A Igreja é uma comunidade. Este conceito foi sublinhado pelo Concílio Vaticano II. Por instituição divina, somos integrantes do Corpo Místico de Cristo. Não se trata, assim, de uma sociedade governada pela soberania popular, à imitação de um regime político, como a democracia. A verdade na doutrina e na disciplina paira acima do poder decisório de uma maioria. Convive estruturalmente com a comunhão dos fiéis, uma hierarquia instituída por Cristo. Quem busca compreender a obra criada por Jesus à luz da sociologia, jamais chegará a bom termo. Para alcançar êxito deve apelar para um outro critério, o sobrenatural, e orientar-se pela Fé.

O Concílio Vaticano II é claro: “Para apascentar e aumentar sempre o Povo de Deus, Cristo Senhor instituiu na sua Igreja uma variedade de ministérios que tendem ao bem de todo o Corpo. Pois os ministros, que são revestidos do sagrado poder, servem a seus irmãos” (“Lumen Gentium“, n° 18).

Essa autoridade não vem das bases, mas diretamente de Deus. Se é essencial para o bem comum dos fiéis abster-se do autoritarismo, também é uma exigência fundamental fazer cumprir as normas que nascem do Espírito Santo e que nos são transmitidas pelo Magistério Sagrado.

Uma tentação afeta a vida de alguns cristãos e não-cristãos em nossos dias: é o menosprezo pela disciplina. Há uma obrigação, inclusive moral, de observar as diretrizes emanadas da Igreja. A Constituição “Sacrae Disciplinae Leges“, de 25 de janeiro de 1983, do Papa João Paulo II, ao promulgar o novo Código de Direito Canônico, afirmava que este “é totalmente necessário à Igreja“. E explicava que, sendo ela também um corpo social e visível, precisa de promulgar leis, dar orientações para o adequado exercício das funções que lhe foram confiadas pelo Salvador. Esse uso do poder sagrado é básico na garantia dos direitos de cada um e na coordenação das iniciativas em prol de uma vida cristã mais perfeita. A instituição, fundada por Cristo, deve estar presente em todo o mundo e, ao mesmo tempo, em meio à diversidade, conservar sua unidade, que não se confunde com uniformidade. Mister se faz, para isto, exigir o cumprimento de leis universais e dar respaldo às emanadas do poder local em comunhão com a Sé de Pedro.

Vez por outra, sérios prejuízos são causados à Igreja por parte de uma minoria audaciosa e bem organizada, dentro e fora da comunidade eclesial. Relembro dois exemplos. Antes das viagens do Papa João Paulo II, no ano de 1996, à Alemanha e à França, alguns grupos bem orquestrados procuraram – na França, por 30 dias -, criar um ambiente adverso e mesmo hostil ao Sucessor de Pedro. Era, evidentemente, uma tentativa para fazer fracassar a visita pastoral. No entanto, o êxito extraordinário obtido por João Paulo II veio demonstrar exatamente o contrário do que era tão amplamente propagado em alguns meios de comunicação social. O povo compreendeu bem que o Papa não podia ensinar, em nome de Cristo, o erro e, sim, a verdade do Evangelho, mesmo que isso viesse a desagradar à opinião pública vigente. E as manifestações positivas foram uma eloqüente resposta! Com Bento XVI houve quem pensasse que, “não tendo o carisma de João Paulo II, fosse mais fácil neutralizar suas visitas”; grande engano!

Em algumas partes do mundo existem eclesiásticos e leigos que procuram impor suas concepções, em contradição com o ensino do magistério. A introdução da falsa idéia de ser a Igreja uma democracia gera males à comunhão eclesial. E na propagação desse conceito nocivo à vida apostólica e espiritual, colabora o hábil uso dos instrumentos que influenciam a opinião pública. Acresce certo acovardamento, que leva ao silêncio ou à hesitação daqueles que têm mais responsabilidade, deixando outros perplexos ou impossibilitados de reagir.

A época que vivemos constitui-se uma excelente oportunidade para reforçar a fé da grande maioria dos que seguem integralmente a doutrina de Cristo, que permanecem fiéis às diretrizes da Igreja. E, por vezes, uma revisão de rota, tomando como um farol a palavra do Santo Padre, que é o alicerce posto por Cristo.

Espera-se das lideranças, inclusive dos leigos, firmeza e segurança. Para isso, é preciso aceitar, de bom grado, não ser popular. Em certas circunstâncias, são indispensáveis medidas decisivas, mesmo se antipáticas, para enfrentar os que prejudicam o Povo de Deus. Há uma falsa caridade ou uma paciência anti-evangélica, quando contemporizar pode tornar-se para os bons motivos de escândalo, perplexidade para os débeis e um incitamento a novas formas de desobediência ao Senhor Jesus. Evidentemente, aos olhos dos homens tais medidas não parecem nem diplomáticas, nem prudentes, mas para Deus nascem da sabedoria cristã. Deve haver, por parte dos que têm parcela de responsabilidade pastoral, grande clareza. Onde se constata um procedimento oposto às diretrizes da Igreja, imediatamente deve ser reorientado. Caso contrário, os bons se confundem, os grupos de opositores são fortalecidos.

Creio que será um bem para a Igreja de Deus agir com caridade, mas firmemente quando surgem os focos de desobediência ou tendências que divergem da sã doutrina. Evidentemente, dentro da legítima tolerância, quando se deixa a cizânia crescer, seja sempre preservada a coragem de separar o joio do trigo. Devemos firmar o princípio de corrigir o erro, embora com paciência. Quando alguém fere a doutrina da Igreja e a sua disciplina, se isto ocorre dentro da grei, os fiéis têm o direito de ser defendidos contra esses núcleos de rebelião. A clareza é fundamental.

Nessa matéria, jamais devemos nos questionar sobre o que dirá a opinião pública, mas unicamente agir sob os ditames do nosso dever pastoral, perguntando: “Que coisa devo fazer, para servir à vontade de Deus?”. Quando alguém, com o título de “católico”, difunde doutrinas espúrias, provocando um clima de oposição ao Santo Padre, os bons necessitam do conforto e os fracos devem ser protegidos. Assim, em meio à tempestade, o barco, com segurança, alcançará o porto.

Fonte: O Testemunho de Fé, Ano XVII (VIII), No 567, Edição Semanal No 411, de 21 a 27 de dezembro de 2008, página 7.

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