Documentos da Igreja

Dominum et vivificantem – parte iii

TERCEIRA PARTE

O ESPÍRITO QUE DÁ A VIDA

1. Motivo do Jubileu do ano 2000: Cristo, «que foi concebido do Espírito Santo»

49. O pensamento e o coração da Igreja voltam-se para o Espírito Santo, neste final do século XX e na perspectiva do terceiro Milénio depois da vinda de Jesus Cristo ao mundo, ao mesmo tempo que começamos a olhar para o grande Jubileu, com o qual a mesma Igreja irá celebrar o acontecimento. Essa vinda, de facto, coloca-se na escala do tempo humano, como um acontecimento que pertence à história do homem sobre a terra. A medida do tempo, usada comummente, determina os anos, os séculos e os milénios, segundo decorrem antes ou depois do nascimento de Cristo. Mas é necessário ter presente também que este acontecimento significa, para nós cristãos, segundo o Apóstolo, a «plenitude dos tempos», (193) porque, nele, a história do homem foi completamente penetrada pela «medida» do próprio Deus: uma presença transcendente no «nunc», no Hoje eterno. «Aquele que é, que era e que há-de-vir»; Aquele que é «o Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim». (194) «Com efeito, Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que n’Ele crer não pereça mas tenha a vida eterna». (195) «Ao chegar a plenitude dos tempos, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher… para que nós recebêssemos a adopção de filhos». (196) E esta Incarnação do Filho-Verbo deu-se «por obra do Espírito Santo».

Os dois Evangelistas, aos quais ficámos a dever a narração do nascimento e da infância de Jesus de Nazaré, exprimem-se da mesma maneira sobre este ponto. Segundo São Lucas, perante a anunciação do nascimento de Jesus, Maria pergunta: «Como se realizará isso se eu não conheço homem?» E recebe esta resposta: «O Espírito Santo descerá sobre ti e a potência do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer será santo e chamar-se-á Filho de Deus». (197)

São Mateus narra directamente: «Ora o nascimento de Jesus foi assim: estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de habitarem juntos, achou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo». (198) José, perturbado por este estado de coisas, recebeu num sonho a seguinte explicação: «Não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados». (199)

Assim, a Igreja professa desde as suas origens o mistério da Incarnação, mistério-chave da sua fé, referindo-se ao Espírito Santo. O Símbolo dos Apóstolos exprime-se deste modo: «O qual foi concebido pelo Espírito Santo e nasceu de Maria Virgem». Não diversamente atesta o Símbolo Niceno-Costantinopolitano: «Incarnou por obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem».

«Por obra do Espírito Santo» fez-se homem Aquele que a Igreja, com as palavras do mesmo Símbolo, proclama ser consubstancial ao Pai: «Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado». Fez-se homem «incarnando no seio da Virgem Maria». Eis o que se cumpriu «ao chegar a plenitude dos tempos».

50. O grande Jubileu, com que se concluirá o segundo Milénio, para o qual a Igreja se está a preparar já, tem directamente um perfil cristológico: trata-se, efectivamente, de celebrar o nascimento de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, porém, ele tem um perfil pneumatológico, dado que o mistério da Incarnação se realizou «por obra do Espírito Santo». «Operou-o» aquele Espírito que ? consubstancial ao Pai e ao Filho ? é, no mistério absoluto de Deus uno e trino, a Pessoa-Amor, o Dom incriado, que é fonte eterna de toda a dádiva que provém de Deus na ordem da criação, o princípio directo e, em certo sentido, o sujeito da autocomunicação de Deus na ordem da graça. O mistério da Incarnação constitui o ápice da dádiva suprema, dessa autocomunicação de Deus.

Com efeito, a concepção e o nascimento de Jesus Cristo são a obra maior realizada pelo Espírito Santo na história da criação e da salvação: a graça suprema ? «a graça da união» ? fonte de todas as outras graças, como explica Santo Tomás. (200) O grande Jubileu relaciona-se com esta graça e também, se penetrarmos na sua profundidade, com o artífice desta obra, a Pessoa do Espírito Santo.

À «plenitude dos tempos» corresponde, efectivamente, uma particular plenitude da autocomunicação de Deus uno e trino no Esptrito Santo. Foi «por obra do Espírito Santo» que se realizou o mistério da união hipostática, ou seja, da união da natureza divina com a natureza humana, da divindade e da humanidade, na única Pessoa do Verbo-Filho. Quando Maria, no momento da anunciação, pronuncia o seu «fiat»: «Faça-se em mim segundo a tua palavra», (201) ela concebe de modo virginal um homem, o Filho do homem, que é o Filho de Deus. Graças a esta «humanização» do Verbo-Filho, a autocomunicação de Deus atinge a sua plenitude definitiva na história da criação e da salvação. Esta plenitude adquire uma densidade particular e uma eloquência muito expressiva no texto do Evangelho de São João: «O Verbo fez-se carne». (202) A Incarnação de Deus-Filho significa que foi assumida à unidade com Deus não apenas a natureza humana, mas também, nesta, em certo sentido, tudo o que é «carne»: toda a humanidade, todo o mundo visível e material. A Incarnação, por conseguinte, tem também um significado cósmico, uma dimensão cósmica. O «gerado antes de toda criatura», (203) ao incarnar-se na humanidade individual de Cristo, une-se, de algum modo, com toda a realidade do homem, que também é «carne» (204) e, nela, com toda a «carne», com toda a criação.

51. Tudo isto se realiza «por obra» do Espírito Santo; e, por conseguinte, faz parte do conteúdo do grande Jubileu futuro. A Igreja não pode preparar-se para esse Jubileu de outro modo que não seja no Espírito Santo. Aquilo que «na plenitude dos tempos» se realizou por obra do Espírito Santo, só por sua obra pode emergir agora da memória da Igreja. É por sua obra, que isso pode tornar-se presente na nova fase da história do homem sobre a terra: o ano 2000 depois do nascimento de Cristo.

O Espírito Santo, que com a sombra da sua potência cobriu o corpo virginal de Maria, dando assim início à maternidade divina nela, ao mesmo tempo tornou o seu coração perfeitamente obediente pelo que respeita àquela autocomunicação de Deus, que superava qualquer conceito e todas as faculdades do homem. «Bem-aventurada aquela que acreditou»: (205) assim foi saudada Maria, pela sua parente Isabel, também ela «cheia do Espírito Santo».(206) Nas palavras de saudação àquela que «acreditou» parece delinear-se um contraste longínquo (mas, na realidade, muito próximo) com relação a todos aqueles de quem Cristo dirá que «não acreditaram». (207) Maria entrou na história da salvação do mundo mediante a obediência da fé. E a fé, na sua essência mais profunda, é a abertura do coração humano diante do Dom: diante da autocomunicação de Deus no Espírito Santo. São Paulo escreve: «O Senhor é espírito, e onde está o espírito do Senhor, aí há liberdade». (208) Quando Deus uno e trino se abre ao homem no Espírito Santo, esta sua «abertura» revela e, ao mesmo tempo, doa à criatura-homem a plenitude da liberdade. Esta plenitude manifesta-se de um modo sublime na fé de Maria, pela sua «obediência de fé»; (209) sim, verdadeiramente, «bem-aventurada aquela que acreditou»!

