Sumo Pontífice. Havia escrito que “Na última audiência, antes de partir, penhorar ao Papa a obediência e a fidelidade de todos os Salesianos e de todos os alunos.” Quanto amor e devoção do grande São João Bosco ao Sucessor de São Pedro! Essa sua excelsa virtude ele fez questão de difundir e colocar no coração de todos aqueles que entravam nos Oratórios e noviciados salesianos. Justamente, em reverência e devoção ao Beato Pio IX, Dom Bosco honrou uma das Igrejas que construiu em Turim com o nome de São João Evangelista, o onomástico do Papa que, no mundo, se chamava “Giovanni”. Tanto nesse Santuário, como no do Sagrado Coração, em Roma, que construiu na velhice e só por ter sido um pedido de S.S Leão XIII – e Dom Bosco obedecia com alegria às solicitações dos Papas – o Santo colocou dignas imagens do seu amigo Pio IX. Na estátua dedicada ao venerando Pontífice, na Cidade Eterna, reprodução exata da encontrada em Turim, grafou: “Pio IX P.M. Alteri salesianorum parenti ne debitus honor deesset ubi principis munificentissimi mira eluxerat liberalitas pietatis gratique animi monumentum filii posuerunr” (“A Pio IX, Pontífice Máximo, segundo Pai dos Salesianos, os filhos dedicaram”) Que respeito ao Doce Cristo na Terra! Dom Bosco não nutria apenas aquela obediência burocrática e normativa. A sua fidelidade ao Santo Padre era mais perfeita e sublime, reflexo da compreensão acerca da realidade sobrenatural encarnada na figura do Papa. O anticlericalismo liberal-ateu, em alta na sua época, estimulou o que hoje é tão comum; a noção de um sentido existencial restrito ao homem, o indivíduo enquanto senhor da vida. Atualmente, muitos católicos, – leigos e religiosos – numa atitude que, no fundo, é consequência do orgulho, optam por seguir teologias e caminhos pessoais do que trilhar a senda direcionada pelo Sumo Pontífice, símbolo de unidade da Igreja. Entretanto, o Patrono dos Jovens, em devoto afeto, se submetia com amor e alegria ao Papa, sinal da sua sincera e honesta entrega ao Vicariato de Jesus Cristo na Terra representado no ministério petrino; obedecer o Santo Padre é obedecer a Cristo!

Dom Bosco, perto de partir para o Céu – no dia 31 de Janeiro de 1888 – disse, no leito no qual morreria, ao Cardeal Alimonda, Arcebispo de Turim: “Tempos difíceis, Eminência! Atravessei tempos bem difíceis!…Mas a autoridade do Papa…Já o disse a Monsenhor Cagliero [primeiro Bispo e Cardeal salesiano], aqui presente, para que o transmita ao Santo Padre; os Salesianos existem para defender o Papa, onde quer que trabalhem” E, de fato, essas palavras não foram vazias, já que estavam em sintonia com uma vida de fidelidade e obediência ao trono de Pedro. Quantas vezes Dom Bosco acatou com alegria na alma os pedidos e correções de Pio IX e Leão XIII? Foi o Romano Pontífice que questionou o Santo a respeito da Associação dos Cooperadores ser, até então, unicamente masculina. O Papa pediu para que ninguém fosse excluído, que as mulheres também fizessem parte, solicitação que foi imediatamente acatada. Pio IX ainda deu sugestões a respeito da formação dos noviços e agraciou Dom Bosco e sua Sociedade com muitos privilégios e indulgências. A confiança da Sé de Pedro ao Santo era tão perfeita que Dom Bosco colaborava na compilação das listas dos candidatos ao episcopado e todos os nomes indicados por ele eram prontamente aceitos pelo Papa.  O Patrono dos Jovens não era apenas um devoto e súdito do Sumo Pontífice, mas um amigo de todo o coração. Como feliz ficou Dom Bosco quando conseguiu conquistar um voto, o de Mons. Gastaldi, bispo de Saluzzo, em favor da definição dogmática sobre a infalibilidade, no período das discussões conciliares.

Com Leão XIII a situação não era menos devota. Dom Bosco obedecia imediatamente aos pedidos do Papa, seja o da construção da Igreja do Sagrado Coração, como a ordem para que cuidasse da saúde já tão precária. O Papa, em audiência com Dom Bosco, comentou: “Meu muito querido Dom Bosco! Eu o amo, eu o amo, eu o amo. Quero ser todo pelos salesianos, quero que me considere como o primeiro dos Cooperadores.” O Santo, em resposta ao Sumo Pontífice, disse: “Uma coisa posso garantir a Vossa Santidade, e é que temos sempre trabalhado para desenvolver em nossos alunos o afeto, respeito e a obediência à Santa Sé e ao Vigário de Jesus Cristo” Esse respeito ao Papado Dom Bosco deixou marcado para a eternidade. O Santo comunicou que sempre deveria ser recordado aos eleitores do Reitor-Mor que o escolhido teria que ter, ao menos, três qualidades, sendo que a terceira seria, exatamente , a “indiscutível adesão à Santa Sé e a tudo o que a ela se refere.”, como citado por A. Auffray SDB.

