21/03/2003

D.Vicente Scherer

Mais do que nunca, quando a sociedade é atingida pela decomposição moral, violências, crime organizado, corrupção administrativa e insegurança, faz-se mister recordar figuras que viveram com honradez, na fidelidade a Deus e à Pátria. Enquanto, por todos os meios provoca-se a exaltação do mal, uma reação se impõe: chamar a atenção do público para o fato de nem tudo ser negativo. Refiro-me à abertura, em Porto Alegre, do Ano Centenário do Nascimento do Cardeal Vicente Scherer, por muitos anos Arcebispo da Arquidiocese de Porto Alegre e falecido em 8 de março de 1996.

Fui convidado para presidir solene Concelebração Eucarística na Catedral, abrindo os festejos. O que disse nessa oportunidade, as considerações feitas sobre o evento, não interessam apenas aos presentes, autoridades civis e militares aos Bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e aos fiéis de Porto Alegre, pois são reflexões que pedem limites mais amplos.

O culto aos heróis da Pátria e aos santos, no campo religioso, deve ser mantido vivo, para que seus exemplos sejam conservados e imitados em uma sociedade voltada para outros ideais. Assim, parabéns à Arquidiocese de Porto Alegre e ao Rio Grande do Sul, pela iniciativa do Ano Centenário do Nascimento de Dom Vicente Scherer.

Em toda a vida desse fiel servidor, impressionaram-me profundamente seu amor à Igreja e a coragem de ser coerente com sua consagração a Cristo. Toda a sua orientação pastoral foi marcada pela dedicação ao Evangelho e firmeza de atitudes. Dom Scherer foi – e hoje continua a ser pelos seus exemplos, – um ponto de referência para o País e a Igreja, no Brasil.

Em sua Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Ecclesia in Oceania”, com data de 22 de novembro de 2001, e evidentemente, dirigida a toda a Igreja, o Papa, ao falar sobre a Educação Católica aos Professores e Administradores de Escolas, afirma que eles devem ser “leais à Igreja e à sua Doutrina” (nº 33).

Deus nos outorgou uma doutrina, somos livres para observá-la, mas daremos contas do bom e do mau uso da liberdade em nossa conduta. Uma interpretação subjetiva cria obstáculos à prática do bem e é indicadora de falsas veredas, que não nos levam ao Criador. Deduz-se dessa consideração, o dever fundamental de fidelidade à Igreja e à sua Doutrina. A razão mais profunda desse comportamento é ser o homem co-responsável pela sua história. Toda vez que ele, conhecendo valores supremos, faz covardemente concessões ao interesse do momento, ou a pressões indevidas, entra em crise, inverte sua vida, degrada seu ideal.

Aqui se situa a importância da declaração do Papa João Paulo II, em seu documento “Ecclesia in Oceania”: “lealdade à Igreja e à sua doutrina”. Toda a vida do Cardeal Arcebispo de Porto Alegre foi um exemplo admirável. Nem sempre compreendido em suas posições relativas ao regime militar, agiu sempre com coerência, deixando em segundo plano o juízo que dele poderiam fazer.

No cristão fiel há uma profunda harmonia entre corpo e alma, comportamento social e responsabilidade no mundo. Ela está expressa em São Paulo (Rm 12,2): “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito”. Dom Scherer seguiu fielmente essas diretrizes do Apóstolo.

Se o Evangelho é parte da Revelação de Deus aos homens, a aceitação plena do mesmo, sem subterfúgios, é um dever de cada fiel. Atraiçoa Jesus quem submete a aceitação de seus ensinamentos a um relativismo que torna o corpo doutrinário sujeito às interpretações que cada um lhe quiser dar.

Diante dessas considerações, bem podemos avaliar a importância de ser “leais para com a Igreja e sua doutrina”. Ela não nos ensina uma moral mais ou menos conveniente. É guardiã do divino legado íntegro que nos veio de Jesus por seus Apóstolos. Quando fala, baseia-se no fundamento único, a Revelação transmitida pelo Magistério autêntico.

Um exame profundo de nossa consciência, do comportamento pessoal, de reação às pressões da opinião pública, à luz do ensinamento de Cristo transmitido pela Igreja é um excelente exercício na celebração centenária desse Pastor de Porto Alegre.

Sem me deter em citações tão abundantes de seus exemplos e escritos, inclusive na imprensa de circulação nacional, essas e outras reflexões sobre os aspectos que exaltam a figura do servo de Deus, são o mais importante para a vida da Igreja e seu papel no cenário nacional.

Como Dom Vicente Scherer sentir-se-ia reconfortado ao ouvir o Sucessor de Pedro alentando os Bispos em meio às dificuldades inerentes à Evangelização em nossos tempos: “Ante a imensidade da missão que vos está confiada, venerados Irmãos, nunca vos deixeis vencer pelo cansaço ou pelo desânimo, porque o Senhor ressuscitado caminha convosco e torna fecundos os vossos esforços”. Sem dúvida, as dificuldades do pastoreio que afetam os sucessores dos Apóstolos seriam muito aliviadas se os presbíteros, diáconos e leigos, conhecedores das diretrizes do Papa, obedecessem fielmente às normas dadas por quem dirige a barca de Pedro.

Não recordemos apenas exemplos de Dom Vicente Scherer. Busquemos examinar nossa conduta à luz de sua vida e do Evangelho. Aclamemos sua firmeza, sua coragem e lealdade que nascem da Fé. Respondamos afirmativamente ao convite do Senhor no Evangelho de São João (Jo 12,26): “Se alguém me quer servir, siga-me”.

Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales

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