2. Motivo do Jubileu: manifestou-se a graça

52. No mistério da Incarnação, a obra do Espírito, «que dá a vida», atinge o seu vértice. Não é possível dar a vida, que está em Deus de um modo pleno, senão fazendo dela a vida de um Homem, como é Cristo na sua humanidade personalizada pelo Verbo na união hipostática. Ao mesmo tempo, com o mistério da Incarnação jorra, de um modo novo, a fonte dessa vida divina na história da humanidade: o Espírito Santo. O Verbo «gerado antes de toda a criatura», torna-se «o primogénito entre muitos irmãos» (210) e torna-se assim também a cabeça do Corpo que é a Igreja ? que nascerá da Cruz e será revelada no dia do Pentecostes ? e, na Igreja, a cabeça da humanidade: dos homens de cada nação, de todas as raças, de todos os países e culturas, de todas as línguas e continentes, todos eles chamados à salvação. «O Verbo fez-se carne, (aquele Verbo no qual) estava a vida e a vida era a luz dos homens… A quantos o receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus». (211) Mas tudo isto se realizou e se realiza incessantemente «por obra do Espírito Santo».

«Filhos de Deus» são, com efeito ? como ensina o Apóstolo ? «todos aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus». (212) A filiação pela adopção divina nasce nos homens sobre a base do mistério da Incarnação; e, portanto, graças a Cristo, que é o Filho eterno. Todavia, o nascer ou renascer dá-se quando Deus Pai «envia aos nossos coracões o Espírito do seu Filho». (213) É então que, na verdade, «recebemos o espírito de adopção filial, pelo qual bradamos: “Abbá, ó Pai!”». (214) Portanto, esta filiação divina, enxertada na alma humana com a graça santificante, é obra do Espírito Santo. «O próprio Espírito atesta ao nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, somos igualmente herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo». (215) A graça santificante é no homem o princípio e a fonte da vida nova: vida divina, sobrenatural.

A dádiva desta vida nova é como que a resposta definitiva de Deus ao grito do Salmista, no qual ecoa, de certo modo, a voz de todas as criaturas: «Se enviais o vosso Espírito, serão criados e renovais a face da terra». (216) Aquele que, no mistério da criação, ao homem e ao cosmos a vida sob as suas múltiplas formas, visíveis e invisíveis, renova-a ainda pelo mistério da Incarnação. A criação é assim completada pela Incarnação e, desde esse momento, penetrada pelas forças da Redenção, que investem a humanidade e a criação inteira. É o que nos diz São Paulo, cuja visão cósmico-teológica parece retomar os termos do antigo Salmo: a criação «aguarda ansiosamente a revelação dos filhos de Deus», (217) ou seja, daqueles que Deus, tendo-os «conhecido desde sempre», também os «predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho». (218) Dá-se, assim, uma «adopção filial» sobrenatural dos homens, da qual é origem o Espírito Santo, Amor e Dom. Como tal Ele é dado com prodigalidade aos homens. E na superabundâcia do Dom incriado tem início, no coração de cada homem, aquele particular dom criado, mediante o qual os homens «se tornam participantes da natureza divina». (219) Deste modo, a vida humana é impregnada pela participação na vida divina e adquire também ela uma dimensão divina, sobrenatural. Tem-se assim a vida nova, pela qual, como participantes do mistério da Incarnação, «os homens … têm acesso ao Pai no Espírito Santo». (220) Existe, pois, uma estreita dependência de causalidade entre o Espírito, que dá a vida, e a graça santificante, com aquela vitalidade sobrenatural multiforme que dela deriva no homem: entre o Espírito incriado e o espírito humano criado.

53. Pode dizer-se que tudo isto é abrangido no âmbito do grande Jubileu, acima mencionado. Com efeito, impõe-se ir além da dimensão histórica do facto, considerado somente à superficie. É necessário chegar a atingir, no próprio conteúdo cristológico do facto, a dimensão pneumatológica, abarcando com o olhar da fé o conjunto dos dois milénios da acção do Espírito da verdade, o qual, ao longo dos séculos, indo haurir do tesouro da Redenção de Cristo, foi dando aos homens a vida nova, realizando neles «a adopção filial» no Filho unigénito e santificando-os, de tal modo que eles podem repetir com São Paulo: «Recebemos o Espírito que vem de Deus». (221)

Mas ao considerar este motivo do Jubileu, não é possível limitar-se aos dois mil anos decorridos desde o nascimento de Cristo. Énecessário retroceder no tempo, abarcar toda a acção do Espírito Santo mesmo antes de Cristo, desde o princípio, em todo o mundo e, especialmente, na economia da Antiga Aliança. Esta acção, de facto, em todos os lugares e em todos os tempos, ou antes, em cada homem, desenrolou-se segundo o eterno desígnio de salvação, no qual ela anda estreitamente unida ao mistério da Incarnação e da Redenção; este mistério já tinha exercido a sua influência naqueles que acreditavam em Cristo que havia de vir. Isto é atestado, de modo particular, na Epístola aos Efésios. (222) A graça, portanto, comporta um carácter cristológico e, conjuntamente, um carácter pneumatológico, que se realiza sobretudo naqueles que expressamente aderem a Cristo: «N’Ele (em Cristo) … fostes marcados com o selo do Espírito Santo, que fora prometido, o qual é o penhor da nossa herança, enquanto esperamos a completa redenção». (223)

No entanto, sempre na perspectiva do grande Jubileu, também devemos alargar as nossas vistas para mais longe, «para o largo», conscientes de que «o vento sopra onde quer», segundo a imagem usada por Jesus no colóquio con Nicodemos. (224) O Concílio Vaticano II, centrando a atenção sobretudo no tema da Igreja, recorda-nos a acção do Espírito Santo mesmo «fora» do corpo visível da Igreja. Ele fala precisamente de «todos os homens de boa vontade, no coração dos quais invisivelmente opera a graça. Na verdade, se Cristo morreu por todos e a vocação última do homem é realmente uma só, a saber, a divina, nós devemos manter que o Espírito Santo oferece a todos, de um modo que só Deus conhece, a possibilidade de serem associados ao mistério pascal». (225)

54. «Deus é espírito, e os seus adoradores em espírito e verdade é que devem adorá-lo». (226) Jesus pronunciou estas palavras num outro dos seus colóquios: aquele que teve com a Samaritana. O grande Jubileu, que será celebrado no final deste Milénio e no início do seguinte, deve constituir um forte apelo dirigido a todos aqueles que «adoram a Deus em espírito e verdade». Deve ser para todos uma ocasião especial para meditar no mistério de Deus uno e trino que, em si mesmo, é absolutamente transcendente em relação ao mundo, de modo especial em relação ao mundo visível; é, na realidade, Espírito absoluto: «Deus é espírito». (227) Mas, simultaneamente e de um modo admirável, não só está próximo deste mundo, mas está aí presente e, em certo sentido, imanente, compenetra-o e vivifica-o por dentro. Isto é válido, em especial, quanto ao homem: Deus está no íntimo do seu ser, como pensamento, consciência e coração; é uma realidade psicológica e ontológica que levava Santo Agostinho, ao considerá-la, a dizer de Deus: «interior intimo meo» [mais íntimo do que o meu íntimo]. (228) Estas palavras ajudam-nos a compreender melhor as que Jesus dirigiu à Samaritana: «Deus é espírito». Somente o Espírito pode ser «mais íntimo do que o meu íntimo», quer no ser quer na experiência espiritual; só o Espírito pode ser a tal ponto imanente ao homem e ao mundo, permanecendo inviolável e imutável na sua transcendência absoluta.