Os relativistas, justamente os católicos que não seguem a Igreja, mas o tempo, alegam que tão primorosa fidelidade ao Sumo Pontífice representava, apenas, uma realidade da época. Tamanha falácia é tão absurda que se torna incompreensível como um dito católico tem a audácia de proferi-la. A devoção de Dom Bosco ao Papado não exprimia uma realidade temporal e  momentânea. A reverência do Santo ao ministério petrino era fruto de um entendimento profundo a respeito da missão divinamente entregue aos Sucessores de São Pedro; o “princípio perpétuo e visível, e fundamento da unidade que liga, entre si, tanto os bispos como a multidão dos fiéis” (Lumen Gentium). Se Dom Bosco foi um grande vidente e taumaturgo, e assim a Igreja acredita, chega a ser imoral pensar que seus ensinamentos não refletiam o próprio caráter das suas profecias. Será que o Santo pediria “fidelidade e obediência” dos Salesianos ao Santo Padre apenas se referindo aos seus filhos do séc. XIX e meados do séc. XX, que assim sempre entenderam? Afinal, a febre da desobediência é coisa recente, de 30-40 anos atrás.  Cardeal Stickler SDB, de feliz memória, falecido em 2007, já dizia: “Como salesiano sigo três ideais que nos foram transmitidos por Dom Bosco: o amor pela Eucaristia, a devoção a Nossa Senhora e a fidelidade ao Santo Padre.”  Por isso os salesianos sempre estiveram próximos ao Sumo Pontífice, como Dom Viganò, Reitor-Mor, que foi confessor de S.S João Paulo II. No atual pontificado de S.S Bento XVI, Papa rodeado de filhos de Dom Bosco desde os tempos cardinalícios, a presença salesiana se faz com D. Tarcisio Cardeal Bertone e D. Angelo Cardeal Amato, antigos secretários da Congregação para a Doutrina da Fé e, atualmente, Secretário de Estado e Prefeito da Congregação para a causa dos Santos, respectivamente. Além, é claro, de outros Cardeais, como D. Joseph Zen Ze-kiun, Arcebispo Emérito de Hong Kong, árduo defensor da Liturgia e valente no combate ao comunismo, D. Oscar Maradiaga e D. Miguel Obando Bravo, Arcebispos de Tegucigalpa e Manágua, em seqüência, que lutam contra teologias latino-americanas imprecisas de cunho revolucionário, entre outros Purpurados. Ademais, o que Dom Bosco nos ensina é supra-congregacional, é um exemplo universal de confiança, entrega e amor ao Vigário de Jesus Cristo na Terra.

O Concílio Vaticano II, no documento Lumen Gentium, ensinou que “O Colégio ou Corpo Episcopal não tem autoridade se nele não se considerar incluído, como chefe, o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, e permanecer intacto o poder primacial do Papa sobre todos, quer Pastores quer fiéis. Pois o Romano Pontífice, em virtude do seu cargo de Vigário de Cristo e Pastor de toda a Igreja, tem nela poder pleno, supremo e universal, que pode sempre exercer livremente.”  Ora, a fidelidade ao Papa e a compreensão acerca do ministério petrino é ponto crucial não só da teologia dogmática, mas até da identidade católica. O mesmo documento conciliar destaca que “A única Igreja de Cristo (…) constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na Igreja Católica governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele” Entretanto, a autoglorificação do homem o impede de se colocar em sincera obediência. A soberba, fruto do pecado original, é coroada através de um modernismo que eleva teologias heréticas e impressões pessoais ao patamar de verdades, mesmo quando a sustentação desses erros, dentro da Igreja, é mantida por meio do relativismo que parte da premissa de que tudo é relativo o que, logicamente,  atinge essa “relatividade absoluta”, logo uma contradição em essência.

Para os defensores desse crasso relativismo o Concílio Vaticano II foi a adaptação concreta da Igreja aos tempos, como se a doutrina tivesse sido retificada e os ensinos dogmáticos modificados para se encaixar nas necessidades dos anos. Ora, este tipo de pensamento parte de uma lógica extremamente absurda, já que conclui que o que era crido como Verdade – afinal a doutrina é o aprofundamento na própria Verdade – foi modificado, transformado. Porém, uma das características da Verdade, quando verdadeira, é, justamente, a imutabilidade. Logo, o que se modifica não é Verdadeiro, Divino. No pós-Concílio muitos foram os religiosos que impuseram o que o Santo Padre Bento XVI chama de “hermenêutica da ruptura”, ou seja, uma descontinuidade com a Igreja de Sempre. Vejamos o pronunciamento de S.S Paulo VI na 8ª Sessão Solene do Concílio Vaticano II:

“A Igreja conforma-se às novas normas dadas pelo Concílio: são normas fiéis, são normas insignes pela novidade duma consciência mais perfeita da comunhão na Igreja, da sua admirável estrutura, da caridade mais ardente que deve unir, activar e santificar a comunhão hierárquica da Igreja. É este o período daquele verdadeiro «aggiornamento» preconizado pelo nosso predecessor, de venerada memória, João XXIII. A julgar pelas suas intenções, ele não queria certamente dar a esta palavra o significado que alguns tentaram dar-lhe, como se fosse lícito considerar tudo na Igreja segundo os princípios do relativismo e o espírito do mundo: dogmas, leis, instituições, tradições; ele, com efeito, de temperamento austero e firme, tinha diante dos olhos a estabilidade doutrinal e estrutural da Igreja, a ponto de nela basear o seu pensamento e a sua actividade. De futuro, portanto, usaremos a palavra «aggiornamento» para significar a sábia penetração do espírito do Concílio celebrado e a aplicação fiel das normas, feliz e santamente por ele emanadas.”

Beato João XXIII ainda lembrou, na abertura do Concílio que “é necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e exposta de forma a responder às exigências do nosso tempo. Uma coisa é a substância do « depositum fidei », isto é, as verdades contidas na nossa doutrina, e outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes, contudo, o mesmo sentido e o mesmo alcance.” O Vigário de Cristo faz uma belíssima reflexão; a doutrina é imutável por natureza, já que reflete a imutabilidade de quem a revelou; Deus. Entretanto, a compreensão acerca do processo pastoral usado na difusão e transmissão desse conhecimento deve e pode sofrer alterações com os tempos, do contrário a Igreja estaria muda frente aos homens. Ademais, Dom Bosco, novamente ele, é exemplo de uma extrema fidelidade doutrinal passada através de linguagem e postura totalmente progressa. Os frutos do jansenismo, na época do Santo, ainda eram visíveis na austeridade dos Sacerdotes. Os Presbíteros eram espelhos de integridade e formação, mas a dureza os impedia de trabalhar de forma mais apostólica. O método preventivo e as obras salesianas se ergueram sobre um forte espírito de ortodoxia doutrinal e um ar de novidade no trato com o povo de Deus e em especial com os jovens. O Santo se distanciou do ordenamento educativo que tinha a disciplina como fim, e não como meio, e pensou que os seus filhos deveriam abraçar a missão paternal de educar e formar a juventude. A autoridade, dentro desse método, não se encontra léguas de distância num alto monte, mas junto aos rapazes, sem ser tolhida por conta disso, ao contrário, a autoridade é exercida sobre a liberdade juvenil. Curiosamente, quando o contato do Sacerdote com o estudante passa a ser constante, direto e frequente, a necessidade de primar pela fidelidade moral, doutrinal e religiosa, com toda a relevância de ser modelo de virtudes e valores, toma uma dimensão muito mais profunda, afinal o educador age sob uma frequente ação paterna, não mais se encontra distante como nos antigos processos pedagógicos, portanto longe de ser exemplo diário.

Onde, então, os relativistas sustentam as próprias loucuras? Não há nada dentro da Igreja que justifique essa tentativa tresloucada de tolher a doutrina e os ensinamentos milenares por aquilo que eles consideram as necessidades dos tempos. Ora, a caridade sem a Verdade é hipocrisia. Justamente por isso, em amor aos homens, devemos proclamar o Evangelho, a grandeza de Cristo e da Sua mensagem contida na Igreja edificada por Ele. Entretanto, sempre que nos recusamos a difundir o Caminho ou preferimos ofuscar o Seu brilho através de uma deformação doutrinal, estamos mostrando a nossa pequenez e egoísmo, afinal privamos o povo de conhecer a Cristo em todo o Seu esplendor.

Devemos sim acompanhar os tempos, tanto para nos confirmar na fé – afinal a decadência social, ao longo das eras, confirma a nossa crença – como para melhor difundi-la pelo mundo. Ademais, com o passar dos anos percebemos como a sociedade se degrada e se perde no pecado incitado por ela própria. Se nos tempos de outrora a Religião era defendida com vigor, sabedoria e caridade, hoje a bandeira de Cristo deve ser ostentada como mais fervor, piedade e fidelidade, já que, acompanhando os tempos, percebemos como o mundo se torna desprezível e se distancia da mensagem de Nosso Senhor. Entretanto, os relativistas, em resposta à crise moral, religiosa e civilizacional, optam por esconder os símbolos, ofuscar a Liturgia, decepar a doutrina e macular a teologia. Ora, além de prestar um verdadeiro desserviço a Cristo e à Sua Esposa, os defensores do relativismo se aliam ao “príncipe deste mundo” todas as vezes que tolhem a Verdade e diminuem a presença ostensiva da Igreja no orbe.

Facebook Comments

Livros recomendados

Nossa Senhora de FátimaO Banquete do Cordeiro (Cléofas)Chesterton – Autobiografia

About the author

Veritatis Splendor

Leave a Comment

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.