Mas, em Jesus Cristo, a presença divina no mundo e no homem manifestou-se de uma maneira nova e sob forma visível. N’Ele, verdadeiramente, «manifestou-se a graça». (229) O amor de Deus Pai, dom, graça infinita e princípio de vida, tornou-se patente em Cristo e, na sua humanidade, tornou-se «parte» do universo, do género humano e da história. Esta «manifestação» da graça na história do homem, mediante Jesus Cristo, realizou-se por obra do Espírito Santo, que é o princípio de toda a acção salvífica de Deus no mundo: Ele, «Deus escondido», (230) que como Amor e Dom «enche o universo». (231) Toda a vida da Igreja, tal como se irá manifestar no grande Jubileu, significa um caminhar ao encontro de Deus escondido, ao encontro do Espírito, que dá a vida.

3. O Espírito Santo no conflito interior do homem: a carne tem desejos contrários aos do espírito e o espírito desejos contrários aos da carne

55. Da história da salvação resulta, infelizmente, que essa proximidade e presença de Deus ao homem e ao mundo, essa admirável «condescendência» do Espírito, depara, na nossa realidade humana, com resistência e oposição. Como são eloquentes, sob este ponto de vista as palavras proféticas daquele ancião, chamado Simeão, que, «movido pelo Espírito», veio ao Templo de Jerusalém, para anunciar, diante do recém-nascido de Belém, que «Ele é destinado a ser ocasião de queda e de ressurgimento para muitos em Israel, a ser sinal de contradição». (232) A oposição a Deus, que é Espírito invisível, nasce já, em certa medida, no plano da radical diversidade do mundo em relação a Ele; ou seja, da «visibilidade» e «materialidade» do mundo em confronto com Ele, que é «invisível» e «Espírito, no sentido absoluto»; da sua essencial e inevitável imperfeição em confronto com Ele, Ser perfeitíssimo. Mas a oposição torna-se conflito, rebelião no campo ético, por causa do pecado que se apodera do coração humano, no qual «a carne… tem desejos contrários aos do espírito e o espírito desejos contrários aos da carne». (233) O Espírito Santo deve «convencer o mundo» quanto a este pecado, como dissemos.

É São Paulo quem descreve, de modo particularmente eloquente, a tensão e a luta, que agitam o coração humano. «Eu digo-vos ? lemos na Epístola aos Gálatas ? : Procedei segundo o Espírito e não dareis satisfações aos desejos da carne. Pois a carne tem desejos contrários aos do espírito, e o espírito, desejos contrários aos da carne; há oposição radical entre eles; é por isso que não fazeis o que quereríeis». (234) No homem, porque é um ser composto, espírito e corpo, já existe uma certa tensão, trava-se uma certa luta de tendências entre o «espírito» e a «carne». Mas esta luta, de facto, faz parte da herança do pecado, é uma consequência do mesmo pecado e, simultaneamente, uma sua confirmação. É algo que faz parte da experiência quotidiana. Assim escreve o Apóstolo: «Ora, as obras da carne são bem conhecidas: fornicação, impureza, libertinagem… embriaguez, orgias e coisas semelhantes a estas». São os pecados que se poderiam qualificar como «carnais». Mas o Apóstolo ainda acrescenta outros: «inimizades, discórdias, ciúmes, disputas, divisões, facciosismos, invejas». (235) Tudo isto constitui «as obras da carne».

A estas obras, porém, que são indubitavelmente más, São Paulo contrapõe «o fruto do Espírito», que é «caridade, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão e temperança». (236) Do contexto, resulta com clareza que, para o Apóstolo, não se trata de discriminar e condenar o corpo que, juntamente com a alma espiritual, constitui a natureza do homem e a sua subjectividade pessoal. Ele quis tratar sobretudo, das obras, ou melhor, das disposições estáveis ? virtudes e vícios ? moralmente boas ou más, que são fruto de submissão (no primeiro caso) ou, pelo contrário, de resistência (no segundo caso) à acção salvífica do Espírito Santo. Por isso o Apóstolo escreve: «Se, portanto, vivemos pelo espírito, caminhemos também segundo o espírito». (237) E numa outra passagem: «De facto, os que vivem segundo a carne ocupam-se das coisas da carne; ao contrário, os que vivem segundo o espírito ocupam-se das coisas do espírito». «Vós, porém … viveis segundo o espírito se é que o Espírito de Deus habita em vós». (238) A contraposição que São Paulo estabelece entre a vida «segundo o espírito» e a vida «segundo a carne» dá origem a uma ulterior contraposição: entre a «vida» e a «morte». «Os desejos da carne levam à morte, enquanto que os desejos do Espírito levam à vida e à paz». Daqui a advertência: «Se viverdes segundo a carne, por certo morrereis; mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras do corpo, vivereis». (239)

Se pensarmos bem, estamos perante uma exortação a viver na verdade, ou seja, segundo os ditames da consciência recta; e, ao mesmo tempo, trata-se de uma profissão de fé no Espírito da verdade, Aquele que dá a vida. O corpo, efectivamente, «está morto por causa da pecado, mas o espírito vive por causa da justificação»; «portanto… somos devedores, mas não para com a carne para vivermos segundo a carne». (240) Nós somos devedores sobretudo para com Cristo, que no mistério pascal operou a nossa justificação, obtendo-nos o Espírito Santo. «Na verdade, fomos comprados por um alto preço». (241)

Nos textos de São Paulo sobrepõem-se e compenetram-se reciprocamente a dimensão ontológica (a carne e o espírito), a dimensão ética (o bem e o mal moral) e a dimensão pneumatológica (a acção do Espírito Santo na ordem da graça). As suas palavras (especialmente nas Epístolas aos Romanos e aos Gálatas) levam-nos a conhecer e a sentir ao vivo o vigor daquela tensão e daquela luta, que se trava no homem, entre a abertura à acção do Espírito Santo e a resistência e oposição a Ele, ao seu dom salvífico. Os termos ou pólos em contraposição, aqui são: da parte do homem, as suas limitações e pecaminosidade, pontos nevrálgicos da sua realidade psicológica e ética; e, da parte de Deus, o mistério do Dom, o incessante doar-se da vida divina no Espírito Santo. A quem caberá a vitória? Aquele que souber acolher o Dom.

56. Infelizmente, a resistência ao Espírito Santo, que São Paulo sublinha, na dimensão interior e subjectiva, como tensão, luta e rebelião que acontece no coração humano, assume, nas várias épocas da história e, especialmente, na época moderna, a sua dimensão exterior, concretizada no conteúdo da cultura e da civilização, como sistema filosófico, como ideologia e como programa de acção e de formação dos comportamentos humanos. Esta dimensão exterior encontra a sua expressão mais importante no materialismo, tanto na sua forma teórica ? enquanto sistema de pensamento ? como na sua forma prática, enquanto método de leitura e de avaliação dos factos e, ainda, como programa dos comportamentos correspondentes. O sistema que mais desenvolveu esta forma de pensamento, de ideologia e de práxis, e que o levou às extremas consequências no plano da acção foi o materialismo dialéctico e histórico, ainda hoje reconhecido como substancia vital do marxismo.

Por princípio e de facto, o materialismo exclui radicalmente a presença e a acção de Deus, que é espírito, no mundo e, sobretudo, no homem, pela razão fundamental de que não aceita a sua existência, sendo em si mesmo e no seu programa um sistema ateu. O ateismo é fenómeno impressionante do nosso tempo, ao qual o Concilio Vaticano II dedicou algumas páginas significativas. (242) Embora não se possa falar do ateismo, de modo unívoco, nem se possa reduzi-lo exclusivamente à filosofia materialista ? dado que existem várias espécies de ateismo e talvez se possa afirmar que, com frequência, se usa a palavra num sentido equívoco ? o certo é que um verdadeiro materialismo, no sentido próprio do termo tem um carácter ateu, quando é entendido como teoria explicativa da realidade e assumido como princípio-chave da acção pessoal e social. O horizonte dos valores e dos fins do agir, que o materialismo determina, está estreitamente ligado com a interpretação de toda a realidade como «matéria». Se, por vezes, também fala do «Espírito» e das «questões do espírito», no campo, por exemplo da cultura ou da moral, fá-lo apenas enquanto considera certos factos como derivados (epifenómenos) da matéria, a qual, segundo este sistema é a única e exclusiva forma do ser. Daqui se segue que, segundo esta interpretação, a religião só pode ser entendida como uma espécie de «ilusão idealista», que deve ser combatida dos modos e com os métodos mais apropriados, conforme os lugares e as circunstancias históricas, para eliminá-la da sociedade e do próprio coração do homem.

Pode dizer-se, portanto, que o materialismo é o desenvolvimento sistemático e coerente da «resistência» e oposição denunciadas por São Paulo quando escreve: «A carne … tem desejos contrários aos do espirito». Esta realidade conflitual, no entanto, é recíproca, como põe em realce o mesmo Apóstolo, na segunda parte do seu aforismo: «o espírito tem desejos contrários aos da carne». Quem quiser viver segundo o Espírito , na aceitação e correspondência à sua acção salvifica, não pode deixar de rejeitar as tendências e pretensões, internas e externas, da «carne», também na sua expressão ideológica e histórica de «materialismo» anti-religioso. Sobre este pano de fundo, tão característico do nosso tempo, devem ser postos em evidência os «desejos do espírito» na preparação para o grande Jubileu, como apelos que ecoam na noite de um novo período de advento, no termo do qual, como há dois mil anos, «todo o homem verá a salvação de Deus». (243) Está nisto uma possibilidade e uma esperança, que a Igreja confia aos homens de hoje. Ela sabe que o encontro ou o choque entre os «desejos contrários ao espírito» ? que caracterizam tantos aspectos da civilização contemporânea, especialmente em alguns dos seus ambientes – e os «desejos contrários aos da carne» ? com o facto de Deus se ter tornado próximo de nós, com a sua Incarnação e com a comunicação sempre nova de si mesmo no Espírito Santo ? podem apresentar, em muitos casos, um carácter dramático e virem a redundar, talvez, em novas derrotas humanas. Mas a Igreja acredita firmemente que, da parte de Deus, haverá sempre um comunicar-se salvífico, uma vinda salvífica e, se for o caso, um salvífico «convencer quanto ao pecado», por obra do Espírito.

57. Na contraposição paulina do «espírito» e da «carne» encontra-se inscrita também a contraposição da «vida» à «morte». Trata-se de um grave problema, acerca do qual é necessário dizer, de imediato, que o materialismo, como sistema de pensamento, em todas as suas versões, significa a aceitação da morte como termo definitivo da existência humana. Tudo o que é material é corruptível e, por isso, o corpo humano (enquanto «animal») é mortal. Se o homem, na sua essência, é simplesmente «carne», então a morte permanece para ele uma fronteira e um termo intransponível. Compreende-se assim como se possa dizer que a vida humana é exclusivamente um «existir para morrer».

Deve acrescentar-se que, no horizonte da civilização contemporânea ? especialmente onde ela se apresenta mais desenvolvida, no sentido técnico-científico ? os vestígios e os sinais de morte tornaram-se particularmente presentes e frequentes. Basta pensar na corrida aos armamentos e no perigo que ela comporta de uma autodestruição nuclear. Por outro lado, para todos se tem tornado cada vez mais manifesta a grave situação de vastas regiões do nosso planeta, marcadas pela indigência e pela fome, que são portadoras de morte. Não se trata só de problemas meramente económicos; mas também e, acima de tudo, de problemas éticos. E no entanto, no horizonte da nossa época, adensam-se «sinais de morte» ainda mais sombrios: difundiu-se o costume ? que em algumas partes corre o risco de se tornar como que uma instituição ? de tirar a vida a seres humanos ainda antes do seu nascimento, ou antes de atingirem o termo natural da morte. E mais ainda: apesar de tantos esforços nobres em favor da paz, deflagraram e prosseguem novas guerras, que privam da vida ou da saúde centenas de milhares de seres humanos. E como não recordar os atentados à vida humana por parte do terrorismo organizado, até mesmo em escala internacional?

E isto, infelizmente, é só um esboço parcial e incompleto do quadro de morte que está em vias de composição na nossa época, ao mesmo tempo que nos vamos aproximando cada vez mais do final do segundo Milénio cristão. Mas das tintas sombrias da civilização materialista e, em particular, dos «sinais de morte» que se multiplicam no quadro sociológico-histórico, em que ela se desenvolveu, não se ergue, porventura, uma nova invocação, mais ou menos consciente, ao Espírito que dá a vida? Em todo o caso, mesmo independentemente da amplitude das esperanças ou dos desesperos humanos, bem como das ilusões ou dos logros derivados do desenvolvimento dos sistemas materialistas de pensamento e de vida, permanece a certeza cristã de que o Espírito sopra onde quer, de que nós possuímos «as primícias do Espírito» e de que, por consequência, poderemos ter de sujeitar-nos aos sofrimentos do tempo que passa, mas «gememos em nós mesmos aguardando… a redenção do nosso corpo». (244) ou seja, de todo o nosso ser humano, que é corporal e espiritual. Sim, gememos, mas numa expectativa carregada de esperança indefectível, porque Deus, que é Espírito, se aproximou precisamente deste ser humano. Deus Pai enviou «o próprio Filho em carne semelhante à carne pecadora e, para expiar o pecado, condenou o pecado na carne». (245) No ponto culminante do mistério pascal, o Filho de Deus, feito homem e crucificado pelos pecados do mundo, apresentou-se no meio dos Apóstolos, após a Ressurreição, soprou sobre eles e disse: «Recebei o Espírito Santo». Este «sopro» continua sempre. E assim «o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza». (246)

4. O Espírito Santo no fortalecimento do «homem interior»

58. O mistério da Ressurreição e do Pentecostes é anunciado e vivido pela Igreja, herdeira e continuadora do testemunho dos Apóstolos acerca da Ressurreição de Jesus Cristo. Ela é a testemunha permanente desta vitória sobre a morte, que revelou o poder do Espírito Santo e determinou a sua nova vinda, a sua nova presença nos homens e no mundo. Com efeito, na Ressurreição de Cristo, o Espírito Santo-Paráclito revelou-se sobretudo como aquele que dá a vida: «Aquele que ressuscitou Cristo dos mortos vivificará também os vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito, que habita em vós». (247) Em nome da Ressurreição de Cristo, a Igreja anuncia a vida, que se manifestou para além das fronteiras da morte, a vida que é mais forte que a morte. Ao mesmo tempo, ela anuncia aquele que dá esta vida: o Espírito vivificante; anuncia-o e coopera com ele para dar a vida. Na verdade, «embora o… corpo esteja morto por causa do pecado…. o espírito está vivo por causa da justificação», (248) operada por Cristo Crucificado e Ressuscitado. Em nome da Ressurreição de Cristo, a Igreja põe-se ao serviço da vida que provém do próprio Deus, em estreita união com o Espírito e em humilde cooperação com Ele.

Em razão precisamente desse serviço o homem torna-se de maneira sempre nova o «caminho da Igreja», como já tive ocasião de dizer na Encíclica sobre Cristo Redentor (249) e repito agora nesta sobre o Espírito Santo. A Igreja, unida ao Espírito Santo, está cônscia, mais do que ninguém, do homem interior, dos traços que no homem são mais profundos e essenciais, porque espirituais e incorruptíveis. É a este nível que o Espírito enxerta a «raiz da imortalidade», (250) da qual desponta a vida nova, ou seja, a vida do homem em Deus, que, como fruto da divina autocomunicação salvífica no Espírito Santo, só pode desenvolver-se e consolidar-se sob a acção do mesmo Espírito. Por isso, o Apóstolo dirige-se a Deus em favor dos fiéis, a quem declara: «Do bro os joelhos diante do Pai … que Ele vos conceda… que sejais poderosamente corroborados, pelo seu Espírito, na vitalidade do homem interior». (251)

Sob a influência do Espírito Santo, este homem interior, quer dizer «espiritual», amadurece e fortalece-se. Graças à comunicação divina, o espírito humano que «conhece os segredos do homem» encontra-se com o «Espírito que perscruta as profundezas do próprio Deus». (252) E neste Espírito, que é o Dom eterno, Deus uno e trino abre-se ao homem, ao espírito humano. O sopro recôndito do Espírito divino faz com que o espírito humano, por sua vez se abra, diante de Deus que se abre para ele, com desígnio salvífico e santificante. Pelo dom da graça, que vem do Espírito Santo, o homem entra «numa vida nova», é introduzido na realidade sobrenatural da própria vida divina e torna-se «habitação do Espírito Santo», «templo vivo de Deus». (253) Com efeito, pelo Espírito Santo, o Pai e o Filho vêm a ele e fazem nele a sua morada. (254) Na comunhão de graça com a Santíssíma Trindade dilata-se «o espaço vital» do homem, elevado ao nível sobrenatural da vida divina. O homem vive em Deus e de Deus, vive «segundo o Espírito» e «ocupa-se das coisas do Espírito».

59. A íntima relação com Deus, no Espírito Santo, faz com que o homem também se compreenda de uma maneira nova a si mesmo a à sua própria humanidade. É realizada, assim, plenamente, aquela imagem e semelhança de Deus, que o homem é desde o princípio. (255) Esta verdade íntima do homem deve ser continuamente redescoberta à luz de Cristo, que é o protótipo da relação com Deus; e, na mesma verdade, deve ser igualmente redescoberta a razão de o homem não poder «encontrar-se plenamente a não ser no dom sincero de si mesmo», ao conviver com os outros homens, como escreve o Concílio Vaticano II; isso acontece justamente por motivo da semelhança com Deus, a qual «torna manifesto que o homem, é a única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma», com a sua dignidade de pessoa, mas também com a sua abertura à integração e à comunhão com os outros. (256) O conhecimento efectivo e a realização plena desta verdade do ser dão-se só por obra do Espírito Santo. O homem aprende esta verdade de Jesus Cristo e põe-na em prática na própria vida por obra do Espírito Santo, que Ele nos deu.

Neste caminho ? no caminho de um am adurecimento interior assim, que inclui a descoberta plena do sentido da humanidade ? Deus torna-se íntimo ao homem e penetra, cada vez mais profundamente, em todo o mundo humano. Deus uno e trino, que «existe» em si mesmo como realidade transcendente de Dom interpessoal, ao comunicar-se no Espírito Santo como dom ao homem, transforma o mundo humano, a partir de dentro, a partir do interior dos corações e das consciências. Neste caminho, o mundo, participante do Dom divino, torna-se ? como ensina o Concílio ? «cada vez mais humano, cada vez mais profundamente humano», (257) ao mesmo tempo que, nele, vai amadurecendo, através dos corações e das consciências dos homens, o Reino no qual Deus será definitivamente «tudo em todos», (258) como Dom e como Amor. Dom e Amor: é esta a eterna potência do abrir-se de Deus uno e trino ao homem e ao mundo, no Espírito Santo.

Na perspectiva do ano 2000 depois do nascimento de Cristo, importa conseguir que um número cada vez maior de homens «possam encontrar-se plenamente… através do dom sincero de si». Trata-se, pois, de fazer com que, sob a acção do Espírito-Paráclito, se realize, no nosso mundo, um processo de verdadeiro amadurecimento na humanidade, na vida individual e na vida comunitária; foi em ordem a isso que o próprio Jesus, «quando pedia ao Pai “que todos sejam um, como eu e tu somos um” (Jo 17, 21-22) … nos sugeriu que existe uma certa semelhança entre a união das pessoas divinas e a união dos filhos de Deus na verdade e na carídade». (259) O Concílio insiste nesta verdade sobre o homem; e a Igreja vê nela uma indicação particularmente vigorosa e determinante das próprias tarefas apostólicas. Sendo o homem, de facto, «o caminho da Igreja», este caminho passa através de todo o mistério de Cristo, modelo divino do homem. Neste caminho, o Espírito Santo, consolidando em cada um de nós «o homem interior», faz com que o homem cada vez mais «se encontre plenamente através do dom sincero de si». Pode afirmar-se que nestas palavras da Constituição pastoral do Concílio está resumida toda a antropologia cristã: a teoria e a prática fundamentadas no Evangelho, onde o homem, descobrindo em si mesmo a pertença a Cristo e, n’Ele, a própria elevação à dignidade de «filho de Deus», compreende melhor também a sua dignidade de homem, precisamente porque é o sujeito da aproximação e da presença de Deus, o sujeito da condescendência divina, na qual está incluída a perspectiva e até mesmo a própria raiz da glorificação definitiva. Então pode repetir-se, com verdade, que é «glória de Deus o homem que vive, mas a vida do homem é a visão de Deus»: (260) o homem, ao viver uma vida divina, é a glória de Deus; e o dispensador escondido desta vida e desta glória é o Espírito Santo. Ele ? afirma o grande Basílio ? «simples na sua essência, mas manifestando multiformemente a sua virtude… difunde-se, sem sofrer diminuição alguma, e está presente a cada um daqueles que o podem receber, como se existisse só ele, ao mesmo tempo que infunde em todos a graça em plenitude». (261)

60. Quando os homens descobrem, sob a influência do Paráclito, esta dimensão divina do seu ser e da sua vida, quer como pessoas quer como comunidades, estão em condições de libertar-se dos diversos determinismos, que resultam principalmente das bases materialistas do pensamento, da práxis e da sua relativa metodologia. Na nossa época, estes factores conseguiram penetrar até ao mais íntimo do homem, naquele santuário da consciência, onde o Espírito Santo continuamente faz entrar a luz e a força da vida nova segundo a «liberdade dos filhos de Deus». O amadurecimento do homem nesta vida nova é impedido pelos condicionamentos e pressões, que exercem sobre ele as estruturas e os mecanismos dominantes nos diversos sectores da sociedade. Pode dizer-se que, em muitos casos, os factores sociais, em vez de favorecerem o desenvolvimento e a expansão do espírito humano, acabam por arrancá-lo à genuína verdade do seu ser e da sua vida ? sobre a qual vela o Espírito Santo ? para o sujeitar ao «príncipe deste mundo».

O grande Jubileu do ano 2000 contém, pois, uma mensagem de libertação por obra do Espírito Santo, o único que pode ajudar as pessoas e as comunidades a libertarem-se dos antigos e dos novos determinismos ? guiando-as com a «lei do Espírito que dá a vida em Cristo Jesus» (262) ? descobrindo e actuando, deste modo, a medida plena da verdadeira liberdade do homem. Com efeito, ? como escreve São Paulo ? «onde está o espírito do Senhor, aí há liberdade». (263) Esta revelação da liberdade e, por conseguinte, da verdadeira dignidade do homem, adquire uma particular eloquência para os cristãos e para a Igreja em situações de perseguição ? quer em tempos passados quer actualmente: porque as testemunhas da Verdade divina, neste caso, tornam-se uma comprovação viva da acção do Espírito da verdade, presente no coração e na consciência dos fiéis; e, não poucas vezes, selam com o próprio martírio a suprema glorificação da dignidade humana.

Mesmo nas condições normais da sociedade, os cristãos, quando testemunhas da autêntica dignidade do homem, contribuem, pela sua obediência ao Espírito Santo para a multiforme «renovação da face da terra», colaborando com os seus irmãos em ordem à realização e valorização de tudo o que é bom, nobre e belo (264) no progresso actual da civilização, da cultura, da ciência, da técnica e dos outros sectores do pensamento e da actividade humana. E fazem-no como discípulos de Cristo, o qual ? escreve ainda o Concílio ? «constituído Senhor pel a sua ressurreição… actua no coração dos homens pela virtude do seu Espírito, não só suscitando neles o desejo do mundo futuro, mas, por isso mesmo, inspirando, purificando e fortalecendo também as generosas aspirações com as quais a família humana procura tornar mais humana a própria vida e, para esse fim, submeter toda a terra». (265) Assim, eles afirmam ainda mais a grandeza do homem, criado à imagem e semelhança de Deus, grandeza que é iluminada pelo mistério da Incarnação do Filho de Deus; este, na «plenitude dos tempos», por obra do Espírito Santo, entrou na história e manifestou-se verdadeiro homem: Ele, «gerado antes de toda a criatura» e «por meio do qual existem todas as coisas e nós igualmente existimos».(266)

5. A Igreja, sacramento da íntima união com Deus

61. Aproximando-se o final do segundo Milénio, que deve recordar a todos e como que tornar de novo presente o advento do Verbo quando chegou a «plenitude dos tempos», a Igreja, uma vez mais, deseja penetrar na própria essência da sua constituição divino-humana e da sua missão, que lhe permite participar na missão messiânica de Cristo, conforme o ensino e o projecto, que permanecem válidos, do Concílio Vaticano II. Nesta mesma linha, podemos remontar até ao Cenáculo, onde Jesus Cristo revela o Espírito Santo como Paráclito, como Espírito da verdade, e fala da sua própria «partida», mediante a Cruz, como condição necessária para a «vinda» do mesmo Espírito. «É melhor para vós que eu vá, porque se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se eu partir, enviar-vo-lo-ei». (267) Vimos que este anúncio teve a sua primeira realização já na tarde do dia de Páscoa e, em seguida, durante a celebração do Pentecostes em Jerusalém: desde então para cá, ele continua a realizar-se mediante a Igreja, na história da humanidade.

A luz deste anúncio adquire pleno significado também o que Jesus disse, ainda no decorrer da última Ceia, a propósito da sua nova «vinda». É significativo, de facto, que Ele anuncie, no mesmo discurso do adeus, não só a sua partida, mas também a sua nova vinda. Diz exactamente: «Não vos deixarei órfãos; voltarei para junto de vós». (268) E no momento da despedida definitiva, antes de subir ao céu, repetirá, de uma forma ainda mais explícita: «E eis que eu estou convosco»; e estou «todos os dias, até ao fim do mundo». (269) Esta nova «vinda» de Cristo ? este seu vir continuamente para estar com os Apóstolos, com a Igreja, este seu «estou convosco até ao fim do mundo» ? não modifica, certamente, o facto da sua «partida»; segue-se a ela, depois de concluída a missão messiânica do mesmo Cristo na terra; e dá-se no âmbito do preanunciado envio do Espírito Santo e inscreve-se, por assim dizer, no íntimo da sua própria missão. No entanto, realiza-se por obra do Espírito Santo, o qual faz com que Cristo, que partiu, venha agora e sempre de uma maneira nova. Este voltar de Cristo, por obra do Espírito Santo, e a sua constante presença e acção na vida espiritual actualizam-se na realidade sacramental. Nesta realidade, Cristo, que partiu na sua humanidade visível, vem, está presente e actua na Igreja de uma forma tão íntima, que faz dela o seu Corpo. E como tal, a Igreja vive, opera e cresce «até ao fim do mundo». E tudo isto se realiza por obra do Espírito Santo.

62. A expressão sacramental mais completa da «partida» de Cristo, por meio do mistério da Cruz e da Ressurreição, é a Eucaristia. Nela, todas as vezes que é celebrada, realiza-se sacramentalmente, a sua vinda, a sua presença salvífica: no Sacrifício e na Comunhão. Realiza-se por obra do Espírito Santo e no ambito da sua própria missão. (270) Mediante a Eucaristia, o Espírito Santo leva a efeito aquele «fortalecimento do homem interior», de que fala a Epístola aos Efésios. (271) Mediante a Eucaristia, as pessoas e as comunidades, sob a acção do Paráclito-Consolador, aprendem a descobrir o sentido divino da vida humana, lembrado pelo Concílio Vaticano II: aquele sentido, pelo qual Jesus Cristo «revela plenamente o homem ao próprio homem», sugerindo «uma certa semelhança entre a união das pessoas divinas e a união dos filhos de Deus na verdade e na caridade». (272) Tal união exprime-se e realiza-se, de modo particular, mediante a Eucaristia, na qual o homem, participando no sacrifício de Cristo, que a celebração actualiza, aprende também a «encontrar-se … no dom … de si», (273) na comunhão com Deus e com os outros homens, seus irmãos.

Por isso, os primeiros cristãos, desde aqueles dias que se seguiram à descida do Espírito Santo, «eram assíduos à fracção do pão e à oração», formando assim uma comunidade unida no ensino dos Apóstolos.(274) «Reconheciam», desse modo, que o seu Senhor Ressuscitado, que já subira aos céus, voltava ao meio deles, na comunidade eucarística da Igreja e por meio dela.. Guiada pelo Espírito Santo, a Igreja, desde os inícios, exprimiu-se e confirmou-se a si mesma mediante a Eucaristia. E assim foi sempre, em todas as gerações cristãs, até aos nossos dias, até a esta vigília do completamento do segundo Milénio cristão. É certo que temos de verificar, infelizmente, que este último Milénio decorrido foi o Milénio das grandes separações entre os cristãos. Por isso, todos aqueles que crêem em Cristo, a exemplo dos Apóstolos, deverão pôr todo o empenho em conformar o pensamento e as obras à vontade do Espírito Santo, «princípio de unidade da Igreja», (275) a fim de que todos os baptizados num só Espírito para constituir um só corpo se redescubram irmãos, unidos na celebração da mesma Eucaristia, «sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade». (276)

63. A presença eucarística de Cristo ? o seu sacramental «eu estou convosco» ? permite à Igreja descobrir, cada vez mais profundamente o próprio mistério, como atesta toda a eclesiologia do Concílio Vaticano II, segundo o qual «a Igreja é em Cristo como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano». (277) Como sacramento, a Igreja desenvolve-se sobre o fundamento do mistério pascal da «partida» de Cristo, vivendo da sua «vinda» sempre nova por obra do Espírito Santo, que vai realizando a sua missão de Paráclito-Espírito da verdade. É este precisamente o mistério essencial da Igreja, como professa o Concílio.

Se em virtude da criação, Deus é Aquele em que todos nós «vivemos, nos movemos e existimos», (278) o poder da Redenção, por sua vez, perdura e desenvolve-se na história do homem e do mundo como que num duplo ritmo, cuja fonte se encontra no Pai eterno. Por um lado, é o «ritmo» da missão do Filho, que veio ao mundo, nascendo de Maria Virgem por obra do Espírito Santo; por outro lado, é também o «ritmo» da missão do Espírito Santo, tal como foi revelado definitivamente por Cristo. Por causa da «partida» do Filho, o Espírito Santo veio e vem continuamente como Consolador e Espírito da verdade. No âmbito da sua missão, como que no íntimo da presença invisível do Espírito, o Filho, que «partira» no mistério pascal, «vem» e está continuamente presente no mistério da Igreja; e ora se oculta, ora se manifesta na sua história, mas sem deixar de conduzir sempre o seu curso. Tudo isto acontece, de maneira sacramental, por obra do Espírito Santo, o qual, indo haurir das riquezas da Redenção de Cristo, continuamente dá a vida. Tomando consciência cada vez mais viva deste mistério, a Igreja apreende melhor a sua identidade, sobretudo como sacramento.

Assim acontece também porque, por vontade do seu Senhor, a Igreja desempenha o seu ministério salvífico para com o homem por meio dos diversos Sacramentos. O ministério sacramental, todas as vezes que é realizado, comporta em si o mistério da «partida» de Cristo mediante a Cruz e a Ressurreição, em virtude da qu al vem o Espírito Santo. Vem e actua: «dá a vida». Os Sacramentos, de facto, significam a graça e conferem a graça: exprimem a vida e dão a vida. A Igreja é a dispensadora visível dos sinais sagrados, enquanto o Espírito Santo age nos mesmos como o dispensador invisível da vida que eles significam. Em união com o Espírito está presente e age Cristo Jesus.

64. Se a Igreja é «o sacramento da íntima união com Deus», ela é tal em Jesus Cristo, em quem esta mesma união se actua como realidade salvífica. Ela é tal em Jesus Cristo, por obra do Espírito Santo. A plenitude da realidade salvífica, que é Cristo na história, difunde-se, de modo sacramental, pelo poder do Espírito Paráclito. Neste sentido o Espírito Santo é o «outro Consolador», o novo Consolador, uma vez que, pela sua acção, a Boa Nova toma corpo nas consciências e nos corações humanos e expande-se na história. Em tudo isto, é o Espírito Santo que dá a vida.

Quando empregamos a palavra «sacramento» em referência à Igreja, devemos ter presente que a sacramentalidade da Igreja, no texto conciliar, aparece distinta daquela que é própria dos Sacramentos em sentido estrito. Lemos, efectivamente: «A Igreja é … como que um sacramento, ou sinal, e instrumento da íntima união com Deus». Mas o que conta e emerge do sentido analógico em que a palavra é empregada nos dois casos é a relação que a Igreja tem com o poder do Espírito Santo, que é o único que dá a vida: a Igreja é sinal e instrumento da presença e da acção do Espírito vivificante.

O Vaticano II acrescenta que a Igreja é «um sacramento … da unidade de todo o género humano». Trata-se, evidentemente, da unidade que o género humano ? em si mesmo diferenciado de muitos modos ? tem de Deus e em Deus. Ela radica-se no mistério da criação e adquire uma dimensão nova no mistério da Redenção, em ordem à salvação universal. Dado que Deus quer «que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade», (279) a Redenção compreende todos os homens e, de certo modo, toda a criação. Nesta mesma dimensão universal da salvação, o Espírito Santo actua, em virtude da «partida» de Cristo. Por isso, a Igreja, radicada mediante o seu próprio mistério na economia trinitária da salvação, com toda a razão se compreende a si mesma como «sacramento da unidade de todo o género humano». Ela tem consciência de o ser pelo poder do Espírito Santo, de que ela é sinal e instrumento na actuação do plano salvífico de Deus.

Deste modo se realiza a «condescendência» do Amor infinito da Santíssima Trindade: Deus, Espírito invisível, aproxima-se do mundo visível. Deus uno e trino comunica-se ao homem no Espírito Santo, desde o princípio, graças à sua «imagem e semelhança». Sob a acção do mesmo Espírito, o homem e, por intermédio dele, o mundo criado, redimido por Cristo, aproximam-se dos seus destinos definitivos em Deus. A Igreja é «o sacramento, ou sinal, e o instrumento» desta aproximação dos dois pólos da criação e da Redenção, Deus e o homem. A mesma Igreja opera nos entido de restabelecer e fortalecer a unidade do género humano nas próprias raízes: na relação de comunhão que o homem tem com Deus, como seu Criador, seu Senhor e seu Redentor. É uma verdade fundada no ensino do Concílio, que podemos meditar, explicar e aplicar, em toda a amplitude do seu significado , neste período da passagem do segundo para o terceiro Milénio cristão. É grato para nós tomar consciência cada vez mais viva do facto de que, dentro da acção desenvolvida pela Igreja na história da salvação, inscrita na história da humanidade, está presente e a agir o Espírito Santo, Aquele que anima com o sopro da vida divina, a peregrinação terrena do homem e faz convergir toda a criação, toda a história, para o seu termo último, no oceano infinito de Deus.

6. «O Espírito e a Esposa dizem: “Vem!”»

65. O sopro da vida divina, o Espírito Santo, exprime-se e faz-se ouvir, da forma mais simples e comum, na oração. É belo e salutar pensar que, onde quer que no mundo se reze, aí está presente o Espírito Santo sopro vital da oração. É belo e salutar reconhecer que, se a oração se encontra difundida por todo o universo, igualmente difundida é a presença e a acção do Espírito Santo, que «insufla» a oração no coração do homem em toda a gama incomensurável das mais diversas situações e das condições, umas vezes favoráveis, outras vezes contrárias à vida espiritual e religiosa. Em muitos casos, sob a acção do Espírito, a oração sobe do coração do homem, apesar das proibições e das perseguições, e mesmo malgrado as proclamações oficiais, afirmando o carácter a-religioso ou até ateu na vida pública! A oração continua a ser sempre a voz de todos os que aparentemente não têm voz; e nesta voz ecoa, sem cessar, aquele «forte clamor» atribuído a Cristo pela Epístola aos Hebreus. (280) A oração é também a revelação do abismo que é o coração do homem: uma profundidade que vem de Deus e que somente Deus pode preencher, precisamente pelo Espírito Santo! Lemos em São Lucas: «Se vós, portanto, embora sendo maus, sabeis oferecer coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai celeste dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem!». (281)

O Espírito Santo é o Dom, que vem ao coração do homem ao mesmo tempo que a oração. Na oração Ele manifesta-se, antes de mais e acima de tudo, como o Dom, que «vem em auxílio da nossa fraqueza». É o magnífico pensamento desenvolvido por São Paulo na Epístola aos Romanos, quando escreve: «Nós nem sequer sabemos o que devemos pedir como nos convém; mas o próprio Espírito Santo intercede por nós, com gemidos inexprimíveis». (282) Assim o mesmo Espírito Santo não só nos leva a rezar, mas também nos guia «de dentro» na oração, suprindo à nossa insuficiência e remediando a nossa incapacidade de rezar: está presente na nossa oração e confere-lhe a dimensão divina. (283) «Aquele que perscruta os corações (Deus) sabe quais são os desejos do Espírito, porque Ele intercede pelos santos em conformidade com Deus». (284) A oração, por obra do Espírito Santo, torna-se a expressão cada vez mais amadurecida do homem novo que, através dela, participa na vida divina.

A nossa época difícil tem particular necessidade da oração. Se no decorrer da história, ontem como hoje, homens e mulheres em grande número deram testemunho da importancia da oração ? consagrando-se ao louvor de Deus e à vida de oração, sobretudo nos mosteiros, com grande proveito para a Igreja ? nestes últimos anos vai crescendo também o número das pessoas que, em movimentos e grupos cada vez mais desenvolvidos, põem a oração em primeiro lugar e nela procuram a renovação da vida espiritual. Trata-se de um sintoma significativo e consolador, uma vez que desta experiência tem derivado uma contribuição real para a retomada da oração entre os fiéis, os quais, desse modo, foram ajudados a melhor considerarem o Espírito Santo como Aquele que suscita nos corações uma profunda aspiração à santidade.

Em muitas pessoas e em muitas comunidades amadurece a consciência de que, mesmo com todo o progresso vertiginoso da civilização técnico-científica e não obstante as reais conquistas e as metas alcançadas, o homem está ameaçado, a humanidade está ameaçada. Diante deste perigo, e mais ainda ao experimentar a inquietude perante uma real decadência espiritual do homem, pessoas individualmente e comunidades inteiras, como que guiados por um sentido interior da fé, buscam a força capaz de erguer de novo o homem, de o salvar de si mesmo, dos seus próprios erros e das ilusões que tornam nocivas, muitas vezes, as suas próprias conquistas. E assim descobrem a oração, na qual se manifesta o «Espírito que vem em auxílio da nossa fraqueza». Deste modo, os tempos em que vivemos aproximam do Espírito Santo muitas pessoas, que retornam à oração. E eu confio que todas possam encontrar no ensino da presente Encíclica alimento para a sua vida interior e consigam fortalecer, sob a acção do Espírito Santo, o seu empenho dé oração, em consonancia com a Igreja e com o seu Magistério.

66. No meio dos problemas, das desilusões e das esperanças, das deserções e dos retornos desta nossa época, a Igreja continua fiel ao mistério do seu nascimento. Se é um facto histórico que a Igreja saiu do Cenáculo no dia do Pentecostes, também pode dizer-se que, em certo sentido, ela nunca o abandonou. Espiritualmente, o acontecimento do Pentecostes não pertence só ao passado: a Igreja está sempre no Cenáculo, que traz no seu coração. A Igreja persevera na oração, como os Apóstolos, juntamente com Maria, Mãe de Cristo, e com aqueles que, em Jerusalém, constituíam o primeiro núcleo da comunidade cristã e aguardavam, orando, a vinda do Espírito Santo.

A Igreja persevera na oração com Maria. Esta união da Igreja orante com a Mãe de Cristo faz parte do mistério da mesma Igreja, desde os seus inícios: nós vemos Maria presente neste mistério, como está presente no mistério do seu Filho. O Concílio no-lo diz: «A Santíssima Virgem… envolvida pela sombra do poder do Espírito Santo … deu à luz o Filho, que Deus estabeleceu como primogénito entre muitos irmãos» (cf. Rom 8, 29), isto é, entre os fiéis, em cuja regeneração e formação ela coopera com amor materno». Ela, pelas suas «graças e funções singulares… está intimamente unida à Igreja: é figura da Igreja». (285) «A Igreja, contemplando a sua misteriosa santidade e imitando a sua caridade, … torna-se também ela mãe»; e «à imitação da Mãe do seu Senhor, conserva, pela graça do Espírito Santo, virginalmente íntegra a fé, sólida a esperança, sincera a caridade: também ela (isto é, a Igreja) é virgem que guarda… a fé jurada ao Esposo». (286)

Compreende-se, assim, o sentido profundo do motivo pelo qual a Igreja, em união com a Virgem Maria, se volta continuamente como Esposa para o seu divino Esposo, conforme atestam as palavras do Apocalipse, citadas pelo Concílio: «O Espírito Santo e a Esposa dizem ao Senhor Jesus: Vem!». (287) A oração da Igreja é esta invocação incessante, na qual o Espírito intercede por nós: de certo modo, Ele próprio pronuncia essa invocação com a Igreja e na Igreja. O Espírito, de facto, é dado à Igreja, a fim de que, pelo seu poder, toda a comunidade do Povo de Deus, por mais ramificada que seja na sua diversidade, se mantenha na esperança: naquela esperança em que já «fomos salvos». (288) É a esperança escatológica, a esperança da realização definitiva em Deus, a esperança do Reino eterno, que se actua pela participação na vida trinitária. O Espírito Santo, concedido aos Apóstolos como Consolador, é o guarda e o animador desta esperanca no coração da Igreja.

Na perspectiva do terceiro Milénio depois de Cristo, quando «o Espírito e a Esposa dizem ao Senhor Jesus: Vem!», esta sua oração, como sempre, reveste-se de um denso alcance escatológico, destinado a dar também plenitude de sentido à celebração do grande Jubileu. É uma oração voltada para os destinos salvíficos, para os quais o Espírito Santo abre os corações com a sua acção, ao longo de toda a história do homem sobre a terra. Ao mesmo tempo, porém, esta oração orienta-se para um preciso momento da história, em que é posta em relevo a nova «plenitude dos tempos», momento que soará no ano 2000. A Igreja tenciona preparar-se para esse Jubileu no Espírito Santo, tal como, pelo Espírito Santo foi preparada a Virgem de Nazaré, em quem o Verbo se fez carne.

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